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1 Golpista vs 30 Vítimas Dele
1 h 19 min de vídeo · 14 mil palavras · Com Daniel Nascimento
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[várias vozes] Não sei como é que você tem coragem de ficar aqui encarando as vítimas que você causou. Eu perdi sessenta mil reais.
Você tem coração?
Você já baixou filme pirata? Também é um crime, também é errado.
Não existe essa comparação. "Ah, mas eu fui preso". Não, você não pagou ainda. Na minha opinião, você não pagou.
Você sabe qual é o maior índice de golpe? É o estelionato, chamado de engenharia social. Você pega uma empresa de atendimento, operadora X, Y, Z. Você não tá falando com a operadora, você tá falando com uma empresa terceirizada, onde tem um cara com acesso a tudo que você possa imaginar no seu sistema.
Se você passasse fome hoje, por exemplo, perdesse tudo, eu duvido que com o talento que você diz que você tem, você não voltaria a fazer golpes.
Você não faria o mesmo? [várias vozes] Meu nome é Daniel Nascimento, eu sou consultor de segurança da informação, trabalho com tecnologia, sou ex-hacker. Fui considerado o maior hacker do Brasil na minha época, em 2005. Detido pela Polícia Federal aos dezesseis anos, acusado de ter desviado sessenta milhões de reais. E hoje sou cercado por trinta vítimas. [música de introdução] Boa tarde. Não sei como é que você tem coragem de ficar aqui encarando as vítimas que
você causou.
Você é uma vítima?
Sim.
O que aconteceu com você?
Eu fui clonada a minha conta, atacaram o, o, o meu cartão. Eu perdi sessenta mil reais.
E o banco não ressarcuiu você?
Em parte, mas tive que entrar na Justiça. Depois que eu vira a saber que o, o responsável por aquele ataque era você.
Eu?
Sim.
Como? Como assim, eu não en-- em que ano foi isso?
Em que ano foi isso? Você começou a assaltar o, os brasileiro desde quando?
2003.
2003.
É.
Então, o meu primeiro ataque foi em 2014.
Não, então eu já não tava mais nessa.
O senhor já não tava mais nessa?
Eu parei em 2005, fui preso em 2005.
Ah.
Eu nunca mais cometi nenhum tipo de crime.
E ressarcuiu aqueles que você, é...
Foram todos ressarcidos. Até porque meu ataque, meu ataque foi com o banco e não com as pessoas.
Não com as pessoa. Mas é, mas as conta que estavam lá eram nossas.
Sim.
Os dinheiro que estava lá dentro eram nossos.
Mas a senhora há de convir comigo que os bancos são muito falhos também, né, na questão de segurança.
Sim, mas se os banco oferece segurança, eles tão sempre, é, convencendo que é mais seguro, faz até seguro pros cliente.
Sim.
E como é que isso ainda continua acontecendo golpe, ataque nos cartões, é, clones.
Olha, eu acho que você clicou em alguma coisa ou abriu alguma coisa no seu computador, que a partir daí isso aconteceu. Geralmente uma propaganda: "ah, você ganhou um carro, você não sei o quê, você foi sorteado pra uma viagem" ou coisa do tipo, entende? Então muita, muita da, da questão da falha de segurança é o próprio usuário que comete a falha. E hoje tem muito mais estelionatário do que hacker.
Então se confunde alguns golpes falando: "ah, esse foi um hacker que me invadiu". Não necessariamente. Alguém se passando por você, algum estelionatário se passando por-- enfim, clonando sua conta.
E o que que você tá fazendo hoje de contribuição, até para os próprios banco que você diz que foi lá que você mais fez os seus, é, é, golpes?
Bom, em 2005, eu fui responsável por tapar todas as falhas do Banco do Brasil, tá? É, em 2018, eu criei a primeira, o primeiro sistema, que é um sistema de fake news, onde você consegue identificar quando uma fake news acontece. Esse sistema é esse que eu entreguei no Senado. E aí atendo diversas pessoas, faço trabalhos voluntários, ajudo do jeito que eu posso. Veja, eu sei que o que eu fiz é, foi errado.
Eu sei que eu prejudiquei muita gente. Eu tenho ciência disso, mas é o meu passado. Eu tenho que seguir em frente. Eu não posso ficar a minha vida inteira pensando nisso, senão eu não vou seguir, eu não vou evoluir. Mas eu entendo a sua dor.
Que não foi fácil.
Não, perder sessenta mil reais não é fácil. Obrigado.
Vamos pensar nisso.
Daniel Nascimento.
Boa tarde.
Boa tarde. Tudo bem?
Tudo bom.
Eu sou o Luiz Felipe, eu tenho vinte e oito ano de idade, certo?
Certo.
Vamos lá. Em 2005, né, que cê começou.
2004.
2004?
2004.
A minha pergunta é: gostaria de saber como que cê, como cê se sentia assim, fazendo esse tal roubo de sessenta e cinco milhões, é isso?
Sessenta milhões.
Sessenta milhões. Porque, tipo, cê tem coração? [riso]
Todos nós temos.
Não é possível, cara, porque, tipo, hoje em dia, qualquer coisa que a gente faz errado, a gente fica com aquilo na cabeça. Agora imagina sessenta milhões, cara. É muito dinheiro, véi. Tipo, como é que cê-- se você dormia bem, se saía pra rua normal assim.
Olha, eu nunca dormi bem, eu tomo muito remédio controlado, viu?
Ah, imagino, porque também... [riso]
Nunca dormi muito bem, não, mas isso é desde sempre. Não, eu-- você tem que ver a conjuntura da época também que isso foi cometido, né? Era outra realidade, era outro-- o, o crime é o mesmo, concordo contigo nessa questão de dor na consciência. A dor na consciência mais forte que eu sofri era por conta da minha família.
Uhum.
Meu pai e minha mãe como iam me ver? Isso é uma coisa que eu nem, eu nem gosto de falar sobre isso, mas é uma das coisas que eu mais senti. Porque assim, eu n-- eu, eu, eu não fui educado no crime. Eu fui educado num, por uma família normal, é, educação padrão. Estudei, eu não, enfim. Só que quando eu vi que eu tinha essa capacidade, eu me deslumbrei com o mundo, me deslumbrei com as coisas e, e com certeza prejudiquei muitas pessoas, enganei muitas pessoas, né?
E, e, e mas assim, sem hipocrisia, vou te fazer uma pergunta. Cê já baixou filme pirata? Cê já assistiu algum canal por uma antena ou por algum, algum tipo de sistema?
Sim.
Já baixou música pirata? Também é um crime, entende? Também é errado.
Uhum.
Então a gente não pode, a gente não pode só: "ah, porque o cara roubou". A questão não é, não são sessenta milhões, a questão é um centavo ou sessenta milhões-
Com certeza
...a fraude é a mesma.
Uhum, sim.
Entende? E as pessoas também cometem fraudes durante os dias, durante o dia a dia e não se conscientizam que ela tá errada também.
Sim.
Então é muito fácil tirar uma pedra em mim e falar: "Mas eu, eu, o meu telhado não é de vidro". Entende onde eu quero chegar?
Sim, sim.
Eu penso assim.
Ah, entendi. Mas é, parabéns pelo que você era antes e se tornou a pessoa agora-
Obrigado
...ajudando, né, a área de segurança.
Muito obrigado.
Parabéns.
Valeu. Prazer em lhe conhecer. [som de erro do Windows] E aí?
Tudo bem?
Beleza, como vai?
Bom, me chamo Matheus e eu gostaria de falar que, assim, eu fui uma das vítimas do golpe e na sua última menção ao qual você estava falando aqui, você comparou, você até fez uma pergunta, né, prum rapaz se ele também tinha baixado filmes, enfim. Cara, eu creio que não tem comparação. Não, não existe essa comparação.
Uhum.
Eu, essa fala ao qual eu vou destinar não é pra você, mas sim, é pra uma pessoa de dezesseis anos, quando foi quando você começou a fazer esses golpes, certo? Na sua adolescência, que tá errado e não só errado, ainda bem que você foi preso. Mas além de você ter sido preso, é algo que assim, eu não sei se você vai entender o que eu quero trazer à tona agora.
Porque primeiro, não deveria, não teria que ter ninguém, teria que ter acesso a fazer tal golpe como você fez. Não teria que ter. Primeiro, primeiro ponto é esse.
Uhum.
Outra, faltou em você, perante a minha observação, faltou em você amor, compaixão. Como assim você vai fazer um golpe, vai invadir a conta, vai pegar dinheiro do banco? Tudo bem, aí você pode falar: "Ah, não, mas foi uma falha do banco". Tá, mas por que que você fez isso? Por que que cê não procurou trabalho? Por que que cê não usou a sua inteligência, já que você já tinha, desde aquela época, tá?
Novamente, essa fala não é pra você agora, atual, ao qual a pessoa, perdão, a pessoa que eu estou vendo, mas sim uma pessoa que poderia ter usado essa inteligência pra captar, pra fazer diversas coisas na internet benéficas, e não destruir, e não roubar, porque você foi preso, certo?
Uhum.
Cê foi preso, você pagou, você foi pra cadeia. Eu imagino que cadeia não deve ser algo fácil pra estar lá dentro. Nunca fui, nem pretendo ir. Não é à toa que eu tento sempre e faço as coisas coerente perante a lei. Porém, o meu golpe ao qual eu sofri, eu vejo que foi um vacilo da minha parte. Veio um código, eu tava no telefone resolvendo outras demais coisas ao mesmo tempo e eu passei esse código do WhatsApp, que é algo que não se deve passar, né?
Mas aí eu vejo, olha a falha no sistema. E aí a minha, minha última fala, e aí eu vou dar oportunidade, né, a fala pra você falar, claro, é: como que uma pessoa hoje, no mundo ao qual nós vivemos, consegue se proteger tanto de golpes como esse ao qual eu passei o código do WhatsApp, aí a pessoa foi lá, pegou dinheiro emprestado dos meus familiares e também como que uma pessoa, vamo pegar uma pessoa idosa, consegue se proteger hoje com a internet, da onde que vem tal segurança e na onde que nós conseguimos proteger os nossos familiares, as pessoas ao quem nós amamos e até mesmo nós mesmos?
Uhum. Vamo lá. Vamo, vamo, vamo por partes. Primeiro: ééé, eu gostaria de ter trabalhado na época com os meus dezesseis anos de idade, ou pra Polícia Federal, ou pra Ministério Público, ou pra sei lá o quê. Mas não existe nada no Brasil, até hoje não tem nenhum tipo de programa de incentivo pra essa galera. Essa galera não faz faculdade, não são os caras que se formam lá em Ciências da Computação pra fazer um concurso público, pra passar pelo sistema, pra entrar num, numa, num determinado local de trabalho.
Então isso falta pro Brasil, isso é um debate interessante, muito legal sua per-- a sua colocação foi muito boa, porque imagine, se até hoje falta, imagine naquela época. Outra coisa: preconceito. Cara, você fala hacker, as pessoas se assustam, as pessoas querem distância de você. Então mesmo pra uma empresa, pra uma organização, pro próprio governo, você vai falar em hacker, os caras correm. É difícil você atuar no mercado de trabalho com isso, entende?
Então não é que você não, não queira, mas não tem oportunidade. Eu te pergunto, tá, eu vou trabalhar como hacker, pra quem que eu vou pedir o trabalho? Quem vai me empregar? O Estado vai me empregar? Não vai. A não ser que você ganhe uma notoriedade, isso e aquilo, não sei o quê, passe por uma série de processos como eu passei na minha, na minha vida. Não foi fácil eu me expor.
As pessoas falam: "Ah, você rouba, você não sei o quê". Cara, se eu tivesse roubando, eu não taria no Brasil, eu taria fora do Brasil, quietinho, jamais permitiria uma biografia minha, jamais ia ter um filme da minha vida, jamais permitiria isso, entende? Então é, é complicado, é um, é um debate que tem que evoluir muito.
Sim.
Tá? Proteção. A proteção, eu sempre uso uma frase: o antivírus é a própria pessoa. As pessoas caem no gol-- nos golpes por causa do estelionato. Geralmente, ambição ou ganância. É um e-mail, um código, um sei lá o quê. A grande questão é desconfiar de tudo. Não existe um sistema que vai barrar tudo que tá acontecendo ali, tudo que pode lhe fraudar. O que existe é você sempre estar atento, porque a maioria das fraudes acontece quando a pessoa está distraída.
Caraca, mas essa frase teoricamente não culpa a vítima? Porque assim, ah, então o golpe acontece quando ela tá distraída, então a culpa é dela por estar distraída? Não faz sentido, porque ó, se existe uma tecnologia, se existem empresas que ganham dinheiro com as nossas informações, o porquê que não cria uma segurança cibernética, algo que existe em empresas, o por que que não cria também pras pessoas? Sabe, WhatsApp, eu vi recentemente que o WhatsApp vende o, aquele, aquela tag de autentificação, que qualquer um pode baixar uma foto de uma empresa, vou citar um nome aqui, Mercado Livre, Google, enfim, e colocar lá.
E aí pessoas vão lá, mandam os dados pra serem contratadas por essa empresa, que na verdade não é uma empresa.
Uhum.
É só uma pessoa que fingem se passar por essa empresa, mas quem é que tá vendendo a tag de autentificação? É a própria Meta, é a própria empresa. Então assim, eu creio que essa sua fala culpa um pouco a vítima, porque ninguém quer ser vítima [pigarro] na verdade. Até aí eu concordo com você também, se o Brasil tivesse uma oportunidade melhor, e hoje tem, na verdade. Se você for ver, tem programas de Petrobras, que a pessoa vai lá, estuda, desde os dezesseis anos, jovem aprendiz, enfim.
Mas veja, essa-essa questão da, de você sugerir que eu tô culpando a vítima, é uma maneira de proteção. A partir do momento que você usa um sistema, você usa um telefone, você va-- você tem que aprender a mexer com aquilo. Não adianta você pegar um programa, um aplicativo e não saber mexer com aquilo. Aí você cai na-na fraude, cê vai culpar os hackers? Entende onde eu quero chegar?
Pô.
Entendo, entendo. Entendo aonde você quer chegar, mas eu também entendo eu do, do ponto a qual eu parti.
Entendi seu ponto, mas eu acho o seguinte, você tem também que fazer o mínimo, a sua parte, a sua pequena parte em estudar, em saber com o que você tá lidando. Senão não lida com aquilo. Eu penso assim.
Tá, eu vejo que essa, a, a nossa fala não vai chegar muito a nenhum consenso, até porque ambos estão pensando de forma diferente. Mas eu só gostaria de deixar aqui minha última fala, que aí eu vou me retirar pra dar lugar a todas as outras pessoas que passaram também por coisas parecidas, e até mesmo pior do que a minha, é que não existe, isso na minha cabeça eu não consigo entender.
Não existe como que um ser humano vai roubar, vai dormir tranquilo, vai roubar, vai ficar de boa com os seus pensamentos, porque assim, cê tem, se você acredita em Deus, logo você vai acreditar no quê? Se você planta, você colhe, tá? E você errou. "Ah, mas eu fui preso" não, você não pagou ainda. Na minha opinião, você não pagou. Sabe por quê? Porque desde o início você não deveria nem ter começado a roubar, você não deveria ter feito o que você fez.
Hoje, você tem uma história, você vai fazer um filme como você mesmo acabou de falar aqui agora para todos nós ouvirmos. Então assim, você ainda tá recebendo dinheiro por isso, porque é a sua história, as pessoas têm que pagar pra falar sobre você. Mas é isso, eu creio que cê fez errado. Eu espero que quem esteja assistindo e pense ir pra esse caminho ao qual você foi em outrora, não queira, porque você vai preso.
É isso. Obrigado.
Quando eu dormir, tem Rivotril, é muito bom, ajuda a dormir.
Caraca, cara, eu acho que você não mudou [risada] desculpa [som de error].
Tudo bem?
Com sessenta milhões na conta é fácil tá bem, né?
[riso] Bom, eles confiscaram tudo, né?
Ah, a parte que cê não desviou pra outras contas, né? O que tava na sua conta, eles levaram, o que não tava, ficou ainda pra você.
Esse é o ponto de vista.
Tá certo. Burro você não é, isso a gente já sabe. Dá pra ver que cê tá bem nervoso aqui na frente das pessoas que você diretamente ou indiretamente fraudou, porque querendo ou não, como você foi o melhor e você começou lá atrás, trouxe outros juntos com, junto com você. Com certeza cê teve uma escola aí, né? Cê foi professor. Não é verdade?
Não, eu nunca ensinei ninguém, mas realmente impactou pessoas que acabaram seguindo o caminho.
Claro que sim.
Isso sim, isso é óbvio.
O que eu vejo de você até agora, é que você se vitimiza demais.
Uhum.
A culpa é do governo, a culpa é da senhorinha que não teve informação, a culpa é de todo mundo, mas a culpa não é sua, que tem desvio de caráter.
Seu ponto de vista.
Cê acha que todo mundo aqui não concorda com isso? Porque pa-parece que você cansou, porque você ficou algum tempo preso, eu nem sei quanto tempo que mais ou menos fica preso um hacker.
Nem um dia, nem um dia eu fiquei preso. Eu fui apreendido, né, como era menor de idade pela Polícia Federal, e no outro dia eu tava tampando as fu-- as falhas do Banco do Brasil. Aí por conta disso eu fui liberado e não fui condenado, porque eu colaborei. Mas você vai me chamar de vítima de novo, é?
Então o errado é o Estado, né, que não faz as leis pra segurar uma pessoa que tem esse talento, né, porque isso é um talento, né, cara. Você podia tá trabalhando pro bem, infelizmente, você preferiu trabalhar pro mal. Agora, o que que me leva uma criança de dezesseis anos, que podia tá jogando videogame, não sei, um PlayStation 2 na sua época, né? Podia tá jogando videogame, querer roubar os outros, sendo que você falou que cê nunca passou fome, cara.
Não, nunca passei nada.
Então, o que que leva uma pessoa que tem uma vida estabilizada financeiramente a querer roubar os outros? Cê consegue me explicar isso?
Como eu te disse, no meu caso foi o desafio. Eu comecei a fazer e quando viu eu tava envolvido naquilo. E vou falar pra você que eu não gostei? Nunca parei pra pensar, pra avaliar a questão das pessoas, do que estava acontecendo com as pessoas. Eu não via isso. Eu fui ter essa noção mais pra frente, mas não sou vítima nenhuma, como disse você. De coitado eu não tenho nada.
Não, é que você se põe no lugar de vítima.
Não, eu não, não. Eu me, eu coloco um pensamento pra que alg-- pelo menos uma pessoa saia daqui e cobre coisas melhores nesse sentido. Que pense: "porra, mas aquele cara lá, beleza, bandido, ladrão, não tá nem aí, não se arrependeu". Tudo bem, fale o que quiser, mas se sai uma pessoa daqui com a vontade de fazer isso mudar, eu já impactei alguém, já é algo positivo.
Pelo menos. Que você pare, né. Graças a Deus você parou
Não pretende voltar mais. Não sabemos, né, como que tá sendo a sua vida, como que você tá ganhando ou levando dinheiro pra sua casa hoje, mas que você continue nesse caminho e que não traga mais pessoas pra tentar roubar a gente, né?
Não, eu não [risos].
Não ensine mais pessoas, né? Pra mim é só isso. Muito obrigado, boa tarde.
Obrigado. [aplausos] [som de introdução] Tudo bem?
Tudo. Eu queria perguntar pra você como que foi a sua criação. Por exemplo, dentro da sua casa, você tinha seu pai, sua mãe, eles trabalhavam, você passava alguma dificuldade?
Não, nunca passei dificuldade nenhuma.
Tá, porque assim, quando a gente pensa em alguém muito jovem, com dezesseis anos, por exemplo, praticando algum crime, normalmente a gente relaciona que a pessoa passou por algo muito difícil dentro de casa, que precisou, de certa forma, pra subsistência, mas eu acredito que, tipo assim, você com dezesseis anos e sessenta milhões na conta, não era, tipo, necessidade. É, queria entender qual foi seu pensamento, o que que você sentiu pra começar a fazer um negócio desse?
Vamo lá, é, isso é um pouco da minha história, né. Então, eu com onze, doze anos, eu tive uma, uma doença chamada anorexia nervosa. Então não é que você induzia o, o vômito, mas é que tudo que você comia, você tinha impressão que ia vomitar. Então era um cara magrelo, que não jogava bem basquete, que não jogava bem futebol. Lembrando que naquela época, eu sou do Sul do país, aquela época a gente é mu-- era muito metralhado.
"Ah, o cara é isso, o cara aquilo, o cara é..." Enfim, é, N coisas. Como eu não servia pra nada, eu falei: Pra alguma coisa eu vou servir, que é pro computador. Então quando eu comecei a mexer com computador, eu já sabia o que eu queria. Eu nunca joguei, eu nunca fiquei brincando com-
Cê queria ser um hacker
Eu queria ser, exatamente. Eu queria ser e consegui. E fui o melhor.
Entendi.
Por dedicação.
Tá, então, é, você se equivocou então, porque antes você disse que tinha entrado nisso porque não tinha oportunidade. Aí agora você disse que foi uma escolha.
Sim, mas-
Você escolheu isso, então não foi falta de oportunidade.
Mas, mas também há falta de oportunidade pra outras pessoas.
Não.
Não no meu caso.
Não, eu-
Eu quis hackear.
Não, não existe falta de oportunidade.
Ô louco.
Eu tenho-- eu saí de casa, também sou do Sul, saí de casa com dezessete anos. Com dezesseis anos eu já tinha curso técnico, que eu consegui pelo governo, de graça. Eu viajava uma hora de ônibus todos os dias pra ir pra outra cidade, que a minha cidade é uma cidade de dez mil habitantes, pra estudar. Com dezessete anos eu consegui um trabalho, saí da minha cidade, fui morar sozinha em uma capital, sem conhecer absolutamente nada, nem ninguém.
Então isso não quer dizer que é falta de oportunidade. Você dizer que você cometeu um crime por falta de oportunidade, totalmente equivocado. Acho que você precisa rever um pouquinho esse conceito. E da mesma forma que você encontrou, por exemplo, agora, depois que você cometeu o crime, você encor-encontrou uma forma de sair disso e fazer o bem. Por que carambas você com tanta inteligência não olhou lá atrás e falou: "Não, eu tenho competência o suficiente pra fazer alguma outra coisa, alguma outra coisa boa".
Por que você não pensou nisso?
É, eu-
Você não precisava nascer sabendo, ninguém nasce sabendo, e nada precisava ir até você. Porque você, o conhecimento que você adquiriu, não foi até você também. Foi falta de você buscar algo certo pra fazer. Você realmente escolheu ser criminoso e roubou sessenta milhões. Agora, com dezesseis anos, cê acha, tipo, que era esse seu trabalho.
Eu não tinha ne- eu não tinha nem noção do que era sessenta milhões, de verdade. E outra coisa, é-
Em algum momento você passou a ter
Quando a gente lida com o sistema, eu falo sistema da sociedade em geral, eu vou te dar um, vou te dar uma, um exemplo. Eu so-- ninguém, todo mundo vê esse lado, mas ninguém vê que eu sofri quatro sequestros na minha vida, da própria polícia, que eu fiquei em cativeiro, que eu apanhei, que eu fui extorquido, isso aí ninguém vê. Só falam dos sessenta milhões. "Ah, o cara pegou sessenta milhões".
Mas todo o processo da polícia que deveria ter me prendido, ter me detido, não funcionou. Então essa questão que você tá trazendo pra mim: "Ah, funciona sim, porque eu saí de casa, porque eu isso, porque aquilo", comigo não funcionou.
Porque você não queria.
Eu aprendi, eu aprendi um Estado totalmente defasado, uma polícia corrupta. Foi isso que eu aprendi na minha vida.
Mas você só-
Entendeu?
Teve esse conhecimento depois que você virou criminoso.
E ser usado, né? Prometerem coisa pra você.
Depois que você virou criminoso.
É, isso é uma colocação sua, né?
Você acabou de falar isso.
Isso é uma colocação sua. Não, eu falei que eu gostaria muito de hackear, mas tudo bem. Cometi crimes e fui... Enfim, eu não nego isso.
Tá, e como que você, depois de tanto tempo, tipo assim, cê viu que era fácil pra você. Conseguiu, tipo, muito dinheiro, muito fácil. Por que que você mudou? O que que, o que que virou pra você mudar e ir trabalhar com segurança, invés de continuar roubando?
Olha, [risos] é complicado. Acho que foi um pouco de índole, né, po ca-- por causa dos meus pais, da minha família, não que-- não queria ge-gerar desgosto pra eles. Então, enfim, eu tive vontade de mudar. E pra mim, assim como você fez uma, uma colocação, lá atrás, era um desafio pra mim. Então eu, eu, eu sempre fui movido a desafio. E trazer essa história à tona, sabe? Eu sou o primeiro hacker latino-americano biografado.
Você sair daquele mundo de dinheiro fácil e trazer a história à tona, e levar tapa, que nem eu tô levando agora, não é, não é, não é fácil, mas é o, exatamente isso que eu quis pra poder mudar alguma coisa, pra poder evoluir com alguma coisa, mesmo levando porrada.
Bom, acho que era isso. [aplausos]
[som de introdução]
Boa tarde, tudo bem? Eu sou a Tatiane. É, eu tenho uma dúvida que eu acho que a maioria das pessoas têm, né. O meu golpe foi em 2023, então não entra você em casa, é totalmente diferente. É, a partir do momento que você, vocês têm acesso ao banco de informações, como funciona a seleção das vítimas? Como que vocês chegam naquilo? Tem um estudo de cada um, acompanhamento, como que funciona?
Até pras pessoas hoje que estão assistindo, saber mesmo. "Ah, eu caí, fui selecionada, foi aleatório, fui clicada ali", ou foi um estudo mesmo, de informações que vocês têm delas, pra elas serem vítimas daquele golpe?
Olha, você tem duas maneiras. Você tem a maneira de pesca, que você joga a isca pra um milhão de pessoas e desse um milhão vem mil. E você tem o ataque direcionado, onde você identifica, por exemplo: ah, você gosta de academia, um exemplo. Então a pessoa envia algo relacionado à academia, o hacker, no caso, né? O cracker, né? Vou chamar de cracker. Envia algo relacionado a isso pra poder te induzir e te fazer de vítima.
Mas a maioria dos golpes hoje em dia, diferentemente do passado, tá sendo muito por engenharia social. Vou te dar um exemplo: é, você pega uma empresa de atendimento. Cê liga lá na, seu celular, operadora X, Y, Z. Você não tá falando com a operadora, você tá falando com uma empresa terceirizada, onde tem um cara com acesso em home office a tudo que você possa imaginar do seu sistema.
E isso é com cartão, isso é com banco, isso é com tudo. Quanto mais o, a gente terceiriza as coisas, mais fácil fica a fraude. Com a Covid, com a pandemia, isso virou uma festa, porque os, os caras não, não iam trabalhar nas empresas e ficavam fazendo home office em casa. Então, por exemplo, tem uma operadora de telefone, que inclusive ela foi processada p-por isso, por questão de armazenar o cartão de crédito das pessoas.
Tem um outro, um serviço de, de alimentação, que deu um baita dum escândalo também, né? Uma grande empresa de alimentação. Por conta do quê? Aí falam: "Ah, foi o hacker". Não foi o hacker. Foi o funcionário que trabalhava lá, que corrompeu e forneceu a senha dele pra algum outro estelionatário, e esse estelionatário cometer crime. Então não sei se eu consegui explicar pra você bem como, como está funcionando hoje.
A cobrança, claro, você é seu antivírus, mas a cobrança tem que ser mais enfática. Sabe? Tem que, tem que cobrar mais as empresas, a segurança, porque são os seus dados, é v-você que tá lá. Por, por exemplo, o, o, existe um sistema chamado CadSus. É o sistema único de, de saúde do Brasil. Porra, tá tudo cadastrado lá. Aí invadiram lá não sei quem, e vazaram mais de duzentos milhões de dados.
Sim.
Entende? Ah, mas quem tá preocupado com isso? Não, ninguém. Os caras tão preocupado com sessenta milhões que diz: "Meu". Mas ninguém tá preocupado se isso tá acontecendo ou não. Por isso que a gente não evolui.
Sim. É, você parou, no caso, em 2005, né? Por conta que foi preso. É, ali no momento, eu creio que você parou porque foi preso, porque aquilo tava te gerando dinheiro. Qual o seu sentimento ali no momento? Era pelo dinheiro, era adrenalina, era controle? O que que você tinha ali, né? Um-uma pessoa muito jovem, ainda está em formação, ainda estava em estudo, tava tendo acesso. É, qual, o que que você sentia ali?
Era pelo dinheiro ou era pelo poder, pelo controle, pela adrenalina do que você tava fazendo, que você tava conseguindo, de se sin-- de bater no peito, né, e se sentir bom ali, de uma forma negativa?
Vai so-vá, vai soar arro-arrogante o que eu vou te falar.
Sim.
Tá? Mas é o pensamento como é. Sendo sincero e franco contigo.
Sim.
Quando você atinge esse patamar que eu atingi, você não vai voltar mais nem pra dinheiro. Porque os caras podem me prender hoje, daqui a um mês eu levanto o dinheiro de novo.
É o controle.
Daqui de novo. Pra mim é indiferente. Então se é sessenta milhões, se é um milhão, se é duzentos milhões, se é cem reais, pra mim não importa.
Cê sabe que você é capaz-
Eu sei, eu sei que eu sou capaz de fazer. O que me move é o desafio, falando de mim pessoalmente. É o desafio de fazer algo que ninguém fez ou que ninguém consegue. É isso que me move. Eu sou movido a isso. Então, tudo que eu fiz na minha vida foi impactado por desafio. Estar aqui hoje, conversando com todos vocês, é um desafio pra mim. É um desafio, porque eu, eu sou um cara de tecnologia.
Pessoas de tecnologia não são comunicat-comunicadoras, comunicativas. Elas são contidas. E eu tô aqui hoje suando, mas tô aqui conversando com todos vocês.
É. E no final eu queria parabenizar, eu acho que nunca é tarde prum recomeço. Então se você tá em outro patamar hoje, ajudando, creio que você re-- conseguiu rever, né, suas atitudes ali e tudo, e continue ajudando aí o pessoal.
Obrigado.
Obrigada [palmas].
Olá.
Olá, boa tarde.
Boa tarde. Como é seu nome?
É Sônia Bandim.
Sônia. Boa tarde, Sônia.
Isso. Então eu tenho, eu tenho-- tinha curiosidade de saber quem é a pessoa que consegue fazer com que uma mãe de família, que só tem aquele dinheirinho ali, seja clonado ou seja tirado dela.
Sim.
Eu tinha: "quem é essa pessoa? Quem será que tem essa coragem?" Então hoje eu tô te conhecendo, você é um deles, né?
[riso]
E um deles, eu, eu vou dizer pra você, eu só tenho prazer hoje em lhe conhecer, porque você foi uma pessoa que teve consciência de sentir o que você tava fazendo.
Uhum.
E voltar atrás, e hoje tá fazendo algo bom pras pessoas. Mas então, eu também perdi dinheiro. E hoje, o, o idoso, as pessoas mais idosas são as mais prejudicadas, né?
Inacreditável.
Por quê? Porque elas não têm muito acesso ao, ao celular, não entende muito bem e confia muito.
Uhum.
Então eu, eu, eu fui, comecei como modelo com setenta e cinco anos.
Uhum.
Então veja bem [riso]-
Que legal!
Eu tava super inexperiente, né?
Aham.
Aí que que eu fiz? Vi um anúncio lá, né, é, me convidando no, no WhatsApp pra uma agência Onde eles iam dar tudo, curso de modelo, digital influencer, porque eu sempre gostei de, de, de público, né? Eu faço projetos sociais onde eu-
Que legal!
Eu faço, é, vários projetos pras pessoas que tão necessitando sair da depressão. Então pra mim, eu falei: "Bom, eu vou inspirar as mulheres da minha idade a desfilar". E fui. Chegando lá, o que que aconteceu? Ele prometeu mil coisas, digital influencer, curso não sei o quê, curso não sei o que lá.
Mas tudo isso online, essas promessas?
Não, foi lá mesmo.
Foi presencial?
Pior é isso. Foi presencial, na minha frente assim.
Certo.
Ele me passou, ai, me fez a fraude. Aí ele disse assim pra mim: "Olha, a senhora vai receber isso, isso, isso. Fica em tanto, em dez vezes no cartão". Quando fomos passar o meu cartão-
Ele clonou o cartão.
Não, sabe o que aconteceu?
Uhum.
Não tinha o, o valor exato.
Uhum.
Eu não tinha limite.
Uhum.
Aí o que que aconteceu? Eu tava com o celular aberto no meu aplicativo do banco.
Hmmm.
[risos] E ele falou: "Pera aí que eu vou te ajudar, porque nós aqui temos", sabe um homem assim, sabe, fortão, é, um metro e oitenta. Ele falou: "Nós aqui temos um, um convênio com esse banco e eu vou ajudar a senhora". Falei: "Ótimo, que maravilha", né?
Uhum.
E aí ele pegou o meu aplicativo e tirou três mil reais e eu tô pagando até hoje, parcelado pro banco com juros.
Mas esse caso que aconteceu com você, não é um caso de hacker, não é um caso de invasão de hacker, não é um caso técnico-
É
De tec-de tecnologia.
Tecnologia.
Isso é estelionato.
É.
Isso é roubo. É roubo-
É verdade
Direto, entende? Não, não que hackear não seja um roubo também, né?
É.
É hipocrisia falar que não.
É.
Mas no seu caso foi-
É
Realmente na sua frente, ele foi lá, ele enganou.
Enganou.
Então ele, ele não tem conhecimento de tecnologia.
É.
O que ele é, é um fraudatário estelionatário.
Exatamente.
Tá? E não um hacker.
Depois que eu entendi isso. Mas tirando esse-
Sabe o que acontece assim? A, a mídia, a imprensa ju-- hoje em dia julga tudo como hacker.
É.
"Ah, o cara tomou o golpe do Pix, foi o hacker. Ah, o cara perdeu o dinheiro do cartão, foi o hacker". É, eu cansei de ver casos de, de fraude, onde a pessoa vai passar o cartão de crédito numa, numa loja, sei lá, uma loja de, de, uma, uma grande, uma grande loja ou uma farmácia, e os próprios funcionários arma-armazenaram o cartão da pessoa pra depois cometer a fraude.
Eu não considero isso um hacking, mas a imprensa, a polícia, todo mundo chama aquilo de hacker, o que infelizmente desmoraliza a gente, que é.
É verdade.
É, porque tem uma grande diferença entre o hacker e o cracker. O cracker é o cara que rouba, que frauda. O hacker é o cara que trabalha com segurança da informação.
Certo.
As palavras corretas são essas, mas todo mundo fala, fa-- chama: "Ah, o cara é hacker, o cara entrou na minha conta, o cara me fraudou, o cara..." Não é por aí.
Na época eu não sabia nem o que era hacker.
Com o crescimento da, com o crescimento da tecnologia, é, ficou muito, muito abrangente, então hoje em dia tem muita gente que se aproveita disso.
Então.
Das falhas dos sistemas também, né, da, da inocência muitas vezes das pessoas ou da ganância.
Exatamente, por isso que eu digo a todas as minhas amigas: "Não confie mais em ninguém". Se nós vamos falar, fazer algum negócio, nós temos que olhar o contrato linha por linha e nós temos também no WhatsApp, saber exatamente quem é, com quem nós estamos falando.
Uhum.
Porque é a partir daí que a gente é enganada. E é muito triste isso, porque eu trabalho com pessoas da terceira idade e as mulheres, eu noto a dificuldade que elas têm com aquele dinheirinho que elas ganham. Então eu, eu digo pra elas: "Não confie mais". Eu, eu mesmo dizendo, eu confiei também numa pessoa, né?
E na questão do, do, dos crimes financeiros, a terceira idade é a mais visada, realmente.
Exatamente.
Cê tem razão. É, mas-
Até o INSS, né?
Sim.
Que nos tiraram agora, né? [risos] Pelo amor de Deus.
Esse assunto eu não vou entrar, não. [risos]
Esse aí a gente não pode nem entrar. Mas eu acredito e parabenizo você.
Obrigado.
Sabe? Porque o, o, o negócio não é errar, é você perceber que errou e voltar atrás e fazer algo bom. Isso você conseguiu. Então nós não podemos só, é, em cima da pessoa. Se a pessoa arrependeu daquilo e ela de coração, ela quer fazer algo bom, nós temos que dar os parabéns.
Obrigado.
Então parabenizo você.
Muito obrigado.
Continue assim. Ajude as pessoas, porque é ajudando os outros que a gente é ajudado.
É verdade, obrigado.
Muito obrigada pela oportunidade.
Obrigado. [aplausos] Tudo bem, boa tarde.
Boa tarde. Me chamo Giovanna e tenho que te fazer uma pergunta.
Uhum.
Desde o momento que eu sentei nessa cadeira, eu não consegui me conter. Como você consegue dormir sabendo que você conseguiu estragar sonhos de milhares de pessoas que não tinham possibilidade de se recolocar, de conquistar novamente as coisas delas? Eu, eu te pergunto isso porque eu convivo com isso. É, poderia citar o meus, meu caso aqui, mas eu vou citar da minha família, que eu acho que é o ponto que mais machuca.
É muito difícil ouvir todos os dias de um pai que ele não consegue mais a casa própria, porque ele sofreu golpes e o dinheiro que ele tinha poupado a vida inteira, ele não tem mais Você falou uma coisa que me deixou muito intrigada referente ao acesso à informação, que as pessoas deviam buscar informação. Mas e a minha mãe, que não teve acesso à informação? Então ela merece levar um golpe?
Ela merece, é, passar por certas adversidades por conta da falta de informação que não foi fornecida a ela?
Os sistemas foram evoluindo a questão da segurança conforme foi havendo fraudes, invasões. Se não houvesse isso, a gente taria nos anos 2000 ainda. É uma, é uma, é uma briga de gato e rato sempre. Isso o negócio vai evoluindo, evolu-- vai escalonando. Quando eu digo que a pessoa tem que ter o mínimo de noção do que ela tá fazendo, porque assim, é muito fácil você baixar o aplicativo do banco, clicar lá, entrar na sua conta e você nem sabe o que cê tá fazendo.
Eu não concordo. Eu acho que as empresas estão erradas, os bancos não, não, não, não repassarem treinamento. Eu acho que lá na questão do-do ensino médio deveria existir uma matéria falando sobre isso, sabe? A pessoa também não é obrigada a saber, mas-
E a pessoa que não tem acesso ao ensino médio, por exemplo?
Mas infelizmente, infelizmente, acontece isso. Eu num-- veja, me, me responsabilizo, né, por várias coisas, perguntaram de dormir, eu já dei a dica, o Rivotril é muito bom pra dormir, tá? Então o clonazepam, né? E só que eu num, eu não posso, entendeu? Eu não posso voltar atrás e mudar o que eu fiz. Eu não posso ficar sem dormir também, eu preciso dormir. E o que aconteceu, aconteceu na, na, na, no meu passado.
Hoje eu trabalho do lado contrário tentando criar maneiras pra que isso não volte a acontecer ou que isso aconteça de, de uma maneira menor, né? A gente, eu tô, eu tô batalhando pra isso, então não é fácil. Que detalhe, eu venho duma comunidade onde atiram pedra em mim, porque eu virei as costas pros caras que vieram da mesma formação que eu lá dos anos 2000. Hackers que continuam aprontando, fraudando e arrebentando com tudo, enquanto eu tô aqui dando minha cara a tapa pra ouvir que, como eu consigo dormir.
É complicado, né?
Então, você falou-
Mas, mas a questão do acesso à informação da sua mãe, não cabe a mim responder isso. Eu não, eu não tenho como responder isso. Cabe a ela, a partir do momento que ela usa uma ferramenta, é, ela ter o mínimo de noção do que ela tá fazendo, do que ela tá usando. Entende?
É, eu queria te fazer uma pergunta que eu acho que pode ser muito esclarecedora tanto pra nós, no coletivo aqui, quanto pra quem tá assistindo, referente a sinais que a gente consegue identificar no sentido tanto psicológico, porque é usado muito o nosso psicológico quando a gente tá precisando de alguma coisa, quanto no nível técnico, quanto sinais técnicos pra gente conseguir identificar mesmo pessoas leigas, mesmo pessoas que não têm tanta, tanto acesso a toda essa parte, quais são os, os detalhes que a gente precisa se atentar pra não cair?
Eu acho importante você buscar serviços que, de monitoramento de banco, é, aviso de SMS, aviso no aplicativo quando uma transação é feita pra você autorizar aquela transação ou não, serviços de monitoramento de nome, dark web, tem algumas empresas que vendem isso, sabe? Consultas de CPF, coisas do tipo assim, que notificam a pessoa quando isso tá acontecendo. E tecnicamente é manter-- é, tecnicamente é o feijão com arroz de sempre.
Sistema atualizado, não clique aqui, não entre ali, não abra e-mail que, suspeito. Aquilo que a gente fala há mais de vinte anos, mas parece que ninguém ouve. Cê sabe qual o maior índice de golpe ainda? É o estelionato, chamado de engenharia social. Eu mando algo pra você que interesse a você e você cai. O famoso cavalo de Troia. Então não é tão técnico assim, não é como você invadir um servidor de um banco ou invadir lá o seu computador.
Não, eu mandei uma isca pra você e você clicou. Por isso que eu comentei com outra pessoa que tava aqui antes, a desatenção da, do usuário é uma, é um dos maiores motivos da pessoa sofrer fraude.
Entendi. Eu ouvi, né, você relatando que teria que seguir em frente, por exemplo, e que você conseguiu ressarcir algumas, na verdade, as pessoas que você de alguma forma prejudicou. Mas a minha pergunta que fica pra você é: tá, na parte monetária você conseguiu ressarcir, e os traumas, como que ficam? E pessoas que não conseguiram se recuperar perante isso? É justo você seguir em frente e vidas continuarem, é, todos os dias sofrendo com isso?
Eu concordo com você [risos].
Essa é a minha pergunta. Eu não consigo te dar parabéns como outros participantes daqui. É, fico contente por você ter seguido uma linha diferente, mas eu não consigo te dar parabéns porque eu consigo imaginar na, no so- no sofrer das vítimas e também das famílias das vítimas, porque eu também sou familiar de vítimas que passam e que eu não sei como eu posso ajudar neste momento, então eu não consigo te dar parabéns.
Eu espero que você siga ainda neste modelo pra que você não se prejudique também.
Uhum.
Que você consiga ajudar outras pessoas, mas o meu parabéns hoje você não terá.
Ok. Bom, no caso de, de lidar com isso, a terapia também é muito boa pra, pra gente lidar com esse tipo de coisa.
Certo, a terapia, mas você acredita que todos esses traumas, a terapia é possível só, só ela consegue tratar tudo isso?
No meu caso, sim. Tirar os golpes eu não posso.
No seu caso. Mas no seu caso, o que que aconteceu? Você conseguiu as coisas que você queria, tanto que você hoje tá onde você tá por alguma coisa. E as pessoas que tiveram dificuldades a partir do momento que foram lesadas e não vão conseguir mais se estabelecer? A gente sabe que a parte financeira é uma parte muito importante na vida das pessoas. Ela que é o carro-chefe de muita coisa.
Então uma família que não vai conseguir mais se levantar perante isso, fazer só terapia ajuda? Se ela não vai ter dinheiro pra colocar comida na mesa, se ela não vai ter dinheiro pra comprar uma casa própria, se ela não tem mais dinheiro pra educação nem informação?
Isso pode mudar a partir do momento que a pessoa eleger Deputados, senadores ligado à tecnologia, que se preocupem com a segurança da informação, que criem leis mais rígidas, que dê orientação prum policiamento que realmente funcione, isso pode mudar. Então o que eu sugiro pra essas pessoas que sofreram esses, esses golpes e tudo mais, vota melhor, cobra melhor, exige algo melhor pra sociedade evoluir, senão a gente nunca vai evoluir.
Nesse sentido eu concordo com você e termino por aqui. Obrigada.
Imagina. [aplausos] Tudo bem?
Tudo bem. Bom, meu nome é Eduarda, eu tenho vinte e sete anos, já sofri golpe. E a minha pergunta pra você é: se você não tivesse sido preso, se não tivesse acontecido nada, você continuaria sendo hacker?
Bela pergunta. Bela pergunta.
Porque você passou por uma situação difícil, onde você foi pego, e aí você teve que largar isso.
Todas as pessoas que foram detidas comigo foram reincidentes do mesmo crime, por várias vezes. Então-
Sim
...ninguém parou de fato, né? Eu consegui parar. Então-- mas é como o nosso colega que tava aqui falou há pouco, né. Eu, graças a Deus, tive uma situação privilegiada da minha família. Então como eu, como outro colega também disse: "pô, cê não passou fome, você não isso, você não aquilo, por que que você fez isso?" Então aí reverte o negócio. Por eu ter, ter tido apoio, ter tido continuidade na minha família, com a minha família, eu consegui, eu acho que me afastar mais disso, entende?
Uhum.
Porque eu realizei muitas coisas que eu quis realizar quando eu era mais jovem. Então quando isso tudo estourou, sei lá, eu num, eu não quis mais fazer.
Entendi.
Eu não, eu não sei di-- é difícil responder isso, porque tem um lado que puxa e de outro lado-- cê entende, os dois lados ficam puxando, mas eu não fiz mais.
E falando um pouco da sua família, como que eles ficaram quando eles descobriram que você fazia isso? Porque do nada começou a vim dinheiro, e que que cê explicava pra eles?
Não, eu saí de casa.
Você saiu de casa.
Eu saí de casa com quinze anos.
E aí você não falava com seus pais? Ou você tinha-
Com a minha mãe eu falava, mas meu pai não queria conversa comigo, não.
Entendi. Então quer dizer que você não sabe se você continuaria ou se você sairia desse-
É, eu-
...desse caminho
...eu acho que é hipocrisia da minha parte responder essa pergunta, sabe? Porque realmente eu num, eu sei que as coisas aconteceram como, como aconteceu, mas a-- naquela época, pensando como aquele garoto, da, no, naquele momento, naquela fase, difícil responder. Só sei que eu não voltei.
A minha opinião, tá?
Uhum.
Com essa sua resposta, eu acho que talvez, se você passasse por uma situação difícil, você voltaria, porque é uma coisa que você sabe fazer. Então eu acho que você, se você passasse fome hoje, por exemplo, perdesse tudo, vamo supor, não tivesse mais empresa, não sei se você tem algumas-
Claro
...cê tem algumas empresas, falisse tudo. Eu duvido que com o talento que você disse que você tem, você não voltaria a fazer golpes.
Você não faria o mesmo?
Eu não sei hackear, então [riso] eu não faria. Mas assim-
Ex-existe um ditado que sempre quem tá se afogando tenta levar alguém junto, tá? Então numa situação difícil, uma situação precária, onde minha família tá sendo prejudicada, alguém tá sendo prejudicado, claro que você vai se defender, isso é óbvio.
É, mas tem outras formas, né? Cê pode trabalhar de outra forma-
Não, mas não, você-
...você não precisa necessariamente voltar a hackear
...você me colocou numa situação, você disse caótica, situação difícil, aí é uma, aí é outro, outra coisa.
Entendi.
Também pode ser que não, pode ser que a minha vida esteja toda estragada, mas se eu tenho um filho, eu não vou deixar meu filho sofrer. Entendeu onde eu quero chegar?
Então quer dizer que você voltaria. Pelo menos na minha visão.
Se nece- se necessário, numa situação caótica-
Então ele acabou de me assumir que ele voltaria
...numa situação caótica, sim, eu vou ser hipócrita. Pô, cê-cê-cê-cê-cê tem uma pessoa, cê tem uma pessoa, cê tem uma pessoa passando fome, você não tem emprego, você não tem um trabalho, você vai deixar seu filho daquele jeito? Foi essa a pergunta, essa colocação. Sim, eu não iria deixar.
Não, mas você poderia ter respondido que cê-
Eu, eu-
Mas cê tentaria algum caminho antes ou cê já iria pro, pra, pra-
Claro, não, você, voc-você me colocou numa posição, você me colocou numa posição como se eu não tivesse um caminho. Que isso fique muito claro. [aplausos]
Olho no olho. Boa tarde.
Boa tarde.
Meu nome é Érica Simões. Prazer, hacker. Tudo bem?
Tudo ótimo.
Vamo lá. Dezesseis anos. Cê tem mãe?
Tenho.
Quantos anos cê tem?
Trinta e sete.
Eu tenho cinquenta e dois.
Não parece.
Oh, brigada. Meu filho, vou te falar de filho porque você tem idade pra ser meu filho. Dezesseis ano de idade. Cê teve criação de pai, mãe, família. Cê já roubou a tua família?
Não.
Nunca pensou em roubar a tua família?
Não.
Mas os outros sim. Aí pensa, eu como mãe, você com dezesseis, lá atrás, claro que eu mais nova um pouco, aliás, mais velha um pouco, eu com uma bebê no colo. O único dinheiro que eu tinha naquela época, vamos se dizer, pro leite do meu bebê, cê entra na minha conta e rouba.
Uhum.
Cê nunca parou pra pensar que você tava roubando, tanto mãe como pai, o por quê? Por quê? A minha pergunta é o porquê. Não é o porquê você "ah, porque eu estudei, ah, porque eu não sei o quê, porque eu tive, é, família, porque a minha mãe me criou, meu pai me criou, porque eu nunca passei fo--" nunca passou fome, mas roubou. Cê roubou. Por quê? Cara, por quê?
É isso que eu queria entender. Eu tô ali, eu, eu vi, é, eu tô ouvindo, ouvindo, a minha pergunta é: por quê?
Olha, eu teria que voltar no tempo pra responder essa pergunta
Não, não, não. Cê vai responder agora, cê não vai voltar no tempo
Responder agora?
Cê vai responder agora [aplausos]. Cê vai responder agora. Agora
Por que naquela época? Porque eu quis
Não, não. Não é porque você quis
Ah, não, mas aí você tá colocando palavras na minha boca-
Não, eu não tô colocando palavras
...então cê responde por mim. Responde por mim então
Você tem motivo. Qual foi o motivo?
Cês não querem saber os motivos-
Claro que eu quero-
Ah, você-
...eu tô aqui sentada. Não-
Ah
...eu tô aqui de frente a frente como mãe-
Não
...eu sou mãe
Já me chamaram aí de, de, de-- como é que é? Vítim-vitimizando, coitado. Não sou nenhum coitado, sabe?
Você não é coitado
Mas eu não vou chegar no motivo. Não vou chegar em motivo nenhum
Não, você não é coitado, você não é a vítima, a vítima tá aqui. Você não é um coitado, você teve criação, certo? Naquela época, lá atrás, eu era um pouquinho mais velha que você, com uma bebê de colo
Uhum
Naquela época, Maluf, na época, né? Pois é, pra mim poder ter um-uma grana, um trabalho, era difícil lá atrás. Pra você nem tanto, porque você teve criação, mas a minha mãe me criava pra mim criar minha filha. Cê entendeu?
Sim
Então assim, eu ajudava minha mãe, minha mãe ajudava minha filha. Eu tinha uma conta, eu tinha um dinheiro, cê foi lá e blau
Eu não, não lembro de blau nas suas contas, não
Tudo bem, você não lembra, mas você roubou. Independente do, do, da época que passou de lá atrás, agora, hoje você tá trabalhando como segurança. Aí você acabou de falar que se fosse necessário, cê hackeava de novo? Cê hackearia de novo?
Se sua filha tá passando fome, você não tem opção de emprego nenhum e você tem o conhecimento, você não faria o mesmo?
Não
Que bom
Sempre trabalhei. Hoje eu trabalho com produção de evento. Trabalho com vários seguranças ao meu redor, vários. Tá meu celular lá dentro. Eu tenho um grupo de segurança
Então meus parabéns pra você
Muito obrigada. Mas eu não faz-- não, não roubaria. Graças a Deus, nunca precisei roubar nada de ninguém. Você se acha melhor que todos aqui que estão ao seu redor e qualquer outro segurança? Você se acha melhor?
Não, eu me acho um cara muito bom na minha área
Hacker
De segurança da informação, segurança da informação. Hacker foi vinte anos atrás
Mas você falou que se você tivesse um filho-
Falei que se eu tivesse um filho-
Você faria
...faria e faria melhor do que naquela época ainda. Aí que beleza
A minha vontade [riso] é de pegar essa unha e apertar o teu rosto
Pode jogar a cadeira
Como mãe, juro pra você
Pó
A minha vontade-- eu sei que cê tá tremendo, que cê tá nervoso. Aliás, aliás, como mãe, eu só vou te pedir um favor: não roube mais ninguém. Não roube, de coração
Não tenho essa intenção. Eu faço o contrário
Graças a Deus
Inclusive trabalho muitos trabalhos sociais com meninos que não têm condições-
Graças a Deus
Tá? Que foi o caso aí que você contou. Eu não faço mais isso, mas...
Te parabenizo-
Mas-
...mas não ensina. Deixa passar o tempo, não ensina ninguém fazer isso. Claro que algum-alguém vai te perguntar: "Ah, tem como você me ensinar?" Não ensina
Mas eu não-
Isso machuca, isso dói, isso prejudica tanto, tanto, cê não faz ideia. Só esse me-- eu-eu sou uma aposentada por morte do INSS. Eu já tomei três golpe, três golpe e não consegui recuperar um. Já não sei o que-- já não sei o que os idosos estão passando. Então assim, hackers tá lotado
É, mas o problema-
Na verdade, perdão, naquela época não era nem hacker, era Raul [riso]. Era Raul, você sabe disso, era Raul-
[riso]
...não era nem hacker. Era Raul
O, o problema-
Era Raul
...o problema do INSS não tem nada a ver com hacker, não
Pronto. Tudo bem, pode até não ter, mas naquela época era Raul, você sabe disso, era Raul, certo? Não deixa de ser hacker o Raul. Rouba do mesmo jeito. O INSS, mesma coisa, tá roubando dos idosos do mesmo jeito. Mas é uma coisa que eu te peço encarecidamente: não ensina, não rouba mais ninguém. Mas eu vou te parabenizar pelo que você tá fazendo agora, pelo seu projeto social, por você tá trabalhando como segurança, entendeu?
Se-- pode ser que você não s- você se considere "eu não sou mais que ninguém" ou que você seja mais que alguém por ter um QI a mais, por entrar na conta de alguém-
Eu vou-
...mas não rouba mais ninguém
Eu, eu vou fazer uma colocação, é que a gente tá falando muito de roubo, roubo, roubo, roubo, roubo-
Sim
...o dinheiro, roubo, o dinheiro, roubo. Olha, tem noção de quantas pessoas estão sofrendo com vazamento de fotos, menininha mandando foto com menininho na escola e aí vaza uma menininha, aí nua, e a menina quer se matar?
O que é pior pra você-
O, o que-
...o vazamento de foto ou tirar o dinheiro da conta de alguém?
Vazamento de foto, porque eu já vi gente morrer por causa disso, se matar por causa disso, criança se matando por causa disso. Dinheiro não mata. Dinheiro não mata, vamos e venhamos
Dinheiro não mata-
Tá
...mas ele faz falta
Ima-imagine seu filho ou sua filha exposta
Ok, o dinheiro-
Você destrói a vida da pessoa
O dinheiro não mata-
Não
...mas ele faz falta
Com certeza
Eu concordo com as-- eu concordo literalmente porque eu tenho uma neta de oito anos de idade e eu não exponho ela na internet, mas o dinheiro faz falta. Parabéns [aplausos]
Boa tarde. [efeito sonoro] Tudo bem?
É, começando aqui, eu sinto que cê tá meio incomodado com as perguntas que todo mundo tá fazendo aqui, né? Que tá seguindo pra um lado que você não queria tá trabalhando
Tô aqui pra responder, eu respondo. O que, o que me perguntarem pra mim, eu vou responder. É claro, não, tem coisa que incomoda, né? A gente tem noção, né?
Certo É, eu queria só lembrar da posição que você se colocou aqui, citando com a gente aqui, pessoas que sofreram golpes. Eu sei que você tá com esse pensamento de, é, todo mundo aqui tá se vitimizando e você é o lobo mau, mas você se colocou aqui pra responder conforme essa pauta. Nós somos pessoas que sofremos, é, golpes, fomos vítimas desses golpes e a gente queria ouvir o seu lado a respeito disso.
Eu sei que não tá indo prum lado muito explicativo com o que eles tão tratando, mas é você que se colocou nessa posição. Eu tenho dezenove anos, é, quando eu tinha dezessete pra dezoito, eu sofri um golpe, é, foi num valor abaixo, acho que esse é o benefício de ser pobre, não, não tem limite pra estourar tanto assim. Mas eu queria saber de você, se você tinha essa, é, escala de pensamento sobre tipo, é, roubar duma pessoa idosa a um milionário.
Que eu não sei qual foram os níveis de pessoas que você chegou a aplicar esse golpe, se foram em pessoas mais carentes ou de pessoas com mais alto nível.
Bom, voltando a falar do gol-- de golpe de novo. Vinte anos atrás, eu não, eu não me… Eu nunca fiquei vendo se era pessoa de idade ou se era pessoa mais nova, se era pessoa mais velha, eu realmente não, não fazia essa distinção. O que vinha eu fazia, entendeu?
Certo
Não tinha distinção de idade, gênero, sexo ou patamar financeiro. Nunca-
Pra você, naquela época, era só um jogo, você mencionou isso.
Pra mim era só um jogo, como naquela época, sim. Falando daquela época, sim.
E como você se sentia estando dentro desse jogo? Era uma sensação de poder? Era uma ganância sua?
Talvez, talvez um pouco disso, sim.
Cê não acha que você ainda tá dentro desse jogo, indiretamente?
Se eu tivesse dentro desse jogo, vai por mim, eu não taria aqui respondendo pergunta. [risos]
Eu acredito que sim.
É.
Você tá promovendo… [vinheta] Prazer, meu nome é Wellington.
Tudo bem, Wellington?
Tudo bem?
Você tava falando de ansiedade, né?
É.
Eu ouvi a palavra, meio… [risos]
Cara, é, eu vou ser bem honesto com você. A gente cresceu praticamente na mesma época. Sou um pouquinho mais velho que você, acho que dois anos. E a gente tava, eu tava discutindo aí com a galera sobre, é, empatia. E eu percebi, nas suas falas, que você demonstrou que não tem empatia. Na verdade, você não se arrependeu. Na verdade, eu acredito que você tá enxergando isso como um tabuleiro do qual você continua sendo a rainha, que você tá conseguindo dominar ainda os seus colegas, que você falou que conversa com eles e ainda tem, tem um diálogo, de certa forma.
Como assim colegas? Eu não entendi essa parte.
Os colegas hackers que você tinha na sua época.
Ah, sim.
Entendeu? Então você ainda quer tá no suprasumo, você quer tá ainda no topo. E eu percebi que em todas as suas falas, você sempre enaltece muito o seu trabalho, entendeu? Como se fosse algo muito, tipo, fora da curva. Realmente é fora da curva, né? E você diminui muito a, a parte do estelionato, né? Porque realmente estelionato é menor, né, então não a-abrange pessoas como todos aqui acabaram sendo vítimas.
E você busca muito mais aquele banco, aquela, aquela coisa que é mais desafiadora pra você, pra você sempre se sentir no topo. De fato, é isso que você sente? Você se sente sempre na se-necessidade de se sentir sempre acima dos outros?
Nunca me coloquei acima de ninguém, em nenhuma fala minha, em nenhuma fa-- de nenhuma maneira.
Não, eu acho que sim, porque toda via que você falou qualquer coisa aqui-
Não
... especialmente quando as pessoas discutiram: "Ah, mas isso aqui é crime". A primeira, a primeira coisa que cê falou: "Não, isso aqui não é crime, eu não cometi crime". Aí depois você volta atrás quando alguém vai e fala pra você: "Mas pô, você acabou tirando dinheiro". Tá certo que você tirou de instituição, que enfim, é, eles vão lá e depois eles, eles, eles se restabelecem. Mas aí acaba realmente estimulando, né, pessoas que vão cometer estelionatos, que vão roubar, entendeu, o dinheiro de pessoas que precisam comprar casa, que precisam comprar remédio, que precisam…
Isso acaba estimulando sempre, entendeu, crimes menores. E aí, de certa forma, você conseguiu fazer com que isso viasse mais a público, né? Porque você foi o primeiro, como você bem disse. E vai ter um filme seu agora. E esse filme agora seu não vai estimular mais pessoas, entendeu, a querer ir pra esse universo?
Eu acho que a hora que virem, verem as cenas de, é, um pai chorando, uma mãe des-desconstruída, quatro sequestros, polícia prendendo, acabando com a tua vida, te expondo, te jogando a sua cara na televisão, te chamando de… Eu acho que talvez o cara que esteja indo pra esse caminho, talvez ele pense duas vezes, porque tudo que você faz tem consequências.
Não, aí eu-
Entende?
... eu entendo que realmente esse, esse tipo de conteúdo vai mostrar também uma realidade que você acabou passando. Só que assim, sendo bem honesto, as pessoas tão pouco se lixando.
É verdade.
Entendeu?
É verdade.
Eu percebo hoje que as pessoas tão pouco se lixando pra outra. O que importa é o dinheiro no bolso delas.
Isso.
Agora fica uma, fica uma, uma, uma dúvida minha: pra você importar o dinheiro
Ou pra você importar o status de você conseguir burlar todos os sistemas e conseguir o que você queria e estar acima dos seus amigos?
O problema de eu responder isso é que você vai levar no sentido como se fosse hoje em dia, mas não. Pra mim é o status, era o, o, o-- não status como pessoa, eu digo o status do desafio de fazer aquilo. É isso que era.
Mas era o seu desafio-
Esse era o motivo.
Mas era o seu desafio pessoal? Você se sentia tipo autossuficiente fazendo isso, né, a, no sentido de tipo: "pô, cara, agora eu tô acima de todos".
Não, não, não, eu nu-nunca me coloquei acima de ninguém. É como eu disse, eu sou bom na minha área do que eu faço.
Uhum.
Eu não sou melhor que ninguém, se-- que ser humano nenhum. Eu sou bom na minha área, só isso.
E na sua área que você é bom, entendeu, você hoje, você, né, como cê também falou, vocêêê trabalha com cibersegurança, certo?
Também, também.
Também, né? E aí quando-- vou fazer essa pergunta que fiquei curioso também, quando seus colegas, né, de época de hacker tentam atacar alguma coisa que você-- como é que é isso, entendeu? Como é que funciona esse universo?
Praticamente não existe mais comunicação. Como eu disse nessa fala, viraram as costas, porque eu trilhei outro caminho.
Vocês escolheram um outro lado.
Exatamente.
Hã.
Então eu não sou de confiança pros caras, tendo em vista que eu atuo com pedofilia, eu atuo com vazamento de, de, de, de dados, de fotos, então eu sempre tô com o Ministério Público ou com a própria polícia trabalhando junto com eles. Então o cara que tá fraudando-
Essa própria polícia aqui também-
O cara que tá fraudando, ele não vai querer tá do meu lado.
Não, sim.
Cê entende?
Concordo. Entendeu? Ou, ou também tem o outro lado também que às vezes, né, e acontece muito, infelizmente, de desvio de conduta também, que às vezes a pessoa vai lá, acaba fazendo o quê? Acaba indo pro lado errado porque aí ela consegue passar pro, pra quem tá fazendo, cometendo o crim-o crime, informações que são informações que só ela tem-
Uhum
...né, acesso.
É, isso pode acontecer, sim.
E você acha que hoje você correria esse risco?
Do quê, exatamente?
De fornecer acesso pra, pra uma galera que você antes tinha contato?
Não, nem, nem um pouco, nenhum. Zero.
Tá bom. Fico feliz aí pela sua, suas respostas, tá bom?
Eu fico feliz pelo seu respeito na conversa. Muito obrigado.
De nada [aplausos].
[efeito sonoro] Tudo bem?
Olá.
Prazer, eu sou a Gabriela.
Daniel [riso].
Aqui foi falado sobre o seu golpe que você cometeu lá no passado, certo? Mas eu tenho uma dúvida: você teve que manipular alguém maior que você pra cometer esses erros ou não precisou?
Pode-- como assim manipular alguém pra cometer erros? Cê disse-
O seu crime, você precisou manipular alguém maior que você ou não precisou? Ou você cometeu sozinho?
Não, foi uma organização, né? Eu f- eu fui, é, cooptado, então assim, me pu- me puxaram pra essa organização na época, então, inclusive eu, a pessoa que era líder dessa organização respondeu um crime chamado corrupção de menor, que era menor de idade.
Tá.
Então é o contrário.
Tá, você sempre tem uma justificativa pra tudo que a gente falamos aqui, né?
Graças a Deus [riso].
Sim. Você se considera uma pessoa manipuladora ou narcisista?
Não. Por quê? Você me considera assim?
Pelo seu comportamento, é porque eu vi que eu sou terapeuta, né, então-
Que legal
...pelo seu comportamento eu percebi que você tem um pouco de narcisismo, né? Não estou te julgando.
Imagina.
Você não tenha isso como julgamento, mas eu percebi isso em você.
É legal ter esse diagnóstico.
Tá bom. É, você-- eu tenho também outra dúvida também. É, você, tipo, ajudaria alguém aqui de nós pra redimir pelo aquilo que você fez ou cometeu?
Com certeza, eu tenho uma proposta.
Ah, sim.
Quem [riso]-- quem quiser fazer um curso comigo pra se profissionalizar na área de segurança da informação, eu vou ter o maior prazer em colaborar.
Isso é bastante legal.
E aplicar, e aplicar aulas e faz-- criar um material pra isso, quem quiser.
Você cometeria e-- o mesmo erro do passado ou não?
Não.
Por quê?
Não tem necessidade disso, pra quê?
Mas você disse outra hora que se precisasse você faria.
Gente, gente, vamo, vamo, va-vamo acertar isso. A pessoa que sentou aqui falou pra mim: "Se você tivesse num caso extremo de necessidade". Aí o que que é o extremo pra mim? Não sei pra ela, eu vou falar pra mim.
Eu tenho uma filha de sete anos e eu já trabalhei até de doméstica. Hoje eu trabalho como promotora de eventos e eu não precisei roubar ninguém.
Que bom, fico feliz. Eu também não precisei roubar ninguém [riso].
Mas outra hora, outra hora-
Não foi por necessidade que eu roubei [riso]
Outra hora lá atrás você rou- você precisou roubar
Roubei, roubei, mas não foi por necessidade, entende?
Tá, e de to-
Eu, eu, eu não tenho, eu não tenho uma história triste de vida.
Aham.
Pra falar: "ah, eu fiz isso, eu fiz aquilo, tadinho de mim". Negativo.
Você se considera alguém assim...
Licença, Marina. Calma.
[efeito sonoro] [risada] Depois vocês assistam aí. Tudo bem, tudo bem [riso].
Obrigada.
[riso]
Oi, boa tarde, eu sou a Marina.
Oi, boa tarde, Marina.
É, eu tenho uma dúvida, não sei se você vai poder responder, mas qual foi a brecha que o banco deu ou qual foi a maior brecha, assim, porta de entrada que você viu ali como um alvo fácil pra você e você falou: "Agora vai"?
É, o banco em si, eu não vou ficar falando o nome dele.
Aham.
Ele criou na época um sistema chamado cadastramento de computador, onde o MAC Address, no caso o RG ou CPF da máquina, ia cada-- e, ela, ela era, era cadastrado e você tinha que ir até um caixa eletrônico pra autorizar esse, essa invasão, esse acesso.
Uhum.
Só que eles criaram um sistema perfeito pra web, pra computador, enfim-
Tá
...e se esqueceram da intranet Que na época era a internet dos celulares, dos smartphones
Aham
Motorola V300, Motorola V3, acho que não é da sua época isso
É, eu, sim, eu lembro [riso]
Cê lembra?
Lembro
Então, aí a partir dali a gente conseguia fazer o acesso direto ao banco de dados do banco
Aí então era mais um, foi mais um erro do banco-
É
Que cê fala
Um erro do banco
Aí você culpa-- entendi. E outra-- acho que vai, que vai embora
Sei lá
Maria!
Tá [som de alerta]
Vai lá, bora eu vou, cara [risos]
Brincadeira, brincadeira [riso]
Hã, boa tarde, meu nome é Sara. É, eu analisei alguns pontos de você que eu não concordo, principalmente na parte da biografia. Cara, isso pra mim não é legal, porque ela mostra que as pessoas fez coisas erradas lá atrás, agora tá agindo como tudo estivesse normal. Possa ser que sim, mas pra mim mostra que qualquer pessoa que faz alguma coisa errada lá, vai presa, apanha, faz tudo que aconteceu lá dentro da cadeia, que não é uma coisa muito legal
Eu não fui pra cadeia, tá? Eu não fui pra uma cadeia
É, não, sim, mas que cê apanhou lá
Fui sequestrado pela polícia, mas tudo bem
Isso. Eu não acho um ponto legal porque mostra pra pessoa que ela pode fazer, cometer erros, não você, mas outras, outras situações que eu já vi, a pessoa vai presa, sai, faz uma biografia, faz, é, seriados, coisas e tal. Eu não concordo com isso. Não concordo também com a situação de que você disse que idosos, digamos assim, não têm, é, como que eu posso dizer a palavra correta?
É, informações. Não vai atrás das informações. Cê falou assim, que eles mandam mensagem no celular avisando
Ééé, só, só, galera, só quero fazer uma colocação, acho que é, sei lá se vai dar maioria aí já
Já deu [risos]
An-antes, antes de você julgar um livro pela capa, leia o livro, tá? Você não leu minha biografia pra você vir com todo esse julgamento pra cima de mim. Então leia a biografia, eu posso mandar um livro pra você
Ótimo
E aí você faz o julgamento
Ok
Aê [aplausos]
Opa, tudo bem? Como vai?
Beleza, prazer, Fábio, tudo bem?
Daniel
Pô, cara, bacana. Eu tô te observando aqui, achando que você tem uma história diferente. A super, é, uma pessoa que tem muitas possibilidades, teve possibilidades. Há duas per-- uma observação que eu achei interessante que eu fiquei observando: cara, é, eu vejo que cê tá num processo muito, muito pessoal de evolução, que eu acho muito bonito. Acho que as pessoas têm que, é, merecem uma segunda chance, isso é bonito no ser humano, no processo de vida, etc e tal.
Acho que é importante a gente assumir os nossos erros, acho que isso faz parte do crescimento. Não é, não é nenhuma crítica, é uma observação mesmo. Isso faz parte do crescimento pessoal, de entender mais que o que você fez realmente foi uma coisa que não foi benéfica. E é ruim sa-- entender isso, mas é uma coisa que não foi benéfica. Queria perguntar uma outra coisa também. É, vo-- a, cê faria de novo naquela época?
Você usa-- o dinheiro, o que aconteceu com o dinheiro? Qual que foi, qual que foi o lance da grana?
O dinheiro foi confiscado
Cê não se viu nada da grana?
Não, não, na, no momento que tava acontecendo tudo aquilo, sim. No momento que a Polícia Federal, a Justiça, enfim, embargou tudo, não tinha mais, não tinha mais acesso àquele dinheiro. É, não é à toa que os números, o processo é público, é só pesquisar e ver
Entendi. A, isso pra fechar, o negócio eu digo rápido
Uhum
É, eu acho que é legal, cara, na, no final acho que as pessoas têm a oportunidade de, de recomeçar. Mas eu acho que é legal a gente assumir até prum processo pessoal mesmo, sabe?
Acho muito legal isso, Daniel
É, eu também acho. De poder se regenerar, entende? Eu também faço análise há muito tempo e eu acho que é legal a gente enfrentar de frente um problema. Vejo que você tá numa evolução constante de tentar entender esse processo seu. Acho muito legal essa abertura de você vim aqui bater, fazer um filme, etc e tal, e se esplan 데cer. A, eu acho que é isso que eu queria falar, acho que é importante você, você passar por isso
Não, e, e legal você dar essa abertura, porque eu admito uma coisa pra você: é mais difícil assumir do que cometer as fraudes
Eu percebi
Só que as pessoas só veem aquilo. O cara roubou, o cara tirou o dinheiro, não vem nada, não tem nada
Mas é importante você entender-
Mas eu não ligo
Não, uma coisa, uma coisa importante também, rapidinho eu já vou sair-
São julgamentos
Que todo mundo que tá aqui também sofreu muito com isso, entendeu?
É, entendo
E a dor das pessoas também são reais, sacou?
Mas eu não sou culpado de tudo, né? [riso]
Cara, você falar que você não é o culpado, é, é uma falha, cara, porque é o seguinte: o sistema é falho, mas você fez porque você quis. Tem que assumir, cara
Sim, e eu assumo
Você tem que falar, tipo assim: "Eu fiz isso porque eu queria fazer"
Mas a pessoa que foi fraudada tem que assumir também que sofreu a fraude. Vou fazer o que, que culpa eu tenho?
Mas cara, é uma culpa, você que fez, você que tá errado, não a pessoa que, que sofreu, entendeu? A pessoa tava fragilizada
Entendo, entendo
Por um, por uma falta de não conhecimento
Entendo
Não adianta você colocar, por exemplo, aquela pessoa é fraca, então eu vou bater nela porque ela é fraca. Mas por que que eu vou bater nela? Ah, porque ela não tem condições físicas, que eu vou bater nela porque ela é fraca. Eu acho que eu tô te falando uma coisa de coração, é importante você entender
Não, legal, legal, legal
Entendeu? Tô sendo muito honesto. É importante você entender: "Cara, passou, mas cara, eu errei, eu prejudique-prejudiquei pessoas, as pessoas que tão aqui, todo mundo sofreram com isso, foi sério, atrapalhou na família, atrapalhou no alimento de casa, atrapalhou no estudo, atrapalhou em várias ocasiões". A, é importante entender, mas eu acho que é plausível o que cê vem fazendo, tomara que seu filme seja bacana etc e tal, é isso
Valeu, obrigado
Valeu, um abraço [aplausos]
[som de alerta]
Boa tarde
Boa tarde
Meu nome é Daiane, eu sou professora interlocutora de Libras
Não
E achei interessante o filme que você participa e eu gostaria de saber se você vai participar diretamente, é, nesse filme ou serão autor, atores, é, pra atuar nesse filme
Não, eu não, eu não interpreto. É, até, é até legal falar sobre isso, que teve um, teve um caso que teve um dado momento que me chamaram pra fazer um, um policial que estava prendendo o Daniel
Uhum
Dentro do filme. Mas eu não me considero, é como eu te disse, eu respe-- como eu disse pra todo mundo, eu Gosto de trabalhar na minha área, eu não sou ator. Então acho que ali, ali não foi o momento pra eu, pra, não era o momento pra eu participar do filme. Pessoas mais qualificadas, pessoas que é da área, né, que deve- que devem fazer esses papéis no filme.
Sim. Com esse movimento todo do filme, com certeza vai ter muito dinheiro envolvido. Eu gostaria de saber se você teria a sensibilidade de ressarcir ou de devolver pelo menos uma parte do dinheiro que você hackeou, que você roubou das pessoas, que muitas vezes as pessoas, é, são pessoas doentes que precisavam de dinheiro pra poder comprar remédio, pagar um tratamento, é, fazer um tratamento de uma criança ou um idoso de educação especial, que eu sou professora de educação especial, muitas pessoas precisam.
Eu gostaria de saber se você faria isso. Hoje, você pesquisaria, como você é um bom hacker, se hoje você pesquisaria alguma dessas pessoas que você possa ter conhecimento e devolver esse dinheiro para essas, essas pessoas.
Todo esse dinheiro já foi devolvido em 2005.
Uhum.
Tudo foi ressarcido, cada centavo.
Sim.
Por determinação de ordem judicial do TRF quatro, no Rio Grande do Sul. Tudo, tudo foi devolvido.
Obrigada.
Imagina. [som de sinalizador] Opa, tudo bem?
Beleza. Gostei do que cê falou aí, tinha uma, tinha uma parada ali que respeito os passos dos atores, achei isso maneiro. E no outro debate que cê teve com a moça ali, eu vi que você falou que lá no Sul, antigamente, cê era muito metralhado, era-- sistema também não era legal lá. Eu queria entender como é que era o Daniel nessa época, por que que cê era metralhado naquela época?
É, metralhado, cê diz, diz, diz o sentido de qual-
Não sei se foi essa frase.
Ah, sim, sim, sim, sim. Julgamentos que eram feitos. Julgamentos que eram feitos e não tem nada a ver com o hacker, tá? Isso antes do hacker. Coisas que eu acredito que ajudaram a formar o hacker. É, raiva, rebeldia, revolta, coisas do tipo, entende? De seeer, é, não se encaixar bem no, na, na sociedade, por conta da minha neurose nervosa.
Certo. Aí você acha que foi falta de oportunidade mesmo?
Não.
Que não te deram.
Não, não, não, eu gostaria...
Foi por isso que cê escolheu esse caminho?
Acho que um pou-- acho que um pouco, um pouco de tudo já, eu já, já...
Porque tipo assim, isso foi em outros tempos, 2005, mas tá em 2022. Fechou. É nóis.
Valeu, querido. [som de sinalizador] Tudo bem? Como vai? Satisfação, querido.
Cara, minha pergunta é bem simples. É, naquela época, né, não era nascido ainda, eu tenho 21 anos, era uma época que tinha menos tecnologia. Eu queria saber quais foram os caminhos que levaram você a estudar, é, a parte de hacker. É, por onde você obteve informações essas-- como que você aprendeu, conseguiu chegar lá?
Bom, eu iniciei no, no Linux, né, no, eee obtive, aprendi a programar, né, uma linguagem chamada Python. É uma coisa técnica pra caramba, né?
Uhum. E alguém te ensinou ou sozinho?
Não, fui sozinho.
Sozinho.
Sozinho.
É isso. Obrigado.
Valeu. Eu, eu, eu acho que, assim, debate superválido. É claro que tem certas opiniões, certos pensamentos que chateiam, mas isso faz parte do, do lidar com as pessoas, as pessoas, né, acho, acho que isso é uma, é um, é um debate, uma, uma, é uma democracia, é discutir assuntos. Tem coisas que, enfim, umas coisas eu concordo, outras não. Bastante aprendizado pra mim também aqui de, de sentir mais o lado da pessoa que sofreu a fraude, né.
Teve a história da, eu esqueço o nome das pessoas, mas a mãe da, da, da...
Erica.
Da, que...
Erica.
É. E eu fiquei bem sensibilizado com isso, assim, é, é algo complicado, mas eu não posso mudar as coisas que aconteceram, eu não tenho como voltar o tempo. Então hoje eu procuro trabalhar da melhor forma possível, prezando a segurança dessas pessoas que se, que hoje estão aqui, que são fraudadas, foram fraudadas, enfim. Hoje eu trabalho de uma forma diferente. O que mais me incomoda é que eu não sou o Daniel com 16 anos de idade.
Eu sou o Daniel que já passou por essa fase, foi preso, pagou e cumpri minha pena. É isso que manda a lei. A lei manda isso, um juiz vai lá, assinou, e eu tive que cumprir aquilo que tava determinado pra mim. Então eu não acho justo eu ser julgado cinco, seis, 10 vezes pela mesma coisa. É, então é isso que eu penso e estendo, como eu disse, pra quem quiser, aí, o, o Hayashi tá aqui, trabalha comigo, eu estendo aí o convite pra quem quiser fazer um curso rápido de segurança da informação, porque assim, pra você prevenir um roubo, você tem que saber como roubar.
Desculpa a forma que eu tô falando, mas é assim que funciona. Então você pode tá aprendendo a segurança da informação pra poder reprimir aquilo. Então é isso que eu tenho pra falar. E obrigado a todos. É, pra, pra quem tá assistindo e quiser conhecer um pouco mais da minha história, vai lançar o filme Rei da Internet, dirigido por Fabrício Bittar, estrelado por Marcelo Serrado e João Guilherme, no dia 14 de maio, em todos os cinemas do Brasil.
E é isso. [aplausos]