1 Golpista vs 30 Vítimas Dele (Canal Foco) https://www.youtube.com/watch?v=U22jLgtC2NM [00:01] Participante [várias vozes] Não sei como é que você tem coragem de ficar aqui encarando as vítimas que você causou. Eu perdi sessenta mil reais. [00:08] Participante Você tem coração? [00:09] Daniel Nascimento Você já baixou filme pirata? Também é um crime, também é errado. [00:12] Participante Não existe essa comparação. "Ah, mas eu fui preso". Não, você não pagou ainda. Na minha opinião, você não pagou. [00:17] Daniel Nascimento Você sabe qual é o maior índice de golpe? É o estelionato, chamado de engenharia social. Você pega uma empresa de atendimento, operadora X, Y, Z. Você não tá falando com a operadora, você tá falando com uma empresa terceirizada, onde tem um cara com acesso a tudo que você possa imaginar no seu sistema. [00:32] Participante Se você passasse fome hoje, por exemplo, perdesse tudo, eu duvido que com o talento que você diz que você tem, você não voltaria a fazer golpes. [00:39] Daniel Nascimento Você não faria o mesmo? [várias vozes] Meu nome é Daniel Nascimento, eu sou consultor de segurança da informação, trabalho com tecnologia, sou ex-hacker. Fui considerado o maior hacker do Brasil na minha época, em 2005. Detido pela Polícia Federal aos dezesseis anos, acusado de ter desviado sessenta milhões de reais. E hoje sou cercado por trinta vítimas. [música de introdução] Boa tarde. Não sei como é que você tem coragem de ficar aqui encarando as vítimas que [01:27] Participante você causou. [01:27] Daniel Nascimento Você é uma vítima? [01:29] Participante Sim. [01:29] Daniel Nascimento O que aconteceu com você? [01:31] Participante Eu fui clonada a minha conta, atacaram o, o, o meu cartão. Eu perdi sessenta mil reais. [01:39] Daniel Nascimento E o banco não ressarcuiu você? [01:41] Participante Em parte, mas tive que entrar na Justiça. Depois que eu vira a saber que o, o responsável por aquele ataque era você. [01:50] Daniel Nascimento Eu? [01:51] Participante Sim. [01:52] Daniel Nascimento Como? Como assim, eu não en-- em que ano foi isso? [01:55] Participante Em que ano foi isso? Você começou a assaltar o, os brasileiro desde quando? [02:00] Daniel Nascimento 2003. [02:00] Participante 2003. [02:01] Daniel Nascimento É. [02:01] Participante Então, o meu primeiro ataque foi em 2014. [02:04] Daniel Nascimento Não, então eu já não tava mais nessa. [02:06] Participante O senhor já não tava mais nessa? [02:06] Daniel Nascimento Eu parei em 2005, fui preso em 2005. [02:09] Participante Ah. [02:09] Daniel Nascimento Eu nunca mais cometi nenhum tipo de crime. [02:11] Participante E ressarcuiu aqueles que você, é... [02:14] Daniel Nascimento Foram todos ressarcidos. Até porque meu ataque, meu ataque foi com o banco e não com as pessoas. [02:18] Participante Não com as pessoa. Mas é, mas as conta que estavam lá eram nossas. [02:21] Daniel Nascimento Sim. [02:22] Participante Os dinheiro que estava lá dentro eram nossos. [02:24] Daniel Nascimento Mas a senhora há de convir comigo que os bancos são muito falhos também, né, na questão de segurança. [02:27] Participante Sim, mas se os banco oferece segurança, eles tão sempre, é, convencendo que é mais seguro, faz até seguro pros cliente. [02:35] Daniel Nascimento Sim. [02:36] Participante E como é que isso ainda continua acontecendo golpe, ataque nos cartões, é, clones. [02:41] Daniel Nascimento Olha, eu acho que você clicou em alguma coisa ou abriu alguma coisa no seu computador, que a partir daí isso aconteceu. Geralmente uma propaganda: "ah, você ganhou um carro, você não sei o quê, você foi sorteado pra uma viagem" ou coisa do tipo, entende? Então muita, muita da, da questão da falha de segurança é o próprio usuário que comete a falha. E hoje tem muito mais estelionatário do que hacker. Então se confunde alguns golpes falando: "ah, esse foi um hacker que me invadiu". Não necessariamente. Alguém se passando por você, algum estelionatário se passando por-- enfim, clonando sua conta. [03:15] Participante E o que que você tá fazendo hoje de contribuição, até para os próprios banco que você diz que foi lá que você mais fez os seus, é, é, golpes? [03:24] Daniel Nascimento Bom, em 2005, eu fui responsável por tapar todas as falhas do Banco do Brasil, tá? É, em 2018, eu criei a primeira, o primeiro sistema, que é um sistema de fake news, onde você consegue identificar quando uma fake news acontece. Esse sistema é esse que eu entreguei no Senado. E aí atendo diversas pessoas, faço trabalhos voluntários, ajudo do jeito que eu posso. Veja, eu sei que o que eu fiz é, foi errado. Eu sei que eu prejudiquei muita gente. Eu tenho ciência disso, mas é o meu passado. Eu tenho que seguir em frente. Eu não posso ficar a minha vida inteira pensando nisso, senão eu não vou seguir, eu não vou evoluir. Mas eu entendo a sua dor. [04:07] Participante Que não foi fácil. [04:09] Daniel Nascimento Não, perder sessenta mil reais não é fácil. Obrigado. [04:12] Participante Vamos pensar nisso. [04:20] Participante Daniel Nascimento. [04:21] Daniel Nascimento Boa tarde. [04:22] Participante Boa tarde. Tudo bem? [04:23] Daniel Nascimento Tudo bom. [04:24] Participante Eu sou o Luiz Felipe, eu tenho vinte e oito ano de idade, certo? [04:27] Daniel Nascimento Certo. [04:28] Participante Vamos lá. Em 2005, né, que cê começou. [04:31] Daniel Nascimento 2004. [04:32] Participante 2004? [04:32] Daniel Nascimento 2004. [04:34] Participante A minha pergunta é: gostaria de saber como que cê, como cê se sentia assim, fazendo esse tal roubo de sessenta e cinco milhões, é isso? [04:43] Daniel Nascimento Sessenta milhões. [04:44] Participante Sessenta milhões. Porque, tipo, cê tem coração? [riso] [04:48] Daniel Nascimento Todos nós temos. [04:48] Participante Não é possível, cara, porque, tipo, hoje em dia, qualquer coisa que a gente faz errado, a gente fica com aquilo na cabeça. Agora imagina sessenta milhões, cara. É muito dinheiro, véi. Tipo, como é que cê-- se você dormia bem, se saía pra rua normal assim. [05:02] Daniel Nascimento Olha, eu nunca dormi bem, eu tomo muito remédio controlado, viu? [05:04] Participante Ah, imagino, porque também... [riso] [05:07] Daniel Nascimento Nunca dormi muito bem, não, mas isso é desde sempre. Não, eu-- você tem que ver a conjuntura da época também que isso foi cometido, né? Era outra realidade, era outro-- o, o crime é o mesmo, concordo contigo nessa questão de dor na consciência. A dor na consciência mais forte que eu sofri era por conta da minha família. [05:25] Participante Uhum. [05:25] Daniel Nascimento Meu pai e minha mãe como iam me ver? Isso é uma coisa que eu nem, eu nem gosto de falar sobre isso, mas é uma das coisas que eu mais senti. Porque assim, eu n-- eu, eu, eu não fui educado no crime. Eu fui educado num, por uma família normal, é, educação padrão. Estudei, eu não, enfim. Só que quando eu vi que eu tinha essa capacidade, eu me deslumbrei com o mundo, me deslumbrei com as coisas e, e com certeza prejudiquei muitas pessoas, enganei muitas pessoas, né? E, e, e mas assim, sem hipocrisia, vou te fazer uma pergunta. Cê já baixou filme pirata? Cê já assistiu algum canal por uma antena ou por algum, algum tipo de sistema? [06:04] Participante Sim. [06:04] Daniel Nascimento Já baixou música pirata? Também é um crime, entende? Também é errado. [06:09] Participante Uhum. [06:09] Daniel Nascimento Então a gente não pode, a gente não pode só: "ah, porque o cara roubou". A questão não é, não são sessenta milhões, a questão é um centavo ou sessenta milhões- [06:16] Participante Com certeza [06:17] Daniel Nascimento ...a fraude é a mesma. [06:18] Participante Uhum, sim. [06:19] Daniel Nascimento Entende? E as pessoas também cometem fraudes durante os dias, durante o dia a dia e não se conscientizam que ela tá errada também. [06:26] Participante Sim. [06:26] Daniel Nascimento Então é muito fácil tirar uma pedra em mim e falar: "Mas eu, eu, o meu telhado não é de vidro". Entende onde eu quero chegar? [06:32] Participante Sim, sim. [06:33] Daniel Nascimento Eu penso assim. [06:34] Participante Ah, entendi. Mas é, parabéns pelo que você era antes e se tornou a pessoa agora- [06:40] Daniel Nascimento Obrigado [06:40] Participante ...ajudando, né, a área de segurança. [06:43] Daniel Nascimento Muito obrigado. [06:44] Participante Parabéns. [06:44] Daniel Nascimento Valeu. Prazer em lhe conhecer. [som de erro do Windows] E aí? [06:54] Participante Tudo bem? [06:54] Daniel Nascimento Beleza, como vai? [06:56] Participante Bom, me chamo Matheus e eu gostaria de falar que, assim, eu fui uma das vítimas do golpe e na sua última menção ao qual você estava falando aqui, você comparou, você até fez uma pergunta, né, prum rapaz se ele também tinha baixado filmes, enfim. Cara, eu creio que não tem comparação. Não, não existe essa comparação. [07:18] Daniel Nascimento Uhum. [07:18] Participante Eu, essa fala ao qual eu vou destinar não é pra você, mas sim, é pra uma pessoa de dezesseis anos, quando foi quando você começou a fazer esses golpes, certo? Na sua adolescência, que tá errado e não só errado, ainda bem que você foi preso. Mas além de você ter sido preso, é algo que assim, eu não sei se você vai entender o que eu quero trazer à tona agora. Porque primeiro, não deveria, não teria que ter ninguém, teria que ter acesso a fazer tal golpe como você fez. Não teria que ter. Primeiro, primeiro ponto é esse. [07:52] Daniel Nascimento Uhum. [07:53] Participante Outra, faltou em você, perante a minha observação, faltou em você amor, compaixão. Como assim você vai fazer um golpe, vai invadir a conta, vai pegar dinheiro do banco? Tudo bem, aí você pode falar: "Ah, não, mas foi uma falha do banco". Tá, mas por que que você fez isso? Por que que cê não procurou trabalho? Por que que cê não usou a sua inteligência, já que você já tinha, desde aquela época, tá? Novamente, essa fala não é pra você agora, atual, ao qual a pessoa, perdão, a pessoa que eu estou vendo, mas sim uma pessoa que poderia ter usado essa inteligência pra captar, pra fazer diversas coisas na internet benéficas, e não destruir, e não roubar, porque você foi preso, certo? [08:33] Daniel Nascimento Uhum. [08:34] Participante Cê foi preso, você pagou, você foi pra cadeia. Eu imagino que cadeia não deve ser algo fácil pra estar lá dentro. Nunca fui, nem pretendo ir. Não é à toa que eu tento sempre e faço as coisas coerente perante a lei. Porém, o meu golpe ao qual eu sofri, eu vejo que foi um vacilo da minha parte. Veio um código, eu tava no telefone resolvendo outras demais coisas ao mesmo tempo e eu passei esse código do WhatsApp, que é algo que não se deve passar, né? Mas aí eu vejo, olha a falha no sistema. E aí a minha, minha última fala, e aí eu vou dar oportunidade, né, a fala pra você falar, claro, é: como que uma pessoa hoje, no mundo ao qual nós vivemos, consegue se proteger tanto de golpes como esse ao qual eu passei o código do WhatsApp, aí a pessoa foi lá, pegou dinheiro emprestado dos meus familiares e também como que uma pessoa, vamo pegar uma pessoa idosa, consegue se proteger hoje com a internet, da onde que vem tal segurança e na onde que nós conseguimos proteger os nossos familiares, as pessoas ao quem nós amamos e até mesmo nós mesmos? [09:44] Daniel Nascimento Uhum. Vamo lá. Vamo, vamo, vamo por partes. Primeiro: ééé, eu gostaria de ter trabalhado na época com os meus dezesseis anos de idade, ou pra Polícia Federal, ou pra Ministério Público, ou pra sei lá o quê. Mas não existe nada no Brasil, até hoje não tem nenhum tipo de programa de incentivo pra essa galera. Essa galera não faz faculdade, não são os caras que se formam lá em Ciências da Computação pra fazer um concurso público, pra passar pelo sistema, pra entrar num, numa, num determinado local de trabalho. Então isso falta pro Brasil, isso é um debate interessante, muito legal sua per-- a sua colocação foi muito boa, porque imagine, se até hoje falta, imagine naquela época. Outra coisa: preconceito. Cara, você fala hacker, as pessoas se assustam, as pessoas querem distância de você. Então mesmo pra uma empresa, pra uma organização, pro próprio governo, você vai falar em hacker, os caras correm. É difícil você atuar no mercado de trabalho com isso, entende? Então não é que você não, não queira, mas não tem oportunidade. Eu te pergunto, tá, eu vou trabalhar como hacker, pra quem que eu vou pedir o trabalho? Quem vai me empregar? O Estado vai me empregar? Não vai. A não ser que você ganhe uma notoriedade, isso e aquilo, não sei o quê, passe por uma série de processos como eu passei na minha, na minha vida. Não foi fácil eu me expor. As pessoas falam: "Ah, você rouba, você não sei o quê". Cara, se eu tivesse roubando, eu não taria no Brasil, eu taria fora do Brasil, quietinho, jamais permitiria uma biografia minha, jamais ia ter um filme da minha vida, jamais permitiria isso, entende? Então é, é complicado, é um, é um debate que tem que evoluir muito. [11:21] Participante Sim. [11:21] Daniel Nascimento Tá? Proteção. A proteção, eu sempre uso uma frase: o antivírus é a própria pessoa. As pessoas caem no gol-- nos golpes por causa do estelionato. Geralmente, ambição ou ganância. É um e-mail, um código, um sei lá o quê. A grande questão é desconfiar de tudo. Não existe um sistema que vai barrar tudo que tá acontecendo ali, tudo que pode lhe fraudar. O que existe é você sempre estar atento, porque a maioria das fraudes acontece quando a pessoa está distraída. [11:53] Participante Caraca, mas essa frase teoricamente não culpa a vítima? Porque assim, ah, então o golpe acontece quando ela tá distraída, então a culpa é dela por estar distraída? Não faz sentido, porque ó, se existe uma tecnologia, se existem empresas que ganham dinheiro com as nossas informações, o porquê que não cria uma segurança cibernética, algo que existe em empresas, o por que que não cria também pras pessoas? Sabe, WhatsApp, eu vi recentemente que o WhatsApp vende o, aquele, aquela tag de autentificação, que qualquer um pode baixar uma foto de uma empresa, vou citar um nome aqui, Mercado Livre, Google, enfim, e colocar lá. E aí pessoas vão lá, mandam os dados pra serem contratadas por essa empresa, que na verdade não é uma empresa. [12:38] Daniel Nascimento Uhum. [12:38] Participante É só uma pessoa que fingem se passar por essa empresa, mas quem é que tá vendendo a tag de autentificação? É a própria Meta, é a própria empresa. Então assim, eu creio que essa sua fala culpa um pouco a vítima, porque ninguém quer ser vítima [pigarro] na verdade. Até aí eu concordo com você também, se o Brasil tivesse uma oportunidade melhor, e hoje tem, na verdade. Se você for ver, tem programas de Petrobras, que a pessoa vai lá, estuda, desde os dezesseis anos, jovem aprendiz, enfim. [13:08] Daniel Nascimento Mas veja, essa-essa questão da, de você sugerir que eu tô culpando a vítima, é uma maneira de proteção. A partir do momento que você usa um sistema, você usa um telefone, você va-- você tem que aprender a mexer com aquilo. Não adianta você pegar um programa, um aplicativo e não saber mexer com aquilo. Aí você cai na-na fraude, cê vai culpar os hackers? Entende onde eu quero chegar? Pô. [13:31] Participante Entendo, entendo. Entendo aonde você quer chegar, mas eu também entendo eu do, do ponto a qual eu parti. [13:35] Daniel Nascimento Entendi seu ponto, mas eu acho o seguinte, você tem também que fazer o mínimo, a sua parte, a sua pequena parte em estudar, em saber com o que você tá lidando. Senão não lida com aquilo. Eu penso assim. [13:49] Participante Tá, eu vejo que essa, a, a nossa fala não vai chegar muito a nenhum consenso, até porque ambos estão pensando de forma diferente. Mas eu só gostaria de deixar aqui minha última fala, que aí eu vou me retirar pra dar lugar a todas as outras pessoas que passaram também por coisas parecidas, e até mesmo pior do que a minha, é que não existe, isso na minha cabeça eu não consigo entender. Não existe como que um ser humano vai roubar, vai dormir tranquilo, vai roubar, vai ficar de boa com os seus pensamentos, porque assim, cê tem, se você acredita em Deus, logo você vai acreditar no quê? Se você planta, você colhe, tá? E você errou. "Ah, mas eu fui preso" não, você não pagou ainda. Na minha opinião, você não pagou. Sabe por quê? Porque desde o início você não deveria nem ter começado a roubar, você não deveria ter feito o que você fez. Hoje, você tem uma história, você vai fazer um filme como você mesmo acabou de falar aqui agora para todos nós ouvirmos. Então assim, você ainda tá recebendo dinheiro por isso, porque é a sua história, as pessoas têm que pagar pra falar sobre você. Mas é isso, eu creio que cê fez errado. Eu espero que quem esteja assistindo e pense ir pra esse caminho ao qual você foi em outrora, não queira, porque você vai preso. É isso. Obrigado. [15:13] Daniel Nascimento Quando eu dormir, tem Rivotril, é muito bom, ajuda a dormir. [15:17] Participante Caraca, cara, eu acho que você não mudou [risada] desculpa [som de error]. [15:25] Daniel Nascimento Tudo bem? [15:26] Participante Com sessenta milhões na conta é fácil tá bem, né? [15:28] Daniel Nascimento [riso] Bom, eles confiscaram tudo, né? [15:32] Participante Ah, a parte que cê não desviou pra outras contas, né? O que tava na sua conta, eles levaram, o que não tava, ficou ainda pra você. [15:39] Daniel Nascimento Esse é o ponto de vista. [15:41] Participante Tá certo. Burro você não é, isso a gente já sabe. Dá pra ver que cê tá bem nervoso aqui na frente das pessoas que você diretamente ou indiretamente fraudou, porque querendo ou não, como você foi o melhor e você começou lá atrás, trouxe outros juntos com, junto com você. Com certeza cê teve uma escola aí, né? Cê foi professor. Não é verdade? [16:04] Daniel Nascimento Não, eu nunca ensinei ninguém, mas realmente impactou pessoas que acabaram seguindo o caminho. [16:09] Participante Claro que sim. [16:09] Daniel Nascimento Isso sim, isso é óbvio. [16:11] Participante O que eu vejo de você até agora, é que você se vitimiza demais. [16:16] Daniel Nascimento Uhum. [16:16] Participante A culpa é do governo, a culpa é da senhorinha que não teve informação, a culpa é de todo mundo, mas a culpa não é sua, que tem desvio de caráter. [16:25] Daniel Nascimento Seu ponto de vista. [16:27] Participante Cê acha que todo mundo aqui não concorda com isso? Porque pa-parece que você cansou, porque você ficou algum tempo preso, eu nem sei quanto tempo que mais ou menos fica preso um hacker. [16:39] Daniel Nascimento Nem um dia, nem um dia eu fiquei preso. Eu fui apreendido, né, como era menor de idade pela Polícia Federal, e no outro dia eu tava tampando as fu-- as falhas do Banco do Brasil. Aí por conta disso eu fui liberado e não fui condenado, porque eu colaborei. Mas você vai me chamar de vítima de novo, é? [16:55] Participante Então o errado é o Estado, né, que não faz as leis pra segurar uma pessoa que tem esse talento, né, porque isso é um talento, né, cara. Você podia tá trabalhando pro bem, infelizmente, você preferiu trabalhar pro mal. Agora, o que que me leva uma criança de dezesseis anos, que podia tá jogando videogame, não sei, um PlayStation 2 na sua época, né? Podia tá jogando videogame, querer roubar os outros, sendo que você falou que cê nunca passou fome, cara. [17:19] Daniel Nascimento Não, nunca passei nada. [17:20] Participante Então, o que que leva uma pessoa que tem uma vida estabilizada financeiramente a querer roubar os outros? Cê consegue me explicar isso? [17:32] Daniel Nascimento Como eu te disse, no meu caso foi o desafio. Eu comecei a fazer e quando viu eu tava envolvido naquilo. E vou falar pra você que eu não gostei? Nunca parei pra pensar, pra avaliar a questão das pessoas, do que estava acontecendo com as pessoas. Eu não via isso. Eu fui ter essa noção mais pra frente, mas não sou vítima nenhuma, como disse você. De coitado eu não tenho nada. [17:51] Participante Não, é que você se põe no lugar de vítima. [17:53] Daniel Nascimento Não, eu não, não. Eu me, eu coloco um pensamento pra que alg-- pelo menos uma pessoa saia daqui e cobre coisas melhores nesse sentido. Que pense: "porra, mas aquele cara lá, beleza, bandido, ladrão, não tá nem aí, não se arrependeu". Tudo bem, fale o que quiser, mas se sai uma pessoa daqui com a vontade de fazer isso mudar, eu já impactei alguém, já é algo positivo. [18:15] Participante Pelo menos. Que você pare, né. Graças a Deus você parou [18:19] Participante Não pretende voltar mais. Não sabemos, né, como que tá sendo a sua vida, como que você tá ganhando ou levando dinheiro pra sua casa hoje, mas que você continue nesse caminho e que não traga mais pessoas pra tentar roubar a gente, né? [18:31] Daniel Nascimento Não, eu não [risos]. [18:33] Participante Não ensine mais pessoas, né? Pra mim é só isso. Muito obrigado, boa tarde. [18:37] Daniel Nascimento Obrigado. [aplausos] [som de introdução] Tudo bem? [18:46] Participante Tudo. Eu queria perguntar pra você como que foi a sua criação. Por exemplo, dentro da sua casa, você tinha seu pai, sua mãe, eles trabalhavam, você passava alguma dificuldade? [18:57] Daniel Nascimento Não, nunca passei dificuldade nenhuma. [18:59] Participante Tá, porque assim, quando a gente pensa em alguém muito jovem, com dezesseis anos, por exemplo, praticando algum crime, normalmente a gente relaciona que a pessoa passou por algo muito difícil dentro de casa, que precisou, de certa forma, pra subsistência, mas eu acredito que, tipo assim, você com dezesseis anos e sessenta milhões na conta, não era, tipo, necessidade. É, queria entender qual foi seu pensamento, o que que você sentiu pra começar a fazer um negócio desse? [19:25] Daniel Nascimento Vamo lá, é, isso é um pouco da minha história, né. Então, eu com onze, doze anos, eu tive uma, uma doença chamada anorexia nervosa. Então não é que você induzia o, o vômito, mas é que tudo que você comia, você tinha impressão que ia vomitar. Então era um cara magrelo, que não jogava bem basquete, que não jogava bem futebol. Lembrando que naquela época, eu sou do Sul do país, aquela época a gente é mu-- era muito metralhado. "Ah, o cara é isso, o cara aquilo, o cara é..." Enfim, é, N coisas. Como eu não servia pra nada, eu falei: Pra alguma coisa eu vou servir, que é pro computador. Então quando eu comecei a mexer com computador, eu já sabia o que eu queria. Eu nunca joguei, eu nunca fiquei brincando com- [20:10] Participante Cê queria ser um hacker [20:10] Daniel Nascimento Eu queria ser, exatamente. Eu queria ser e consegui. E fui o melhor. [20:15] Participante Entendi. [20:15] Daniel Nascimento Por dedicação. [20:16] Participante Tá, então, é, você se equivocou então, porque antes você disse que tinha entrado nisso porque não tinha oportunidade. Aí agora você disse que foi uma escolha. [20:24] Daniel Nascimento Sim, mas- [20:24] Participante Você escolheu isso, então não foi falta de oportunidade. [20:26] Daniel Nascimento Mas, mas também há falta de oportunidade pra outras pessoas. [20:29] Participante Não. [20:29] Daniel Nascimento Não no meu caso. [20:30] Participante Não, eu- [20:30] Daniel Nascimento Eu quis hackear. [20:31] Participante Não, não existe falta de oportunidade. [20:33] Daniel Nascimento Ô louco. [20:33] Participante Eu tenho-- eu saí de casa, também sou do Sul, saí de casa com dezessete anos. Com dezesseis anos eu já tinha curso técnico, que eu consegui pelo governo, de graça. Eu viajava uma hora de ônibus todos os dias pra ir pra outra cidade, que a minha cidade é uma cidade de dez mil habitantes, pra estudar. Com dezessete anos eu consegui um trabalho, saí da minha cidade, fui morar sozinha em uma capital, sem conhecer absolutamente nada, nem ninguém. Então isso não quer dizer que é falta de oportunidade. Você dizer que você cometeu um crime por falta de oportunidade, totalmente equivocado. Acho que você precisa rever um pouquinho esse conceito. E da mesma forma que você encontrou, por exemplo, agora, depois que você cometeu o crime, você encor-encontrou uma forma de sair disso e fazer o bem. Por que carambas você com tanta inteligência não olhou lá atrás e falou: "Não, eu tenho competência o suficiente pra fazer alguma outra coisa, alguma outra coisa boa". Por que você não pensou nisso? [21:25] Daniel Nascimento É, eu- [21:25] Participante Você não precisava nascer sabendo, ninguém nasce sabendo, e nada precisava ir até você. Porque você, o conhecimento que você adquiriu, não foi até você também. Foi falta de você buscar algo certo pra fazer. Você realmente escolheu ser criminoso e roubou sessenta milhões. Agora, com dezesseis anos, cê acha, tipo, que era esse seu trabalho. [21:44] Daniel Nascimento Eu não tinha ne- eu não tinha nem noção do que era sessenta milhões, de verdade. E outra coisa, é- [21:48] Participante Em algum momento você passou a ter [21:49] Daniel Nascimento Quando a gente lida com o sistema, eu falo sistema da sociedade em geral, eu vou te dar um, vou te dar uma, um exemplo. Eu so-- ninguém, todo mundo vê esse lado, mas ninguém vê que eu sofri quatro sequestros na minha vida, da própria polícia, que eu fiquei em cativeiro, que eu apanhei, que eu fui extorquido, isso aí ninguém vê. Só falam dos sessenta milhões. "Ah, o cara pegou sessenta milhões". Mas todo o processo da polícia que deveria ter me prendido, ter me detido, não funcionou. Então essa questão que você tá trazendo pra mim: "Ah, funciona sim, porque eu saí de casa, porque eu isso, porque aquilo", comigo não funcionou. [22:25] Participante Porque você não queria. [22:26] Daniel Nascimento Eu aprendi, eu aprendi um Estado totalmente defasado, uma polícia corrupta. Foi isso que eu aprendi na minha vida. [22:34] Participante Mas você só- [22:35] Daniel Nascimento Entendeu? [22:35] Participante Teve esse conhecimento depois que você virou criminoso. [22:38] Daniel Nascimento E ser usado, né? Prometerem coisa pra você. [22:41] Participante Depois que você virou criminoso. [22:42] Daniel Nascimento É, isso é uma colocação sua, né? [22:44] Participante Você acabou de falar isso. [22:45] Daniel Nascimento Isso é uma colocação sua. Não, eu falei que eu gostaria muito de hackear, mas tudo bem. Cometi crimes e fui... Enfim, eu não nego isso. [22:53] Participante Tá, e como que você, depois de tanto tempo, tipo assim, cê viu que era fácil pra você. Conseguiu, tipo, muito dinheiro, muito fácil. Por que que você mudou? O que que, o que que virou pra você mudar e ir trabalhar com segurança, invés de continuar roubando? [23:11] Daniel Nascimento Olha, [risos] é complicado. Acho que foi um pouco de índole, né, po ca-- por causa dos meus pais, da minha família, não que-- não queria ge-gerar desgosto pra eles. Então, enfim, eu tive vontade de mudar. E pra mim, assim como você fez uma, uma colocação, lá atrás, era um desafio pra mim. Então eu, eu, eu sempre fui movido a desafio. E trazer essa história à tona, sabe? Eu sou o primeiro hacker latino-americano biografado. Você sair daquele mundo de dinheiro fácil e trazer a história à tona, e levar tapa, que nem eu tô levando agora, não é, não é, não é fácil, mas é o, exatamente isso que eu quis pra poder mudar alguma coisa, pra poder evoluir com alguma coisa, mesmo levando porrada. [23:59] Participante Bom, acho que era isso. [aplausos] [24:11] [som de introdução] [24:11] Participante Boa tarde, tudo bem? Eu sou a Tatiane. É, eu tenho uma dúvida que eu acho que a maioria das pessoas têm, né. O meu golpe foi em 2023, então não entra você em casa, é totalmente diferente. É, a partir do momento que você, vocês têm acesso ao banco de informações, como funciona a seleção das vítimas? Como que vocês chegam naquilo? Tem um estudo de cada um, acompanhamento, como que funciona? Até pras pessoas hoje que estão assistindo, saber mesmo. "Ah, eu caí, fui selecionada, foi aleatório, fui clicada ali", ou foi um estudo mesmo, de informações que vocês têm delas, pra elas serem vítimas daquele golpe? [24:50] Daniel Nascimento Olha, você tem duas maneiras. Você tem a maneira de pesca, que você joga a isca pra um milhão de pessoas e desse um milhão vem mil. E você tem o ataque direcionado, onde você identifica, por exemplo: ah, você gosta de academia, um exemplo. Então a pessoa envia algo relacionado à academia, o hacker, no caso, né? O cracker, né? Vou chamar de cracker. Envia algo relacionado a isso pra poder te induzir e te fazer de vítima. Mas a maioria dos golpes hoje em dia, diferentemente do passado, tá sendo muito por engenharia social. Vou te dar um exemplo: é, você pega uma empresa de atendimento. Cê liga lá na, seu celular, operadora X, Y, Z. Você não tá falando com a operadora, você tá falando com uma empresa terceirizada, onde tem um cara com acesso em home office a tudo que você possa imaginar do seu sistema. E isso é com cartão, isso é com banco, isso é com tudo. Quanto mais o, a gente terceiriza as coisas, mais fácil fica a fraude. Com a Covid, com a pandemia, isso virou uma festa, porque os, os caras não, não iam trabalhar nas empresas e ficavam fazendo home office em casa. Então, por exemplo, tem uma operadora de telefone, que inclusive ela foi processada p-por isso, por questão de armazenar o cartão de crédito das pessoas. Tem um outro, um serviço de, de alimentação, que deu um baita dum escândalo também, né? Uma grande empresa de alimentação. Por conta do quê? Aí falam: "Ah, foi o hacker". Não foi o hacker. Foi o funcionário que trabalhava lá, que corrompeu e forneceu a senha dele pra algum outro estelionatário, e esse estelionatário cometer crime. Então não sei se eu consegui explicar pra você bem como, como está funcionando hoje. A cobrança, claro, você é seu antivírus, mas a cobrança tem que ser mais enfática. Sabe? Tem que, tem que cobrar mais as empresas, a segurança, porque são os seus dados, é v-você que tá lá. Por, por exemplo, o, o, existe um sistema chamado CadSus. É o sistema único de, de saúde do Brasil. Porra, tá tudo cadastrado lá. Aí invadiram lá não sei quem, e vazaram mais de duzentos milhões de dados. [26:58] Participante Sim. [26:58] Daniel Nascimento Entende? Ah, mas quem tá preocupado com isso? Não, ninguém. Os caras tão preocupado com sessenta milhões que diz: "Meu". Mas ninguém tá preocupado se isso tá acontecendo ou não. Por isso que a gente não evolui. [27:08] Participante Sim. É, você parou, no caso, em 2005, né? Por conta que foi preso. É, ali no momento, eu creio que você parou porque foi preso, porque aquilo tava te gerando dinheiro. Qual o seu sentimento ali no momento? Era pelo dinheiro, era adrenalina, era controle? O que que você tinha ali, né? Um-uma pessoa muito jovem, ainda está em formação, ainda estava em estudo, tava tendo acesso. É, qual, o que que você sentia ali? Era pelo dinheiro ou era pelo poder, pelo controle, pela adrenalina do que você tava fazendo, que você tava conseguindo, de se sin-- de bater no peito, né, e se sentir bom ali, de uma forma negativa? [27:46] Daniel Nascimento Vai so-vá, vai soar arro-arrogante o que eu vou te falar. [27:49] Participante Sim. [27:49] Daniel Nascimento Tá? Mas é o pensamento como é. Sendo sincero e franco contigo. [27:54] Participante Sim. [27:54] Daniel Nascimento Quando você atinge esse patamar que eu atingi, você não vai voltar mais nem pra dinheiro. Porque os caras podem me prender hoje, daqui a um mês eu levanto o dinheiro de novo. [28:01] Participante É o controle. [28:01] Daniel Nascimento Daqui de novo. Pra mim é indiferente. Então se é sessenta milhões, se é um milhão, se é duzentos milhões, se é cem reais, pra mim não importa. [28:10] Participante Cê sabe que você é capaz- [28:11] Daniel Nascimento Eu sei, eu sei que eu sou capaz de fazer. O que me move é o desafio, falando de mim pessoalmente. É o desafio de fazer algo que ninguém fez ou que ninguém consegue. É isso que me move. Eu sou movido a isso. Então, tudo que eu fiz na minha vida foi impactado por desafio. Estar aqui hoje, conversando com todos vocês, é um desafio pra mim. É um desafio, porque eu, eu sou um cara de tecnologia. Pessoas de tecnologia não são comunicat-comunicadoras, comunicativas. Elas são contidas. E eu tô aqui hoje suando, mas tô aqui conversando com todos vocês. [28:42] Participante É. E no final eu queria parabenizar, eu acho que nunca é tarde prum recomeço. Então se você tá em outro patamar hoje, ajudando, creio que você re-- conseguiu rever, né, suas atitudes ali e tudo, e continue ajudando aí o pessoal. [28:57] Daniel Nascimento Obrigado. [28:57] Participante Obrigada [palmas]. [29:01] Daniel Nascimento Olá. [29:02] Participante Olá, boa tarde. [29:03] Daniel Nascimento Boa tarde. Como é seu nome? [29:05] Participante É Sônia Bandim. [29:06] Daniel Nascimento Sônia. Boa tarde, Sônia. [29:08] Participante Isso. Então eu tenho, eu tenho-- tinha curiosidade de saber quem é a pessoa que consegue fazer com que uma mãe de família, que só tem aquele dinheirinho ali, seja clonado ou seja tirado dela. [29:27] Daniel Nascimento Sim. [29:27] Participante Eu tinha: "quem é essa pessoa? Quem será que tem essa coragem?" Então hoje eu tô te conhecendo, você é um deles, né? [29:35] [riso] [29:36] Participante E um deles, eu, eu vou dizer pra você, eu só tenho prazer hoje em lhe conhecer, porque você foi uma pessoa que teve consciência de sentir o que você tava fazendo. [29:50] Daniel Nascimento Uhum. [29:51] Participante E voltar atrás, e hoje tá fazendo algo bom pras pessoas. Mas então, eu também perdi dinheiro. E hoje, o, o idoso, as pessoas mais idosas são as mais prejudicadas, né? [30:05] Daniel Nascimento Inacreditável. [30:06] Participante Por quê? Porque elas não têm muito acesso ao, ao celular, não entende muito bem e confia muito. [30:14] Daniel Nascimento Uhum. [30:14] Participante Então eu, eu, eu fui, comecei como modelo com setenta e cinco anos. [30:19] Daniel Nascimento Uhum. [30:19] Participante Então veja bem [riso]- [30:20] Daniel Nascimento Que legal! [30:22] Participante Eu tava super inexperiente, né? [30:25] Daniel Nascimento Aham. [30:25] Participante Aí que que eu fiz? Vi um anúncio lá, né, é, me convidando no, no WhatsApp pra uma agência Onde eles iam dar tudo, curso de modelo, digital influencer, porque eu sempre gostei de, de, de público, né? Eu faço projetos sociais onde eu- [30:45] Daniel Nascimento Que legal! [30:46] Participante Eu faço, é, vários projetos pras pessoas que tão necessitando sair da depressão. Então pra mim, eu falei: "Bom, eu vou inspirar as mulheres da minha idade a desfilar". E fui. Chegando lá, o que que aconteceu? Ele prometeu mil coisas, digital influencer, curso não sei o quê, curso não sei o que lá. [31:07] Daniel Nascimento Mas tudo isso online, essas promessas? [31:10] Participante Não, foi lá mesmo. [31:10] Daniel Nascimento Foi presencial? [31:11] Participante Pior é isso. Foi presencial, na minha frente assim. [31:16] Daniel Nascimento Certo. [31:17] Participante Ele me passou, ai, me fez a fraude. Aí ele disse assim pra mim: "Olha, a senhora vai receber isso, isso, isso. Fica em tanto, em dez vezes no cartão". Quando fomos passar o meu cartão- [31:29] Daniel Nascimento Ele clonou o cartão. [31:30] Participante Não, sabe o que aconteceu? [31:32] Daniel Nascimento Uhum. [31:32] Participante Não tinha o, o valor exato. [31:36] Daniel Nascimento Uhum. [31:36] Participante Eu não tinha limite. [31:38] Daniel Nascimento Uhum. [31:38] Participante Aí o que que aconteceu? Eu tava com o celular aberto no meu aplicativo do banco. [31:43] Daniel Nascimento Hmmm. [31:44] Participante [risos] E ele falou: "Pera aí que eu vou te ajudar, porque nós aqui temos", sabe um homem assim, sabe, fortão, é, um metro e oitenta. Ele falou: "Nós aqui temos um, um convênio com esse banco e eu vou ajudar a senhora". Falei: "Ótimo, que maravilha", né? [32:03] Daniel Nascimento Uhum. [32:03] Participante E aí ele pegou o meu aplicativo e tirou três mil reais e eu tô pagando até hoje, parcelado pro banco com juros. [32:14] Daniel Nascimento Mas esse caso que aconteceu com você, não é um caso de hacker, não é um caso de invasão de hacker, não é um caso técnico- [32:20] Participante É [32:20] Daniel Nascimento De tec-de tecnologia. [32:21] Participante Tecnologia. [32:22] Daniel Nascimento Isso é estelionato. [32:23] Participante É. [32:23] Daniel Nascimento Isso é roubo. É roubo- [32:25] Participante É verdade [32:26] Daniel Nascimento Direto, entende? Não, não que hackear não seja um roubo também, né? [32:30] Participante É. [32:30] Daniel Nascimento É hipocrisia falar que não. [32:32] Participante É. [32:32] Daniel Nascimento Mas no seu caso foi- [32:34] Participante É [32:34] Daniel Nascimento Realmente na sua frente, ele foi lá, ele enganou. [32:37] Participante Enganou. [32:37] Daniel Nascimento Então ele, ele não tem conhecimento de tecnologia. [32:40] Participante É. [32:40] Daniel Nascimento O que ele é, é um fraudatário estelionatário. [32:42] Participante Exatamente. [32:43] Daniel Nascimento Tá? E não um hacker. [32:45] Participante Depois que eu entendi isso. Mas tirando esse- [32:48] Daniel Nascimento Sabe o que acontece assim? A, a mídia, a imprensa ju-- hoje em dia julga tudo como hacker. [32:53] Participante É. [32:54] Daniel Nascimento "Ah, o cara tomou o golpe do Pix, foi o hacker. Ah, o cara perdeu o dinheiro do cartão, foi o hacker". É, eu cansei de ver casos de, de fraude, onde a pessoa vai passar o cartão de crédito numa, numa loja, sei lá, uma loja de, de, uma, uma grande, uma grande loja ou uma farmácia, e os próprios funcionários arma-armazenaram o cartão da pessoa pra depois cometer a fraude. Eu não considero isso um hacking, mas a imprensa, a polícia, todo mundo chama aquilo de hacker, o que infelizmente desmoraliza a gente, que é. [33:24] Participante É verdade. [33:25] Daniel Nascimento É, porque tem uma grande diferença entre o hacker e o cracker. O cracker é o cara que rouba, que frauda. O hacker é o cara que trabalha com segurança da informação. [33:35] Participante Certo. [33:35] Daniel Nascimento As palavras corretas são essas, mas todo mundo fala, fa-- chama: "Ah, o cara é hacker, o cara entrou na minha conta, o cara me fraudou, o cara..." Não é por aí. [33:44] Participante Na época eu não sabia nem o que era hacker. [33:45] Daniel Nascimento Com o crescimento da, com o crescimento da tecnologia, é, ficou muito, muito abrangente, então hoje em dia tem muita gente que se aproveita disso. [33:53] Participante Então. [33:53] Daniel Nascimento Das falhas dos sistemas também, né, da, da inocência muitas vezes das pessoas ou da ganância. [33:59] Participante Exatamente, por isso que eu digo a todas as minhas amigas: "Não confie mais em ninguém". Se nós vamos falar, fazer algum negócio, nós temos que olhar o contrato linha por linha e nós temos também no WhatsApp, saber exatamente quem é, com quem nós estamos falando. [34:20] Daniel Nascimento Uhum. [34:20] Participante Porque é a partir daí que a gente é enganada. E é muito triste isso, porque eu trabalho com pessoas da terceira idade e as mulheres, eu noto a dificuldade que elas têm com aquele dinheirinho que elas ganham. Então eu, eu digo pra elas: "Não confie mais". Eu, eu mesmo dizendo, eu confiei também numa pessoa, né? [34:43] Daniel Nascimento E na questão do, do, dos crimes financeiros, a terceira idade é a mais visada, realmente. [34:47] Participante Exatamente. [34:48] Daniel Nascimento Cê tem razão. É, mas- [34:49] Participante Até o INSS, né? [34:51] Daniel Nascimento Sim. [34:52] Participante Que nos tiraram agora, né? [risos] Pelo amor de Deus. [34:55] Daniel Nascimento Esse assunto eu não vou entrar, não. [risos] [34:57] Participante Esse aí a gente não pode nem entrar. Mas eu acredito e parabenizo você. [35:03] Daniel Nascimento Obrigado. [35:04] Participante Sabe? Porque o, o, o negócio não é errar, é você perceber que errou e voltar atrás e fazer algo bom. Isso você conseguiu. Então nós não podemos só, é, em cima da pessoa. Se a pessoa arrependeu daquilo e ela de coração, ela quer fazer algo bom, nós temos que dar os parabéns. [35:28] Daniel Nascimento Obrigado. [35:28] Participante Então parabenizo você. [35:30] Daniel Nascimento Muito obrigado. [35:30] Participante Continue assim. Ajude as pessoas, porque é ajudando os outros que a gente é ajudado. [35:37] Daniel Nascimento É verdade, obrigado. [35:37] Participante Muito obrigada pela oportunidade. [35:39] Daniel Nascimento Obrigado. [aplausos] Tudo bem, boa tarde. [35:49] Participante Boa tarde. Me chamo Giovanna e tenho que te fazer uma pergunta. [35:53] Daniel Nascimento Uhum. [35:53] Participante Desde o momento que eu sentei nessa cadeira, eu não consegui me conter. Como você consegue dormir sabendo que você conseguiu estragar sonhos de milhares de pessoas que não tinham possibilidade de se recolocar, de conquistar novamente as coisas delas? Eu, eu te pergunto isso porque eu convivo com isso. É, poderia citar o meus, meu caso aqui, mas eu vou citar da minha família, que eu acho que é o ponto que mais machuca. É muito difícil ouvir todos os dias de um pai que ele não consegue mais a casa própria, porque ele sofreu golpes e o dinheiro que ele tinha poupado a vida inteira, ele não tem mais Você falou uma coisa que me deixou muito intrigada referente ao acesso à informação, que as pessoas deviam buscar informação. Mas e a minha mãe, que não teve acesso à informação? Então ela merece levar um golpe? Ela merece, é, passar por certas adversidades por conta da falta de informação que não foi fornecida a ela? [36:55] Daniel Nascimento Os sistemas foram evoluindo a questão da segurança conforme foi havendo fraudes, invasões. Se não houvesse isso, a gente taria nos anos 2000 ainda. É uma, é uma, é uma briga de gato e rato sempre. Isso o negócio vai evoluindo, evolu-- vai escalonando. Quando eu digo que a pessoa tem que ter o mínimo de noção do que ela tá fazendo, porque assim, é muito fácil você baixar o aplicativo do banco, clicar lá, entrar na sua conta e você nem sabe o que cê tá fazendo. Eu não concordo. Eu acho que as empresas estão erradas, os bancos não, não, não, não repassarem treinamento. Eu acho que lá na questão do-do ensino médio deveria existir uma matéria falando sobre isso, sabe? A pessoa também não é obrigada a saber, mas- [37:34] Participante E a pessoa que não tem acesso ao ensino médio, por exemplo? [37:36] Daniel Nascimento Mas infelizmente, infelizmente, acontece isso. Eu num-- veja, me, me responsabilizo, né, por várias coisas, perguntaram de dormir, eu já dei a dica, o Rivotril é muito bom pra dormir, tá? Então o clonazepam, né? E só que eu num, eu não posso, entendeu? Eu não posso voltar atrás e mudar o que eu fiz. Eu não posso ficar sem dormir também, eu preciso dormir. E o que aconteceu, aconteceu na, na, na, no meu passado. Hoje eu trabalho do lado contrário tentando criar maneiras pra que isso não volte a acontecer ou que isso aconteça de, de uma maneira menor, né? A gente, eu tô, eu tô batalhando pra isso, então não é fácil. Que detalhe, eu venho duma comunidade onde atiram pedra em mim, porque eu virei as costas pros caras que vieram da mesma formação que eu lá dos anos 2000. Hackers que continuam aprontando, fraudando e arrebentando com tudo, enquanto eu tô aqui dando minha cara a tapa pra ouvir que, como eu consigo dormir. É complicado, né? [38:33] Participante Então, você falou- [38:34] Daniel Nascimento Mas, mas a questão do acesso à informação da sua mãe, não cabe a mim responder isso. Eu não, eu não tenho como responder isso. Cabe a ela, a partir do momento que ela usa uma ferramenta, é, ela ter o mínimo de noção do que ela tá fazendo, do que ela tá usando. Entende? [38:50] Participante É, eu queria te fazer uma pergunta que eu acho que pode ser muito esclarecedora tanto pra nós, no coletivo aqui, quanto pra quem tá assistindo, referente a sinais que a gente consegue identificar no sentido tanto psicológico, porque é usado muito o nosso psicológico quando a gente tá precisando de alguma coisa, quanto no nível técnico, quanto sinais técnicos pra gente conseguir identificar mesmo pessoas leigas, mesmo pessoas que não têm tanta, tanto acesso a toda essa parte, quais são os, os detalhes que a gente precisa se atentar pra não cair? [39:23] Daniel Nascimento Eu acho importante você buscar serviços que, de monitoramento de banco, é, aviso de SMS, aviso no aplicativo quando uma transação é feita pra você autorizar aquela transação ou não, serviços de monitoramento de nome, dark web, tem algumas empresas que vendem isso, sabe? Consultas de CPF, coisas do tipo assim, que notificam a pessoa quando isso tá acontecendo. E tecnicamente é manter-- é, tecnicamente é o feijão com arroz de sempre. Sistema atualizado, não clique aqui, não entre ali, não abra e-mail que, suspeito. Aquilo que a gente fala há mais de vinte anos, mas parece que ninguém ouve. Cê sabe qual o maior índice de golpe ainda? É o estelionato, chamado de engenharia social. Eu mando algo pra você que interesse a você e você cai. O famoso cavalo de Troia. Então não é tão técnico assim, não é como você invadir um servidor de um banco ou invadir lá o seu computador. Não, eu mandei uma isca pra você e você clicou. Por isso que eu comentei com outra pessoa que tava aqui antes, a desatenção da, do usuário é uma, é um dos maiores motivos da pessoa sofrer fraude. [40:35] Participante Entendi. Eu ouvi, né, você relatando que teria que seguir em frente, por exemplo, e que você conseguiu ressarcir algumas, na verdade, as pessoas que você de alguma forma prejudicou. Mas a minha pergunta que fica pra você é: tá, na parte monetária você conseguiu ressarcir, e os traumas, como que ficam? E pessoas que não conseguiram se recuperar perante isso? É justo você seguir em frente e vidas continuarem, é, todos os dias sofrendo com isso? [41:07] Daniel Nascimento Eu concordo com você [risos]. [41:10] Participante Essa é a minha pergunta. Eu não consigo te dar parabéns como outros participantes daqui. É, fico contente por você ter seguido uma linha diferente, mas eu não consigo te dar parabéns porque eu consigo imaginar na, no so- no sofrer das vítimas e também das famílias das vítimas, porque eu também sou familiar de vítimas que passam e que eu não sei como eu posso ajudar neste momento, então eu não consigo te dar parabéns. Eu espero que você siga ainda neste modelo pra que você não se prejudique também. [41:39] Daniel Nascimento Uhum. [41:40] Participante Que você consiga ajudar outras pessoas, mas o meu parabéns hoje você não terá. [41:44] Daniel Nascimento Ok. Bom, no caso de, de lidar com isso, a terapia também é muito boa pra, pra gente lidar com esse tipo de coisa. [41:52] Participante Certo, a terapia, mas você acredita que todos esses traumas, a terapia é possível só, só ela consegue tratar tudo isso? [42:00] Daniel Nascimento No meu caso, sim. Tirar os golpes eu não posso. [42:03] Participante No seu caso. Mas no seu caso, o que que aconteceu? Você conseguiu as coisas que você queria, tanto que você hoje tá onde você tá por alguma coisa. E as pessoas que tiveram dificuldades a partir do momento que foram lesadas e não vão conseguir mais se estabelecer? A gente sabe que a parte financeira é uma parte muito importante na vida das pessoas. Ela que é o carro-chefe de muita coisa. Então uma família que não vai conseguir mais se levantar perante isso, fazer só terapia ajuda? Se ela não vai ter dinheiro pra colocar comida na mesa, se ela não vai ter dinheiro pra comprar uma casa própria, se ela não tem mais dinheiro pra educação nem informação? [42:39] Daniel Nascimento Isso pode mudar a partir do momento que a pessoa eleger Deputados, senadores ligado à tecnologia, que se preocupem com a segurança da informação, que criem leis mais rígidas, que dê orientação prum policiamento que realmente funcione, isso pode mudar. Então o que eu sugiro pra essas pessoas que sofreram esses, esses golpes e tudo mais, vota melhor, cobra melhor, exige algo melhor pra sociedade evoluir, senão a gente nunca vai evoluir. [43:07] Participante Nesse sentido eu concordo com você e termino por aqui. Obrigada. [43:10] Daniel Nascimento Imagina. [aplausos] Tudo bem? [43:19] Participante Tudo bem. Bom, meu nome é Eduarda, eu tenho vinte e sete anos, já sofri golpe. E a minha pergunta pra você é: se você não tivesse sido preso, se não tivesse acontecido nada, você continuaria sendo hacker? [43:35] Daniel Nascimento Bela pergunta. Bela pergunta. [43:37] Participante Porque você passou por uma situação difícil, onde você foi pego, e aí você teve que largar isso. [43:44] Daniel Nascimento Todas as pessoas que foram detidas comigo foram reincidentes do mesmo crime, por várias vezes. Então- [43:48] Participante Sim [43:49] Daniel Nascimento ...ninguém parou de fato, né? Eu consegui parar. Então-- mas é como o nosso colega que tava aqui falou há pouco, né. Eu, graças a Deus, tive uma situação privilegiada da minha família. Então como eu, como outro colega também disse: "pô, cê não passou fome, você não isso, você não aquilo, por que que você fez isso?" Então aí reverte o negócio. Por eu ter, ter tido apoio, ter tido continuidade na minha família, com a minha família, eu consegui, eu acho que me afastar mais disso, entende? [44:15] Participante Uhum. [44:15] Daniel Nascimento Porque eu realizei muitas coisas que eu quis realizar quando eu era mais jovem. Então quando isso tudo estourou, sei lá, eu num, eu não quis mais fazer. [44:24] Participante Entendi. [44:25] Daniel Nascimento Eu não, eu não sei di-- é difícil responder isso, porque tem um lado que puxa e de outro lado-- cê entende, os dois lados ficam puxando, mas eu não fiz mais. [44:33] Participante E falando um pouco da sua família, como que eles ficaram quando eles descobriram que você fazia isso? Porque do nada começou a vim dinheiro, e que que cê explicava pra eles? [44:40] Daniel Nascimento Não, eu saí de casa. [44:41] Participante Você saiu de casa. [44:41] Daniel Nascimento Eu saí de casa com quinze anos. [44:43] Participante E aí você não falava com seus pais? Ou você tinha- [44:45] Daniel Nascimento Com a minha mãe eu falava, mas meu pai não queria conversa comigo, não. [44:49] Participante Entendi. Então quer dizer que você não sabe se você continuaria ou se você sairia desse- [44:57] Daniel Nascimento É, eu- [44:57] Participante ...desse caminho [44:58] Daniel Nascimento ...eu acho que é hipocrisia da minha parte responder essa pergunta, sabe? Porque realmente eu num, eu sei que as coisas aconteceram como, como aconteceu, mas a-- naquela época, pensando como aquele garoto, da, no, naquele momento, naquela fase, difícil responder. Só sei que eu não voltei. [45:14] Participante A minha opinião, tá? [45:15] Daniel Nascimento Uhum. [45:16] Participante Com essa sua resposta, eu acho que talvez, se você passasse por uma situação difícil, você voltaria, porque é uma coisa que você sabe fazer. Então eu acho que você, se você passasse fome hoje, por exemplo, perdesse tudo, vamo supor, não tivesse mais empresa, não sei se você tem algumas- [45:32] Daniel Nascimento Claro [45:32] Participante ...cê tem algumas empresas, falisse tudo. Eu duvido que com o talento que você disse que você tem, você não voltaria a fazer golpes. [45:39] Daniel Nascimento Você não faria o mesmo? [45:42] Participante Eu não sei hackear, então [riso] eu não faria. Mas assim- [45:46] Daniel Nascimento Ex-existe um ditado que sempre quem tá se afogando tenta levar alguém junto, tá? Então numa situação difícil, uma situação precária, onde minha família tá sendo prejudicada, alguém tá sendo prejudicado, claro que você vai se defender, isso é óbvio. [46:00] Participante É, mas tem outras formas, né? Cê pode trabalhar de outra forma- [46:02] Daniel Nascimento Não, mas não, você- [46:03] Participante ...você não precisa necessariamente voltar a hackear [46:04] Daniel Nascimento ...você me colocou numa situação, você disse caótica, situação difícil, aí é uma, aí é outro, outra coisa. [46:10] Participante Entendi. [46:11] Daniel Nascimento Também pode ser que não, pode ser que a minha vida esteja toda estragada, mas se eu tenho um filho, eu não vou deixar meu filho sofrer. Entendeu onde eu quero chegar? [46:18] Participante Então quer dizer que você voltaria. Pelo menos na minha visão. [46:22] Daniel Nascimento Se nece- se necessário, numa situação caótica- [46:25] Participante Então ele acabou de me assumir que ele voltaria [46:27] Daniel Nascimento ...numa situação caótica, sim, eu vou ser hipócrita. Pô, cê-cê-cê-cê-cê tem uma pessoa, cê tem uma pessoa, cê tem uma pessoa passando fome, você não tem emprego, você não tem um trabalho, você vai deixar seu filho daquele jeito? Foi essa a pergunta, essa colocação. Sim, eu não iria deixar. [46:46] Participante Não, mas você poderia ter respondido que cê- [46:48] Daniel Nascimento Eu, eu- [46:49] Participante Mas cê tentaria algum caminho antes ou cê já iria pro, pra, pra- [46:50] Daniel Nascimento Claro, não, você, voc-você me colocou numa posição, você me colocou numa posição como se eu não tivesse um caminho. Que isso fique muito claro. [aplausos] [47:05] Participante Olho no olho. Boa tarde. [47:08] Daniel Nascimento Boa tarde. [47:10] Participante Meu nome é Érica Simões. Prazer, hacker. Tudo bem? [47:16] Daniel Nascimento Tudo ótimo. [47:17] Participante Vamo lá. Dezesseis anos. Cê tem mãe? [47:22] Daniel Nascimento Tenho. [47:23] Participante Quantos anos cê tem? [47:24] Daniel Nascimento Trinta e sete. [47:25] Participante Eu tenho cinquenta e dois. [47:26] Daniel Nascimento Não parece. [47:27] Participante Oh, brigada. Meu filho, vou te falar de filho porque você tem idade pra ser meu filho. Dezesseis ano de idade. Cê teve criação de pai, mãe, família. Cê já roubou a tua família? [47:43] Daniel Nascimento Não. [47:43] Participante Nunca pensou em roubar a tua família? [47:45] Daniel Nascimento Não. [47:46] Participante Mas os outros sim. Aí pensa, eu como mãe, você com dezesseis, lá atrás, claro que eu mais nova um pouco, aliás, mais velha um pouco, eu com uma bebê no colo. O único dinheiro que eu tinha naquela época, vamos se dizer, pro leite do meu bebê, cê entra na minha conta e rouba. [48:10] Daniel Nascimento Uhum. [48:11] Participante Cê nunca parou pra pensar que você tava roubando, tanto mãe como pai, o por quê? Por quê? A minha pergunta é o porquê. Não é o porquê você "ah, porque eu estudei, ah, porque eu não sei o quê, porque eu tive, é, família, porque a minha mãe me criou, meu pai me criou, porque eu nunca passei fo--" nunca passou fome, mas roubou. Cê roubou. Por quê? Cara, por quê? É isso que eu queria entender. Eu tô ali, eu, eu vi, é, eu tô ouvindo, ouvindo, a minha pergunta é: por quê? [48:50] Daniel Nascimento Olha, eu teria que voltar no tempo pra responder essa pergunta [48:53] Participante Não, não, não. Cê vai responder agora, cê não vai voltar no tempo [48:55] Daniel Nascimento Responder agora? [48:56] Participante Cê vai responder agora [aplausos]. Cê vai responder agora. Agora [49:03] Daniel Nascimento Por que naquela época? Porque eu quis [49:05] Participante Não, não. Não é porque você quis [49:07] Daniel Nascimento Ah, não, mas aí você tá colocando palavras na minha boca- [49:09] Participante Não, eu não tô colocando palavras [49:09] Daniel Nascimento ...então cê responde por mim. Responde por mim então [49:12] Participante Você tem motivo. Qual foi o motivo? [49:14] Daniel Nascimento Cês não querem saber os motivos- [49:16] Participante Claro que eu quero- [49:16] Daniel Nascimento Ah, você- [49:16] Participante ...eu tô aqui sentada. Não- [49:18] Daniel Nascimento Ah [49:18] Participante ...eu tô aqui de frente a frente como mãe- [49:20] Daniel Nascimento Não [49:20] Participante ...eu sou mãe [49:21] Daniel Nascimento Já me chamaram aí de, de, de-- como é que é? Vítim-vitimizando, coitado. Não sou nenhum coitado, sabe? [49:28] Participante Você não é coitado [49:28] Daniel Nascimento Mas eu não vou chegar no motivo. Não vou chegar em motivo nenhum [49:31] Participante Não, você não é coitado, você não é a vítima, a vítima tá aqui. Você não é um coitado, você teve criação, certo? Naquela época, lá atrás, eu era um pouquinho mais velha que você, com uma bebê de colo [49:48] Daniel Nascimento Uhum [49:49] Participante Naquela época, Maluf, na época, né? Pois é, pra mim poder ter um-uma grana, um trabalho, era difícil lá atrás. Pra você nem tanto, porque você teve criação, mas a minha mãe me criava pra mim criar minha filha. Cê entendeu? [50:09] Daniel Nascimento Sim [50:10] Participante Então assim, eu ajudava minha mãe, minha mãe ajudava minha filha. Eu tinha uma conta, eu tinha um dinheiro, cê foi lá e blau [50:18] Daniel Nascimento Eu não, não lembro de blau nas suas contas, não [50:20] Participante Tudo bem, você não lembra, mas você roubou. Independente do, do, da época que passou de lá atrás, agora, hoje você tá trabalhando como segurança. Aí você acabou de falar que se fosse necessário, cê hackeava de novo? Cê hackearia de novo? [50:37] Daniel Nascimento Se sua filha tá passando fome, você não tem opção de emprego nenhum e você tem o conhecimento, você não faria o mesmo? [50:41] Participante Não [50:42] Daniel Nascimento Que bom [50:43] Participante Sempre trabalhei. Hoje eu trabalho com produção de evento. Trabalho com vários seguranças ao meu redor, vários. Tá meu celular lá dentro. Eu tenho um grupo de segurança [50:54] Daniel Nascimento Então meus parabéns pra você [50:55] Participante Muito obrigada. Mas eu não faz-- não, não roubaria. Graças a Deus, nunca precisei roubar nada de ninguém. Você se acha melhor que todos aqui que estão ao seu redor e qualquer outro segurança? Você se acha melhor? [51:08] Daniel Nascimento Não, eu me acho um cara muito bom na minha área [51:10] Participante Hacker [51:11] Daniel Nascimento De segurança da informação, segurança da informação. Hacker foi vinte anos atrás [51:15] Participante Mas você falou que se você tivesse um filho- [51:17] Daniel Nascimento Falei que se eu tivesse um filho- [51:18] Participante Você faria [51:19] Daniel Nascimento ...faria e faria melhor do que naquela época ainda. Aí que beleza [51:22] Participante A minha vontade [riso] é de pegar essa unha e apertar o teu rosto [51:29] Participante Pode jogar a cadeira [51:29] Participante Como mãe, juro pra você [51:32] Participante Pó [51:32] Participante A minha vontade-- eu sei que cê tá tremendo, que cê tá nervoso. Aliás, aliás, como mãe, eu só vou te pedir um favor: não roube mais ninguém. Não roube, de coração [51:45] Daniel Nascimento Não tenho essa intenção. Eu faço o contrário [51:47] Participante Graças a Deus [51:48] Daniel Nascimento Inclusive trabalho muitos trabalhos sociais com meninos que não têm condições- [51:51] Participante Graças a Deus [51:52] Daniel Nascimento Tá? Que foi o caso aí que você contou. Eu não faço mais isso, mas... [51:56] Participante Te parabenizo- [51:58] Daniel Nascimento Mas- [51:58] Participante ...mas não ensina. Deixa passar o tempo, não ensina ninguém fazer isso. Claro que algum-alguém vai te perguntar: "Ah, tem como você me ensinar?" Não ensina [52:07] Daniel Nascimento Mas eu não- [52:08] Participante Isso machuca, isso dói, isso prejudica tanto, tanto, cê não faz ideia. Só esse me-- eu-eu sou uma aposentada por morte do INSS. Eu já tomei três golpe, três golpe e não consegui recuperar um. Já não sei o que-- já não sei o que os idosos estão passando. Então assim, hackers tá lotado [52:33] Daniel Nascimento É, mas o problema- [52:33] Participante Na verdade, perdão, naquela época não era nem hacker, era Raul [riso]. Era Raul, você sabe disso, era Raul- [52:41] [riso] [52:41] Participante ...não era nem hacker. Era Raul [52:43] Daniel Nascimento O, o problema- [52:43] Participante Era Raul [52:43] Daniel Nascimento ...o problema do INSS não tem nada a ver com hacker, não [52:45] Participante Pronto. Tudo bem, pode até não ter, mas naquela época era Raul, você sabe disso, era Raul, certo? Não deixa de ser hacker o Raul. Rouba do mesmo jeito. O INSS, mesma coisa, tá roubando dos idosos do mesmo jeito. Mas é uma coisa que eu te peço encarecidamente: não ensina, não rouba mais ninguém. Mas eu vou te parabenizar pelo que você tá fazendo agora, pelo seu projeto social, por você tá trabalhando como segurança, entendeu? Se-- pode ser que você não s- você se considere "eu não sou mais que ninguém" ou que você seja mais que alguém por ter um QI a mais, por entrar na conta de alguém- [53:24] Daniel Nascimento Eu vou- [53:24] Participante ...mas não rouba mais ninguém [53:25] Daniel Nascimento Eu, eu vou fazer uma colocação, é que a gente tá falando muito de roubo, roubo, roubo, roubo, roubo- [53:29] Participante Sim [53:29] Daniel Nascimento ...o dinheiro, roubo, o dinheiro, roubo. Olha, tem noção de quantas pessoas estão sofrendo com vazamento de fotos, menininha mandando foto com menininho na escola e aí vaza uma menininha, aí nua, e a menina quer se matar? [53:43] Participante O que é pior pra você- [53:44] Daniel Nascimento O, o que- [53:44] Participante ...o vazamento de foto ou tirar o dinheiro da conta de alguém? [53:48] Daniel Nascimento Vazamento de foto, porque eu já vi gente morrer por causa disso, se matar por causa disso, criança se matando por causa disso. Dinheiro não mata. Dinheiro não mata, vamos e venhamos [53:57] Participante Dinheiro não mata- [53:58] Daniel Nascimento Tá [53:58] Participante ...mas ele faz falta [53:59] Daniel Nascimento Ima-imagine seu filho ou sua filha exposta [54:03] Participante Ok, o dinheiro- [54:03] Daniel Nascimento Você destrói a vida da pessoa [54:04] Participante O dinheiro não mata- [54:06] Daniel Nascimento Não [54:06] Participante ...mas ele faz falta [54:07] Daniel Nascimento Com certeza [54:08] Participante Eu concordo com as-- eu concordo literalmente porque eu tenho uma neta de oito anos de idade e eu não exponho ela na internet, mas o dinheiro faz falta. Parabéns [aplausos] [54:18] Daniel Nascimento Boa tarde. [efeito sonoro] Tudo bem? [54:29] Participante É, começando aqui, eu sinto que cê tá meio incomodado com as perguntas que todo mundo tá fazendo aqui, né? Que tá seguindo pra um lado que você não queria tá trabalhando [54:43] Daniel Nascimento Tô aqui pra responder, eu respondo. O que, o que me perguntarem pra mim, eu vou responder. É claro, não, tem coisa que incomoda, né? A gente tem noção, né? [54:50] Participante Certo É, eu queria só lembrar da posição que você se colocou aqui, citando com a gente aqui, pessoas que sofreram golpes. Eu sei que você tá com esse pensamento de, é, todo mundo aqui tá se vitimizando e você é o lobo mau, mas você se colocou aqui pra responder conforme essa pauta. Nós somos pessoas que sofremos, é, golpes, fomos vítimas desses golpes e a gente queria ouvir o seu lado a respeito disso. Eu sei que não tá indo prum lado muito explicativo com o que eles tão tratando, mas é você que se colocou nessa posição. Eu tenho dezenove anos, é, quando eu tinha dezessete pra dezoito, eu sofri um golpe, é, foi num valor abaixo, acho que esse é o benefício de ser pobre, não, não tem limite pra estourar tanto assim. Mas eu queria saber de você, se você tinha essa, é, escala de pensamento sobre tipo, é, roubar duma pessoa idosa a um milionário. Que eu não sei qual foram os níveis de pessoas que você chegou a aplicar esse golpe, se foram em pessoas mais carentes ou de pessoas com mais alto nível. [56:17] Daniel Nascimento Bom, voltando a falar do gol-- de golpe de novo. Vinte anos atrás, eu não, eu não me… Eu nunca fiquei vendo se era pessoa de idade ou se era pessoa mais nova, se era pessoa mais velha, eu realmente não, não fazia essa distinção. O que vinha eu fazia, entendeu? [56:34] Participante Certo [56:34] Daniel Nascimento Não tinha distinção de idade, gênero, sexo ou patamar financeiro. Nunca- [56:40] Participante Pra você, naquela época, era só um jogo, você mencionou isso. [56:43] Daniel Nascimento Pra mim era só um jogo, como naquela época, sim. Falando daquela época, sim. [56:47] Participante E como você se sentia estando dentro desse jogo? Era uma sensação de poder? Era uma ganância sua? [56:57] Daniel Nascimento Talvez, talvez um pouco disso, sim. [56:58] Participante Cê não acha que você ainda tá dentro desse jogo, indiretamente? [57:02] Daniel Nascimento Se eu tivesse dentro desse jogo, vai por mim, eu não taria aqui respondendo pergunta. [risos] [57:05] Participante Eu acredito que sim. [57:06] Daniel Nascimento É. [57:06] Participante Você tá promovendo… [vinheta] Prazer, meu nome é Wellington. [57:16] Daniel Nascimento Tudo bem, Wellington? [57:16] Participante Tudo bem? [57:17] Daniel Nascimento Você tava falando de ansiedade, né? [57:19] Participante É. [57:19] Daniel Nascimento Eu ouvi a palavra, meio… [risos] [57:21] Participante Cara, é, eu vou ser bem honesto com você. A gente cresceu praticamente na mesma época. Sou um pouquinho mais velho que você, acho que dois anos. E a gente tava, eu tava discutindo aí com a galera sobre, é, empatia. E eu percebi, nas suas falas, que você demonstrou que não tem empatia. Na verdade, você não se arrependeu. Na verdade, eu acredito que você tá enxergando isso como um tabuleiro do qual você continua sendo a rainha, que você tá conseguindo dominar ainda os seus colegas, que você falou que conversa com eles e ainda tem, tem um diálogo, de certa forma. [58:02] Daniel Nascimento Como assim colegas? Eu não entendi essa parte. [58:04] Participante Os colegas hackers que você tinha na sua época. [58:06] Daniel Nascimento Ah, sim. [58:06] Participante Entendeu? Então você ainda quer tá no suprasumo, você quer tá ainda no topo. E eu percebi que em todas as suas falas, você sempre enaltece muito o seu trabalho, entendeu? Como se fosse algo muito, tipo, fora da curva. Realmente é fora da curva, né? E você diminui muito a, a parte do estelionato, né? Porque realmente estelionato é menor, né, então não a-abrange pessoas como todos aqui acabaram sendo vítimas. E você busca muito mais aquele banco, aquela, aquela coisa que é mais desafiadora pra você, pra você sempre se sentir no topo. De fato, é isso que você sente? Você se sente sempre na se-necessidade de se sentir sempre acima dos outros? [58:57] Daniel Nascimento Nunca me coloquei acima de ninguém, em nenhuma fala minha, em nenhuma fa-- de nenhuma maneira. [59:02] Participante Não, eu acho que sim, porque toda via que você falou qualquer coisa aqui- [59:07] Daniel Nascimento Não [59:07] Participante ... especialmente quando as pessoas discutiram: "Ah, mas isso aqui é crime". A primeira, a primeira coisa que cê falou: "Não, isso aqui não é crime, eu não cometi crime". Aí depois você volta atrás quando alguém vai e fala pra você: "Mas pô, você acabou tirando dinheiro". Tá certo que você tirou de instituição, que enfim, é, eles vão lá e depois eles, eles, eles se restabelecem. Mas aí acaba realmente estimulando, né, pessoas que vão cometer estelionatos, que vão roubar, entendeu, o dinheiro de pessoas que precisam comprar casa, que precisam comprar remédio, que precisam… Isso acaba estimulando sempre, entendeu, crimes menores. E aí, de certa forma, você conseguiu fazer com que isso viasse mais a público, né? Porque você foi o primeiro, como você bem disse. E vai ter um filme seu agora. E esse filme agora seu não vai estimular mais pessoas, entendeu, a querer ir pra esse universo? [1:00:07] Daniel Nascimento Eu acho que a hora que virem, verem as cenas de, é, um pai chorando, uma mãe des-desconstruída, quatro sequestros, polícia prendendo, acabando com a tua vida, te expondo, te jogando a sua cara na televisão, te chamando de… Eu acho que talvez o cara que esteja indo pra esse caminho, talvez ele pense duas vezes, porque tudo que você faz tem consequências. [1:00:31] Participante Não, aí eu- [1:00:31] Daniel Nascimento Entende? [1:00:32] Participante ... eu entendo que realmente esse, esse tipo de conteúdo vai mostrar também uma realidade que você acabou passando. Só que assim, sendo bem honesto, as pessoas tão pouco se lixando. [1:00:43] Daniel Nascimento É verdade. [1:00:44] Participante Entendeu? [1:00:44] Daniel Nascimento É verdade. [1:00:44] Participante Eu percebo hoje que as pessoas tão pouco se lixando pra outra. O que importa é o dinheiro no bolso delas. [1:00:50] Daniel Nascimento Isso. [1:00:51] Participante Agora fica uma, fica uma, uma, uma dúvida minha: pra você importar o dinheiro [1:00:56] Participante Ou pra você importar o status de você conseguir burlar todos os sistemas e conseguir o que você queria e estar acima dos seus amigos? [1:01:04] Daniel Nascimento O problema de eu responder isso é que você vai levar no sentido como se fosse hoje em dia, mas não. Pra mim é o status, era o, o, o-- não status como pessoa, eu digo o status do desafio de fazer aquilo. É isso que era. [1:01:16] Participante Mas era o seu desafio- [1:01:16] Daniel Nascimento Esse era o motivo. [1:01:17] Participante Mas era o seu desafio pessoal? Você se sentia tipo autossuficiente fazendo isso, né, a, no sentido de tipo: "pô, cara, agora eu tô acima de todos". [1:01:27] Daniel Nascimento Não, não, não, eu nu-nunca me coloquei acima de ninguém. É como eu disse, eu sou bom na minha área do que eu faço. [1:01:33] Participante Uhum. [1:01:34] Daniel Nascimento Eu não sou melhor que ninguém, se-- que ser humano nenhum. Eu sou bom na minha área, só isso. [1:01:39] Participante E na sua área que você é bom, entendeu, você hoje, você, né, como cê também falou, vocêêê trabalha com cibersegurança, certo? [1:01:48] Daniel Nascimento Também, também. [1:01:49] Participante Também, né? E aí quando-- vou fazer essa pergunta que fiquei curioso também, quando seus colegas, né, de época de hacker tentam atacar alguma coisa que você-- como é que é isso, entendeu? Como é que funciona esse universo? [1:02:06] Daniel Nascimento Praticamente não existe mais comunicação. Como eu disse nessa fala, viraram as costas, porque eu trilhei outro caminho. [1:02:13] Participante Vocês escolheram um outro lado. [1:02:14] Daniel Nascimento Exatamente. [1:02:15] Participante Hã. [1:02:15] Daniel Nascimento Então eu não sou de confiança pros caras, tendo em vista que eu atuo com pedofilia, eu atuo com vazamento de, de, de, de dados, de fotos, então eu sempre tô com o Ministério Público ou com a própria polícia trabalhando junto com eles. Então o cara que tá fraudando- [1:02:30] Participante Essa própria polícia aqui também- [1:02:31] Daniel Nascimento O cara que tá fraudando, ele não vai querer tá do meu lado. [1:02:34] Participante Não, sim. [1:02:34] Daniel Nascimento Cê entende? [1:02:35] Participante Concordo. Entendeu? Ou, ou também tem o outro lado também que às vezes, né, e acontece muito, infelizmente, de desvio de conduta também, que às vezes a pessoa vai lá, acaba fazendo o quê? Acaba indo pro lado errado porque aí ela consegue passar pro, pra quem tá fazendo, cometendo o crim-o crime, informações que são informações que só ela tem- [1:03:01] Daniel Nascimento Uhum [1:03:02] Participante ...né, acesso. [1:03:04] Daniel Nascimento É, isso pode acontecer, sim. [1:03:06] Participante E você acha que hoje você correria esse risco? [1:03:10] Daniel Nascimento Do quê, exatamente? [1:03:12] Participante De fornecer acesso pra, pra uma galera que você antes tinha contato? [1:03:17] Daniel Nascimento Não, nem, nem um pouco, nenhum. Zero. [1:03:21] Participante Tá bom. Fico feliz aí pela sua, suas respostas, tá bom? [1:03:25] Daniel Nascimento Eu fico feliz pelo seu respeito na conversa. Muito obrigado. [1:03:28] Participante De nada [aplausos]. [1:03:38] Participante [efeito sonoro] Tudo bem? [1:03:39] Daniel Nascimento Olá. [1:03:40] Participante Prazer, eu sou a Gabriela. [1:03:41] Daniel Nascimento Daniel [riso]. [1:03:42] Participante Aqui foi falado sobre o seu golpe que você cometeu lá no passado, certo? Mas eu tenho uma dúvida: você teve que manipular alguém maior que você pra cometer esses erros ou não precisou? [1:03:55] Daniel Nascimento Pode-- como assim manipular alguém pra cometer erros? Cê disse- [1:03:59] Participante O seu crime, você precisou manipular alguém maior que você ou não precisou? Ou você cometeu sozinho? [1:04:05] Daniel Nascimento Não, foi uma organização, né? Eu f- eu fui, é, cooptado, então assim, me pu- me puxaram pra essa organização na época, então, inclusive eu, a pessoa que era líder dessa organização respondeu um crime chamado corrupção de menor, que era menor de idade. [1:04:22] Participante Tá. [1:04:23] Daniel Nascimento Então é o contrário. [1:04:24] Participante Tá, você sempre tem uma justificativa pra tudo que a gente falamos aqui, né? [1:04:27] Daniel Nascimento Graças a Deus [riso]. [1:04:28] Participante Sim. Você se considera uma pessoa manipuladora ou narcisista? [1:04:33] Daniel Nascimento Não. Por quê? Você me considera assim? [1:04:38] Participante Pelo seu comportamento, é porque eu vi que eu sou terapeuta, né, então- [1:04:41] Daniel Nascimento Que legal [1:04:42] Participante ...pelo seu comportamento eu percebi que você tem um pouco de narcisismo, né? Não estou te julgando. [1:04:47] Daniel Nascimento Imagina. [1:04:47] Participante Você não tenha isso como julgamento, mas eu percebi isso em você. [1:04:51] Daniel Nascimento É legal ter esse diagnóstico. [1:04:53] Participante Tá bom. É, você-- eu tenho também outra dúvida também. É, você, tipo, ajudaria alguém aqui de nós pra redimir pelo aquilo que você fez ou cometeu? [1:05:04] Daniel Nascimento Com certeza, eu tenho uma proposta. [1:05:06] Participante Ah, sim. [1:05:08] Daniel Nascimento Quem [riso]-- quem quiser fazer um curso comigo pra se profissionalizar na área de segurança da informação, eu vou ter o maior prazer em colaborar. [1:05:16] Participante Isso é bastante legal. [1:05:17] Daniel Nascimento E aplicar, e aplicar aulas e faz-- criar um material pra isso, quem quiser. [1:05:21] Participante Você cometeria e-- o mesmo erro do passado ou não? [1:05:25] Daniel Nascimento Não. [1:05:26] Participante Por quê? [1:05:27] Daniel Nascimento Não tem necessidade disso, pra quê? [1:05:30] Participante Mas você disse outra hora que se precisasse você faria. [1:05:32] Daniel Nascimento Gente, gente, vamo, vamo, va-vamo acertar isso. A pessoa que sentou aqui falou pra mim: "Se você tivesse num caso extremo de necessidade". Aí o que que é o extremo pra mim? Não sei pra ela, eu vou falar pra mim. [1:05:43] Participante Eu tenho uma filha de sete anos e eu já trabalhei até de doméstica. Hoje eu trabalho como promotora de eventos e eu não precisei roubar ninguém. [1:05:50] Daniel Nascimento Que bom, fico feliz. Eu também não precisei roubar ninguém [riso]. [1:05:53] Participante Mas outra hora, outra hora- [1:05:54] Daniel Nascimento Não foi por necessidade que eu roubei [riso] [1:05:56] Participante Outra hora lá atrás você rou- você precisou roubar [1:05:58] Daniel Nascimento Roubei, roubei, mas não foi por necessidade, entende? [1:06:00] Participante Tá, e de to- [1:06:01] Daniel Nascimento Eu, eu, eu não tenho, eu não tenho uma história triste de vida. [1:06:03] Participante Aham. [1:06:04] Daniel Nascimento Pra falar: "ah, eu fiz isso, eu fiz aquilo, tadinho de mim". Negativo. [1:06:07] Participante Você se considera alguém assim... [1:06:10] Participante Licença, Marina. Calma. [1:06:15] Participante [efeito sonoro] [risada] Depois vocês assistam aí. Tudo bem, tudo bem [riso]. [1:06:21] Participante Obrigada. [1:06:22] [riso] [1:06:25] Participante Oi, boa tarde, eu sou a Marina. [1:06:27] Daniel Nascimento Oi, boa tarde, Marina. [1:06:28] Participante É, eu tenho uma dúvida, não sei se você vai poder responder, mas qual foi a brecha que o banco deu ou qual foi a maior brecha, assim, porta de entrada que você viu ali como um alvo fácil pra você e você falou: "Agora vai"? [1:06:48] Daniel Nascimento É, o banco em si, eu não vou ficar falando o nome dele. [1:06:51] Participante Aham. [1:06:51] Daniel Nascimento Ele criou na época um sistema chamado cadastramento de computador, onde o MAC Address, no caso o RG ou CPF da máquina, ia cada-- e, ela, ela era, era cadastrado e você tinha que ir até um caixa eletrônico pra autorizar esse, essa invasão, esse acesso. [1:07:05] Participante Uhum. [1:07:06] Daniel Nascimento Só que eles criaram um sistema perfeito pra web, pra computador, enfim- [1:07:10] Participante Tá [1:07:10] Daniel Nascimento ...e se esqueceram da intranet Que na época era a internet dos celulares, dos smartphones [1:07:15] Participante Aham [1:07:15] Daniel Nascimento Motorola V300, Motorola V3, acho que não é da sua época isso [1:07:18] Participante É, eu, sim, eu lembro [riso] [1:07:20] Daniel Nascimento Cê lembra? [1:07:20] Participante Lembro [1:07:21] Daniel Nascimento Então, aí a partir dali a gente conseguia fazer o acesso direto ao banco de dados do banco [1:07:27] Participante Aí então era mais um, foi mais um erro do banco- [1:07:31] Daniel Nascimento É [1:07:31] Participante Que cê fala [1:07:32] Daniel Nascimento Um erro do banco [1:07:33] Participante Aí você culpa-- entendi. E outra-- acho que vai, que vai embora [1:07:38] Daniel Nascimento Sei lá [1:07:39] Participante Maria! [1:07:40] Participante Tá [som de alerta] [1:07:45] Daniel Nascimento Vai lá, bora eu vou, cara [risos] [1:07:50] Participante Brincadeira, brincadeira [riso] [1:07:56] Participante Hã, boa tarde, meu nome é Sara. É, eu analisei alguns pontos de você que eu não concordo, principalmente na parte da biografia. Cara, isso pra mim não é legal, porque ela mostra que as pessoas fez coisas erradas lá atrás, agora tá agindo como tudo estivesse normal. Possa ser que sim, mas pra mim mostra que qualquer pessoa que faz alguma coisa errada lá, vai presa, apanha, faz tudo que aconteceu lá dentro da cadeia, que não é uma coisa muito legal [1:08:23] Daniel Nascimento Eu não fui pra cadeia, tá? Eu não fui pra uma cadeia [1:08:25] Participante É, não, sim, mas que cê apanhou lá [1:08:27] Daniel Nascimento Fui sequestrado pela polícia, mas tudo bem [1:08:28] Participante Isso. Eu não acho um ponto legal porque mostra pra pessoa que ela pode fazer, cometer erros, não você, mas outras, outras situações que eu já vi, a pessoa vai presa, sai, faz uma biografia, faz, é, seriados, coisas e tal. Eu não concordo com isso. Não concordo também com a situação de que você disse que idosos, digamos assim, não têm, é, como que eu posso dizer a palavra correta? É, informações. Não vai atrás das informações. Cê falou assim, que eles mandam mensagem no celular avisando [1:09:02] Daniel Nascimento Ééé, só, só, galera, só quero fazer uma colocação, acho que é, sei lá se vai dar maioria aí já [1:09:08] Participante Já deu [risos] [1:09:09] Daniel Nascimento An-antes, antes de você julgar um livro pela capa, leia o livro, tá? Você não leu minha biografia pra você vir com todo esse julgamento pra cima de mim. Então leia a biografia, eu posso mandar um livro pra você [1:09:19] Participante Ótimo [1:09:19] Daniel Nascimento E aí você faz o julgamento [1:09:20] Participante Ok [1:09:22] Participante Aê [aplausos] [1:09:31] Daniel Nascimento Opa, tudo bem? Como vai? [1:09:32] Participante Beleza, prazer, Fábio, tudo bem? [1:09:33] Daniel Nascimento Daniel [1:09:34] Participante Pô, cara, bacana. Eu tô te observando aqui, achando que você tem uma história diferente. A super, é, uma pessoa que tem muitas possibilidades, teve possibilidades. Há duas per-- uma observação que eu achei interessante que eu fiquei observando: cara, é, eu vejo que cê tá num processo muito, muito pessoal de evolução, que eu acho muito bonito. Acho que as pessoas têm que, é, merecem uma segunda chance, isso é bonito no ser humano, no processo de vida, etc e tal. Acho que é importante a gente assumir os nossos erros, acho que isso faz parte do crescimento. Não é, não é nenhuma crítica, é uma observação mesmo. Isso faz parte do crescimento pessoal, de entender mais que o que você fez realmente foi uma coisa que não foi benéfica. E é ruim sa-- entender isso, mas é uma coisa que não foi benéfica. Queria perguntar uma outra coisa também. É, vo-- a, cê faria de novo naquela época? Você usa-- o dinheiro, o que aconteceu com o dinheiro? Qual que foi, qual que foi o lance da grana? [1:10:26] Daniel Nascimento O dinheiro foi confiscado [1:10:27] Participante Cê não se viu nada da grana? [1:10:28] Daniel Nascimento Não, não, na, no momento que tava acontecendo tudo aquilo, sim. No momento que a Polícia Federal, a Justiça, enfim, embargou tudo, não tinha mais, não tinha mais acesso àquele dinheiro. É, não é à toa que os números, o processo é público, é só pesquisar e ver [1:10:44] Participante Entendi. A, isso pra fechar, o negócio eu digo rápido [1:10:47] Daniel Nascimento Uhum [1:10:48] Participante É, eu acho que é legal, cara, na, no final acho que as pessoas têm a oportunidade de, de recomeçar. Mas eu acho que é legal a gente assumir até prum processo pessoal mesmo, sabe? [1:10:56] Daniel Nascimento Acho muito legal isso, Daniel [1:10:57] Participante É, eu também acho. De poder se regenerar, entende? Eu também faço análise há muito tempo e eu acho que é legal a gente enfrentar de frente um problema. Vejo que você tá numa evolução constante de tentar entender esse processo seu. Acho muito legal essa abertura de você vim aqui bater, fazer um filme, etc e tal, e se esplan 데cer. A, eu acho que é isso que eu queria falar, acho que é importante você, você passar por isso [1:11:16] Daniel Nascimento Não, e, e legal você dar essa abertura, porque eu admito uma coisa pra você: é mais difícil assumir do que cometer as fraudes [1:11:23] Participante Eu percebi [1:11:23] Daniel Nascimento Só que as pessoas só veem aquilo. O cara roubou, o cara tirou o dinheiro, não vem nada, não tem nada [1:11:28] Participante Mas é importante você entender- [1:11:28] Daniel Nascimento Mas eu não ligo [1:11:29] Participante Não, uma coisa, uma coisa importante também, rapidinho eu já vou sair- [1:11:31] Daniel Nascimento São julgamentos [1:11:32] Participante Que todo mundo que tá aqui também sofreu muito com isso, entendeu? [1:11:35] Daniel Nascimento É, entendo [1:11:35] Participante E a dor das pessoas também são reais, sacou? [1:11:37] Daniel Nascimento Mas eu não sou culpado de tudo, né? [riso] [1:11:39] Participante Cara, você falar que você não é o culpado, é, é uma falha, cara, porque é o seguinte: o sistema é falho, mas você fez porque você quis. Tem que assumir, cara [1:11:47] Daniel Nascimento Sim, e eu assumo [1:11:48] Participante Você tem que falar, tipo assim: "Eu fiz isso porque eu queria fazer" [1:11:50] Daniel Nascimento Mas a pessoa que foi fraudada tem que assumir também que sofreu a fraude. Vou fazer o que, que culpa eu tenho? [1:11:54] Participante Mas cara, é uma culpa, você que fez, você que tá errado, não a pessoa que, que sofreu, entendeu? A pessoa tava fragilizada [1:12:00] Daniel Nascimento Entendo, entendo [1:12:01] Participante Por um, por uma falta de não conhecimento [1:12:03] Daniel Nascimento Entendo [1:12:03] Participante Não adianta você colocar, por exemplo, aquela pessoa é fraca, então eu vou bater nela porque ela é fraca. Mas por que que eu vou bater nela? Ah, porque ela não tem condições físicas, que eu vou bater nela porque ela é fraca. Eu acho que eu tô te falando uma coisa de coração, é importante você entender [1:12:13] Daniel Nascimento Não, legal, legal, legal [1:12:14] Participante Entendeu? Tô sendo muito honesto. É importante você entender: "Cara, passou, mas cara, eu errei, eu prejudique-prejudiquei pessoas, as pessoas que tão aqui, todo mundo sofreram com isso, foi sério, atrapalhou na família, atrapalhou no alimento de casa, atrapalhou no estudo, atrapalhou em várias ocasiões". A, é importante entender, mas eu acho que é plausível o que cê vem fazendo, tomara que seu filme seja bacana etc e tal, é isso [1:12:33] Daniel Nascimento Valeu, obrigado [1:12:33] Participante Valeu, um abraço [aplausos] [1:12:43] [som de alerta] [1:12:43] Participante Boa tarde [1:12:44] Daniel Nascimento Boa tarde [1:12:45] Participante Meu nome é Daiane, eu sou professora interlocutora de Libras [1:12:50] Daniel Nascimento Não [1:12:50] Participante E achei interessante o filme que você participa e eu gostaria de saber se você vai participar diretamente, é, nesse filme ou serão autor, atores, é, pra atuar nesse filme [1:13:05] Daniel Nascimento Não, eu não, eu não interpreto. É, até, é até legal falar sobre isso, que teve um, teve um caso que teve um dado momento que me chamaram pra fazer um, um policial que estava prendendo o Daniel [1:13:16] Participante Uhum [1:13:16] Daniel Nascimento Dentro do filme. Mas eu não me considero, é como eu te disse, eu respe-- como eu disse pra todo mundo, eu Gosto de trabalhar na minha área, eu não sou ator. Então acho que ali, ali não foi o momento pra eu, pra, não era o momento pra eu participar do filme. Pessoas mais qualificadas, pessoas que é da área, né, que deve- que devem fazer esses papéis no filme. [1:13:34] Participante Sim. Com esse movimento todo do filme, com certeza vai ter muito dinheiro envolvido. Eu gostaria de saber se você teria a sensibilidade de ressarcir ou de devolver pelo menos uma parte do dinheiro que você hackeou, que você roubou das pessoas, que muitas vezes as pessoas, é, são pessoas doentes que precisavam de dinheiro pra poder comprar remédio, pagar um tratamento, é, fazer um tratamento de uma criança ou um idoso de educação especial, que eu sou professora de educação especial, muitas pessoas precisam. Eu gostaria de saber se você faria isso. Hoje, você pesquisaria, como você é um bom hacker, se hoje você pesquisaria alguma dessas pessoas que você possa ter conhecimento e devolver esse dinheiro para essas, essas pessoas. [1:14:24] Daniel Nascimento Todo esse dinheiro já foi devolvido em 2005. [1:14:27] Participante Uhum. [1:14:28] Daniel Nascimento Tudo foi ressarcido, cada centavo. [1:14:30] Participante Sim. [1:14:30] Daniel Nascimento Por determinação de ordem judicial do TRF quatro, no Rio Grande do Sul. Tudo, tudo foi devolvido. [1:14:38] Participante Obrigada. [1:14:38] Daniel Nascimento Imagina. [som de sinalizador] Opa, tudo bem? [1:14:47] Participante Beleza. Gostei do que cê falou aí, tinha uma, tinha uma parada ali que respeito os passos dos atores, achei isso maneiro. E no outro debate que cê teve com a moça ali, eu vi que você falou que lá no Sul, antigamente, cê era muito metralhado, era-- sistema também não era legal lá. Eu queria entender como é que era o Daniel nessa época, por que que cê era metralhado naquela época? [1:15:08] Daniel Nascimento É, metralhado, cê diz, diz, diz o sentido de qual- [1:15:11] Participante Não sei se foi essa frase. [1:15:13] Daniel Nascimento Ah, sim, sim, sim, sim. Julgamentos que eram feitos. Julgamentos que eram feitos e não tem nada a ver com o hacker, tá? Isso antes do hacker. Coisas que eu acredito que ajudaram a formar o hacker. É, raiva, rebeldia, revolta, coisas do tipo, entende? De seeer, é, não se encaixar bem no, na, na sociedade, por conta da minha neurose nervosa. [1:15:35] Participante Certo. Aí você acha que foi falta de oportunidade mesmo? [1:15:40] Daniel Nascimento Não. [1:15:40] Participante Que não te deram. [1:15:41] Daniel Nascimento Não, não, não, eu gostaria... [1:15:42] Participante Foi por isso que cê escolheu esse caminho? [1:15:46] Daniel Nascimento Acho que um pou-- acho que um pouco, um pouco de tudo já, eu já, já... [1:15:50] Participante Porque tipo assim, isso foi em outros tempos, 2005, mas tá em 2022. Fechou. É nóis. [1:15:57] Daniel Nascimento Valeu, querido. [som de sinalizador] Tudo bem? Como vai? Satisfação, querido. [1:16:05] Participante Cara, minha pergunta é bem simples. É, naquela época, né, não era nascido ainda, eu tenho 21 anos, era uma época que tinha menos tecnologia. Eu queria saber quais foram os caminhos que levaram você a estudar, é, a parte de hacker. É, por onde você obteve informações essas-- como que você aprendeu, conseguiu chegar lá? [1:16:28] Daniel Nascimento Bom, eu iniciei no, no Linux, né, no, eee obtive, aprendi a programar, né, uma linguagem chamada Python. É uma coisa técnica pra caramba, né? [1:16:37] Participante Uhum. E alguém te ensinou ou sozinho? [1:16:40] Daniel Nascimento Não, fui sozinho. [1:16:41] Participante Sozinho. [1:16:42] Daniel Nascimento Sozinho. [1:16:42] Participante É isso. Obrigado. [1:16:43] Daniel Nascimento Valeu. Eu, eu, eu acho que, assim, debate superválido. É claro que tem certas opiniões, certos pensamentos que chateiam, mas isso faz parte do, do lidar com as pessoas, as pessoas, né, acho, acho que isso é uma, é um, é um debate, uma, uma, é uma democracia, é discutir assuntos. Tem coisas que, enfim, umas coisas eu concordo, outras não. Bastante aprendizado pra mim também aqui de, de sentir mais o lado da pessoa que sofreu a fraude, né. Teve a história da, eu esqueço o nome das pessoas, mas a mãe da, da, da... [1:17:19] Participante Erica. [1:17:19] Daniel Nascimento Da, que... [1:17:21] Participante Erica. [1:17:23] Daniel Nascimento É. E eu fiquei bem sensibilizado com isso, assim, é, é algo complicado, mas eu não posso mudar as coisas que aconteceram, eu não tenho como voltar o tempo. Então hoje eu procuro trabalhar da melhor forma possível, prezando a segurança dessas pessoas que se, que hoje estão aqui, que são fraudadas, foram fraudadas, enfim. Hoje eu trabalho de uma forma diferente. O que mais me incomoda é que eu não sou o Daniel com 16 anos de idade. Eu sou o Daniel que já passou por essa fase, foi preso, pagou e cumpri minha pena. É isso que manda a lei. A lei manda isso, um juiz vai lá, assinou, e eu tive que cumprir aquilo que tava determinado pra mim. Então eu não acho justo eu ser julgado cinco, seis, 10 vezes pela mesma coisa. É, então é isso que eu penso e estendo, como eu disse, pra quem quiser, aí, o, o Hayashi tá aqui, trabalha comigo, eu estendo aí o convite pra quem quiser fazer um curso rápido de segurança da informação, porque assim, pra você prevenir um roubo, você tem que saber como roubar. Desculpa a forma que eu tô falando, mas é assim que funciona. Então você pode tá aprendendo a segurança da informação pra poder reprimir aquilo. Então é isso que eu tenho pra falar. E obrigado a todos. É, pra, pra quem tá assistindo e quiser conhecer um pouco mais da minha história, vai lançar o filme Rei da Internet, dirigido por Fabrício Bittar, estrelado por Marcelo Serrado e João Guilherme, no dia 14 de maio, em todos os cinemas do Brasil. E é isso. [aplausos]