Ir para o conteúdo

Transcrição

1 Conservadora x 30 Feministas

1 h 18 min de vídeo · 19 mil palavras · Com Pietra Bertolazzi

Baixar o texto (.txt) ou a legenda (.srt)

Legendas em português

Cada minuto é um botão que toca o vídeo a partir daquele trecho.

Pietra Bertolazzi

Eu não defenderia o aborto em nenhuma ca-- você perguntou da minha filha, se a minha filha fosse estuprada, eu não defenderia o aborto.

Participante

E você não julga isso cruel?

Pietra Bertolazzi

Não, eu julgo cruel matar um bebê.

Participante

Você é médica? Você sabe a partir do momento-

Pietra Bertolazzi

Ninguém precisa ser médico pra saber que um feto é um ser humano, porque a própria medicina não entra em um consenso sobre quando começa a vida humana.

Participante

Se a ciência não tem um conceito de vida humana, por que que eu tô assassinando?

Pietra Bertolazzi

Sem os homens, não tem sociedade.

Participante

O trabalho invisível não remunerado é feito pelas mulheres.

Pietra Bertolazzi

Se não tem homem, a mulher, a mulher não consegue crescer na profissão dela.

Participante

Dentro das sociedades indígenas, não existe isso entre o homem ser maior do que a mulher.

Pietra Bertolazzi

E por que que hoje a sociedade não é indígena?

Participante

Infelizmente, hoje as mulheres ocupam os trabalhos mais precários.

Pietra Bertolazzi

Mas por que que é precário cuidar da casa?

Participante

Essa é uma pergunta que assim, se você não sabe isso, então acho que você tá muito distante da realidade.

Participante

Cê acha que todas as mulheres têm aptidão pra ser mãe?

Pietra Bertolazzi

A minha crítica, na verdade, é em relação às mulheres que acham que o sucesso profissional pode trazer mais felicidade do que elas se dedicarem à maternidade.

Participante

Por quê?

Pietra Bertolazzi

Porque naturalmente a gente é feito pra isso.

Participante

Se eu e minha companheira quisermos ter um filho, a sua religião, a gente vai ter apoio dela?

Pietra Bertolazzi

Não.

Participante

E pra onde vai a minha maternidade?

Participante

E as mulheres negras ganham absurdamente menos na história do Brasil.

Pietra Bertolazzi

Então por que que essas empresas não contratam só mulheres? Meu nome é Pietra Bertolazzi, eu sou cristã, antifeminista e hoje eu tô cercada por trinta feministas. [música de introdução] A sociedade só funciona por causa dos homens. [som de batidas]

Participante

Olá.

Pietra Bertolazzi

Olá.

Participante

Como cê chama?

Pietra Bertolazzi

Luca.

Participante

Bem, cê deu uma afirmação de que a sociedade só funciona por conta dos homens.

Pietra Bertolazzi

Uhum.

Participante

Porém, a gente tem dentrooo, tanto das ciências sociais quanto das estatísticas e afins, uma série de trabalhos, que se não forem sem feitos e que são trabalhos historicamente realizados pelas mulheres, em especial o trabalho de cuidados, o, os trabalhos relacionados a hospitalar, enfermaria, educação e afins, que são majoritariamente femininos, a sociedade também não funcionava. Assim como o trabalho reprodutivo, né? A gente tem um sistema em que dentro das casas e afins, as donas de casas vão garantir alimentação, vão garantir as roupas pra que inclusive os homens possam sair e fazer os seus trabalhos, sejam como operários, sejam como empresários e, e tal.

Pietra Bertolazzi

Sim, sim. É, quando a gente fala que a sociedade só funciona por causa dos homens, a gente tá falando dos trabalhos primários, né? Se não existe uma questão de segurança, é, física inclusive, se não existem homens pra cuidar da rede elétrica, dos esgotos, dos trabalhos relacionados à energia, aos trabalhos mais árduos e que de fato têm um risco de vida, noventa por cento deles são ocupados por homens.

E todos esses trabalhos que você trouxe são muito importantes, obviamente, uma sociedade é sempre complementar, mas eles, hã, pra que eles sejam exe-executado, é, de forma perfeita, né, de forma, é, completa, eles precisam do trabalho primário, que é dos homens e não das mulheres.

Participante

Que não, eu acho que, e aí tem uma diferença de concepção, porque eu acho que essa divisão entre trabalho primário e trabalho secundário, quando a gente vai-

Pietra Bertolazzi

Entende que não é uma questão de o que é mais importante do que o outro, né? Porque tudo é importante.

Participante

Por isso que eu tô falando que é uma diferença de concepção.

Pietra Bertolazzi

Porque vamo lá, se a gente tirar os homens da sociedade, em setenta e duas horas a sociedade colapsa. A gente não tem rede elétrica, a gente não tem sistema de esgoto, a gente não tem nada.

Participante

Não necessariamente.

Pietra Bertolazzi

Como não?

Participante

Assim como se você for tirar outras mulheres, você não tem o processo de cuidado e afins, entendeu?

Pietra Bertolazzi

A longo prazo, não. A longo prazo, mas aí se a gente pegar aquela pirâmide de Maslow, né, que vocês gostam de falar, é, se você pega a necessidade básica do ser humano, quem, quem sustenta são os homens.

Participante

Não, não é.

Pietra Bertolazzi

A questão de segurança...

Participante

Quando, quando cê vai pegar o processo, o processo de, é, reprodução e base do que é que a pessoa não trabalha-

Pietra Bertolazzi

É que você precisa colocar o né?

Participante

O trabalho de reprodução ele existe, o trabalho de culinária, o trabalho de, o trabalho doméstico, ele é um trabalho reprodutivo.

Pietra Bertolazzi

Não, mas o homem tam-- o homem também cozinha.

Participante

Também traba-- é, mas o trabalho reprodutivo na divisão se-sexual do trabalho, ela é diferente. E isso, se você retira-

Pietra Bertolazzi

É diferente sim, é complementar

Participante

...você não va-- você também colapsa.

Pietra Bertolazzi

Você colap- você colapsa a longo prazo.

Participante

Ela não é feita por um outro gênero.

Pietra Bertolazzi

Só que ela depende, ela depende dos trabalhos primários que são, é, que são executados por homens. Uma enfermeira sem, é, energia no hospital, sem segurança, ela não pode exercer a enfermagem.

Participante

Olá, boa tarde, meu nome é Alessandra. Tudo bom?

Pietra Bertolazzi

Prazer, Alessandra.

Participante

É, quando você afirma que a, a, o mundo não funciona sem homens, você está por dentro do que atualmente acontece no nosso país, aliás, no mundo. Você tem ideia da quantidade de mulheres que hoje dirigem ônibus, operam máquinas, cuidam de suas casas-

Pietra Bertolazzi

Tá, e daí? Eu tô falando que as mulheres não podem executar, tô falando que noventa por cento desse trabalho são majoritariamente-

Participante

Você está totalmente errada, inclusive com relação a essa física.

Pietra Bertolazzi

Cê acha que a socie- cê acha que a sociedade ela, ela caminha sem os homens?

Participante

Eu, muito-

Pietra Bertolazzi

Me fala uma sociedade que funciona sem homem.

Participante

Todas.

Pietra Bertolazzi

Qual?

Participante

Todas.

Pietra Bertolazzi

Fala uma.

Participante

Ué, na sua casa você tem homem?

Pietra Bertolazzi

Eu não tenho homem, mas a minha casa sou eu e minha filha.

Participante

Então me fala.

Pietra Bertolazzi

Me fala o quê?

Participante

Como é que sua casa funciona?

Pietra Bertolazzi

Funciona porque eu preciso de um eletricista, eu preciso de, eu precisei de um pedreiro pra construir meu, meu apartamento.

Participante

Mas porque você não quis se qualificar pra isso.

Pietra Bertolazzi

Eu não, eu não-

Participante

Porque na minha casa eu criei três homens-

Pietra Bertolazzi

Mas como é que você, mãe... Escuta, você é pedreira, você cuida do sistema elétrico da sua casa, você cuida do sistema de esgoto da sua casa?

Participante

Eu aprendi.

Pietra Bertolazzi

Você cuida da segurança da sua casa?

Participante

Eu me casei com dezoito anos de idade, tive o meu filho com dezoito anos, que é um camarada-

Pietra Bertolazzi

Quem construiu a casa? Quem fez a rede elétrica da sua casa?

Participante

Não, eu sempre morei de aluguel.

Pietra Bertolazzi

Quem cuida?

Participante

Eu sempre morei de aluguel.

Pietra Bertolazzi

Não, mas você mora num lugar construído por alguém, esse alguém foi um homem.

Participante

Eu aprendi. Eu aprendi a instalar um chuveiro. Eu aprendi a instalar um gás.

Pietra Bertolazzi

Você fez o sistema, você fez o sistema de esgoto da tua casa também?

Participante

E eu posso dizer sim, nunca precisei, porque nunca aconteceu, mas se precisasse eu faria.

Pietra Bertolazzi

Ô, então você mora num, você mora numa situação então bem peculiar, porque assim, você não precisa de ninguém pra viver.

Participante

Não é peculiar. Não, eu, eu aprendi a sobreviver.

Pietra Bertolazzi

Eu não tô falando que mulheres são incapazes de sobreviver sozinhas. Eu tô falando que uma sociedade... Não, não funciona mesmo.

Participante

E na sua casa-

Pietra Bertolazzi

Uma coisa é você fazer a manutenção do que já existe.

Participante

Então por que que não tem homem?

Pietra Bertolazzi

Não tem nada a ver, cê tá falando de construção familiar.

Participante

Não.

Pietra Bertolazzi

E eu tô falando de assistência técnica.

Participante

Não, eu tô falando de tudo.

Pietra Bertolazzi

Eu tô falando de estrutura.

Participante

Não, não. Você falou que o mundo não funciona sem homem.

Pietra Bertolazzi

Não funciona sem homem, porque pra morar como eu moro hoje, eu precisei de homens pra construir o sistema de esgoto, o sistema elétrico, é, eu precisei de pedreiros pra construir aquele apartamento.

Participante

Você concorda que tudo começa em casa ou não?

Pietra Bertolazzi

Tudo co-- sim, só que a minha casa precisou ser construída por homens

Participante

Olá, me chamo Naoê.

Pietra Bertolazzi

Oi, Naoê.

Participante

É muito problemático quando você fala que o, a sociedade não funcionaria sem os homens, por quê? Por que que as mulheres não estão fazendo cursos e, e praticando estudos relacionados ao cuidado de casa? Eu conheço muitas mulheres-

Pietra Bertolazzi

Não sei, responde você, porque

Participante

...muitas mulheres sabem fazer consertos de casa pra nece- não necessariamente precisar-

Pietra Bertolazzi

Consertos, não construção.

Participante

Não, mas é, tem mulheres dentro da, da construção civil, tem mulheres sendo engenheiras.

Pietra Bertolazzi

Tem, mas eu não tô falando que mulheres não podem fazer isso.

Participante

Mas quem disse que, quem disse que existe outros trabalhos-

Pietra Bertolazzi

Só que os homens que desenvolveram essas tecnologias, que constroem-

Participante

Vamos supor, ok

Pietra Bertolazzi

...os lugares onde nós moramos hoje, foram todos homens.

Participante

Vamo, vamo supor. A gente tá falando dentro de, dessa sociedade, né?

Pietra Bertolazzi

Que que seria essa sociedade?

Participante

Que colo-colonialista. A gente tá dentro de um território Pindorama, Brasil é um território indígena.

Pietra Bertolazzi

Pindorama?

Participante

Quando a gente pega, quando a gente pega-- então, se você não sabe, se você não é, se você não tá afim de, de entender o que que significa Pindorama e o território onde você está morando-

Pietra Bertolazzi

Tá, se tinha homens antes dos portugueses chegarem, assim.

Participante

Aí é uma questão sua. Indígenas. Sim. Dentro das sociedades indígenas, não existe isso entre o homem ser maior do que a mulher. Infelizmente, esse, esse modelo-

Pietra Bertolazzi

E por que que hoje a sociedade não é indígena?

Participante

Esse modelo, porque nós fomos colonizados.

Pietra Bertolazzi

Por quem?

Participante

E é por isso que hoje pessoas como você se veem no direito de falar uma besteira dessa. Simplesmente por isso.

Pietra Bertolazzi

Mas que besteira que há no fato de que uma sociedade não prospera sem homens?

Participante

Uma sociedade que uma so-

Pietra Bertolazzi

Que ódio é esse que você tem de homens?

Participante

Uma sociedade que a, que anda junto, uma sociedade que vive a p-a partir da sua comunidade, não que homens são melhores do que mulheres.

Pietra Bertolazzi

Mas eu não tô falando, mas eu falei que homens são melhores que mulheres?

Participante

Não funciona. Você tá falando que os, a sociedade não funcionaria sem homens.

Pietra Bertolazzi

Não funcionaria, assim como não funcionaria sem mulheres.

Participante

Exatamente.

Pietra Bertolazzi

Então, então qual que é, então qual que é o problema dessa afirmação?

Participante

Quem quiser vim, venha.

Participante

Licença, Pietra. Meu nome é Fernanda.

Pietra Bertolazzi

Azar, Fernanda.

Participante

Eu sou pesquisadora e atriz pela Universidade de São Paulo. Fala. É, quando você fala que a sociedade só funciona por conta dos homens, você trouxe um dado que cê falou que estava falando sobre necessidades básicas.

Pietra Bertolazzi

Uhum.

Participante

Só que necessidades básicas não necessariamente é só você conseguir acender a luz, você ter saneamento básico. Pela Constituição, necessidade básica também é educação.

Pietra Bertolazzi

Eu não tô falando de Constituição, a gente tá falando uma coisa mais pra trás, a gente tá falando de, de condições básicas pra sobrevivência humana.

Participante

Então, condições básicas pra sobrevivência humana-

Pietra Bertolazzi

Hoje em dia, né, considerando, considerando o mundo que vivemos hoje

Participante

...considerando uma sociedade que na pa-na própria palavra-

Pietra Bertolazzi

Que é complementar

Participante

...implica social-

Pietra Bertolazzi

Sim

Participante

...tá lazer, tá educação, tá saúde.

Pietra Bertolazzi

Sim, sim, mas ninguém tá excluindo a importância disso. O que eu tô dizendo é que uma mulher sozinha não consegue co-- tocar uma sociedade pra frente.

Participante

Sim, a gente precisa de muita gente pra fazer isso acontecer, de uma sociedade inteira.

Pietra Bertolazzi

Mas se forem muitas mulheres, não acontece, tem que ter homens, entendeu?

Participante

Necessariamente tem que ter homens envolvidos.

Pietra Bertolazzi

Porque várias mulheres não vão construir os prédios que a gente tem, não vão construir os hospitais que a gente tem, não vão construir, ééé, os, o co-o corpo de bombeiro, não vão ter uma frente militar, a gente não vai ter uma estru-

Participante

Mas o fato-

Pietra Bertolazzi

...uma estrutura primária básica que se resume à segurança, sistema de esgoto, eletricidade, enfim, as questões básicas, até relacionadas à agricu-agri-agricultura, nós não teríamos-

Participante

Mas o fato de mulheres terem entrado, por exemplo, na medicina e terem começado a desenvolver o que é o, a biologia do corpo de uma mulher, é o que faz com que hoje-

Pietra Bertolazzi

Mas elas só cursaram medicina porque alguém fez um hospital, trans-- ela transformou aquele ambiente favorável aos estudos dela.

Participante

Sim, se a gente for contar só o que os homens fizeram pela bio-- pela medicina, pela biologia, mulher não tinha prazer até ontem, assim, né?

Pietra Bertolazzi

De onde cê tirou isso?

Participante

O sistema reprodutivo, o sistema corporal das mulheres não era conhecido, porque simplesmente não era uma, uma importância pra medicina.

Pietra Bertolazzi

Por quem? Por quem que não era? Isso não faz sentido. Sabe quem descobriu o clitóris?

Participante

Hã.

Pietra Bertolazzi

Saint Hildegard de Bingen, von Bingen. Ela é do século treze, ela era uma san-- ela foi uma santa, uma religiosa, sim, uma freira católica, patriarcal, opressora, terrível, do século treze.

Participante

[riso] Patriarcal, opressora e terrível.

Pietra Bertolazzi

É claro, né, é, toda freira é patriarcal, toda, toda, todo cristão é patriarcal. Ééé, uma freira da Alemanha do século treze que descobriu o clitóris, só procê saber que não teve nada a ver com o movimento feminista e nem com luta pelo direito das mulheres.

Participante

Mas foi uma mulher que descobriu.

Pietra Bertolazzi

E daí?

Participante

E o fato dela ter descoberto, ela poder descobrir, significa alguma coisa.

Pietra Bertolazzi

Significa o quê?

Participante

Não foi o movimento antifeminista que colocou ela lá, né?

Pietra Bertolazzi

Mas muito menos o feminista, ela tá muito mais perto do antifeminista do que do feminista. Cê concorda, por ser uma freira conserva-conservadora, não, uma freira, uma freira tradicional, católica?

Participante

Eu sou a Juliana, sou feminista socialista.

Pietra Bertolazzi

Oi, Juliana.

Participante

É, então, Pietra, ééé, nós, feministas, a gente não defende que os homens não são importantes na sociedade. É, a gente defende, inclusive, que quem, eu sou uma feminista socialista, né, e a gente defende que quem move o mundo são a ca-- é, são os trabalhadores, né? É a classe trabalhadora. Se a gente fala de quem move o mundo, sim, são os trabalhadores, também homens.

Pietra Bertolazzi

É, então, por isso que eu acho esquisito todo mundo aqui se opor a essa ideia, né?

Participante

Os trabalhadores que tudo produzem, os trabalhadores que tão no chão das fábricas, assim como as mulheres.

Pietra Bertolazzi

São homens, são majoritariamente homens.

Participante

Infelizmente, hoje, as mulheres ocupam os trabalhos mais precários, né? Se a gente fala do trabalho doméstico, do trabalho de cuidados, são as mulheres-

Pietra Bertolazzi

Mas por que que é precário cuidar da casa?

Participante

Não, é precário cuidar da casa dos outros. Essa é uma pergunta que assim, se você não sabe a resposta do porquê uma empregada doméstica-

Pietra Bertolazzi

Mas o homem constrói a casa dos outros. O homem cuida do esgoto dos outros. O homem cuida da eletricidade dos outros

Participante

...recebe menos, né, é um trabalho precário. Se você não sabe isso, então acho que você tá muito distante da realidade.

Pietra Bertolazzi

Não, eu acho que você tá distante da natureza feminina e da espécie humana. Tá bom, não precisa gritar.

Participante

Eu não acho que é isso. Eu acho que você sabe que as mulheres estão nos trabalhos mais precários.

Pietra Bertolazzi

Eu não, eu discordo.

Participante

Assim como os homens também estão em trabalhos precários.

Pietra Bertolazzi

A maioria dos homens tá nos trabalhos precários. Sim, porque o mundo pra sustentar precisa de trabalhadores em trabalhos precários como as-

Participante

Os homens também tão nos traba-nos trabalhos, os trabalhadores públicos e muitos-

Pietra Bertolazzi

Eu acho muito digno uma mulher cuidar da casa da outra.

Participante

Tá bom. Então, Pietra, mas sabe quem defende os homens trabalhadores?

Pietra Bertolazzi

Dos filhos dela, eu acho. Hã.

Participante

Por que a direita vem defender os trabalhadores homens quando é pra se colocar contra as mulheres?

Pietra Bertolazzi

Olha, eu não tô, eu não tô com bandeira política aqui, eu tô falando-

Participante

Mas, não, a sua bandeira é política.

Pietra Bertolazzi

Não, não é, é ideológica.

Participante

Isso, é, é ideologia política.

Pietra Bertolazzi

Eu tô falando de Cristian Gádji e de ideologia.

Participante

A direita é quem ataca os trabalhadores homens.

Pietra Bertolazzi

Eu não sou de direita.

Participante

Você é de direita, Pietra.

Pietra Bertolazzi

Não, eu não sou de direita.

Participante

Ah, é?

Pietra Bertolazzi

Eu não sou de direita.

Participante

É, você fala que você é feudalista, né, você-

Pietra Bertolazzi

Eu sou monarquista, isso.

Participante

Monarquista. Exatamente, né, gente.

Pietra Bertolazzi

Que a monarquia não pode ser de direita.

Participante

A monarquia, Pietra, foi construída em cima da escravização dos negros no nosso país.

Pietra Bertolazzi

Isso é uma grande bobagem que tá falando.

Participante

Isso não é uma grande bobagem, isso é história.

Pietra Bertolazzi

É porque na, porque na Idade Média não existia escravidão.

Participante

Essa, você é de direita. Sabe quem defende os trabalhadores do nosso país?

Pietra Bertolazzi

A Idade Média foi um momento onde não tinha escravidão.

Participante

É a esquerda. A direita se coloca contra todos os direitos.

Pietra Bertolazzi

Por que que a gente tá falando de trabalhadores, se a gente tá falando aqui da sociedade, da sociedade sobre os homens?

Participante

Porque você afirma que os trabalhadores homens movem o mundo.

Pietra Bertolazzi

Exatamente.

Participante

Não são os burgueses, não é você que é coach que fica tentando no mercadinho, Pietra.

Pietra Bertolazzi

Eu não defen-- mas cê não defende. Eu não sou coach, meu amor. Eu, enfim

Participante

Que fica tentando convencer as mulheres do antifeminismo, não é você, são os trabalhadores óbvios.

Pietra Bertolazzi

Olha, se você vai pro lado de homem, essa conversa vai ficar infrutífera.

Participante

Então, é que daí você foge do tema, né? Primeiro o seu tema é-

Pietra Bertolazzi

É você que tá fugindo, você tá trazendo o socialismo-

Participante

Não

Pietra Bertolazzi

É, trabalhador-

Participante

Não, Pietra

Pietra Bertolazzi

...direito trabalhador. Eu tô falando de uma, de uma construção social-

Participante

A construção social é: os trabalhadores movem o mundo

Pietra Bertolazzi

...que nos diz que a sociedade funciona porque-

Participante

Sim, homens e mulheres.

Pietra Bertolazzi

Então cê tá concordando comigo?

Participante

Não é que eu tô concordando com você. Você faz isso pra desqualificar o trabalho das mulheres, que é sim mais precário.

Pietra Bertolazzi

Eu não acho.

Participante

As mulheres tão nos postos mais precários.

Pietra Bertolazzi

Aí é você que tá, você que tá desqualificando a mulher, não eu.

Participante

Agora, sim, os trabalhadores homens também têm trabalho precário, que a direita ataca.

Pietra Bertolazzi

Você tá falando que o trabalho da mulher não é digno? Cê tá dizendo que não é digno cuidar de casa?

Participante

Você está dizen-- não, não tô dizendo que não é digno. Você tá dizendo que as mulheres não movem o mundo.

Pietra Bertolazzi

Cê tá falando que é precário?

Participante

Que quem move o mundo-

Pietra Bertolazzi

Não, eu não tô falando isso

Participante

...só funciona com os trabalhadores homens.

Pietra Bertolazzi

Não, você tá colocando coisa na minha boca.

Participante

Não, é isso que você tá dizendo. É ilogismo pra você, Pietra.

Pietra Bertolazzi

Eu falei que a sociedade funciona por causa dos homens.

Participante

É muito fácil, porque daí você vai mudando o tema, você não responde-

Pietra Bertolazzi

Eu não tô mudando o tema

Participante

...você não dialoga com as perguntas que a gente tá colocando.

Pietra Bertolazzi

É que você que tá batendo no espantalho. Você tá colocando palavra na minha boca.

Participante

Quem move o mundo são homens e mulheres.

Pietra Bertolazzi

Eu não falei que mulh-- eu não falei que mulher não é importante pro homem.

Participante

Agora, o seu antifeministo tá, o seu antifeminismo tá a serviço de precarizar a vida das mulheres.

Pietra Bertolazzi

É você que tá precarizando.

Participante

Sim, não.

Pietra Bertolazzi

Eu tô valorizando o serviço das mulheres. Eu tô valorizando o que a mulher faz.

Participante

Olá.

Pietra Bertolazzi

Olá.

Participante

Eu sou a Daniela.

Pietra Bertolazzi

Oi, Daniela.

Participante

É, você falou que a sociedade só funciona por causa dos homens, ok?

Pietra Bertolazzi

Uhum.

Participante

Você concorda que a sociedade também funciona pelas mulheres, por causa das mulheres?

Pietra Bertolazzi

Com certeza. Claro, a sociedade é um complemento.

Participante

Então ela não só funciona por causa dos homens.

Pietra Bertolazzi

Sim, ela só funciona por causa dos homens, mas também funciona por causa-- sem os homens não tem uma sociedade.

Participante

Então ela é só. Então a sociedade funciona por, por causa de homens e mulheres. Você-

Pietra Bertolazzi

Não, não, mas se não tiver homens, ela não funciona.

Participante

Mas ninguém tá dizendo isso, ninguém discordou disso.

Pietra Bertolazzi

Todo mundo discordou disso até agora.

Participante

Não, ninguém discordou disso.

Pietra Bertolazzi

Todo mundo que sentou aqui veio combater essa ideia.

Participante

Não, as pessoas estão dizendo que a sociedade também funciona por causa das mulheres e não-

Pietra Bertolazzi

Você é a primeira a falar isso

Participante

...e não só por causa dos homens, porque o sa-- a sua fala é só funciona por causa dos homens.

Pietra Bertolazzi

Sim, porque se não tem homem, se não tem homem, a mulher, a mulher não consegue crescer na profissão dela ou nos atributos dela.

Participante

Não, ela também, ela também funciona por causa dos homens. Ela funciona por causa de homens e mulheres. Deixa eu te falar uma coisa, a-

Pietra Bertolazzi

As necessidades básicas do ser humano são supridas pelo homem.

Participante

Pela mulher também. O trabalho-

Pietra Bertolazzi

Básica?

Participante

...o trabalho invisível não remunerado é feito pelas mulheres.

Pietra Bertolazzi

O trabalho invisível não remunerado depende do trabalho primordial que é feito pelos homens.

Participante

Não, não, não.

Pietra Bertolazzi

Sim. Ah, não.

Participante

Os homens não conseguiriam fazer o trabalho-

Pietra Bertolazzi

Quantos mulheres você conhece que trabalham no esgoto?

Participante

Os hom-- deixa eu concluir minha fala, por favor.

Pietra Bertolazzi

Que trabalham com energia elétrica?

Participante

Deixa eu, deixa eu concluir minha fala, por favor.

Pietra Bertolazzi

Que trabalham na, na área civil?

Participante

Os homens, os homens que trabalham nesses trabalhos primários que você menciona-

Pietra Bertolazzi

Uhum

Participante

...eles não estariam conseguindo re-realizar esses trabalhos com eficiência se não fossem as mulheres cuidando dos lares, das crianças, de todo o trabalho invisível que você negligencia, que você negligencia.

Pietra Bertolazzi

Eu con-- ó, eu, olha, eu olho mais, pelo contrário, eu, eu defendo muito mais. A tua amiga ali que tava falando que é um trabalho, é, que é um trabalho, sei lá qual a palavra que ela usou. É, mas é você que tão negligis-negligenciando o trabalho da mulher. Ela falou que o trabalho da mulher é muito pior que o do homem. Eu não acho, pelo contrário, o trabalho da-- é precário.

Eu considero o tra-- o do homem muito mais precário. Eu prefiro um m-- se eu pre-precisasse escolher entre ficar no esgoto o dia inteiro cuidando do sistema de esgoto dos, da cidade ou, ou ficar na casa de alguém cuidando da faxina, fazendo comida, cuidando de criança, eu prefiro o segundo, a segunda opção.

Participante

Você acha, você acha que mulheres poderiam aprender a realizar esses mesmos trabalhos que os homens realizam? Tanto na energia elétrica-

Pietra Bertolazzi

É óbvio que elas poderiam, mas por que que elas fariam isso?

Participante

Então, fariam se precisar fa-- se precisar faz. Quer dizer que a sociedade-

Pietra Bertolazzi

Ai, nat-- e por que que os homens, por que que os homens, por que que os homens fazem 90%?

Participante

Quer dizer que a sociedade não precisa necessariamente de só ter homens nesses lugares?

Pietra Bertolazzi

Por que que esses homens ocupam 90% desses espaços?

Participante

Porque foi assim que a sociedade se, se organizou.

Pietra Bertolazzi

E por que que ela se organizou assim?

Participante

Se organizou assim por causa-- o patriarcado existe, né, Pietra? O machismo existe, né, Pietra?

Pietra Bertolazzi

E o, e o que que é o patriarcado?

Participante

O patriarcado é aquele, aquela sistema-

Pietra Bertolazzi

Cê acha machismo? O que que cê entende por machismo? Porque você tá falando que trabalhos mais precários são, são preenchidos por homens por causa do patriarcado.

Participante

Se você deixar eu concluir uma fala pelo menos uma frase.

Pietra Bertolazzi

É que não faz sentido, você falar que o patriarcado defende os homens, sendo que os homens tão nos tra-- nos piores trabalhos.

Participante

Ah, mas existe também uma dinâmica que coloca os homens nos piores traba-- aliás, os ho-- quem são os homens que tão nos piores trabalhos? Os pobres. Os ricos não estão nos piores trabalhos.

Pietra Bertolazzi

Não tô falando de classe social, tô falando de homem e mulher.

Participante

Assim como as mulheres sempre trabalharam, né?

Pietra Bertolazzi

Sim, claro.

Participante

Porque também existe um, existe um mito de que-

Pietra Bertolazzi

Concordo, com certeza. Mulheres-

Participante

...a, a, as mulheres conquistaram o direito de traba-- não, as mulheres sempre trabalharam.

Pietra Bertolazzi

Sempre trabalharam.

Participante

Os homens pobres sempre trabalharam.

Pietra Bertolazzi

Bom, você pelo menos é uma feminista honesta intelectualmente sobre isso, pelo menos.

Participante

Os homens semp-- os homens pobres estão nesses lugares e os ricos não estão nesses lugares.

Pietra Bertolazzi

Assim como as mulheres pobres também tão em trabalhos precários, como diz a outra lá.

Participante

Quem aborta é assassino. [efeito sonoro]

Pietra Bertolazzi

Olá, como cê chama?

Participante

Stephanie, sou advogada. Pra gente falar do aborto, a gente precisa entender que uma coisa é criminalização do aborto e a outra coisa é você ser a favor do aborto. Você entende essa diferenciação?

Pietra Bertolazzi

Uma coisa é a lei passar pano pro assassinato e a outra é a pessoa fazer isso sem a lei aprovar?

Participante

Não. Bom, por exemplo, eu, Stephanie, eu não faria um aborto.

Pietra Bertolazzi

Tá.

Participante

Entendeu? Embora eu seja feminista e ativista a favor da descriminalização do aborto.

Pietra Bertolazzi

Sim, toda feminista é a favor do aborto, sim.

Participante

E aí, co-- a, a grande questão é, independente se eu sou a favor ou contra, as mulheres continuam fazendo. A diferença é que elas morrem por causa disso.

Pietra Bertolazzi

Bom, independentemente de eu ser contra ou a favor do assassinato, as pessoas continuam assassinando.

Participante

Mas o que que isso tem ligação? Então você-

Pietra Bertolazzi

Ué, o aborto não é matar uma vida?

Participante

Não.

Pietra Bertolazzi

Não? É o quê? É matar o quê?

Participante

Um feto, né? Diferente.

Pietra Bertolazzi

Matar um feto?

Participante

É.

Pietra Bertolazzi

E o que que é um feto?

Participante

O feto é um amontoado de células, né?

Pietra Bertolazzi

Um amontoado de células?

Participante

Você é médica? Você sabe a partir do momento-

Pietra Bertolazzi

Um amontoado-- ninguém precisa ser médico pra saber que um feto é um ser humano, certo? Ou você acha que se tiver um feto congelado daqui mil anos, alguém descongelar esse feto, vai falar o quê? "Ah, isso aqui é um embrião dum cachorro", é o quê? Uma, uma concha vai sair daqui?

Participante

Vai ser uma vida ali?

Pietra Bertolazzi

Não vai ter ou vai, ou a conclus-- é claro que é uma vida.

Participante

A partir de qual momento que é uma vida? Qual que é a sua concepção de vida?

Pietra Bertolazzi

A partir do momento que o, que o, que o, que o zigoto feminino e masculino se unem.

Participante

Essa é a sua concepção de vida.

Pietra Bertolazzi

Sim, o coração já começa a bater ali dali a poucos dias.

Participante

Ah, então quando, então se uma pessoa tiver morte cerebral, é, não pode desligar os aparelhos, porque-

Pietra Bertolazzi

Quem falou cerebral? Eu falei de morte cerebral, por acaso?

Participante

Não, você falou de bater o coração.

Pietra Bertolazzi

Não, eu tô fa-

Participante

Pra você a vida tá linkada com o coração?

Pietra Bertolazzi

Não, não, não, não tá linkada com o coração.

Participante

Porque o feto não bate a partir de-

Pietra Bertolazzi

Eu falei que dali, inclusive, há poucos dias-- é porque eu me lembrei da minha gravidez. Em poucos dias você começa a ouvir o coração já. Então assim, a partir do momento que você tem uma célula da, fa-- é, feminina e masculina unidas, aquilo já é uma vida humana.

Participante

A, com a sua concepção, não uma concepção médica, né?

Pietra Bertolazzi

Mas o que que é con-- não, a concepção natural

Participante

Tudo bom?

Pietra Bertolazzi

Tudo bom?

Participante

Prazer.

Pietra Bertolazzi

Prazer, como você chama?

Participante

Meu nome é Daiara.

Pietra Bertolazzi

Prazer, Daiara.

Participante

Então, você é a fa-- é contra o aborto, correto?

Pietra Bertolazzi

Uhum, uhum.

Participante

Eu sou contra e sou a favor também.

Pietra Bertolazzi

Hum.

Participante

Tem muitas adolescentes aí, crianças em vários lugares precários, que assim, passam por estupro, violências, que eu acho que no caso eu seria a favor.

Pietra Bertolazzi

E aí você é a favor-- bom, já que ocorreu o crime do estupro, você é a favor de consertar isso com outro crime, que é o homicídio?

Participante

Como que você se colocaria no lugar de uma criança que foi molestada e aconteceu um estupro e não queria ser, não queria ser mãe?

Pietra Bertolazzi

Primeiro lugar, toda a vi-- aliás, a criança, primeiro lugar

Participante

Sim.

Pietra Bertolazzi

Não precisa seeer, ela não precisa cuidar daquela criança, ela pode colocar pra adoção. Inclusive a fila de adoção-

Participante

Sim.

Pietra Bertolazzi

A fila de pais que querem adotar é muito maior do que o número de crianças.

Participante

Você adotaria?

Pietra Bertolazzi

Claro que eu adotaria.

Participante

Você adotaria? E por que que não adotou até hoje?

Pietra Bertolazzi

Porque eu não considero que eu tenho estrutura pra isso, primeiro porque eu não sou casada.

Participante

Então, do mesmo modo que muitas pessoas não adotaria. Aí já tá um ponto, então assim-

Pietra Bertolazzi

Não, não, não, cê não ouviu o que eu falei? Eu falei que a fila pra, de casais que querem adotar é maior do que o número de crianças disponíveis pra adoção.

Participante

Só que você como uma ex-

Pietra Bertolazzi

Cê sabia disso?

Participante

Sim, só que você como uma solteira criando mais uma-

Pietra Bertolazzi

Então segunda coisa, então segunda coisa, se eu fosse entrar na fila pra adotar, eu ia demorar anos. Todo mundo sabe como é o processo pra adoção no Brasil. É complicadíssimo.

Participante

Não, sim.

Pietra Bertolazzi

Isso se dá também porque existe uma escassez de crianças. Tem muito mais gente querendo adotar do que criança disponível.

Participante

Mas concorda comigo que criança não falta, porque tem bastante aí, se você for em vários lugares-

Pietra Bertolazzi

Então por que que não tão pra adoção?

Participante

Então, claro que tão.

Pietra Bertolazzi

Mas se tem mais, se, se a fila de pais pra adotar é maior?

Participante

Não. [estalo de língua] A fi, a fi-

Pietra Bertolazzi

Como não?

Participante

Não, a fila-

Pietra Bertolazzi

Não sou eu que tô falando, cê pega, você puxa qualquer dado de qualquer lugar.

Participante

Você, você já pensou em adotar?

Pietra Bertolazzi

Já, se eu for casada um dia, pode ser que eu adote.

Participante

Então, e por que que não casou?

Pietra Bertolazzi

Bom, cê quer entrar na minha vida pessoal, é isso?

Participante

Não, né?

Pietra Bertolazzi

Aí é, aí é complicado, né, querida? Se for pra falar da vida pessoal de cada uma aqui, vai complicar a coisa.

Participante

Bom, eu sou a Virgínia Guitzel, mais conhecida como travesti comunista. Então você já assumiu aqui no programa que as crianças são obrigadas a parir filhos de estupro.

Pietra Bertolazzi

Pensa, não, eu tô falando que qualquer pessoa-

Participante

Que você inclusive acha que as, o-

Pietra Bertolazzi

Que engravide, sim.

Participante

O que hoje já está garantido na lei tem que ser revogado, é isso, né?

Pietra Bertolazzi

Sim, não é porque tá na lei que é uma lei que é moral.

Participante

Então crianças de doze anos que têm risco biológico, porque você adora usar biologia pra ser transfóbica. Agora pra usar a biologia de fato-

Pietra Bertolazzi

Não, não tem, mas que risco é esse?

Participante

Pra entender que uma criança de doze anos... Cê imagina o corpo de uma criança de doze anos ser obrigada a parir uma, uma outra criança.

Pietra Bertolazzi

Bom, dependendo da biologia, se ela já, já, se o corpo dela já posiciona ela numa gravidez, é porque ele tá pronto pra parir, não?

Participante

Você não sabe o que cê tá falando, você não sabe o que cê tá falando.

Pietra Bertolazzi

Ah, não?

Participante

Não, você não sabe.

Pietra Bertolazzi

Ah, não, quem sabe é você.

Participante

Se você for buscar os estudos médicos-

Pietra Bertolazzi

Hum.

Participante

Você vai ver que tem vários riscos, inclusive de morte. Só que é engraçado que você inclusive-

Pietra Bertolazzi

Olha, isso não existe tanto inclusive. Hoje, hoje a gente tem a cesárea, né, que é uma cirurgia supersegura pra quem tem risco de, de-

Participante

Não tenho a ver com isso, tem a ver com a gestação. Tem a ver com a gestação. Sem contar que a gente vê uma realidade no Brasil hoje, que mulheres lésbicas, homens trans, são vítimas de estupros corretivos.

Pietra Bertolazzi

E vamo lá, né, Virgínia. A maioria das pessoas que defendem o aborto, a maioria das pessoas que abortam-

Participante

E você inclusive é parte de atacar o movimento feminista que luta por justiça pra essas pessoas.

Pietra Bertolazzi

A maioria, a maioria das pessoas que querem, que defendem o aborto hoje, não são as pessoas da favela que tão, que, de as meninas de doze anos, que sofrem estupro, que tão querendo, é, que tão querendo abortar. A maioria são pessoas por trás de ideologia de gênero, são pessoas, são pessoas, é, são as patricinhas que querem fazer mochilona Europa fumando maconha e pegando todo mundo.

Participante

Não são essas pessoas que defendem o aborto.

Pietra Bertolazzi

São essas pessoas que defendem o aborto.

Participante

Você é a favor de uma-

Pietra Bertolazzi

Então essa família patriarcal que você defende. Pai e mãe.

Participante

A família patriarcal que eu defendo não é sobre isso.

Pietra Bertolazzi

O pai e a mãe abusam das suas crianças.

Participante

A maioria dos abo-- a maioria dos estupros acontecem por parentes, por tios, e não por pais.

Pietra Bertolazzi

Essa é a realidade. Então assim, Pietra, vamo falar a verdade, esse debate hipócrita da sua parte é um debate só pra justificar a violência que as pessoas sofrem. Virgínia, cê tá querendo, cê tá querendo compensar a vergonha que cê passou comigo no outro debate? Tudo bem, mas assim-

Participante

Que vergonha? Você assumiu que você é transfóbica.

Pietra Bertolazzi

Você tá trazendo coisas que não fazem sentido. Cê tá me chamando de transfóbica, cê tá fazendo um monte de coisa que não faz sentido nenhum.

Participante

Você assumiu. Você me chamou de traveco, não foi? Cê vai chamar de novo agora?

Pietra Bertolazzi

Como é que eu vo-- hã?

Participante

Você vai chamar de novo agora?

Pietra Bertolazzi

Do quê?

Participante

O que que cê me chamou no outro debate?

Pietra Bertolazzi

Do quê?

Participante

Vamo. Cê não lembra? Cê não tem memória?

Pietra Bertolazzi

Falei da carta traveco. E eu vou saber que não, que é um problema chamar de traveco?

Participante

Ah, então você não sabe. Tadinha de você.

Pietra Bertolazzi

Não sei. Travesti e traveco pra mim não sei qual a diferença.

Participante

Claro, porque você é transfóbica.

Pietra Bertolazzi

Não tenho tanta paciência. Travesti e traveco pra mim não faz diferença nenhuma.

Participante

Você é transfóbica.

Pietra Bertolazzi

É, sou transfóbica.

Participante

Olá.

Participante

Oi, eu sou a Luana. E é importante, eu, eu quero saber de uma coisa. Se por um acaso acontecesse, você disse que tem uma filha.

Pietra Bertolazzi

Uhum.

Participante

Se por um acaso acontecesse com ela, você conseguiria ver a sua filha não só passando por um sofrimento de um estupro, porque aparentemente você, desculpa perguntar, caso você não queira dizer, tudo bem.

Pietra Bertolazzi

Uhum.

Participante

Mas aparentemente você nunca passou por uma situação de um estupro.

Pietra Bertolazzi

Não, nunca fui estuprada.

Participante

Ok. Então quando a gente fala sobre estupro, a gente não só fala sobre o ato de estuprar alguém, mas você toca num ponto sensível de várias mulheres aqui ao redor.

Pietra Bertolazzi

Uhum.

Participante

Isso toca num ponto sensível-

Pietra Bertolazzi

É que eu não acho, hã-

Participante

Não, licença que eu não terminei de falar. Muito obrigada. É muito importante lembrar que você ver uma criança sendo estuprada, você, você tem que lidar não só com o corpo infantil sendo colocado num ato adulto, porque por mais que eles sejam-

Pietra Bertolazzi

Eu não defenderia o aborto em uma ca-- você perguntou da minha filha, se a minha filha fosse estuprada.

Participante

Não terminei de falar.

Pietra Bertolazzi

Eu não defenderia o aborto.

Participante

Eu não terminei de falar.

Pietra Bertolazzi

Eu não defenderia que ela abortasse.

Participante

Eu não terminei de falar. Eu não terminei de falar. Peço que você não me interrompa.

Pietra Bertolazzi

Vai, querida, fala.

Participante

A sua filha é uma criança.

Pietra Bertolazzi

Aham.

Participante

Ela é uma criança.

Pietra Bertolazzi

Exatamente.

Participante

E mesmo que você não concorde com o aborto, ainda assim não acho que o sistema em si deveria levar a sua opinião como mãe em consideração, porque ainda é um corpo infantil.

Pietra Bertolazzi

Não, não é a minha opinião, a opinião da maioria dos brasileiros, né?

Participante

Não, licença que eu não terminei. Não terminei de falar.

Pietra Bertolazzi

É que se você fica falando vira um monólogo e não um debate, né?

Participante

Mas você tem que respeitar.

Pietra Bertolazzi

Cê quer um palco? Cê quer uma street? Cê quer uma stand-up comedy? Aí, tipo, você não é a que tocar.

Participante

Mas você tem que respeitar os relatos dos outros. Se você não respeita a minha fala, não é nem um monólogo, nem um debate, é só você que vai falando.

Pietra Bertolazzi

Não, é um debate, o tempo tá correndo, aqui não é Papo Unico, entendeu? Não é pra você chegar e discorrer longamente sobre algo.

Participante

Mas é só você que fala.

Pietra Bertolazzi

Você traz o argumento, eu respondo.

Participante

Mas é só você que fala.

Pietra Bertolazzi

Vai, então complete, complete a sua argumentação.

Participante

Eu quero saber se acontecesse com a sua filha, você ia sustentar a ideia?

Pietra Bertolazzi

Eu já falei que não, já respondi. Ia. Já respondi.

Participante

Você ia ver o corpo de uma criança-

Pietra Bertolazzi

Sim.

Participante

Gestando.

Pietra Bertolazzi

Sim.

Participante

E você não julga isso cruel?

Pietra Bertolazzi

Não, eu julgo cruel matar um bebê.

Participante

Mas não é um bebê, é um, é uma junção de moléculas.

Pietra Bertolazzi

É, aí-

Participante

Só tem sistema nervoso depois de três, quatro meses.

Pietra Bertolazzi

O que define, o que que define quando vira um ser humano ou não?

Participante

E aí o aborto acontece.

Pietra Bertolazzi

Porque cada um fala que é uma hora, né? Tem gente que fala que é em quatro semanas, tem gente que fala em três meses, tem gente que fala em no-- tem gente que defende que é um feto até o nono mês. O que que define se é uma cri-- se é um ser humano ou não?

Participante

O sistema nervoso.

Pietra Bertolazzi

O sistema nervoso? Mas isso é uma opinião tua, então, porque a própria medicina-

Participante

Não, é ciência.

Pietra Bertolazzi

A, a própria ciência não tem uma, um, um, não entra aí num consenso sobre quando começa a vida humana

Participante

Ué, então-

Pietra Bertolazzi

Não é o que?

Participante

Uai, então se não co, se, então se a ciência não tem um conceito de vida humana, por que que eu tô assassinando? Você se contradisse, minha amiga.

Pietra Bertolazzi

Não, não, mas eu não, mas eu não tô falando que eu tô de acordo com a ciência.

Participante

Não, você se contradisse.

Pietra Bertolazzi

Não, não, mas quem disse-

Participante

Você acabou de se contradizer, não fui eu.

Pietra Bertolazzi

Mas quem disse que eu tô, mas quem disse que eu tô defendendo a ciência?

Participante

Ué.

Pietra Bertolazzi

Eu tô defendendo a lei natural.

Participante

Você tá se contradizendo, dichava.

Pietra Bertolazzi

Eu tô defendendo a lei natural-

Participante

Não sou eu que estou me contradizendo

Pietra Bertolazzi

independentemente do que a militância cientificista diga.

Participante

Se não existe conceito exato de vida, aonde que entra o assassinato?

Pietra Bertolazzi

Entra a partir do momento-

Participante

Assassinato é corpo físico, dentro da Constituição é corpo físico.

Pietra Bertolazzi

Não, não, a vida, a vida acontece, a vida acontece é quando o zigoto feminino está junto.

Participante

É sair e matar, sabe? Bom, bom, se não tem...

Pietra Bertolazzi

Exatamente, como é que cê mata, como é que cê mata um, um embrião?

Participante

Eu que te pergunto isso, como é que você mata um embrião?

Pietra Bertolazzi

Então, a distonia, você, exatamente, tem várias formas.

Participante

Se não tem conceito de vida, não tem morte.

Pietra Bertolazzi

Como que não tem conceito de vida, mas não so, mas pra mim tem conceito de vida.

Participante

Não tem conceito de vida.

Pietra Bertolazzi

Qualquer cristão sabe que a partir do momento que-

Participante

Não tem conceito de vida, fechamos.

Pietra Bertolazzi

Ah, não, não tem conceito de vida. Quando a criança nascer é o que então? O que que é ali?

Participante

Não tem conceito de vida, não tem essa vida.

Pietra Bertolazzi

Mas se não tem vida, não precisa matar. Por que que precisa matar se não tem vida?

Participante

Se não tem conceito de vida, por que que tem?

Pietra Bertolazzi

Petra.

Participante

Olá.

Pietra Bertolazzi

Como você chama?

Participante

Muito prazer.

Pietra Bertolazzi

Prazer.

Participante

Eu sou Felipe.

Pietra Bertolazzi

Prazer, Felipe.

Participante

É muito bom poder te encontrar aqui, acompanho o seu trabalho e eu acredito muito que a partir de um, de um diálogo orientado, respeitoso, a gente consegue divergir e se respeitar em algum momento.

Pietra Bertolazzi

Ai, ufa, que bom, finalmente.

Participante

Porque eu penso que toda militância, ela precisa ter propósito.

Pietra Bertolazzi

Claro.

Participante

Se a militância não tem propósito, ela vira chatice.

Pietra Bertolazzi

Concordo.

Participante

E se a gente entrar-

Pietra Bertolazzi

E agitação simbólica, né, e não efetiva, claro

Participante

E se a gente não tá aqui num propósito só de expor as nossas ideias e aprender uns com os outros, a gente tá aqui meramente pra poder se atacar e esse não é um lugar que eu gosto de ocupar.

Pietra Bertolazzi

Perfeito, fico feliz.

Participante

Então rapidamente aqui, eu sou o Felipe, eu sou um homem gay, faço parte da classe LGBT, tenho uma identidade de gênero andrógeno, por isso que os meus cabelos são longos, eu me visto dessa maneira e me sinto muito feliz e leve e livre pra ser assim. E não necessariamente preciso ser uma mulher pra poder defini, é, defender pautas que sejam elas-

Pietra Bertolazzi

Claro

Participante

feministas, até mesmo porque eu acredito muito no poder da empatia

Pietra Bertolazzi

Sim

Participante

do respeito e da sororidade que deve ser aplicada em todas as suas nuances e camadas. Quando você fala, por exemplo, sobre o aborto, eu fui quase vítima de um aborto. É, é, a minha mãe tentou me abortar, em decorrência disso eu, eu nasci de sete meses e, e eu cresci com essa, com, com essa imagem sobre o aborto. É, venho também de uma, de um lar cristão e a partir dessa pauta, Petra, eu passo a entender que quando uma mulher tem a possibilidade de gerar de, em vias naturais com consentimento

Pietra Bertolazzi

Uhum

Participante

qualquer ato que ela faz a partir dali, sim, é um ato criminoso. Agora, quando uma mulher, ela é violentada e ela passa por uma questão de abuso sexual, eu não, eu não sou uma mulher, infelizmente fui abusado por três vezes quando criança, próximo à adolescência, então sei a dor que é-

Pietra Bertolazzi

Ah, sinto muito por isso

Participante

ser abusado, se-ser estuprado.

Pietra Bertolazzi

Sim.

Participante

E quando eu me pego pensando numa criança, numa adolescente que foi estuprada de uma forma, é, violenta, penso eu e acredito que ela tem o direito, sim, de poder escolher entre dar a vida, aquele ser que está sendo gerado, ou seguir com aquela, com aquela gravidez.

Pietra Bertolazzi

Sim.

Participante

Entretanto, penso que não é um crime. E por favor, tô aqui pra poder te ouvir também.

Pietra Bertolazzi

Não, então Felipe, obrigada pela tua educação.

Participante

Imagina.

Pietra Bertolazzi

Que bom, que bom ter alguém assim pra conversar. É, primeiro lugar, a gente tá trazendo muito a questão da, do estupro contra, contra, contra crianças, né? Agora, a maioria dos, a maioria dos estupros não são contra crianças e a maioria das pessoas que abortam não são crianças e nem vítimas de estupro. É, o que acontece é que geralmente as crianças que engravidam são vítimas de um, de um, de uma sequência, né, de, de estupros dentro da família, como vocês muito bem sabem, e ela só vai descobrir que tá grávida depois de alguns meses, depois de três, quatro meses, às vezes com seis meses, a gente teve um caso famoso no Brasil que foi até o sétimo mês, se não me engano.

É, e o que acontece? O meu ponto é, já que a criança tá com o bebê na barriga por tanto tempo, por que não... Ela vai ter que expele, ela, aquele bebê vai ter que sair de alguma forma.

Participante

Certo.

Pietra Bertolazzi

Já vai ser traumático praquela criança, certo?

Participante

Certo.

Pietra Bertolazzi

Por que não tirar aquele bebê com vida ao invés de matar aquele bebê?

Participante

Eu penso, eu penso em duas coisas aqui que eu acho que é importante a gente poder dissertar sobre. Quando a gente fala sobre a, a, a, o tirar a criança logo que, que a, que a mãe tem a percepção, eu não consigo configurar isso como um que, um crime, até mesmo porque, é, não fez parte de um plano daquela pessoa gerar aquela criança.

Pietra Bertolazzi

Sim.

Participante

Outro ponto que você trouxe também que eu achei interessante e posso falar com conhecimento de causa. Eu tô há seis anos na fila de adoção pra poder ado-adotar uma criança, porque sim...

Pietra Bertolazzi

Olha aí, complicado, né? É ou não é complicado adotar?

Participante

É bem complicado.

Pietra Bertolazzi

Pois é. Oi de novo.

Participante

Oi de novo, tudo bem? Bem, Petra, você virou e falou que pra você, mulheres que abortam são assassinas.

Pietra Bertolazzi

Uhum.

Participante

É, isso é um conce-

Pietra Bertolazzi

É um nome que se dá pra quem mata outra vida humana, né

Participante

É o, é o conceito que você traz do direito. E aí quando, se a gente vai tratar do direito, eu acho que é importante a gente também entender que no nosso-

Pietra Bertolazzi

Não, mas é ver, assassínio não tá só na, na legislação

Participante

Tá, isso tá na legislação, isso tá na legislação.

Pietra Bertolazzi

Assassínio tá dentro de um testamento, é uma questão religiosa também.

Participante

Inclusive no nosso código civil, tem uma determinação de encontrar a vida.

Pietra Bertolazzi

O fato de estar no código civil é porque ele veio do cristianismo, esse conceito, né?

Participante

A vida existe, a vida exis... É, a vida, inclusive-

Pietra Bertolazzi

Não é do código civil

Participante

O código, o código civil tá, ele determina em quanto a vida? Depois do nascimento, primeiro, primei-

Pietra Bertolazzi

Eu não tenho nada contra o código civil, eu tô em plano natural, tô em plano de Deus

Participante

primeiro sopro de vida após saída do útero. Este é o conceito de vida que está instalado no nosso país juridicamente, entendeu?

Pietra Bertolazzi

Só, só vira um ho-- Você perguntou pra você, só vira um ser humano depois que sai da barriga.

Participante

Entendeu? E a outra coisa, você está escolhendo qual é a vida que vale.

Pietra Bertolazzi

Então o bebê que nasce em sete meses, um bebê de oito meses... Não, é você que tá escolhendo.

Participante

Não, você, porque você que tá ignorando.

Pietra Bertolazzi

É você que tá escolhendo.

Participante

Você está ignorando mortalidade materna.

Pietra Bertolazzi

Isso chama eugenia

Participante

Quantas mães você conhece que morrem por ca-por causa do, do aborto ou do, do parto?

Pietra Bertolazzi

Várias, várias.

Participante

Hoje em dia?

Pietra Bertolazzi

Eclampsia, pré-eclâmpsia.

Participante

Hoje em dia é minoria.

Pietra Bertolazzi

Você tem, você tem possibilidades pelo não pesquisa.

Participante

A gente não tá falando desses casos.

Pietra Bertolazzi

Se você tá falando de direitos sexuais e reprodutivos, você tá partindo da premissa então que toda mulher morre no parto.

Participante

Você tá partindo de uma premissa... Não, você tá escolhendo que quem ba-- que quem morre são as mulheres.

Pietra Bertolazzi

Não, porque cê tá, cê tá falando que toda mulher morre no parto, é uma loucura isso. [aplausos] Mulher bem-sucedida é a mulher que virou mãe. [vinheta] Ah, eu gosto de você que cê não grita.

Participante

Às vezes eu tenho uma projeção.

Pietra Bertolazzi

Ah, jura? [risos]

Participante

É, mas não é nada, não é nada ofensivo.

Pietra Bertolazzi

Tá, você não vai pro ad hominem, muito bom.

Participante

Não. [risos]

Pietra Bertolazzi

Tá.

Participante

Cê não acha que isso é uma escolha muito individual?

Pietra Bertolazzi

O que que você entende por um ser...

Participante

Mulher bem-sucedida é a mulher que virou mãe. O sucesso das pessoas não é muito individual? O que que cada um deseja pra si? O que que cada um considera sucesso pra si? Cê não acha que isso é uma pauta, um tema muito, é, raso pra se trazer pra um debate social, pra gente debater sociedade?

Pietra Bertolazzi

Eu acho que não, porque é uma questão ontológica, né, uma questão de lei natural. Ex-- to-toda, toda criação tem um fim próprio, né? A criação, tanto naturalmente falando quanto espiritualmente da mulher, é a maternidade, né. E se a gente vai pra, até pro sentido etimológico, né, da palavra, é, maternidade, né, "mater" obviamente que vem de mãe, é, "maternitás" é, é uma condição, é um estado de vida, né.

Então quando a gente diz que uma mulher bem-sucedida é a que vive a maternidade, não necessariamente é a maternidade, hã, biológica.

Participante

Cê acha, cê acha que toda mulher tem...

Pietra Bertolazzi

Ela pode ser mãe espiritual de várias pessoas também.

Participante

Entendi. Pois é.

Pietra Bertolazzi

Só que eu acho que a perfeição e a felicidade, de acordo com a, né, com, com a ontologia, com a lei natural e com a espiritualidade, com a cristandade, a mulher que alcança o maior sucesso é a que exerce a maternidade de forma perfeita, né, da melhor forma.

Participante

Cê acha, cê acha que todas as mulheres têm aptidão pra ser mãe?

Pietra Bertolazzi

Sim.

Participante

Cê acha mesmo?

Pietra Bertolazzi

Sim, é, é o fim último da, da, da criação divina, né.

Participante

Você não acredita que uma, que alguma... É, é esquisito isso, porque assim, a gente vê tantas pessoas sem aptidão pra maternidade, que a gente fala "mas por que que..."

Pietra Bertolazzi

Mas cê não acha que a sociedade pode educar essas mulheres pra não, pra acreditarem que elas não são aptas pra, a maternidade?

Participante

Não, eu, por exemplo, eu não me considero apta pra ser mãe, embora eu tenha um instinto de mater... eu, eu, eu tenho

Pietra Bertolazzi

Mas você, você, você entendeu que quando eu falo que a maternidade não é só sobre a biologia, é sobre essa, essa tendência a, ao cuidado, à, à maternidade espiritual também de outras pessoas, de cuidar da sociedade?

Participante

Porque nesse ponto, nesse ponto, nesse ponto, eu concordo plenamente, porque eu sou uma pessoa maternal, mas para me responsabilizar

Pietra Bertolazzi

Você não é uma pessoa má, você é uma mulher, toda mulher é maternal, não existe mulher não maternal.

Participante

Exato, mas aqui a gente concorda. A questão é, quando você fala que o sucesso da mulher é quando ela se torna mãe, aí a gente tá falando de um aspecto biológico, de um aspecto que é, é situacional mesmo.

Pietra Bertolazzi

Não, não, é, olha só, é, a gravidez é um, é um processo biológico temporário, certo? Agora, maternidade é algo ontológico, é algo que transcende, né.

Participante

Mas então, então vamos, vamos especificar.

Pietra Bertolazzi

A maternidade é um estado, é um estado feminino natural.

Participante

Vamos especificar. O que que você quis dizer quando você disse que o sucesso da mulher é quando ela se torna mãe?

Pietra Bertolazzi

Exa-- é quando, é quando ela exerce a maternidade acima de qualquer outra coisa, ou seja, ela prioriza a maternidade.

Participante

Não necessariamente ter uma gestação e parir.

Pietra Bertolazzi

A minha, a minha crítica, na verdade, é se, em relação às mulheres que acham que o sucesso profissional pode trazer mais felicidade do que elas, hã, se dedicarem à maternidade, seja ela biológica ou espiritual.

Participante

Por que isso? Porque, por que que...

Pietra Bertolazzi

Porque naturalmente a gente é feito pra isso.

Participante

Mas vem cá, o sucesso profissional, ele também não é parte do gestar algo, do gerar algo, do criar algo?

Pietra Bertolazzi

Pode ser, mas não ontologicamente. Você, a-assim, uma mulher pode ser tranquila, ela pode ser tranquilamente realizada sem, sem a parte profissional. Agora, eu não creio em felicidade feminina sem a maternidade.

Participante

A maternidade que a gente tá falando de ter um filho...

Pietra Bertolazzi

De cuidado biológico ou não, de exercer essa maternidade no sentido espiritual. Por exemplo, uma freira, uma freira, ela não se casa, ou seja, ela não tem filhos, mas ela é mãe espiritual de muitas pessoas, de muitas almas. Ou seja, ela conduz, ela ensina, ela cuida, ela, ela encaminha.

Participante

É, eu, eu acho que isso, eu acho que isso sai um pouco...

Participante

Olá, boa tarde.

Pietra Bertolazzi

Tudo bem? Meu nome é Lua.

Participante

Prazer, Lua.

Pietra Bertolazzi

É, eu tenho uma comunidade de mulheres, não sou mãe, mas sou filha de uma, de uma mulher muito forte, inclusive. E eu vejo hoje a maternidade como uma pauta muito importante pra gente se pensar a longo prazo, né? Porque a gente falou aqui sobre aborto, falamos agora sobre a maternidade, e não é só gestar, você tem que educar uma pessoa futuramente. E hoje em dia, na sociedade, como você vai educar uma mulher ou um homem, onde a gente sofre violência, onde a gente corre perigos nas ruas, obviamente, acho que você não se sente segura caminhando sozinha na rua.

Participante

De forma alguma.

Pietra Bertolazzi

Exato, e acho que todas nós aqui também não. Somos duas mulheres brancas privilegiadas e a gente tem que enxergar isso, né?

Participante

Você se considera privilegiada por isso?

Pietra Bertolazzi

Eu me considero privilegiada, porque pra eu estar aqui foi muito mais fácil, com certeza, do que muitas que tiveram que...

Participante

Por que cê acha?

Pietra Bertolazzi

Porque eu acho que o estético, né, eles nos colocam em vários lugares.

Participante

Porque olha só, você, você é a única loira de olhos azuis, não é? Tem alguma outra loira de olhos azuis?

Pietra Bertolazzi

Pois é, eu e você.

Participante

Nós duas, mas se a maioria aqui...

Pietra Bertolazzi

Então acho que nosso estético nos leva em vários lugares, consegue nos colocar...

Participante

Mas você é a única loira de olhos azuis, por que que cê acha que a loira de olhos azuis é privilegiada? Se todas as outras não são.

Pietra Bertolazzi

Eu acho que o nosso estético consegue nos colocar em vários lugares onde outras mulheres não são bem-vindas estereotipicamente, né, você olhando. Então, pra ter filho hoje, acho que você precisa ter essa estrutura, né? Eu tenho um grupo terapêutico de mulheres...

Participante

Mas você não acha que é um pouco materialista essa visão, do sentido de que só as mulheres que têm privilégio podem ser mães?

Pietra Bertolazzi

Não, acho que não é, porque a educação... Não, eu não falei isso de jeito nenhum.

Participante

Sendo que é uma condição ontológica natural.

Pietra Bertolazzi

Eu não falei isso de jeito nenhum.

Participante

Então qual que é a ideia?

Pietra Bertolazzi

Eu falei que pra você hoje ter um filho, você precisa minimamente ter uma estrutura e conseguir colocar comida na sua, na frente da sua casa.

Participante

Você diz uma estrutura, quando você fala de estrutura, você fala de questão financeira.

Pietra Bertolazzi

Estrutura, falo de financeiro, de rede de apoio, né, de, de educação, onde sua filha vai estudar, onde sua filha estuda hoje. Você, você concorda com a educação?

Participante

Num colégio bom.

Pietra Bertolazzi

Num colégio bom?

Participante

Sim.

Pietra Bertolazzi

Que bom, você tem o privilégio de conseguir colocar sua filha.

Participante

Sim, tenho.

Pietra Bertolazzi

Muitas pessoas, muitas meninas não têm. Então eu trago muito esse apoio para essas meninas que não conseguem hoje colocar...

Participante

Mas, mas é porque você depe-- é que você acha que uma boa estrutura é um bom colégio, eu não vejo dessa forma, entende?

Pietra Bertolazzi

Ó, eu acho que hoje, a, é, a nossa sociedade, nós meninas jovens, muitas vezes temos dificuldade de criar sonhos. Pra você tá aqui hoje falando, você teve que criar esse sonho. Alguém teve que te incentivar.

Participante

Não, eu nunca sonhei, eu fui meio que... enfim, isso é um outro papo, né? Eu nunca sonhei em tá aqui, as coisas foram acontecendo na minha vida dessa forma.

Pietra Bertolazzi

Não, mas é assim, é a questão de muitas meninas.

Participante

Mas a questão da, da violência que você trouxe, por que que cê acha que em outras épocas o mundo não era violento?

Pietra Bertolazzi

Não, ele é violento, hoje nós estamos falando...

Participante

Pensa que nós tivemos duas guerras mundiais durante o século vinte.

Pietra Bertolazzi

Hoje nós estamos aqui com informações pra falar sobre isso. E é por isso que eu...

Participante

Mas é que o mundo sempre foi violento, entende?

Pietra Bertolazzi

Se eu guio o meu grupo... Com certeza, mas é por isso que eu guio o meu, o meu, o meu mundo.

Participante

Obrigada

Pietra Bertolazzi

Oi de novo. Você quer ser mãe de três crianças.

Participante

Sim, só que-

Pietra Bertolazzi

E se você não conseguir engravidar três vezes?

Participante

Ah, não tem problema, eu adoto. Mas se eu não der também, não é uma grande aspiração.

Pietra Bertolazzi

Cê acha que a maternidade é um direito?

Participante

É um direito, é o meu corpo.

Pietra Bertolazzi

É um direito?

Participante

Quem tá custando-

Pietra Bertolazzi

Mas, mas o filho, mas quem vai te transformar numa mãe é teó-- né, são teus filhos.

Participante

Sim.

Pietra Bertolazzi

Mas eles são outro corpo, não são o teu corpo.

Participante

Sim, mas... Não entendi.

Pietra Bertolazzi

E se você adotar, e se você adotar não é o teu corpo.

Participante

Não, mas ainda é meu filho.

Pietra Bertolazzi

Sim, mas é que você falou, é que você falou que você pode escolher, você tá falando que a maternidade é um direito porque é o teu corpo. Mas se você adotar, não foi o teu corpo que gerou.

Participante

Mas ainda eu tô escolhendo ser mãe, né? Eu tô escolhendo maternar, depois que você disse.

Pietra Bertolazzi

E quem não pode adotar e quem não pode, é, engravidar, como é que faz? Não realiza esse direito? Não tem esse direito?

Participante

Ué, se a pessoa não conseguir, aí já é além das minhas escolhas, não?

Pietra Bertolazzi

É que eu não parto da premissa que a gra-- de que a maternidade é um direito, entendeu? Ela é um privilégio, na verdade. Aliás, a maternidade sempre foi vista como um privilégio. Se a gente pegar em todas as, em todas as socie-sociedades do globo, em todas as épocas do mundo, hã, inclusive as mulheres inférteis sempre foram vistas como, como infelizes, como mulheres que foram acometidas por maldições.

Nunca foi bem visto uma mulher não conseguir gestar, né?

Participante

Dentro da nossa sociedade, levando em consideração o capitalismo, eu já escutei muitas vezes que é quem pariu Mateus que o embale. Ou seja, tem que-

Pietra Bertolazzi

Como é que é? Descul-

Participante

"Quem pariu Mateus que o embale". Não sei se você já chegou a ouvir isso.

Pietra Bertolazzi

Não, não ouvi.

Participante

Eu já escutei muitas vezes. Que na maioria das vezes precariza o trabalho da mãe e na maioria das vezes culpa-culpabiliza mulheres quando elas são abandonadas pelos homens, tendo em vista que o Brasil bate recorde de abandono paternal.

Pietra Bertolazzi

Sim.

Participante

Então quando a gente fala de maternidade, a gente também fala da ausência maternal. A ausência paternal, desculpa. A gente fala da ausência dos homens dentro do trabalho materno.

Pietra Bertolazzi

Não, é que é se-- é que a pauta é outra, né? A, a, a pauta é a seguinte: a mulher bem-sucedida é a mulher que virou mãe.

Participante

Mas a mulher não faz o filho sozinho, então não existe falar sobre maternidade sem envolver os homens nisso.

Pietra Bertolazzi

É óbvio que não.

Participante

Então.

Pietra Bertolazzi

Mas a gente tá só-- a gente tá falando da, da maternida bi-- da, da maternidade biológica. O que eu trouxe inicialmente é a ideia de que a maternidade pode ser biológica ou não. Eu trouxe até o caso de freiras e religiosas, são mulheres que têm filhos espirituais. Ou seja, o fim ontológico natural da mulher-

Participante

Mas você falou de biologia...

Pietra Bertolazzi

É porque você falou que você quer ser mãe de três.

Participante

Sim, porque isso é uma aspiração minha, mas se não acontecer eu vou continuar sendo, eu vou continuar sendo bem-sucedida, porque se eu não tenho dinheiro, o dinheiro pra mim, ó, tá acima de tudo. Se eu não tenho-

Pietra Bertolazzi

O dinheiro está acima de tudo.

Participante

Está acima de tudo, porque se eu não tenho dinheiro, não tem problema.

Pietra Bertolazzi

Então o meu ponto é justamente esse.

Participante

Tudo bem?

Pietra Bertolazzi

Tudo bom? Como você chama?

Participante

Eu sou a Paula Fernanda.

Pietra Bertolazzi

Prazer, Paula.

Participante

Eu tenho quarenta e dois anos. Eu discordo um pouco de-desse tema que você trouxe, porque assim, eu tive filho com vinte e um anos e hoje ele está com vinte anos. É, e infelizmente eu carrego a culpa, porque eu tive que trabalhar muito e estudar. Então eu trabalhava, fazia a faculdade, então eu não tive-

Pietra Bertolazzi

Cê era casada já?

Participante

Sim. E eu não tive tempo pra cuidar do meu filho.

Pietra Bertolazzi

Sim.

Participante

Então assim, hã, os melhores momentos que eu poderia passar com ele, eu não consegui, devido porque eu precisava trabalhar pra sustentá-lo.

Pietra Bertolazzi

Perfeito, você é um exemplo perfeito que corrobora a premissa de que a mulher bem-sucedida é a que virou mãe, porque você não pôde exercer a maternidade de forma integral e perfeita, porque você precisou trabalhar.

Participante

Sim, mas eu não me vejo bem-sucedida hoje. Hoje eu me vejo uma pessoa infeliz.

Pietra Bertolazzi

Perfeito, porque você não pôde exercer a maternidade, porque você teve que trabalhar.

Participante

Exato, sim, então por isso que eu não me vejo uma mulher bem-sucedida.

Pietra Bertolazzi

Mas, mas a gen- a gente tá concordando. A gente tá concordando.

Participante

Não, a gente tá concordando por que? Não, eu não concordo.

Pietra Bertolazzi

Não, você teve um filho, mas não é, não significa que você não exer-- não significa que você exerceu a maternidade da forma como naturalmente ou espiritualmente uma mulher deveria fazer. Entende?

Participante

Uhum. Entendo.

Pietra Bertolazzi

Porque quando a gente fala de maternidade, não é sobre, sobre você parir. A maternidade é uma condição, né, eterna da mulher.

Participante

Sim, sim, eu entendo.

Pietra Bertolazzi

Então a, a gravidez é uma questão. Hoje em dia, infelizmente, as mulheres têm que ter filhos e têm que abandoná-los, hã, com poucos meses, muitas vezes, né, pra voltar ao trabalho, pra ter-

Participante

Mas eu abandonei anos.

Pietra Bertolazzi

Anos? Não, não. Digo, com poucos meses de vida.

Participante

Sim, sim.

Pietra Bertolazzi

E depois tem que ficar anos longe do teu filho. Ou seja, isso faz com que você não exerça a maternidade.

Participante

Sim, por isso que eu me considero-

Pietra Bertolazzi

Que é o teu status quo.

Participante

Por isso que eu me considero uma pessoa não bem-sucedida.

Pietra Bertolazzi

Que não exerceu a maternidade. Se você não tivesse que trabalhar e exercido a maternidade, seria perfeito. Olá.

Participante

Meu nome é Jana, eu sou professora de História e tem uma categoria de mulheres que, na verdade, não, não se atribui a elas, hã, o direito integral de ser mãe, e nem se tem apoio, inclusive religiosamente falando, de serem mães, que são as mulheres lésbicas.

Pietra Bertolazzi

Tá.

Participante

Por exemplo, se eu e minha companheira quisermos ter um filho, a sua religião, na-no caso da sua religião, a gente vai ter apoio dela?

Pietra Bertolazzi

Não.

Participante

E pra onde vai a minha maternidade? [aplausos]

Pietra Bertolazzi

Mas o que cê quer dizer com isso?

Participante

Se pra eu ser bem-sucedida, eu preciso ser mãe, então por eu gostar apenas de mulher, eu vou, eu sou naturalmente mal sucedida.

Pietra Bertolazzi

Mas eu disse, mas você não ouviu o que eu falei inicialmente? Que a maternidade pode, pode ser exercida biologicamente ou não. Ou seja, pelo fato de você ser, é-

Participante

Sim, adoção tá claro pra mim.

Pietra Bertolazzi

Gay, lésbica, cê disse, eu não sei mais os termos que pode usar, que não pode.

Participante

Lésbica, Pietra.

Pietra Bertolazzi

Lésbica. Por você ser lésbica, é, você pode exercer a tua maternidade de outra forma.

Participante

Ok, eu posso adotar.

Pietra Bertolazzi

Você é professora.

Participante

Eu posso adotar uma criança.

Pietra Bertolazzi

Você pode ajudar a educar outras pessoas.

Participante

Não, eu posso adotar, Pietra, uma criança? Posso adotar com a minha esposa?

Pietra Bertolazzi

Ué, tá na digitação que você tá. Ué, teu corpo, tuas regras, não é? Quem sou eu pra-

Participante

E você apoia, Pietra, isso? Pra eu ser mãe, pra eu ser mãe bem-sucedida, já que a gente tá falando sobre isso.

Pietra Bertolazzi

Isso não diz respeito a mim.

Participante

Ah, isso não diz respeito a você, mas foi o que você trouxe aqui.

Pietra Bertolazzi

O quê?

Participante

É a sua afirmação pra mulher ser bem-sucedida, ela precisa ser mãe.

Pietra Bertolazzi

Mas eu não disse que ela precisa biológica.

Participante

Mas aí se eu quiser adotar junto com a minha companheira, você diz que não diz respeito a você.

Pietra Bertolazzi

Não, não, eu tô falando que você pode ser mãe, você pode ser mãe caminhando crianças de outra forma.

Participante

Cê sabe que cê não quer responder, Pietra, porque isso vai afetar a base que te segue, que é uma base que tem preconceito cristã.

Pietra Bertolazzi

Eu não tenho base que me segue, não é preconceito. Existem as regras da igreja, as leis de Deus, que eu não tenho que palpitar ou não, elas independem da minha opinião.

Participante

Ah, então-

Pietra Bertolazzi

É a religião que eu sigo. Eu não posso escolher quais partes do catolicismo eu posso seguir ou não.

Participante

Então eu posso ser bem-sucedida sem ter filhos, se eu, se ou tendo um filho-

Pietra Bertolazzi

Claro, exercendo a maternidade de outra forma.

Participante

Com a minha, com a minha companheira. Com a minha companheira, Pietra?

Pietra Bertolazzi

Bom, não é o que a religião diz.

Participante

Com a minha companheira, Pietra?

Pietra Bertolazzi

A igreja católica não apoia isso.

Participante

Ah, então é só isso, gente, que eu queria falar.

Pietra Bertolazzi

Ué, mas isso corrobora a premissa. Isso... [aplausos]Acho que vocês não en- vocês não entenderam até agora o conceito de maternidade que eu trago aqui, mas tudo bem. Olá!

Participante

Muito linda você-

Pietra Bertolazzi

Obrigada, você é linda também

Participante

Apesar de discordarmos de 99% das coisas.

Pietra Bertolazzi

Olha só, é bastante 99, hein?

Participante

E tá tudo bem. E caso você não saiba, é isso que o feminismo prega, a possibilidade de você discordar de mim, de eu discordar de você. Quando você fala sobre a maternidade, cê pode repetir o tema pra mim, por favor?

Pietra Bertolazzi

Mulher bem-sucedida é mulher que vira mãe.

Participante

E a mulher que não consegue ser mãe?

Pietra Bertolazzi

Ela é uma exceção, mas isso não exclui o fato de que pra ela ser bem-sucedida, o ideal seria que ela fosse mãe.

Participante

Mas não é uma escolha dela. Ela geneticamente não pode ser mãe, mas tudo bem.

Pietra Bertolazzi

Tudo bem, mas, mas, mas isso não muda o fato. Assim, ou seja, ela tem, se ela não pode ter bebê, ela tem um defeito.

Participante

Então ela, ela tem um defeito.

Pietra Bertolazzi

É claro.

Participante

Ela já nasceu, é, sem sucesso.

Pietra Bertolazzi

Um, ó, um corpo, um corpo que não, ela, vamo lá, se a mulher não pode ter filhos.

Participante

Uhum.

Pietra Bertolazzi

Isso eu digo assim com todo o meu coração, eu conhe-eu conheço mulheres que não podem ter, mas é, ué, mas as minhas palavras-

Participante

Coitadas, mal sucedidas.

Pietra Bertolazzi

Sim, infelizmente, e eu me compadeço-

Participante

Só porque elas não te geraram.

Pietra Bertolazzi

Não, não, só que olha só, elas podem exercer a maternidade de outra forma e ser muito bem sucedidas. Elas podem não só adotar, como elas podem ter filhos espirituais.

Participante

Então se pode exercer a maternidade de outra forma, nem podia existir essa pauta, porque já tá resolvido.

Pietra Bertolazzi

Mas tem mulheres que não-

Participante

Se você concorda que a mulher bem-sucedida não só é criando um filho, mas sendo uma mãe de pet, mas criando alguém.

Pietra Bertolazzi

Não, mãe de pet, não, né?

Participante

Então, gente, tinha mais o que discutir.

Pietra Bertolazzi

Eu não tô falando de mãe de cachorro.

Participante

Eu acho, eu sou mãe de pet.

Pietra Bertolazzi

Eu discordo de você, então, mas eu não acho que você possa ser, eu não acho que um pet, eu não acho que você possa se, realizar a tua maternidade sendo mãe de um pet, porque ele não é um ser humano, ele não te dá-

Participante

Certo, certo.

Pietra Bertolazzi

Você não [risos]-

Participante

Tá, então vamo entrar em outro e vamos, é, interpretar tudo isso que a gente falou entrando com outro contexto. Na sua concepção única e exclusivamente, a, o sucesso da mulher depende de gerar um filho.

Pietra Bertolazzi

Não, depende dela exercer a maternidade. É o filho, é um filho, ó, vamo lá, é uma questão ontológica. Isso aí é São Tomás, é, Aristóteles. Vão falar, to-tudo que é criado tem um fim último, certo? Tipo, uma faca é feita pra cortar. Se aquela faca não corta, ela tem um defeito, certo? O corpo da mulher tem um útero que deve funcionar direito, tem o, tem todo um sistema reprodutor.

Participante

Mas que ele pode não funcionar e não depende dela.

Pietra Bertolazzi

E aí, é um defeito. Aí ele tem um defeito, entende? E não é a regra, é exceção. E mesmo assim a mulher pode exercer a maternidade dela de várias outras formas.

Participante

Então, se eu escolho não maternar, eu já sou mal sucedida.

Pietra Bertolazzi

Eu, eu, tá, sim.

Participante

Na sua concepção, a mulher só é bem-sucedida se ela maternar.

Pietra Bertolazzi

Exato.

Participante

E se na minha concepção a mulher só é bem-sucedida se ela for casada. Você é casada?

Pietra Bertolazzi

Não, não sou casada.

Participante

E eu não sou mãe.

Pietra Bertolazzi

Não, mas é teu direito.

Participante

Então eu sou mal sucedida pra você e você é mal sucedida pra mim.

Pietra Bertolazzi

Pode ser que sim. [aplausos] Qual que é o problema? Mas, mas cês não tão entendendo.

Participante

É, o problema é que você é uma feminista, mas não sabe.

Pietra Bertolazzi

Não, não sou.

Participante

Porque você é independente, você é mãe solteira.

Pietra Bertolazzi

Não sou. Infelizmente.

Participante

Você não tem marido.

Pietra Bertolazzi

Eu não tenho escolha.

Participante

Você tem o direito de falar aqui.

Pietra Bertolazzi

Eu não tenho escolha.

Participante

Mas você alimenta aí na internet que as mulheres não podem ser o que você é.

Pietra Bertolazzi

Todas as mulheres falaram muito antes do feminismo.

Participante

É tipo, faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.

Pietra Bertolazzi

Não, não é. Todas as mulheres faziam o que eu fazia. Todas as mulheres já faziam o que eu faço. Não adianta você achar que cê lacrou, porque cê não lacrou. Você não trouxe nenhum argumento sólido.

Participante

Igualmente, eu também acho. Eu também acho.

Pietra Bertolazzi

Então pronto. A desigualdade salarial entre homens e mulheres não existe. [efeito sonoro] Olá, tudo bom? Como cê chama?

Participante

Eu sou a Simone Nascimento.

Pietra Bertolazzi

Prazer, Simone.

Participante

Eu sou da bancada feminista. Nós somos o mandato de mulheres mais votados do Brasil em 2022.

Pietra Bertolazzi

Que legal. Hum.

Participante

É, Pietra, a nossa pauta principalmente é a classe trabalhadora, assim. Então eu queria te perguntar, é, dentro dessa pergunta da desigualdade salarial, qual classe social você se entende?

Pietra Bertolazzi

Eu?

Participante

É.

Pietra Bertolazzi

Hã, média-alta.

Participante

Média-alta? É, cê imagina assim que o Brasil tem uma pirâmide social. E aí nessa pirâmide social econômica, vários economistas mostram isso, desenham inclusive. O topo dessa pirâmide são os homens brancos, eles historicamente ganham mais, tá no IBGE.

Pietra Bertolazzi

Ah, uh, se tá no IBGE é porque é verdade. [risos]

Participante

Tá no IBGE. Depois vem as mulheres brancas.

Pietra Bertolazzi

Hã.

Participante

Depois os homens negros.

Pietra Bertolazzi

Tá.

Participante

E na base dessa pirâmide-

Pietra Bertolazzi

Eu já vi isso

Participante

...estão as mulheres negras. As mulheres negras aga-- às vezes ganham metade do que um homem branco ganha no Brasil. Então há desigualdade-

Pietra Bertolazzi

Mas exercendo o mesmo trabalho, a mesma carga horária?

Participante

Muitas vezes, muitas vezes.

Pietra Bertolazzi

É porque e-essa narrativa não se sustenta.

Participante

Então, não só pra terminar, é, então existe sim desigualdade salarial, inclusive as mulheres negras ganham absurdamente menos na história do Brasil.

Pietra Bertolazzi

Exercendo o mesmo serviço?

Participante

O mesmo serviço.

Pietra Bertolazzi

A mesma carga horária?

Participante

A mesma função.

Pietra Bertolazzi

Então por que que essas empresas não contratam só mulheres?

Participante

Porque existe uma diversidade grande no mundo do trabalho e tem empresas que fazem uma discussão-

Pietra Bertolazzi

É, vem cá

Participante

...de ter mais vagas pras mulheres, mas não são todas.

Pietra Bertolazzi

Qual que é o objetivo da empresa? Não é lucrar?

Participante

É lucrar.

Pietra Bertolazzi

Se uma mulher exerce o mesmo trabalho que o homem, se ela entrega a mesma coisa que o homem, na mes-na mesma categoria, na mes-, né, tamo falando da, da mesma li- da mesma profissão, por que que a empresa não contrata só mulher se ela vai entregar a mesma coisa que o homem por menos?

Participante

Mas cê sabe que tem uma lei chamada Trabalho Igual, Salário Igual, da atual gestão de Presidência da República, né?

Pietra Bertolazzi

Olha-

Participante

Essa lei é porque existe um problema social.

Pietra Bertolazzi

Sim.

Participante

As mulheres ganham menos.

Pietra Bertolazzi

Tem o artigo 461 da CLT, que já diz-

Participante

As mulheres ganham menos

Pietra Bertolazzi

...que, que já, já, não, tem, tem, tem hoje duas formas de você processar uma empresa por isso. Tem o artigo 461 da CLT e tem a lei 14.611 de 2023, que é essa que você diz do, do governo atual.

Participante

Trabalho Igual, Salário Igual.

Pietra Bertolazzi

Exatamente. Ou seja, uma empresa-

Participante

Se a lei existe é porque tem um problema, né?

Pietra Bertolazzi

Mas cadê, mas eu não conheço nenhuma empresa que foi processada.

Participante

Você não conhece nenhuma mulher que ganha menos pelo mesmo posto que-

Pietra Bertolazzi

Não conheço. Ninguém nunca-

Participante

Eu conheço várias

Pietra Bertolazzi

Me fala um exemplo, que exerce, que tem a mesma formação, que exerce a mesma carga horária.

Participante

A minha mãe-

Pietra Bertolazzi

Que tem o mesmo tempo de, de função.

Participante

A minha mãe foi empregada doméstica e cozinheira muitos anos.

Pietra Bertolazzi

Tá.

Participante

E um homem cozinheiro, sabe quanto ganha um homem cozinheiro?

Participante

R$3.000. Sabe quanto ganha uma mulher negra cozinheira? Às vezes um salário mínimo.

Pietra Bertolazzi

Mas você tá falando baseado em quê?

Participante

Na minha vida e na vida da maioria das mulheres brasileiras, Pietra.

Pietra Bertolazzi

Não, mas pera aí, mas pera aí. Isso aí varia muito, depende da região.

Participante

Não varia. Isso é classe trabalhadora.

Pietra Bertolazzi

Salário de empregada doméstica varia a região.

Participante

Isso é classe trabalhadora.

Pietra Bertolazzi

Depende do tempo que ela fica, depende de quantas conduções ela toma, depende de um monte de coisa.

Participante

Pietra, você acredita na monarquia, certo? Você acredita na monarquia, certo?

Pietra Bertolazzi

Eu defendo o sistema monárquico, sim.

Participante

No sistema monárquico existe a galera que é da monarquia, a burguesia e os servos.

Pietra Bertolazzi

Não existe monarquia hoje, cê sabe.

Participante

Não, lá atrás, né, na, na época que ela existia.

Pietra Bertolazzi

É porque-

Participante

Esse sistema, esse sistema, inclusive, da monarquia, escravizou por quase quatro séculos-

Pietra Bertolazzi

Não, não escravizou, não escra-

Participante

Os meus ancestrais que não eram remunerados.

Pietra Bertolazzi

Ah, perdão, tudo que cê tá falando, cara.

Participante

Eu tô falando de racismo estrutural e de desigualdade salarial.

Pietra Bertolazzi

Ah, por que que cê tá falando de racismo estrutural, a gente tá falando de salário, de disparidade salarial.

Participante

Porque a maior parte das mulheres são negras e ganham menos.

Pietra Bertolazzi

A gente tá falando já-- Veja, a gente tá falando-- Ó, não vamo, não vamo segmentar, porque senão a gente vai ficar maluco aqui.

Participante

A maior parte é do IBGE.

Pietra Bertolazzi

Tamo falando de homens e mulheres.

Participante

Não sei como segmentar. A maior parte da sociedade brasileira são de mulheres negras e elas ganham menos, tá na pirâmide do IBGE.

Pietra Bertolazzi

E por que que, por que que elas não processam essas empresas então?

Participante

Você pode consultar no Google depois. Porque muitas vezes elas sofrem opressão do patrão. Hoje, inclusive, tá em discussão o fim da escala seis por um.

Pietra Bertolazzi

Mas isso, mas isso tá no campo das ideias. Eu preciso-- Mas cadê as provas disso?

Participante

Não é ideias, não.

Pietra Bertolazzi

Cadê a prova?

Participante

No próprio dia primeiro de maio vai ter ato no Brasil todo pelo fim da escala seis por um.

Pietra Bertolazzi

Porque a gente não consegue medir, a gente não consegue medir esses dados, essas premissas. Se a gente tiver algum, alguma coisa cadastrada.

Participante

Tem dado, tem dado que eu tô te falando. Dá um Google no IBGE.

Pietra Bertolazzi

Se você tá falando que são oprimidas, elas não tão colocando isso em nenhum, em nenhum dado.

Participante

Não, claro que tão.

Pietra Bertolazzi

Não tem fonte de, de dados sobre isso.

Participante

Existe, ó, existe Sindicato de Trabalhadora Doméstica.

Pietra Bertolazzi

Cê tá fazendo uma retórica.

Participante

Existe o movimento Vida Além do Trabalho que tá discutindo.

Pietra Bertolazzi

Mas cadê as provas de que elas ganham menos do que homens?

Participante

Tá nos dados do IBGE.

Pietra Bertolazzi

Mas cadê?

Participante

Eu tô te falando, cê dá um Google depois. Cê deveria saber disso.

Pietra Bertolazzi

Isso que eu dei. É que eu tive, é que eu tive um debate-- Ex-exato, eu vi há duas semanas um debate sobre isso. Eu fui pesquisar, não existe registro, nem, não tem.

Participante

Existe, sim, tá no IBGE. Mulheres negras ganham menos na pirâmide social.

Pietra Bertolazzi

Exercendo o mesmo trabalho? Não, elas tão exercendo outro trabalho.

Participante

E a gente precisa-- Exercendo o mesmo trabalho.

Pietra Bertolazzi

Muitas vezes elas têm que, por exemplo, eu tenho uma funcionária que muitas vezes ela falta, muitas vezes ela não consegue ir, muitas vezes ela falta.

Participante

Muitas mulheres, muitas mulheres têm filhos e depois são mandadas embora por terem filhos.

Pietra Bertolazzi

A empresa é processada se ela faz isso.

Participante

Quando ela consegue garantir essa processo trabalhista. Cê sabe que a sociedade é desigual.

Pietra Bertolazzi

Sim, mas todas conseguem. Aliás, se tem um sindicato que funciona é o trabalhista hoje no Brasil.

Participante

Pelo fim da escala seis por um.

Pietra Bertolazzi

É a única, a única, a única, o único sindicato que trabalha, que funciona no Brasil é o trabalhista. Olá de novo.

Participante

É, deixa eu te fazer uma pergunta. É, de, quando você afirma, é, pra mim desculpa se eu respeito um absurdo desse, você afirma baseado em quê?

Pietra Bertolazzi

Baseado em dados.

Participante

De onde cê tirou isso?

Pietra Bertolazzi

Da internet inteira. Se você pega, inclusive, é, baseada na lei também, né, porque nós temos duas leis hoje que proíbem empresas de-

Participante

É que sabe o que acontece?

Pietra Bertolazzi

De, de, de pagar mais pra homens e, aliás, não pagar nem pra homens e mulheres, né?

Participante

Assim como proíbem também, é, exatamente.

Pietra Bertolazzi

Só que assim, eu pesquisei recentemente as empresas que tão sendo processadas por pagar menos pra mulheres do que pra homens.

Participante

Não, não.

Pietra Bertolazzi

Quando a gente vai ver, essas mulheres tão trabalhando há muito mais tempo, elas não têm as mesmas formações que os homens que ela, que elas tão processando ou que tão ganhando mais do que elas. Elas não têm uma série de pré-requisitos básicos pra você considerar desigual o pagamento do salário.

Participante

Você tá quase dizendo aqui, é, e eu tô

Pietra Bertolazzi

Que, que uma, que sim, que uma pessoa que trabalha há mais tempo numa empresa, uma empresa, uma pessoa que tem mais formação do que a outra merece ganhar mais. Sim, tô.

Participante

Não, não, não. Vamo fazer disso um diálogo agora.

Pietra Bertolazzi

Tô dizendo isso. É.

Participante

É, o que acontece, você tá, você está dizendo, primeiramente, que por mais que a mulher se esforce, ela nunca vai se igualar ao um que o, ao que o homem consegue fazer, um.

Pietra Bertolazzi

Pelo contrário, é onde, de onde cê tirou isso? Inclusive, tem um, não sei se você conhece o economista chamado Thomas Sowell.

Participante

Não, assim como a nossa colega disse, não, eu, ah-

Pietra Bertolazzi

Ele escreveu um livro, ele tem, ele tem um estudo que ele comprova que mulheres na faixa dos quarenta anos, que nunca se casaram e não tiveram filhos, em cargos de liderança, ganham inclusive mais do que homens.

Participante

É que esse tempo nós, esse tempo nós não vamos ter, mas a gente po-poderia passar quarenta e oito horas falando sobre isso.

Pietra Bertolazzi

Concordo, porque cê não vai conseguir me convencer, porque tá aí uma fala que eu não percento.

Participante

Eu teria um imenso prazer. Mas agora nós estamos falando sobre o assunto de igualdade salarial.

Pietra Bertolazzi

Exatamente.

Participante

A nossa colega citou aqui um fato familiar, é, muito, muito, é, próximo na, na, na vida dela. Eu tenho na minha família, eu agradeço.

Pietra Bertolazzi

Mas qual foi o fato familiar que ela trouxe?

Participante

Qual é a, um, uma cozinheira, ela acabou de dizer pra você, uma cozinheira hoje, negra, ganha bem menos.

Pietra Bertolazzi

É que não tem como cê trazer isso.

Participante

Não, não, não, porque assim-

Pietra Bertolazzi

Não tem como cê provar isso, porque você não sabe quais custos esse cozinheiro fez pra ele ganhar mais.

Participante

Não, não, não, não.

Pietra Bertolazzi

Você não sabe qual a experiência que ele tem pra ele ganhar mais.

Participante

Eu posso falar, Pietra?

Pietra Bertolazzi

Você não sabe, você não sabe o que ele entrega pra ele ganhar mais.

Participante

Ô Pietra, eu posso falar?

Pietra Bertolazzi

É o tipo de traba-- Esse trabalho, esse tipo de trabalho mais doméstico, você ganha o quanto você entrega.

Participante

Você, é, infelizmente eu não consegui expor.

Pietra Bertolazzi

Só não grita, tá?

Participante

Bom, Pietra, ééé, eu sei que tá claro aqui que você ignora os dados, né, mas mesmo assim eu vou tentar trazer alguns pra gente-

Pietra Bertolazzi

Não, eu trouxe dados aqui, Thomas Sowell, eu trouxe tudo, trouxe leis.

Participante

Eu vou tentar trazer alguns pra gente começar o debate, tá?

Pietra Bertolazzi

Vai.

Participante

Em geral, uma mulher trabalha quase dez horas a mais por semana do que um homem, né?

Pietra Bertolazzi

De qual profissão cê tá falando?

Participante

É, em, em jornadas-- Qualquer profissão, isso é um dado geral. As mulheres, e ó-

Pietra Bertolazzi

Da onde esse dado?

Participante

É um dado do IBGE. Aí você pode duvidar do IBGE, porque você-

Pietra Bertolazzi

O IBGE tá dizendo que mulheres trabalham dez horas a mais que homens?

Participante

Sim, por se, é, por semana, em, devido a jornadas duplas, triplas, que muitas vezes as mulheres fazem com o trabalho doméstico.

Pietra Bertolazzi

Mas, mas cê tá falando que-- Pera aí, pera aí, você tá falando que todas as mulheres, você tá falando que todas as mulheres-

Participante

Eu vou terminar de ler os dados. Em média. Não, não é todas, é porque quando a gente fa-- vou te explicar como funciona uma pesquisa.

Pietra Bertolazzi

Tá bom, uma média. As mulheres trabalham dez horas a mais que os homens?

Participante

A pesquisa, a gente vai lá e faz uma pesquisa com um grupo de mulheres e homens, a partir daí chega a conclusões, né?

Pietra Bertolazzi

Aham.

Participante

Então isso é uma pesquisa, não é todas as mulheres.

Pietra Bertolazzi

E essa pesquisa tá dizendo que os homens, que as mulheres trabalham dez horas a mais-

Participante

Esse é um dado, em média, as mulheres trabalham dez horas a mais. Próximo dado, a mulher negra no Brasil-

Pietra Bertolazzi

Elas podem processar as empresas, cê sabe, né?

Participante

As mu-- eu vou chegar nesse ponto.

Pietra Bertolazzi

Aham.

Participante

Uma mulher negra no Brasil recebe em média menos da metade, cerca de quarenta e quatro a quarenta e seis por cento do salário de um homem branco É, então assim, Pietra, aí você vem dizer que bom, então me diz-

Pietra Bertolazzi

Mas qual trabalho eles tão falando? Porque não é, é que não adianta-

Participante

Não, eu vou explicar de novo o que acontece com a pesquisa

Pietra Bertolazzi

...essa pesquisa, não adianta você entrevistar uma funcionária, uma, uma empregada doméstica e um CEO de uma empresa e achar que faz sentido você colocar tudo no mesmo bolo, porque é isso que essas pesquisas fazem.

Participante

Tá, então vou te explicar o que acontece, tá? A maioria das mulheres não ocupam cargo de CEO, majoritariamente são os homens. Isso é um dado importante.

Pietra Bertolazzi

Uhum. Sim.

Participante

Né? Por isso que é uma pesquisa, pega vários grupos e chega a essa conclusão.

Pietra Bertolazzi

Exatamente, só que não faz sentido misturar todas as profissões juntas, né?

Participante

É, faz sentido, né, gente? Porque as mulheres tão menos nos cargos que recebem mais. Mas mesmo assim-

Pietra Bertolazzi

Mas elas escolhem muitas vezes isso, né? Você sabe que mulheres muitas vezes abandonam a profissão porque elas querem cuidar dos filhos.

Participante

Não escolhe, não.

Pietra Bertolazzi

Eu mesma, eu, eu priorizei cuidar da minha filha.

Participante

É, você é uma mulher privilegiada. Eu sou uma professora-

Pietra Bertolazzi

Mas eu conheço muitas mulheres que não são privilegiadas e escolheram não ficar em casa

Participante

...eu sou uma professora e as mães dos meus bebês, elas precisam trabalhar em escala seis por um, perdem parte importante, porque elas precisam escolher entre tá ali e dar comida. Mas essa não é a pauta.

Pietra Bertolazzi

Sim, concordo. Sim, mas aí são outros clientes, tá.

Participante

Essa foi a pauta anterior. Que 54 mil empresas pagam menos pra mulheres do que pra homens no mesmo cargo. Sabe por que você-

Pietra Bertolazzi

É, esse da- esse dado, ele é totalmente enviesado.

Participante

Não, não. Esse é o-

Pietra Bertolazzi

Eu li sobre isso ainda essa semana

Participante

...sabe por que você não sabe o nome de nenhuma?

Pietra Bertolazzi

Ele é enviesado.

Participante

É, é que quando você não concorda com o dado, ele é enviesado.

Pietra Bertolazzi

Os poucos nomes que eu pesquisei-- então, é porque não dá.

Participante

Não tem nome.

Pietra Bertolazzi

Esses dados não faz sentido, porque quando você pega uma empresa e processa a empresa porque ela paga mais pro homem do que pra mulher, porque você pegou uma média, não faz sentido, porque muitas vezes esse cara tem uma pro-

Participante

Então, é Pietra...

Pietra Bertolazzi

Tem uma, tem uma formação de mais anos, ele tem mais especializações, ele tem mais tempo de empresa.

Participante

Sim, é porque você entende que você pega, você fala que você-

Pietra Bertolazzi

Você não tem como equiparar o que o homem faz e a mulher, de-depen-dependendo do, do estudo

Participante

...você entende que você pega todos os dados e você diz que nenhum deles é verdadeiro, sendo que todos os dados que a gente tem-

Pietra Bertolazzi

Não, não são todos. Esses são bizarros

Participante

...a gente chega à conclusão, todos, Pietra, chega à conclusão que os homens recebem mais do que as mulheres. Sabe por que a gente não tem-

Pietra Bertolazzi

E por que que não processa então, quando os processos-

Participante

Elas são processadas. E por que a gente não tem o nome dessas 54 mil empresas?

Pietra Bertolazzi

Então resolveu então.

Participante

Porque alguns partidos entraram com o pedido pra que o STF não divulgue a lei de igualdade salarial. É uma lei dentro dessas-

Pietra Bertolazzi

E desde quando o STF defende o pessoal que defende isso?

Participante

De-- essa lei é uma lei que é, seria pra divulgar os nomes e pra ter igualdade salarial. Essa foi um pedido de entrada de partido de direita e por isso não é divulgado.

Pietra Bertolazzi

Ah, se processou, a empresa tem que pagar. Já não resolveu o assunto?

Participante

Agora, o dado concreto é esse. Por outro lado, Pietra, tem mulheres que-

Pietra Bertolazzi

Resolveu, não resolveu?

Participante

A gente, a gente mora num país-

Pietra Bertolazzi

Não tem uma lei pra defender já isso?

Participante

Que tem uma história que eu vou te contar. Eu vou te contar uma história.

Pietra Bertolazzi

Responde, resolveu ou não resolveu?

Participante

Deixa eu te falar uma história, Pietra.

Pietra Bertolazzi

Resolveu ou não resolveu?

Participante

Você fala que as mulheres não recebem menos.

Pietra Bertolazzi

Já não tem o STF protegendo isso?

Participante

E a gente mora num país que tem uma mulher que chama Sônia, que vive-

Pietra Bertolazzi

Você quer falar ou você quer conversar? Você fez uma pergunta. Já não resolveu?

Participante

Por que que você não deixa eu terminar de falar? Você nega todos os fatos que eu trago.

Pietra Bertolazzi

Não, é porque você quer fazer um monólogo. Você quer fazer um monólogo, você quer trazer uma pesquisa bizarra do IBGE que compara CEO com empregada doméstica. Aí não dá, né?

Participante

Você diz que a gente não pode confiar em relatórios do governo.

Pietra Bertolazzi

É óbvio que a empregada doméstica ganha menos que o CEO. Da mesma forma, a mulher CEO pode ganhar mais do que um homem CEO.

Participante

Então, Pietra, mas você nega todos os fatos e você não tem nenhum fato que comprova que as mulheres, nenhuma das pesquisas.

Pietra Bertolazzi

E você nega que a mulher muitas vezes não quer trabalhar tanto quanto o homem.

Participante

As mulheres no Brasil, inclusive em várias vezes, vivem em situação análogo à escravidão. A gente tem uma mulher que chama Sônia Maria de Jesus.

Pietra Bertolazzi

Escravidão?

Participante

Pesquisa Sônia Maria de Jesus.

Pietra Bertolazzi

Hã.

Participante

Ela é uma mulher negra e surda, que foi dada como morta por décadas pela família. Depois a família descobriu que ela está-

Pietra Bertolazzi

Você tá pegando um caso específico, uma exceção.

Participante

Não é específico, não é exceção.

Pietra Bertolazzi

Eu não conheço o caso, mas isso que cê tá falando é um amor. Isso não é regra.

Participante

Todos os anos a gente vê caso de trabalho análogo à escravidão. Sônia Maria-

Pietra Bertolazzi

E homens também. Por que que cê acha que homens também não passam por isso?

Participante

Homens também, inclusive, homens precários.

Pietra Bertolazzi

Então por que que, então por que que cê tá comportando que a, a coisa é igual entre os dois? É igual?

Participante

Essa escravidão, essa escravidão, que é uma herança da época monárquica do Brasil, que você tanto defende, que hoje ainda existe no capitalismo.

Pietra Bertolazzi

Eu não defendo, eu não defendo o Brasil Império.

Participante

Você é monarquista, tudo bem.

Pietra Bertolazzi

Sim, monarquista, mas quem disse que eu defendo a monarquia brasileira?

Participante

Mas é isso que significa. E Sônia Maria é uma mulher negra que não recebe salário e ainda está na casa do seu, né, entre aspas, dono, porque ele se sente assim dela. Essa é a realidade das mulheres. Você fecha seus olhos pra realidade das-- não é a exceção.

Pietra Bertolazzi

Cê tá trazendo uma exceção pra falar que é a realidade de toda mulher, da maioria das mulheres.

Participante

Essa é a realidade das mulheres.

Pietra Bertolazzi

É sério isso? Tá falando que a maior parte das mulheres são escravizadas no Brasil, é isso que cê tá me dizendo?

Participante

A massa de mulheres, elas são, não são escravizadas.

Pietra Bertolazzi

É isso que cê tá me dizendo? Que a maioria das mulheres é escravizadas?

Participante

Mas a gente vê no Brasil um trabalho que é um trabalho extremamente precário pras mulheres.

Pietra Bertolazzi

E pros homens, não?

Participante

Inclusive, pras mulhe-- principalmente pras mulheres negras.

Pietra Bertolazzi

E os homens, 90% dos homens que preenchem os cargos de-

Participante

Isso é fruto de um racismo estrutural no nosso país

Pietra Bertolazzi

...racismo?

Participante

Um racismo estrutural.

Pietra Bertolazzi

Quantas mulheres tão trabalhando no esgoto?

Participante

As mulheres negras-

Pietra Bertolazzi

Quantos homens tão trabalhando na mina de carvão?

Participante

Pietra, Pietra.

Pietra Bertolazzi

Quantos homens, quantas mulheres tão trabalhando na, como eletricista?

Participante

Novamente, você usa de uma forma hipócrita os homens em trabalho precário pra se contar contra as mulheres.

Pietra Bertolazzi

Quantas mulheres tão trabalhando como pedreiro? Quantas mulheres tão trabalhando como motorista de caminhão, de ônibus? Quantas mulheres?

Participante

Eu tô-- nós, nós feministas estamos ao lado de cada um desses homens.

Pietra Bertolazzi

É a minoria, é a minoria.

Participante

Desses homens que sofrem. As mulheres trabalhadoras domésticas-

Pietra Bertolazzi

Só não sofrem porque elas tão trabalhando, trabalhando dignamente, recebendo salário

Participante

...70% são negras.

Pietra Bertolazzi

Tão trabalhando dignamente, por que que sofrem?

Participante

70% são negras das mulheres de trabalho doméstico.

Pietra Bertolazzi

Que bom, tem um trabalho.

Participante

E a grande maioria não tem nem carteira assinada. Essa é a realidade do Brasil.

Pietra Bertolazzi

O que que isso tem a ver? O que que isso tem a ver com a premissa?

Participante

Isso tem a ver com o salário menor.

Pietra Bertolazzi

Não, não tem a ver com isso.

Participante

Você não traz nenhum dado, Pietra.

Pietra Bertolazzi

Porque homens também têm salário baixo. O pedreiro não ganha muito.

Participante

Então, é muito fácil pra você, quando você nega todos os dados, pra tirar uma ideia da Pietrolândia, da sua cabeça.

Pietra Bertolazzi

Um cara, um cara que trabalha com, um cara que trabalha em mineração de carvão, de carvão, não é-

Participante

Uma realidade que só existe na sua cabeça.

Pietra Bertolazzi

É, só na minha cabeça.

Participante

Arrasou!

Pietra Bertolazzi

Olá, você não veio ainda. Como cê chama?

Participante

Circe.

Pietra Bertolazzi

Ceice?

Participante

Circe.

Pietra Bertolazzi

Circe, prazer, Circe.

Participante

Você pode repetir a pauta de novo?

Pietra Bertolazzi

A desigualdade salarial entre homem e mulher não existe.

Participante

Bom, eu não queria trazer dados, eu queria trazer uma experiência, tanto quanto mulher trans como mulher mesmo, porque eu não me baseio só nesse fato, nesse, nessa, nesse nome de trans. Eu também sou uma mulher. É, como cê falou que as pessoas elas pegaram como uma faxineira, como se, um cozinheiro grande.

Pietra Bertolazzi

Uhum.

Participante

Então, na, eu vou, eu dito na Bahia, que, que é onde eu vim. Eu fiz um curso, é, de auxiliar de necrópsia, eu fiz necromaquiagem, fiz tudo, e tentei me ingressar nessa área lá de, lá na Bahia, mas eles não quiseram me aceitar. Não foi por causa de transfobia, nada do tipo, porque eles não chegaram nem a saber que eu era trans.

Pietra Bertolazzi

Uhum.

Participante

Era realmente porque eles não queriam-

Pietra Bertolazzi

Eu queria falar, você nem parece.

Participante

Obrigada. Mas eu não sei se é um elogio.

Pietra Bertolazzi

Não, não é elogio.

Participante

O "não parecer". Mas agradeço o elogio de qualquer forma. Então, tipo assim, eles não quiseram me por porque, tipo, a mulher não pode exercer isso, porque ela fracassa, sendo que eu fui pesquisar sobre isso, as, os caras lá dentro, eles não têm nem esse curso. Eu tive um curso preparatório, eu estudei pra tá ali, eu estudei pra fazer aquilo, estudei pra falar, pra fazer, pra preparada pra tá lá.

E eles nem tiveram, eles não quiseram me por lá só por ser mulher

Pietra Bertolazzi

Mas cê não acha que tem a ver também, é, né, né, necrópsia tem a ver, né, com você lidar com questões-

Participante

Isso

Pietra Bertolazzi

...é, é meio pesado emocionalmente.

Participante

Aham.

Pietra Bertolazzi

Poxa, é uma área bem pesada emocionalmente, né?

Participante

É.

Pietra Bertolazzi

E mulheres são mais sensíveis, querendo ou não, né? Eu acho que, acho que não é uma questão de preconceito, é uma questão de, é, e deve existir de alguma forma uma experiência até das pessoas que trabalham com isso, de falar: "Olha, mulheres geralmente não seguram, não seguram a onda por muito tempo nessa, é, é, né, nessa profissão específica-

Participante

É, mas aí-

Pietra Bertolazzi

...porque lida com muitas questões emocionais-

Participante

Uhum

Pietra Bertolazzi

...é uma coisa meio pesado até. Não sei qual que era o traba-- cê falou de maquiagem, né?

Participante

Isso, maquiagem.

Pietra Bertolazzi

Mas cê tinha que também vestir e tudo mais.

Participante

Isso.

Pietra Bertolazzi

E eu, eu já vi, eu já, já, eu sei como é essa coisa de vestir, é, um, um defunto, tal. É uma coisa também que exige uma força física maior. Eu imagino que o fato de eles não quererem colocar uma, uma mulher nesse trabalho tenha a ver com uma experiência que eles possam ter tido com mulheres que abandonaram a rua dessa profissão.

Participante

Não cê não acha que isso é general-generalizar as mulheres de uma certa forma? Porque uma não conseguiu, todas não dá.

Pietra Bertolazzi

É, generalizar, mas assim, imagina, imagina que, eu não sei, tô supondo, tá?

Participante

Tá, tudo bem.

Pietra Bertolazzi

Que, que essas pessoas, os donos dessa, dessa empresa, é, tenham tido uma experiência com cinco mulheres. É, aí na sexta mulher ele fala: "Poxa vida, outra mulher a gente vai perder, em dois meses ela vai embora". Então é mais fácil contratar homem, que homem geralmente fica aqui dez anos, entende? Não, tô supondo porque você trouxe uma, um caso de uma profissão específica que-

Participante

Isso

Pietra Bertolazzi

...eu entendo que mulheres sejam mais sensíveis, entendeu, a respeito. Não sei, é a forma como eu enxergo.

Participante

Sim, não enxergo.

Pietra Bertolazzi

E aí não existe a questão da dispar-da disparidade salarial, né? É uma questão de não quero uma mulher aqui por, enfim, mu-- qualquer motivo que seja.

Participante

É, bom tempo.

Pietra Bertolazzi

Mas bom, bom você ter trazido isso. [aplausos] "A liberdade sexual das mulheres só beneficiou os homens." [som de batidas] Olha ela de novo.

Participante

Oi. Eu quero entender como que você entende o que você acabou de dizer. O que seria a liberdade sexual das mulheres e o que seria o benefício dos homens em relação à nossa sexualidade?

Pietra Bertolazzi

Tá.

Participante

Pra eu entender como é que cê coloca.

Pietra Bertolazzi

O benefício seria, é, o benefício que a revolução sexual trouxe, né, que foi a ideia de que a mulher pode ter inúmeros parceiros, é, sem consequências, é, de, de qualquer forma, né, inclusive trazendo a questão da, da pílula anticoncepcional, ou seja, as mulheres podem se deitar com vários homens e não ter a consequência natural biológica que seria uma gravidez, né? Isso, é, se deu, né, uma, uma coisa-

Participante

Sim

Pietra Bertolazzi

...é, é, elas se retroalimentam, né?

Participante

Sim.

Pietra Bertolazzi

A liberdade sexual e os métodos contraceptivos. Ou seja, isso beneficiou os homens, porque as mulheres têm várias consequências-

Participante

Sim

Pietra Bertolazzi

...porque muitas vezes os método-os métodos-

Participante

Entendi

Pietra Bertolazzi

...contraceptivos falham.

Participante

Sim.

Pietra Bertolazzi

E quem lida com a consequência é a mulher e não o homem.

Participante

Ok. O que eu entendo dessa frase é, realmente os homens eles se beneficiam da sexualidade das mulheres, tendo em vista que o capitalismo se cresce em prol da compulsão da maternidade. Então, de certa forma, eu estou sendo obrigada a gestar, mesmo que eu, em um momento, decida isso. E o sistema patriarcal, ele se cresce em cima da maternidade e da sexualidade das mulheres. Mas a partir do momento em que você cresce sendo mulher, você cresce por dois caminhos: ou você vê a sua sexualidade como um estupro ou como a maternidade.

E a terceira via, que é o prazer, normalmente é direcionada à promiscuidade e as mulheres são automaticamente levadas a se ver como sujeira. Tanto que o movimento red pill diz que essa aqui ó, vai ser esposa de alguém usando a nossa liberdade sexual contra nós.

Pietra Bertolazzi

Olha, eu não tenho nada a ver com o movimento red pill, tá? Eu não tenho, eu não tô nem aí pra nenhum movimento, eu sou a Pietra.

Participante

Não, eu só estou utilizando o benefício dos homens em prol à sexualidade das mulheres.

Pietra Bertolazzi

Então, o benefício, vamo lá.

Participante

É só uma vertente desse benefício do nosso sexo.

Pietra Bertolazzi

Quando você dissocia, você, você dissocia a procriação do ato sexual, cê já tá transformando aquele ato em algo que biologicamente, ontologicamente, metafisicamente, espiritualmente, não faz sentido, porque desde que o mundo é mundo, como, não, pera-

Participante

As pessoas transam.

Pietra Bertolazzi

As pessoas transam e aí, e aí, pasme...

Participante

Você transa?

Pietra Bertolazzi

Não, eu vivo a castidade, graças a Deus.

Participante

Que triste.

Pietra Bertolazzi

E aí, pasme, a cons-- bom, pra você. Eu vivo com sexo, muito feliz, graças a Deus.

Participante

O sexo é muito bom, amiga.

Pietra Bertolazzi

Eu vivo, é...

Participante

E saber do próprio corpo é uma delícia.

Pietra Bertolazzi

E você acha que as mulheres hoje-

Participante

Na verdade, faz bem até pra saúde

Pietra Bertolazzi

...você acha que as mulheres hoje tão mais felizes?

Participante

Faz bem pro humor, pro espírito.

Pietra Bertolazzi

Você acha que as mulheres hoje tão mais felizes?

Participante

Acho.

Pietra Bertolazzi

Cê acha que as mulheres tão mais felizes? Porque os índices mostram o contrário.

Participante

A gente tem acesso a gozo. A gente tem acesso a gozar.

Pietra Bertolazzi

E por que que você acha que isso não acontecia antes?

Participante

Só os homens gozam. Porque os homens-

Pietra Bertolazzi

Por que você tá tirando isso?

Participante

Ué, é só você ver a Constituição. A Constituição, não, a forma como a história se construiu dentro do sexo para as mu-nós mulheres.

Pietra Bertolazzi

Cê acha que as mulheres não tinham prazer até a década de 60?

Participante

Elas não tinham.

Pietra Bertolazzi

Durante cinco mil anos, seis mil anos, as mulheres não tinham prazer?

Participante

Não, elas não tinham. Não, principalmente pelo desconhecimento. Principalmente pelo desconhecimento.

Pietra Bertolazzi

Mas por que você tira isso? Porque a gente vê várias mulheres da literatura que fa-

Participante

É, é a história.

Pietra Bertolazzi

Não, mas que história? Qual história?

Participante

Mas essas mu-mas essas mulheres, elas foram silenciadas pela própria narrativa hegemônica.

Pietra Bertolazzi

Como silenciadas se, se tem na literatura? Bom...

Participante

Mas nós estudamos isso nas escolas?

Pietra Bertolazzi

Mas que que cê tá falando de estudo na escola?

Participante

Não entendi, então.

Pietra Bertolazzi

Não, eu que não entendi qual é, qual é a relação de prazer feminino com...

Participante

Pietra, voltei. É, Pietra, eu vi uma matéria na CNN, eu espero que também cê tenha ficado muito chocada, que com base naquela caso, naquele caso da Pelicot, sabe aquela mulher francesa?

Pietra Bertolazzi

Uhum.

Participante

Que foi casada há cinquen-- eu te, vou te contar então. Tem uma mulher francesa que foi casada há cinquenta anos, e aí ela descobriu que durante dez anos ela foi dopada e uma rede de estupradores, é, abusou dela com consentimento do marido dela.

Pietra Bertolazzi

Um horror, eu, eu desejo que eles sejam mortos.

Participante

Um horror. Então, só que continuando essa história.

Pietra Bertolazzi

Uhum.

Participante

Com ca-com qua-com base nisso, descobriram uma rede internacional chamado Academia do Estupro. E grande parte-

Pietra Bertolazzi

O que que isso tem a ver com liberdade sexual das mulheres?

Participante

Eu vou, vou te explicar por quê.

Pietra Bertolazzi

Isso é um estupro, isso é um...

Participante

É, eu quero dizer que os homens se beneficiam do corpo das mulheres há muito tempo, através da ausência de consentimento. Então, quando as mulheres podem consentir, isso que você chama de revolução sexual, é as mulheres terem o direito de escolher se elas querem transar, fazer sexo ou não.

Pietra Bertolazzi

Mas quando que elas não tiveram essa opção?

Participante

Muitas vezes não tiveram essa opção.

Pietra Bertolazzi

Quando?

Participante

Por exemplo, na monarquia, quando elas pertenciam ao pai, ao irmão, ao marido, e não a elas mesmas.

Pietra Bertolazzi

Não, mas elas escolhiam, não tem relação, tanto que as que, as que queriam tinham.

Participante

Não, elas eram obrigadas.

Pietra Bertolazzi

É que o mundo era muito cristão, obviamente.

Participante

Elas eram obrigadas, isso na monarquia.

Pietra Bertolazzi

Obrigadas, não.

Participante

Obrigadas a fazer o que os donos delas quisessem.

Pietra Bertolazzi

É, é, os valores, a sociedade era muito... Que dono? Mas que dono, gente? Que história de dono?

Participante

Ó, por exemplo, as mulheres quando foram escravizadas, as minhas ancestrais, elas não podiam consentir a sexualidade delas. Demorou muitos anos.

Pietra Bertolazzi

Mas a gente não tá falando de estupro. A gente tá falando-

Participante

A gente tá falando de liberdade sexual

Pietra Bertolazzi

...a gente tá falando do, do ato, a gente tá falando... Vamo lá.

Participante

De liberdade sexual. Esse caso-

Pietra Bertolazzi

A gente tá falando da, de prome-da promiscuidade trazida pela liberdade sexual, trazida pela revolução sexual, que é o fato de que as mulheres hoje trans, é, é, elas saem por aí, elas se deitam com qualquer um.

Participante

Elas podem escolher. Elas podem escolher.

Pietra Bertolazzi

Só que as consequências disso são que os homens são beneficiados, porque eles podem dormir com elas.

Participante

Elas tam-elas são beneficiadas pela escolha delas.

Pietra Bertolazzi

Os homens têm muito mais acesso, os homens têm muito mais acesso à vida sexual.

Participante

As mulheres não são beneficiadas quando elas não podem consentir, quando elas são estupradas.

Pietra Bertolazzi

Eles entram em um aplicativo hoje com... Os hom-- mas, mas hoje-

Participante

Quando elas não podem acessar anticoncepcional, quando elas não podem abortar, elas não podem consentir. Quando elas consentem, elas podem fazer o que quiser. Próxima.

Pietra Bertolazzi

Hoje os homens entram, hoje os homens entram num aplicativo, eles transam com quem eles querem todos os dias. Se o homem quiser dormir com uma mulher diferente todo dia, ele consegue.

Participante

Eu sou a Sara, eu tenho trinta e cinco anos, eu sou feminista e evangélica.

Pietra Bertolazzi

Olha lá!

Participante

Eu acho isso bem interessante pra, pra gente poder conversar um pouco sobre isso, sobre a liberdade sexual. É-

Pietra Bertolazzi

E como evangélica, você defende a castidade ou não?

Participante

Então, eu respeito, porque não é porque eu sou cristã, que eu sou evangélica-

Pietra Bertolazzi

Que você segue a vontade de Deus [risos].

Participante

Não, não, não. É que eu, eu, eu não sou obrigada a fazer as pessoas-

Pietra Bertolazzi

Tudo que daí, que Deus manda.

Participante

Ai, meu Deus, ela, ela não deixa a gente falar, ela não deixa, meu Deus. Olha, não é porque eu sou evangélica que eu tenho que obrigar as outras pessoas a seguirem o que eu sigo.

Pietra Bertolazzi

Não, mas ninguém tá obrigando ninguém.

Participante

Eu sigo a castidade. Eu tenho trinta e cinco anos e sou virgem, não tenho vergonha de falar isso.

Pietra Bertolazzi

Amém, Deus concede.

Participante

Mas se eu quisesse, eu poderia muito bem estar fazendo sexo, porque é meu direito.

Pietra Bertolazzi

Mas, mas ninguém tá discutindo o que as pessoas podem ou não fazer com o próprio corpo. Elas obviamente estão fazendo o que elas podem, o que elas querem.

Participante

E qual que é a questão que você tá falando?

Pietra Bertolazzi

O-- a questão é que isso beneficia os homens e não as mulheres.

Participante

Por quê?

Pietra Bertolazzi

Os homens hoje que têm acesso a sexo a hora que eles querem, com quem eles querem, o tempo todo.

Participante

Não!

Pietra Bertolazzi

Na verdade, eles que-- porque quem fica com a consequência biológica, quem corre o risco, quem mutila o próprio corpo são as mulheres, porque as mulheres têm que, as mulheres que têm que ge-

Participante

Aí tá errado, a consequência não tem que ficar pra mulher.

Pietra Bertolazzi

Não, não, mas vem cá, é a mulher pra, ó, vem cá-

Participante

Aí tá o machismo do, do, do patriarcado.

Pietra Bertolazzi

O mar-- o machismo da biologia?

Participante

O patriarcado, ele fala que quem, que, que tem que, que sofre mais é a mulher.

Pietra Bertolazzi

Não é patriarcado, é biologia. Porque o útero fica na mulher, pasme, o útero fica no corpo feminino.

Participante

Por isso, por isso que nós, mulheres, feministas-

Pietra Bertolazzi

Somos o que? Oprimidas pela biologia?

Participante

Não, a gente é a favor da legalização do aborto.

Pietra Bertolazzi

Pelo amor de Deus, você é uma cristã le-- pedindo a legalização do aborto, isso é a coisa mais surreal do mundo.

Participante

Nossa, eu queria falar mais. Ah.

Participante

Oi, de novo.

Pietra Bertolazzi

Oi.

Participante

Vamo lá. Ééé, você vira e fala que o fato das mulheres poderem dormir e escolherem com quem dormir, isso ba-- beneficia maior os homens.

Pietra Bertolazzi

Não é poder escolher com quem, é, é dormir deliberadamente com vários homens, essa cultura de, de sexo casual, tudo mais.

Participante

A questão é, sim, isso faz parte de escolhas, é óbvio que isso, e a gente não tá falando de estupro de vulnerável quando a gente tá falando de alcoolismo.

Pietra Bertolazzi

Sim.

Participante

Ok?

Pietra Bertolazzi

Sim.

Participante

É...

Pietra Bertolazzi

Sim, sim, obviamente.

Participante

Eu-- vamo só estabelecer esse critério que a gente não tá falando disso.

Pietra Bertolazzi

Mas cê acha que uma mulher alco-- que se alcoolizou, ela não escolheu ficar alcoolizada?

Participante

Mas não necessariamente ela escolheu ser estuprada. Se ela não tem a compreensão-

Pietra Bertolazzi

Mas aí depende-

Participante

Isso eu acho que é um limite que a gente precisa entender. Se você, se você-

Pietra Bertolazzi

Tá, vamo considerar que ela não bebeu.

Participante

Entendeu?

Pietra Bertolazzi

Tá.

Participante

Acho que tem uma questão, que antes do processo da, da revolução sexual nos anos setenta, etc, nós tínhamos uma série de questões de violência sexual, inclusive dentro do próprio casamento. É a partir dos anos setenta que a gente começa a debater a questão do estupro marital.

Pietra Bertolazzi

Hum.

Participante

Inclusive a possibilidade da mulher dizer não.

Pietra Bertolazzi

Mas a mulher sempre pode dizer não, assim como o homem sempre pode dizer não.

Participante

Não, não é verdade isso, e você sabe muito bem disso.

Pietra Bertolazzi

Não, não.

Participante

Porque a mulher, ela, ela se, a mulher, em especial, as mulheres negras, as mulheres brancas, elas eram vistas enquanto propriedade. Inclusive no Brasil, no Brasil-

Pietra Bertolazzi

As mulheres brancas e negras, cê falou?

Participante

Sim, propriedade.

Pietra Bertolazzi

Ah, porque, mas então fala mulheres, né? Não precisa dividir.

Participante

E aí quando a gente vai pegar no processo de escravidão, de escravização, o processo das mulheres negras, do ponto de vista de não dizer não pro seu sinhozinho, pros seus donos, don-

Pietra Bertolazzi

Mas o que tem a ver? Mas, mas, mas vamo resturar as coisas, porque fica infrutífero o papo. A gente tá fazendo, a gente tá falando, ó: vamo falar das mulheres brancas privilegiadas que hoje podem escolher dormir cada dia com homem diferente e isso beneficiar mais os homens e não as mulheres.

Participante

É que eu não posso falar em mulheres brancas privilegiadas, eu também sou uma mulher negra.

Pietra Bertolazzi

Gente, fala, mas você é uma mulher negra. Mas por que que cê quer di-

Participante

E aí assim ó-

Pietra Bertolazzi

Você não é negra, você é branca.

Participante

Eu sou negra negrega.

Pietra Bertolazzi

Você é uma mulher negra trans.

Participante

Não.

Pietra Bertolazzi

Que você se diz negra sem ser.

Participante

Não, eu sou uma mulher negra.

Pietra Bertolazzi

Você é da cor, olha aqui ó.

Participante

Não.

Pietra Bertolazzi

Olha aqui, você é da minha cor.

Participante

Não, eu sou uma mulher negra.

Pietra Bertolazzi

Como é que cê é negra? [risos] Aí eu também tenho um avô negro, eu vou me considerar ne-negra porque ele tem um avô negro?

Participante

Eu não só tenho um avô, eu sei uma-

Pietra Bertolazzi

Desculpa, a tua pele é do tom a minha, desculpa, não vem com essa.

Participante

Não, nossa!

Pietra Bertolazzi

Só mais essa.

Participante

Nem, nem um pouco, nem um pouco, inclusive.

Pietra Bertolazzi

Coloca aqui ó, bota aqui, bota aqui.

Participante

Não, não é, não é. Inclusive-

Pietra Bertolazzi

Bota aqui então, vamo ver.

Participante

Tem o, é só ver os pelinhooo.

Pietra Bertolazzi

Bota aqui pra gente ver então. Tá com medo.

Participante

Não tô com medo.

Pietra Bertolazzi

Bota aqui teu braço.

Participante

Não tô com medo, olha só, não é, não é a mesma coisa.

Pietra Bertolazzi

Aqui ó, aqui ó. Ah, pelo amor de Deus, gente.

Participante

Não é a mesma coisa. É, a questão é, hoje a gente pode dizer não, e do dizer não garante a gente não sofrer violência.

Pietra Bertolazzi

Só que o fa- o fato é que as mulheres tão falando mais sim do que não, né? Aí transforma tudo numas bola e os homens podem fazer o que eles querem.

Participante

Mas assim, não é o problema, o problema-

Pietra Bertolazzi

Desculpa, eu esqueci teu nome, que era?

Participante

Sara.

Pietra Bertolazzi

Sara, Sara.

Participante

É, então, a gente parou falando que a mulher que tem mais consequência. Eu discordo, porque isso é o machismo que vem do patriarcado. É, a mulher tem mais-

Pietra Bertolazzi

Mas di-- aonde que você discorda?

Participante

Repete, então.

Pietra Bertolazzi

Aonde que você discorda?

Participante

A sua frase.

Pietra Bertolazzi

Que os homens têm mais benefícios com a revolução sexual.

Participante

Não, não tem. É errado isso, porque você-

Pietra Bertolazzi

Por quê?

Participante

Você falou assim que a, que as mulheres el-

Pietra Bertolazzi

Quem que engravida, é o homem ou a mulher?

Participante

É a mulher.

Pietra Bertolazzi

Então.

Participante

Só que é errado a mulher ficar com, com o sacrifício ali.

Pietra Bertolazzi

Eu também concordo. Eu concordo que o homem tinha que ficar com a mulher, tinha que ser casado, tinha que ter o filho todo mundo junto.

Participante

E, e isso é culpa do patriarcado, do machismo.

Pietra Bertolazzi

Não, é, é uma consequência biológica de você ter um ato sexual.

Participante

Não, isso é culpa do patriarcado, porque, porque existe pílula-

Pietra Bertolazzi

Pasme, o ato sexual tem como fim a reprodução, naturalmente falando.

Participante

Do dia seguinte, existe o aborto legalizado.

Pietra Bertolazzi

Não, não existe o aborto legalizado, existe o assassinato legalizado, cê tá dizendo?

Participante

Não, não, é aborto legalizado.

Pietra Bertolazzi

Bom-

Participante

E eu sou a favor do aborto legalizado, porque-

Pietra Bertolazzi

Você é uma cristã a favor de assassinar crianças nos ventres das mães.

Participante

Não, não, de assassinar a criança, não. Do aborto legalizado.

Pietra Bertolazzi

O que que é o aborto legalizado? É matar uma criança dentro do ventre, né?

Participante

Porque não é justo. E o, e o homem quando abandona uma criança, uma mulher grávida-

Pietra Bertolazzi

Tá errado também.

Participante

Ele tá sendo um abortista.

Pietra Bertolazzi

Então quer dizer que o ho-- quer dizer, não, não, não.

Participante

Por que que o homem não sofre as consequências?

Pietra Bertolazzi

O homem, o homem, ué, mas a mulher não é forte? A mulher não consegue bancar o filho, não consegue criar o filho?

Participante

Não, não, não. O homem também tá sendo assassino quando ele abandona a mulher grávida.

Pietra Bertolazzi

Agora, ele pode ser um grande babaca, um grande imbecil.

Participante

Ele tá sendo um assassino.

Pietra Bertolazzi

Agora, assassino, ele não é. Assassino é o ato de matar uma outra vida.

Participante

Não é só a mulher. Não, a mulher, o homem também está sendo assassino.

Pietra Bertolazzi

Isso quem faz é uma mulher quando escolhe abortar.

Participante

O homem também é assassino quando ele aborta.

Pietra Bertolazzi

Então quer dizer que é melhor matar a criança do que, do que criar ela sozinha?

Participante

Talvez, sim.

Pietra Bertolazzi

Ah, pelo amor de Deus.

Participante

Talvez, sim

Participante

Oi Pietra, novamente.

Pietra Bertolazzi

Oi, de novo.

Participante

Então, acho que esses assuntos são importantes da gente trazer em pautas escolares, né? Porque a gente falou hoje tanto de violência como foi a pauta que eu trouxe antes, e por que não ensinar esses jovens a lidar com tudo isso, a lidar com todas as informações que a gente tem nas redes sociais e como eles vão fazer com seus próprios corpos, né? Como é a relação lésbica, a relação heterossexual, a relação-

Pietra Bertolazzi

Por que que cê quer impor uma ideologia pra crianças que nem tem ainda-

Participante

Não é uma ideologia, é consciência do que eles podem fazer.

Pietra Bertolazzi

Não, quando você fala, quando você fala de, de agenda LGBT, você trouxe: "Ah, tem que ensinar o que é lésbica, o que é gay". Por que que cê quer ensinar isso pra crianças que muitas vezes não têm nem isso-

Participante

Não tô falando pra crianças, eu tô falando pra jovens e adolescentes que estão atualmente indo pra festas, bebendo, curtindo-

Pietra Bertolazzi

Mas por que, mas por que, mas por que que cê acha necessariamente que todo jovem vai pra festa beber?

Participante

Se tendo esse relacionamento sexual, por que que eles não podem ter informações necessárias? Não, não tô falando, eu tô falando da realidade, é o que eles vão, é o que eles fazem.

Pietra Bertolazzi

Mas cê não acha que são os pais que têm que decidir o que ensinam pros filhos?

Participante

Claro, com certeza, mas e a escola-

Pietra Bertolazzi

E por que que a escola tem que se meter nisso?

Participante

Quantas vezes os jovens não fazem escondido dos pais? Por que que eles não têm-

Pietra Bertolazzi

Ué, mas tá errado isso, aí é, aí, aí é uma irresponsabilidade dos pais.

Participante

Claro que tá errado, mas aí a escola poderia dar essa, essa possibilidade de trazer informações necessárias e importantes pras crianças saberem os jovens-

Pietra Bertolazzi

Eu não acho que a gente deve delegar pro Estado, eu não acho que o Estado tem que interferir no que eu quero ensinar pros meus filhos com relação à sexualidade.

Participante

Eles precisam saber o que é certo e errado pro seu próprio corpo.

Pietra Bertolazzi

Até porque como cristã, eu defendo a castidade, eu defendo, eu defendo o cristianismo.

Participante

Defende, mas não é a sua realidade, não é sua realidade.

Pietra Bertolazzi

Mas eu quero ter o direito de ensinar minha filha o que eu quero, e não, e não é o Estado que tem que decidir.

Participante

Para, mas não é só sua filha, é pra nossa sociedade inteira.

Pietra Bertolazzi

Mas o Estado não tem que interferir.

Participante

O nosso mundo é diferente do seu, então aceita.

Pietra Bertolazzi

Mas se você quer ensinar pra tua filha que ela pode ser gay, que ela pode ser isso e aquilo, você ensina, por que que o Estado tem que ensinar?

Participante

Por que que cê tira minha carta pauta do colégio?

Pietra Bertolazzi

Porque não é o Estado que tem que decidir o que as crianças vão assistir.

Participante

É necessário, é necessário trazer essas informações pro colégio.

Pietra Bertolazzi

Não, não, não, cada família tem o pátrio poder sobre o seu próprio filho.

Participante

Mas não é assim que acontece, não é assim que acontece.

Pietra Bertolazzi

Como não é assim que acontece? Se não, se não é o, se não são os pais que têm direito, quem que é? [som de buzina] Ah, eu, eu fico horas, não. Já fiquei seis horas.

Participante

Silêncio, por favor.

Participante

Pietra, cê pode repetir a sua afirmação, por favor?

Pietra Bertolazzi

A liberdade sexual das mulheres só be-beneficiou aos homens.

Participante

Certo. Me responde, você é a favor de preservativo?

Pietra Bertolazzi

Não.

Participante

Você é a favor de anticoncepcional?

Pietra Bertolazzi

Não.

Participante

Você é a favor de algum método contraceptivo?

Pietra Bertolazzi

Não.

Participante

Então, eu acho que é meio claro que pra mim não é somente a, a ideia que existe na Pietrolândia de revolução sexual, mas existe a própria defesa da Pietra que as pessoas não podem ter acesso a ter uma relação sexual minimamente saudável e etc.

Pietra Bertolazzi

A minha defesa é congruente com a minha fé católica apostólica romana. Não sou eu quem defino o que a minha fé impõe.

Participante

Quais são os métodos de prevenção pra ISTs que você propõe?

Pietra Bertolazzi

IST, DST? É que virou DST.

Participante

É IST, né, que são infecções.

Pietra Bertolazzi

Ai, é que muda, né, que muda as coisas. Tá.

Participante

Então, você pode procurar a ciência pra se informar. Por quê? Porque existe uma infecção sexualmente transmissível.

Pietra Bertolazzi

Ah, bom, bom, enfim, a gente sabe o que a gente tá falando, né? Tá. Tá, é doença que cê quer, eu sei lá.

Participante

Não é doença. AIDS não é HIV, são coisas diferentes. É importante, né, quem tá em casa poder pesquisar também sobre isso.

Pietra Bertolazzi

É, o que eu defendo é que as pessoas tenham atos sexuais dentro do matrimônio.

Participante

Sim, mas isso não é a realidade do mundo, né? Isso só na Pietrolândia.

Pietra Bertolazzi

Infelizmente, porque a revolução sexual trouxe esse novo conceito de vida sexual, onde as pessoas dissociam o ato da reprodução.

Participante

Tá. Antes do feminismo, existia estupro?

Pietra Bertolazzi

Claro, sempre existiu estupro, sempre existiu todo tipo de crime.

Participante

Antes do feminismo, existia relações não consensuais?

Pietra Bertolazzi

Mas que cê tá dizendo, cê acha que o estuprador vai colocar a camisinha?

Participante

Não, eu estou dizendo que existem vários níveis de violência sexual que acontecem e que não é parte do que a mulher quer ou não fazer.

Pietra Bertolazzi

Mas o que que muda, o que que mu-- cê quer dizer então que a mulher tem que tomar pílula pra caso ela seja estuprada?

Participante

Não, Pietra, o que eu tô dizendo é que em várias situações concretas, as mulheres sempre sofreram um problema que é chamado machismo, patriarcado, onde elas pouco tiveram o direito de poder decidir sobre os seus corpos.

Pietra Bertolazzi

E por que que cê acha que é melhor elas terem liberdade sexual, delas pegarem geral, terem depressão, elas estarem sozinhas, as crianças serem criadas sem pais?

Participante

Porque o que você tá atacando, o que você tá atacando não é o feminismo, você tá atacando teoricamente o machismo.

Pietra Bertolazzi

A revolução sexual criada pelo, pelas feministas.

Participante

Revolução sexual que existe só na sua cabeça, porque a realidade hoje é que as mulheres hoje não podem viver liberdade sexual, porque pessoas como você atacam, utilizam inclusive do discurso da promiscuidade pra atacar a liberdade da mulher.

Pietra Bertolazzi

Não, não, eu defendo, de novo, eu defendo, eu não tenho nada a ver com o Bolsonaro, eu não tenho político de estimação, vocês são comunistas.

Participante

Agora, quando o Bolsonaro, quando os líderes políticos que você representa, você...

Pietra Bertolazzi

Olha, cê sabia que, cê, cê é comunista, né? Cê sabe o que o Che Guevara-

Participante

Sou comunista pra vestir comunista. Agora, vamo lá.

Pietra Bertolazzi

Cê sabe o que o Che Guevara fazia com os gays, com os trans?

Participante

Quando os líderes políticos que você não fala nada, ele vai lá diretamente, sabe o que ele faz?

Pietra Bertolazzi

Cê sabia que o Che Guevara, cê sabe que os líderes comunistas metralhavam os comunistas?

Participante

Ele fala que tem dado clima pra mulheres de quatorze anos, e você não repudia isso.

Pietra Bertolazzi

Cê sabia que Lênin metralhava gay?

Participante

As falas, as falas da extrema direita que você apóia, você não repudia.

Pietra Bertolazzi

Cê sabia que Che Guevara matava travesti? Cê sabia que não existe travesti em Cuba? Sabia?

Participante

Você fortalece o patriarcado. Você é capaz de fortalecer que as mulheres sejam vítimas dessa situação de mulheres.

Pietra Bertolazzi

Você fortalece os líderes revolucionários comunistas que matam pessoas como você. Você fortalece líderes comunistas que matam pessoas como você.

Participante

Pietra, na Pietrolândia.

Pietra Bertolazzi

Aham. [risos] Bom, é claro que a gente que tá acostumada com esse tipo de, de debate, num-- a gente sabe que não vai convencer ninguém do lado contrário aqui da nossa posição, da nossa crença, da nossa fé, mas, é, eu vejo isso como uma forma de levar a possibilidade pra quem tá assistindo, de entender que elas não têm uma única opção, que é seguir a mentalidade e a cultura feminista nefasta hoje que invadiu o mundo, né?

Que existe uma outra opção, que não é seguir essa libertinagem imposta pelo feminismo, é, pela revolução sexual, né. Então ain-ainda existem pessoas que defendem e que vivem uma, é, buscam, né, uma vida de virtudes, uma vida, hã, alinhada com, com Cristo, né, com os valores que, e com os ensinamentos cristãos e, e que isso com certeza é a melhor escolha, né. Então a ideia é justamente que, tra-trazer esse aspecto, né.

Eu, eu por exemplo lembro que eu não, na, na, na época em que eu cresci, em que eu fui adolescente, permeava muito só a ideologia feminista, né. Então ninguém entendia ainda que existia a opção da castidade, que entendia ainda, que existia ainda um caminho de virtudes, uma vida cristã. E, e hoje com a internet, com esse tipo de debate que a gente pode participar, a gente pode levar essa opção às meninas que acham que só têm esse único caminho, que é viver a libertinagem imposta pelo feminismo.

Então essa é a minha mensagem. Obrigada