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1 Bilionário vs 30 Trabalhadores
1 h 29 min de vídeo · 18 mil palavras · Com Flávio Augusto
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Não deveria existir nenhum bilionário enquanto tem alguém passando fome. Não deveria existir nenhum bilionário enquanto tem alguém correndo o dia inteiro ficando sem salário.
Todos os meus funcionários recebem mais do que o piso salarial. A desigualdade social não é necessariamente um problema.
[grito]
Vou te falar-
Quando cê fala pra mim assim: "A desigualdade não é um problema," eu falo pra você que é, porque eu sou negra, mãe de dois-
Uhum
...baixa renda.
Aham.
Eu já recebi salário de mil e setecentos reais e atualmente estou desempregada, só trançando cabelo.
Uhum.
Cê tem noção da diferença-
Tenho
...que é ouvir essa frase e a dor, o peso que essa palavra ela tem? O peso que essa frase que você usou agora, deu?
Eu tenho muitas facilidades, mas não necessariamente eu fui o mais feliz. Aliás, os consultórios psicológicos tão cheio de rico tomando antidepressivo.
E por que que as outras pessoas que vendem curso assim não tão ricas?
É uma questão de performance.
Então trezentas pessoas são competentes e cento e cinquenta milhões de brasileiros, não.
Eventualmente, eu vou te dizer que-
Cês ouviram.
Não.
A gente-
Eventualmente-
A gente é incompetente ou preguiçoso.
Eu posso, posso terminar de, posso terminar de falar?
Por favor.
Você tem vinte e nove anos. Eu tenho cinquenta e três anos. Eu trocaria cem por cento do meu patrimônio pra ter a sua idade. Meu nome é Flávio Augusto, eu sou empresário brasileiro, considerado bilionário e hoje eu vou debater com trinta trabalhadores. A desigualdade social não é necessariamente um problema.
[grito] Gata, vai quebrar o iPhone do homem. Bom, a desigualdade social é o problema de tudo, né? Então não tem como não ser um problema. Acho que a gente vive num país dos mais desiguais do mundo, né? Um dos mais desiguais, baseado na colonização, que foi um processo totalmente desigual, de invasão, de usurpação de poder. Então é aquela coisa das nove gerações que você falou.
Uhum.
As pessoas tão há quinhentos anos tentando mudar, girar e seguir esse sonho de igualdade social, esse sonho de conseguir seguir, ser: "Ah, eu vou ser rico, eu vou ser milionário, eu vou ser bilionária."
Você sabe qual é-
Mas a verdade é que pessoas como você-
Uhum
...dizem que as pessoas vão conseguir e acabam estruturando, fazendo com que essa estrutura de que você sonha que você vai ser rico, ela se baseia com estruturas mais fortes, porque quando você fala: "Olha, eu fui professor, eu peguei ônibus e fiquei rico. Você também pode ficar rico." Seguindo que o Brasil é um país muito desigual, as pessoas têm famílias desestruturadas, a estrutura das escolas públicas são péssimas, a estrutura das escolas particulares também são péssimas, é meio que um caça dinheiro.
Estudava em escola pública?
Aham. E é iss-
Uma só ou duas?
Uma só. Uma só.
Não quis.
Uma escola de ensino integral.
Ensino integral? Entendi. Aonde?
Itaquaquecetuba.
Aqui em São Paulo.
Vila Ercília Algarve. É. [riso]
Muito bem. Olha só. Olha o que eu vou te falar. Cê sabe qual é o país considerado um dos menos desiguais no mundo?
Suíça?
Não.
Qual?
Índia.
Índia? Por quê?
Ele, estatisticamente, pelos números, ele é nos países que tem menos desigualdades.
Mas é o que tem mais gente, é o que mais foi explorado.
Não, então.
É um país que teve-
Tudo bem
...um processo de colonização pesada e que tem-
A Suíça-
...uma pobreza absurda.
Então, a Suíça-
É um país onde as pessoas ainda passam fome.
Perfeito, exatamente. Mas você tem um índice de desigualdade menor. A Suíça, por exemplo, que você mencionou, ela é um país que tem um índice de desigualdade maior do que a Índia.
Porque tem muitos bilionários?
Porque você tem uma disparidade maior. O ponto é o seguinte: onde tem mais qualidade de vida, na Suíça ou na Índia? A gente sabe que é na Índia. O que eu quero dizer pra você aqui, presta, presta atenção no que eu vou te falar. O ponto que eu quero, é, martelar contigo aqui, é, não é que eu fique feliz com as pessoas, é, tendo uma situação desfavorável, de forma alguma, mas a maior problema é a pobreza.
É a pobreza.
A pobreza.
E como que a pobreza vai ser solucionada? Como que vai acabar com a pobreza?
Te demiti, Amanda.
Fui demitida, desculpa.
Valeu.
Cê falou demais, né, atrapalhou.
Volte sempre. Ah, eu falei muito, claro. Eu falei bastante.
Muito obrigada, pessoal.
Miriã. Seja bem-vinda, Miriã. Opa, opa.
Flávio, eu não sou intelectual.
Nem eu.
Porém eu sou nascida e criada na comunidade.
Nem eu. Aonde?
É, lá em Itapys, na Zona Norte de São Paulo.
Uhum.
E lá, a realidade é uma só.
Uhum.
Quem pode mais, chora menos, né? E você falou assim, que a desigualdade social não é um problema. E eu falo com-
A pobreza é o problema.
Isso, é a pobreza o problema. E a gente tá aqui hoje conversando contigo, não só pra te apresentar o nosso lado.
Uhum.
Mas também entender o seu ponto de vista. E eu sou mãe de duas crianças.
Qual a idade?
Um tem quatro anos e um tem um ano e cinco meses.
Uhum.
Eu não tenho condição de pagar a escola particular e não é porque eu não quero.
Uhum.
Eu sou trancista, eu sou faxineira, eu sou professora do ensino infantil. Não consegui espaço, prestei concurso, passei na prefeitura, não consegui espaço pra falar, pra atuar na minha cena. E eu tenho uns filhos que precisam de mim. Então, a professora de ensino infantil teve que deixar lá o certificado guardado, fazer faxina, trançar cabelo, porque é a realidade que nos rodeia.
O pai do seu filho é presente?
É presente, mas eu sou casada.
Uhum.
E atualmente ele trabalha de domingo a domingo.
Ele faz o quê?
Ele é entregador de água.
Tá.
Trabalha no iFood, trabalha numa farmácia aos domingo.
Uhum.
A jornada dele é árdua de segunda a sábado e no domingo ele trabalha das oito às cinco da tarde.
Uhum.
A gente já tentou investimento, a gente já caiu em vários golpes, a gente busca de todas as maneiras. Eu tô falando da realidade.
Uhum.
Eu não vou apresentar números porque eu não consigo.
Tudo bem.
Eu só consigo falar de mim.
Tudo bem.
Eu, Miriã.
Uhum
Aos vinte e nove anos, mãe de duas crianças.
Uhum.
Que mora na Zona Norte de São Paulo, que fez faculdade, continua fazendo.
Se formou? Tá se formando?
Me formei em Pedagogia.
Uhum.
Fiz curso de trancista, me formei, porque eu aprendi que se você começa-
Trancista é cabelo
...e não termina.
Tá
Você não conquista.
Uhum.
Mas eu comecei e terminei Acabei não conquistando.
Uhum.
E aí, tem certeza que a desigualdade não é um problema?
Vamo lá. Vamo lá. Uma coisa é a desigualdade, outra coisa é a pobreza. Eventualmente, você vai ter pessoas desiguais por vários motivos. Existe uma desigualdade que eu acho muito ruim, que é provocada pelo Estado. Você mencionou alguma delas aqui, por exemplo. A escola pública é ruim. Nossa colega aqui, Amanda, que veio aqui agora há pouco, ela é professora. Então, por exemplo, como é que um, uma, uma, uma criança da favela, uma criança da periferia como eu, como você, estudando numa escola pública, ela vai conseguir competir com alguém que estudou nas melhores escolas de São Paulo?
Não tem como competir.
Ai, eu te peço-
Não dá. Olha, não dá pra competir. E aí eu digo pra você: é, a, a meritocracia pregada dessa forma, pra mim é uma falácia, é um absurdo.
Mas e a questão que eu falo-
Só pra concluir, só pra concluir, Miriã. Agora, existe uma outra desigualdade que ela é orgânica, ela é natural. Por exemplo, você tá fazendo faculdade, é dedica-- tá-- fez faculdade de Pedagogia, super dedicada, fez o curso de trancista, tá co-- tá, tá no seu corre pra melhorar de vida, porque você disse que você tem que ir até o final. E as pessoas que desistem? Tem gente que desiste.
E quem não desiste, mesmo assim não conquista, não alcança o espaço. É sobre essa verdade que a gente tá aqui falando.
Eu entendo, Miriã.
Porque eu vim até você-
Isso
...porque eu tô aqui, eu tô no dia a dia.
Você-
Eu sei o que é carga horária.
Miriã, olha o que eu vou te falar.
Eu sei o que é transporte público, eu sei o que é ter o certificado na mão.
Olha o que eu vou te falar.
Quando cê fala pra mim assim: "A desigualdade não é um problema", eu falo pra você que é, porque eu sou negra, mãe de dois, baixa renda.
Uhum.
Eu já recebi salário de mil e setecentos reais e atualmente eu estou desempregada, só trançando cabelo. Cê tem noção da diferença-
Tenho, tenho
...que é ouvir essa frase e a do-- o peso que essa palavra ela tem? O peso que essa frase que você usou agora deu?
Essa, essa frase-
Impacto. É de grande impacto.
Miriã, essa-
E eu, como, ó, não sou uma pessoa assim de números, não me fale de números.
Não, não vou falar de números, não. Miriã, o que eu quero dizer pra você-
Porém, Flávio, o que eu vim falar com você aqui hoje é: você tem as suas verdades, eu tenho as minhas. Porém, a taxação, seguida de verdade e coerência, impactando sim, com força aos bilionários, pode ser bem utilizado não só em questão de saúde, que já foi dita aqui, mas também em questão de espaço pra quem não tem voz. E nós, de baixa renda, nós não temos voz.
Então, eu, eu, eu entendo. Eu também fui de baixa renda. Eu fui uma pessoa de baixa renda também. Entendo perfeitamente o que cê tá falando. Estudei em escola pública. Entendo o que cê tá falando. Agora, o que eu teria pra dizer pra você, que tá buscando, não desiste. Cê vai conseguir. Não desiste do seu projeto. Não desiste de dar uma vida melhor pros seus filhos. São dois meninos?
Dois meninos, o Álvaro e o Kenai.
Álvaro e o Kenai. Cê acha que o Álvaro e o Kenai merecem a sua dedicação?
Merecem.
Então, eu digo, eu vou, eu vou dizer um negócio-
Por isso que eu luto, que busco diariamente, Miriã.
Mas eu vou dizer um negócio pra você, Miriã. Isso aqui tá gravado, sendo assistido por milhões de pessoas. Não desiste. Se ex-- todos os dias várias pessoas tentam e não conseguem. Ela não pode desistir. Não espere que vai ser o Estado que vai resolver pra você a sua vida.
Não, não acho.
Não espere, não espere.
Porém, eu acredito que o quê? Essa taxação, ela vai vir com mais impacto.
Não, não, o assunto não é-
Eu acredito que você-
Ó, eu já falei, olha só, eu já falei que concordo com a taxação.
Sim.
Só que assim, ó, só pra gente não fugir.
E você tá falando da, da democracia. A gente tá falando de tudo aqui também.
Não, não, não.
Tamo falando de muitas diferenças.
Isso.
Porém, que vai tirar um pouco dessa diferença, Flávio. Falando de mulher pra, pra homem.
Isso.
Eu vou falar bem séria pra você.
Aham.
Vai diminuir essa diferença.
Mas eu-
Esse vácuo.
Mas tá tudo bem.
Entre a minha situação e a sua.
Isso.
Vai diminuir um pouco.
Eu, eu acho-
Esse buraco. Sabe uma ponte pra gente poder passar?
Sim. Miriã.
A gente vai poder passar pela mesma ponte.
Eu penso o seguinte, minha querida: quem ganha mais dinheiro pode pagar mais imposto, não tem problema. Agora, o que eu quero dizer pra você, que se você continuar perseverando, cê tem no-- vinte e nove anos.
Vinte e nove.
Eu trocaria. Eu tenho cinquenta e três.
Cinquenta e três. Nossa, não parece.
Obrigado. [risos] Você tem vinte e nove anos, eu tenho cinquenta e três anos. Eu trocaria cem por cento do meu patrimônio pra ter a sua idade. Eu pegaria tudo que eu tenho, que é bastante.
Sim.
E trocaria.
Faz inveja não, por favor.
Ó, eu trocaria, eu trocaria pela sua idade. Eu gostaria de ter vinte e nove anos. Sabe por quê? Com o conhecimento que eu tenho, com o que eu aprendi ao longo da minha vida, tudo que eu aprendi no meu trabalho, nos meus negócios, eu faria tudo de novo. Ainda teria a juventude que você tem. Você tem algo que eu não tenho mais, eu não tenho mais a sua juventude.
Cê entende? Eu daria os meus bilhões pelos seus vinte e nove anos. Infelizmente, isso não é possível. Agora, uma coisa é possível, Miriã. Uma coisa é possível. É possível você aprender algumas ferramentas e com o conhecimento que você tem, você melhorar de vida. Não sei se você, você vai ser bilionária, se você vai ser milionária, mas melhorar de vida. Cê mora na comunidade até hoje?
Atualmente, sim. E lá eu atendo a domicílio e muita das vezes, né, na minha casa.
Então.
Mesmo pra poder economizar um pouco.
Eu entendo.
E poder suprir as necessidades de-
A minha avó, a minha avó, ela foi lavadeira. Ela criou minha mãe e meus dois tios lavando roupa. Abandonada pelo, pelo seu marido. Ela abandonada pelo seu marido, ela, lavando roupa, criou meu pai, criou minha mãe e os meus dois tios.
Mas falando-
Então eu entendo, entendo perfeitamente a sua realidade. E inclusive eu participo de projetos sociais em comunidades, justamente pra ajudar pessoas como você. Então eu adoraria. Isso aqui tá gravado. Se você topar, eu te ajudo a sair dessa.
Eu vou topar, né? Então, eu vou topar. [aplausos]
Topa?
Claro.
Tá gravado.
Quero só ver, viu, Flávio?
Cê topa?
Ah, então, Flávio, depois a gente conversa no particular. [risos] Brincadeira à parte, muito obrigada.
Valeu, minha querida. Valeu, valeu, valeu. Palma pra ela. [aplausos] Coletou. E aí, você é o?
Meu nome é Ronei, eu sou professor de História, Sociologia, Geografia, e hoje eu estou aqui porque eu acho que esse tema é importantíssimo pra que as pessoas conheçam pontos de vista diferentes e consigam com isso tirar a sua própria conclusão, né?
Ronei, vamo lembrar que o tema, o tema é: desigualdade versus pobreza.
A desigualdade não é um problema, né?
Deixa eu te dar um número, já que eu gosto de número. A, a, eu não falei número em respeito à Mirian, mas um número pra você refletir, tá? É, no início do século dezenove, nós tínhamos cerca de oitenta a noventa por cento da população mundial vivendo em extrema pobreza.
Uhum.
Hoje, nesse momento, cerca de nove por cento da população mundial vive em extrema pobreza. Isso significa que desde o século vinte até hoje, as coisas melhoraram bastante.
Tá.
A renda per capita média no mundo era de dois mil dólares, hoje é de catorze mil dólares.
Eu vou te dar um número.
Então só pra gente falar, só pra gente colocar a disparidade entre-
Tá certo.
A disparidade entre a desigualdade e entre a pobreza.
Eu vou te dar o número do Brasil.
Fica à vontade.
No final do século dezenove, não vou te dar o número exato, tá? Porque não, não tem. Agora que a gente tem muitos dados na cabeça.
Não, tudo bem. Não precisa, não precisa ser exato.
Mais ou menos oitenta, mais de oitenta por cento da população brasileira era analfabeta, tá? E por que que eu tô dizendo sobre analfabetismo e a questão é a pobreza? Porque assim, nós temos no Brasil um problema muito sério de educação. E esse problema, ele passa por questão, se eu posso linkar isso com a questão.
Perdeu o tempo.
Tá. Eu, eu posso linkar isso com a questão dos milionários no Brasil, sim. Por quê? Porque nós temos uma classe, não tô falando você, pessoa.
Claro, claro, fica à vontade.
Tô falando uma classe, porque nós estamos aqui representando uma classe, a classe trabalhadora.
Uhum.
Existe uma classe de milionários no Brasil, que fazem o máximo de esforço pra que os, as pessoas menos favorecidas continuem ignorantes. De que maneira?
Eu não acredito nisso.
Eu acredito e vou te dizer como, de que maneira. Sabe como? Através do, das negociatas.
Eu acho que o político faz isso.
Então, mas eu tô falando da classe política.
Ah, tá. Não, aí...
Calma, mas a classe política, quantos milionários tem no Congresso Nacional?
Tem vários. Tem vários.
Tem vários não, tem a grande maioria.
Não sei se é a grande maioria, mas tem vários.
De milionários.
É.
Esses milionários, eles fazem um esforço máximo pra que as políticas públicas não atinjam a população menos favorecida, porque o povo que passa fome, ele não dá trabalho nenhum. O povo que pensa, esse sim, dá trabalho.
Deixa eu fazer um contraponto por causa do tempo, tá?
Sim.
Deixa eu fazer um contraponto por causa do tempo. Pro empresário raiz, você, eu vou dizer que existem dois tipos de empresário: o mamador de teta do Estado.
Sim.
É o que se instala ali junto com, com os políticos, com o Estado, faz os esquema dele, desvia dinheiro, rouba, cê entendeu? É, ele é, vota em leis que são favoráveis a ele. Esse é um tipo de empresário. Pra mim, eu não respeito esse tipo de empresário.
Que bom.
Tá? Esse aí eu chamo de mamador de teta. E tem um outro tipo de empresário, que é o empresário que produz, que trabalha, que investe, bota o dinheiro dele, trabalha pra caramba. É o cara que, que contrata uma pessoa, contrata duas, daqui a pouco ele contratou mil pessoas, ele gera emprego, ele gera renda. Só pra você ter ideia, setenta por cento dos empregos formais no Brasil são gerados por micro e pequenos empresários.
Sim, isso eu sei.
Esses são os micro e pequenos empresários. Então, só, só pra concluir, esse, esse, esse empresário, que é o empresário, e-ele quer que a população tenha a renda maior, meu amigo.
Sim.
Porque quanto mais, ó, quanto maior.
Deixa só. É, senão não vou conseguir, é...
Só pra concluir, só pra concluir. Quanto mai-- eu te dou mais um tempo, ó, ó. Quanto maior for a renda, melhor pro empresário, ele vai vender mais o produto dele, ele vai vender mais o, mais o serviço dele.
Com certeza.
Cê entendeu?
É, então, mas o que acontece? A, a grande, a parte dos empre-- os empresários que eu estou falando não são os mi, os microempresários. E não são empresários como você.
Tá falando mamador de teta?
Tô falando de empresários que fazem um lobby lá em Brasília.
Ah, isso aí eu não respeito. Não, não.
Sim, mas a gente tá discutindo aqui os, os milionários do Brasil.
Não, mas eu não respeito esses caras.
Os milionários do Brasil, eles tão lá em Brasília fazendo lobby pra que o pobre continue ignorante.
Grande parte dos problemas estão lá em Brasília, meu amigo, cê pode ter certeza. O mundo é um lugar bem melhor com bilionários. [som de tik tok] Oi.
Tudo bem?
Tudo.
Fui teacher de inglês e montei uma franquia. Não consegui chegar a bilionária. Fali como milionária, porque os vinte e cinco teachers ganhavam muito menos no piso salarial e eu não conseguia dormir. Como que você consegue fazer isso?
Mas os meus, tá falando dos meus professores?
Uhum.
Os meus professores ganham mais do que o piso salarial, não é? Todos eles, sem exceção, ganham mais do que o piso salarial. Mas você pagava menos do que o piso salarial?
Não, normal. Mas você acha que é possível ser bilionário se não for assim, com CLT-
Claro.
Com piso salarial?
Claro.
Lucrando em cima desse serviço?
Claro, com certeza. Todo empresário, todo empresário, quando cria o seu negócio, se ele não tiver uma remuneração atrativa, principalmente pras pessoas que ele quer atrair, ele vai perder os principais talentos. Então uma das formas de você, é, atrair os melhores talentos, é remunerando melhor. Agora, é óbvio, né? Eu não tô aqui pra falar em nome dos empresários brasileiros. Eu falo aqui pela minha prática. Todos os meus funcionários recebem mais do que o piso salarial.
Então o mundo com mais milionários não vai precisar de muito mais pessoas ganhando quatro dígitos?
O número com mais bilionários?
Pra ter mais bilionários.
Tá. Eu imagino que você me faz essa pergunta presumindo de que a riqueza seja um recurso finito. É isso que você pensa? Ou seja, se tem gente ganhando muito, necessariamente você vai ter pessoas ganhando menos? Essa é a sua lógica?
Só dá pra ser bilionário assim, ganhando na Mega Sena, casando ou nascendo, ou em cima de CLT. Ou tendo gente.
Vamos lá. Ganhando na Mega Sena não dá pra ganhar, não dá, não dá pra ser bilionário. Nenhum prêmio de Mega Sena paga um bilhão de reais, não é? Qual foi o outro que cê falou?
É, casando ou nascendo.
Casando, casando dá. Se você casar com um bilionário, você automaticamente vai ser, vai ser bilionário. Mas eu comecei, isso aí não é uma verdade, porque eu comecei do zero, eu sou uma pessoa da periferia, sou uma pessoa Seus colegas te demitiram. [risadas] E aí?
E aí, Flávio, beleza? Sou eu. Eu sou o Juliano Reverso, eu sou radialista, palhaço e comediante. E eu vim aqui pra saber se ele consegue dormir tranquilo com a situação que tá as coisas hoje em dia, né?
Você é o?
Sou o Juliano Reverso.
E aí, Juliano, vamo nessa.
Eu discordo, eu acho que o mundo-
Discorda de quem?
Eu discordo de você, da sua afirmativa de que o mundo fica melhor com mais bilionários.
Por que que você discorda?
Porque eu tenho uma tese de que as empresas que geram renda, que geram empregos, elas não dependem do bilionário. Se uma empresa, se as-- uma das suas empresas for uma cooperativa, ela continua funcionando normalmente. A figura central de uma pessoa acumulando a riqueza ali no meio, não traz mais benefícios pra empresa ou pra sociedade.
Uhum.
Só uma acumulação de riqueza na mão de uma pessoa. Por exemplo-
Uhum
...se o dinheiro que você tem fosse brigadeiro, cê conseguiria comer tudo? Não.
Não.
Claro que não.
Claro que não.
Cê passaria mal.
Isso, exatamente.
Enquanto muita gente que tem, que tá com vontade de comer brigadeiro, não vai poder comer.
Mas qual é a solução, na tua visão?
A solução eu acho que passa por, por distribuição da riqueza, porque assim, por exemplo-
Como é que seria essa distribuição?
Ah, aí acho que é com o Estado, né? É com o Estado.
Sim, mas como é que o Estado deveria fazer essa distribuição?
Eu acho que ele tem que, é, taxação de imposto, é, taxação de grandes fortunas, por exemplo.
Taxação de grandes-- você acha que a taxação de grandes fortunas acabaria com a pobreza no Brasil? Na sua visão.
Eu não acho que acabaria com a pobreza, mas eu acho que reduziria muito o abismo social que existe entre-
Reduziria
...uma pessoa muito rica e uma pessoa-
Tá. Vamo lá. A presidente do Partido dos Trabalhadores, a Gleisi Hoffmann, apresentou um projeto para a taxação das grandes fortunas. Nesse projeto que ela apresentou, é, a previsão é de se gerar vinte bilhões de reais por ano, em receitas oriundas da taxação das grandes fortunas. Vinte bilhões de reais é equivalente à arrecadação que o Estado faz de impostos em apenas dois dias. Então você acredita que taxar as grandes fortunas resolveria o problema?
E note bem, eu não sou contra a taxação de, dos mais ricos. Não sou contra, tá? Aliás, eu sou até a favor.
É que, é que eu acho que não-
Só que, eu só tô, só quero te mostrar o número. Às vezes a expectativa que a pessoa cria é que: "Não, isso vai resolver o problema." São vinte bilhões de reais, que é apenas dois dias de, de, dois dias de taxação.
Mas eu acho que, eu não acho que resolve o problema, mas eu acho que não tem pila, pílula dourada.
Sim.
Só que eu acho que todas as, todos os movimentos em prol de diminuir a desigualdade no país é, é, é louvável, assim. Eu contribuo com a minha, com a minha-
Você acha que seria mais justo, é isso que você acha?
Eu acredito que sim.
Ah, maravilha.
Por exemplo, ó-
Pode ser. Eu, eu acho justo também uma pessoa que é mais rica pagar mais imposto.
Sim.
Eu não acho injusto. Assim como, por exemplo, eu acho justo, por exemplo, alguém que está em situação vulnerável, ter um imposto negativo. O Bolsa Família, por exemplo, é um imposto negativo. A pessoa recebe do Estado um dinheiro. Até aí. Agora o ponto é o seguinte: como é que a gente soluciona? Acho que esse é o ponto.
É, então, mas aí-
Como é que a gente soluciona o problema da pobreza? Acho que esse é o ponto.
Então, mas aí, como que os bili-- a minha pergunta pra você devolver, como que os bilionários podem fazer isso, então?
Não, não é pa, não é papel de um bilionário. Um bilionário é um empresário, né? O empresário, ele desenvolve os seus produtos, desenvolve as suas empresas, pra que elas criem a função social, que é gerar lucro. A principal função social de uma empresa é o lucro. É através do lucro que vem investimento, através do lucro que você contrata mais pessoas, que você gera mais empregos, que você faz investimentos e melhora a sociedade, não é?
Então esse é o papel de, de, de um empresário.
Flávio, se pudesse pausar aí, por favor. Obrigado, irmão.
Ai, desculpa. [risadas]
Ela tava com água na mão. É por isso. Cê tá bem?
Tudo bem?
Me lembra o teu nome.
Gabi.
Oi, Gabi.
Então, eu acredito que bilionários não deveriam existir.
Uhum.
Porque eu acho que isso é imoral numa sociedade tão desigual que a gente vive.
Uhum.
Quando talvez se a gente tivesse numa sociedade utópica.
Uhum.
Que a gente não tivesse desigualdade social, gente passando fome, gente sem saneamento básico.
Uhum.
Talvez po-pudesse ser um-
Claro
...uma questão ter bilionários.
Uhum.
Eu não sou contra as pessoas serem ricas.
Sim.
Não sou contra as pessoas desfrutarem de-
Uhum
...é, lençóis com muitos fios e luxos, e tá tudo certo.
Sim.
As pessoas trabalham pra isso e tá tudo bem.
Uhum.
A questão é, num mundo que a gente tem, que é tão desigual, cê acha realmente que tudo bem ter bilhões concentrados?
Vamo lá. Você disse que tudo bem a pessoa ser rica.
Sim.
Qual é o limite?
Eu a-- assim, eu, quem s-
Quantos milhões? Vamo falar em números.
Não sei.
Qual o número que cê acha que é tudo bem?
Eu acho que assim, pra mim-
Sim, mas tudo bem, não tem certo ou errado
...qualquer dinheiro a mais que eu tenho já é rico.
Ótimo, mas, mas não, não tem certo ou errado.
Sim.
Mas vamo tentar, só pra gente na nossa conversa aqui, fazer de conta que não tem ninguém nos assistindo. Quantos milhões você acha que-
Se a gente fizesse, por exemplo, o teto do bilhão.
Uhum.
Tipo, chegou no bilhão, a gente não pode passar desse teto. Imagina quanto dinheiro, em vez da taxação.
Não, não, tudo bem. Mas desculpa, o que que você acha que é moral? Você disse, você achou que o bilionário é imoral. O que que é moral pra você? Qual o número?
Moral é não ter gente passando fome, pra mim.
É, mas é, mas é que-
É isso
...eu entendo. Eu tá, eu, eu sinceramente, é, eu, eu participo de muitos projetos sociais.
Uhum.
Eu acho que existirem ainda pessoas passando fome é uma, é lamentável ainda em pleno 2025, eu concordo com você. Mas eu tô buscando você pra refletir comigo o que que seria moral na sua visão. Quantos milhões de reais seria moral e a partir desse tantos milhões seria imoral?
Eu penso que se a gente batesse um bilhão, já seria imoral pra gente, porque eu jogaria na minha cabeça, de uma pessoa não economista, tá?
Uhum.
Porque eu não sou economista.
Não, tudo bem, claro.
É, são aproximadamente trezentos bilionários no Brasil, não é?
Uhum.
Uma conta mais ou menos dessa, não sei se-
Isso, bilionários brasileiros, é isso?
Brasileiros, isso. Eu não sei se é exatamente esse número, mas por aí.
É mais ou menos isso.
Se essas pessoas não acumulassem mais de um bilhão.
Uhum.
Se esse dinheiro fosse todo revertido pro governo, a gente poderia ter muito mais políticas públicas e políticas sociais.
Ótimo, ok. Eu, eu, eu vou falar sobre o di-dinheiro revertido pro governo, antes que o pessoal te demita, porque eu quero falar que esse assunto é muito bom. Esse assunto é muito, muito bacana, tá? É, eu queria ainda bater no ponto da moralidade que você colocou. Você considerou imoral. O que que seria moral? Qual seria o número? Dez milhões seria moral? Cem milhões seria moral? Um bilhão já seria imoral?
Um bilhão, pra mim, é extremamente imoral.
Imoral.
A gente foi pra uma casinha-
Sei
...que assim, ninguém consegue gastar isso-
Sei
...nem na ins-- maior insanidade da vida, entendeu? No auge da loucura.
Mas tem, tem, tem bilionário que quebra também.
É, mas é porque não soube administrar.
Isso, isso.
Que acredito que não seja o seu caso como empresário, preciso dizer disso.
Não, não é o meu caso, não é o meu caso.
Mas você soube fazer, cês têm dinheiro infinito.
Não, não é infinito também.
É infinito, uma máquina de dinheiro infinito pra quem sabe fazer.
Não, é muito dinheiro, eu sei, é muito dinheiro. É muito dinheiro. E quem sabe fazer, ele faz muito mais.
Sim.
Que esse é o ponto. Eu queria bater nessa questão da moralidade, porque quem é que decide o que é moral, o que não é moral, qual é o número, como é que a gente define esse ponto? Esse é o primeiro ponto. O segundo, é, é difícil a gente saber.
Uhum.
Não tem como a gente ter alguém arbitrando: "Ó, isso aqui é imoral, isso aqui é meu", né? Porque, até porque você pode dizer: "Olha, dez milhões é ok, onze milhões já é imoral", mas de repente outra pessoa acha que dez milhões é imoral, que é muito dinheiro. Então a gente vai ter o quê? O Estado arbitrando sobre a nossa vida? Deixa agora, só, só pra eu completar, desculpa, é, a questão do Estado.
Será que o governo, ele é o, é o que é capaz de promover a justiça social conforme a gente deseja?
Acho que a gente tem muitas falhas no, no nosso sistema.
Então, pensa comigo, pensa comigo. Se a gente pegasse cem por cento do patrimônio de todos os bilionários do mundo.
Uhum.
Não, brasileiro.
Brasileiro, é. Vamo, vamo de Brasil.
Vamo pegar os brasileiros, todos os bilionários brasileiros. Daria cinco meses de arrecadação do governo.
Não, é uma conta diferente. Na verdade, se a gente pegar todo o patrimônio dos bilionários brasileiros, a gente consegue fazer uma conta de, é, acabar com a miséria.
Uhum.
Anualmente, tem um valor anualmente, mas existe essa máquina de dinheiro infinita.
Não, é que não acaba. E o dinheiro não é infinito, é isso que eu quero te dizer. O, o governo brasileiro, ele arrecada em cinco meses, cem por cento do patrimônio dos bilionários. Cem por cento. E, e, e a arrecadação brasileira, ela vem aumentando, batendo recordes a todos os anos. Só que o que a gente vê no Brasil, infelizmente, não é essa solução acontecendo. A gente vê uma série de problemas que acontecem dentro do Estado, dentro do Brasil.
Mas qual é a sua solução como bilionário?
Mas a solução pra acabar com a, com a miséria?
É.
Eu tenho uma solução, posso te dar.
Qual é?
A solução é redução de gastos públicos. Com a redução de gastos públicos, a gente abaixar a taxa de juros. Abaixando a taxa de juros, a gente tem muito mais estímulo na economia pras empresas contratarem mais pessoas, investirem mais pessoas, aumentarem os salários, aumentarem os empregos e, e, os, e o Brasil como um todo, ele enriquecer, aumentando os salários.
Então, mas cê não acha que assim, por exemplo-
É
...a gente tá falando de um cenário um pouco utópico?
Não, isso não é utópico.
Porque-
Utópico, utópico é o contrário.
É, é uma pirâmide que nunca vai dar certo, porque assim, essas pessoas, ah, gerar emprego e tudo mais, o emprego é sempre uma, um valor. Eu acredito que nas suas empresas ninguém seja bilionário que nem, que nem você.
Não, claro que não.
E eu acredito que se tiver alguém milionário ali-
Tem alguns, tem alguns, tem alguns milionários, é. Isso
...é um gerente, alguém de, enfim-
Isso
...de alguma...
Alguns que começaram do zero e hoje são milionários, isso.
Mas acredito que ninguém que faça faxina no, nas, nas suas não sejam.
Milionária, não tem como. Não, não tem como.
Entendeu? É isso que eu tô falando, é sobre discrepância de valores.
Mas você, mas a, na tua-
Ninguém deveria acumular tanto dinheiro.
Mas na sua ideia, uma pessoa que faz faxina deveria ser milionária?
Eu acho que ela deveria pelo menos, é, ter o mínimo digno pra sobreviver.
Concordo, concordo com você.
Pra, enfim, pra poder estudar, pra até, pra não ser faxineira se ela não quiser.
O que que é esse mínimo?
O mínimo?
É.
Eu não sei quanto que a gente tá no Bra-
Paulo, tempo, por favor. Tem dezessete pessoas.
Tá.
Um, dois, três e... [risos] Desculpa.
O problema é o copinho. [risos]
Meu nome é Paulo Henrique, sou professor de História e mestre em Economia Política, e vim aqui debater a importância da taxação dos bilionários pra gente construir um Brasil justo e próspero.
Me lembra teu nome, querido.
Paulo Henrique, tudo bem, Flávio?
Paulo, vamo lá, Paulo.
Flávio, cê perguntou o que que era imoral.
Isso.
Vou dizer vários dados aqui no Brasil que são imorais.
Vamos.
O Brasil tem oitocentos e sessenta bilhões de renúncia fiscal anuais de grandes empresas que não pagam impostos.
Concordo.
E que esses valor seria o suficiente pra inclusive vários programas sociais.
Ajudaria bastante, isso.
É o valor de quatro, quatro bolsas famílias, três programas de saúde.
Sim.
Farmácia popular. Então, isso é imoral.
Concordo.
Segundo aspecto imoral. No Brasil, o imposto sobre gre-- é, heranças é oito por cento no máximo.
Uhum.
Enquanto países, inclusive os Estados Unidos, se cobra quarenta por cento de herança. Então tem várias distorções no sistema tributário brasileiro.
Eu queria que cê continu-- desculpa te interromper, eu queria até que cê continuasse, mas eu queria pegar esse ponto aqui-
Pronto
...até porque eu tô olhando o tempo. Você sabe a partir de quanto, é, o, é, que o brasileiro precisa pagar do imposto sobre fortunas? Que é oito por cento. A partir de qual valor?
Não sei, mas é, primeiro que o seguinte, o imposto-
Não, vou te falar.
Pronto, pode falar.
Eu vou te falar. É duzentos e cinquenta mil reais.
Tá nota.
Esse cara que tem duzentos e cinquenta mil reais, na hora de fazer, transferir a sua herança pro seu filho, tem que pagar oito por cento. Eu te pergunto, esse cara é bilionário?
Não é bilionário, mas veja...
Não, eu vou, rapidinho, rapidinho.
Ó.
Vou, vou só completar um número completo, se, se você me permitir. Pode ser?
Pode.
Então vamo lá. Duzentos e cinquenta mil. Você citou os Estados Unidos. Cê sabe quanto é o imposto sobre ganho de fortuna no, nos Estados Unidos?
Eu sei sobre heranças.
Sobre herança, desculpa.
Isso.
Você sabe quanto é?
Sim, são até quarenta por cento.
Isso.
É progressivo até quarenta por cento.
Isso. Boa.
E tem a isenção-
Boa
...a partir de três milhões e meio de dólares.
Cê errou essa parte.
Tá.
Essa parte cê errou. Aí eu te digo, é quarenta por cento. Quarenta é maior que oito, não é?
É, bem maior.
Bem maior, não é verdade?
Bem maior.
Então, os Estados Unidos deve cobrar mais de imposto do que o Brasil, não é isso?
Sobre herança, sim.
Sobre herança, né?
Sim.
Não é.
Sobre herança, sim.
Porque é acima de cinco milhões de dólares.
Sim
Ou seja, apenas heranças acima de cinco milhões de dólares são tributadas. Isso, se a pessoa não tiver uma estrutura-
Também não são milionários que pagam também, a parte-
Não, esse é milionário, cinco milhões de dólares.
Cinco milhões de dólares, não é bilionário.
Não, bilionário não é. Não, mas os bilionários também pagam.
Isso.
Os bilionários também pagam. O que eu quero dizer é que, na média, quando você faz essa, essa, essa diferença, hoje, a arrecadação de imposto sobre, sobre herança nos Estados Unidos, ela é de aproximadamente zero ponto dezoito por cento, enquanto do Brasil é zero ponto dezesseis por cento. Então é praticamente a mesma coisa.
Mas tem países que inclusive pagam mais. A França paga mais.
Mas se você for ver a faixa de isenção, o problema do Brasil, sabe qual é o problema do Brasil? É que a faixa de isenção é muito baixa, porque ela não foi, ela não foi, ela não foi reajustada. Por exemplo, imposto de renda, você, você paga a faixa dos vinte e sete vírgula cinco por cento?
Não pago.
Você tá abaixo dessa faixa?
Abaixo.
Ok, você tá abaixo dessa faixa, mas se você ganhasse, por exemplo-
Agora, você concorda que é justo que os trabalhadores que ganham até cinco mil reais sejam isentos no Imposto de Renda?
Eu acho super, super justo.
Cê acha que inclusive os que ganham mais de cinquenta mil-
Deveria pagar mais. Claro que é
...devem pagar mais? Então cê tem concordância, inclusive com a proposta que-
Isso!
A mi-- a presidenta do PT enviou pra Câmara.
Mas eu não discordo. Eu não discordo que quem ganha mais, tem que pagar mais. E também não discordo, até porque se você for analisar, a faixa de isenção, antigamente, se eu não me engano, era mil e oitocentos reais. Só que era mil e oitocentos reais trinta anos atrás.
Com salários maior, menores.
Com salários menores. Só que esse, esse, a inflação foi comendo o poder de compra da população. Agora eu te pergunto: por que que essa faixa de isenção não reajustou? E o, a classe média e os pobres tão pagando mais impostos?
Na verdade, a proposta agora é pra pagar menos impostos.
Eu sei, querido, mas sabe por que, mas sabe por que que eles pagam? Sabe por que que eles pagam? E entrou vários governos e eles nunca mudaram isso, porque precisa financiar o Estado.
Eu sei, mas ó, e tu que tá sendo pro-
Acabou o tempo ali. Obrigado. Foi o primeiro tema. Mandou bem, garoto! O segundo é hacker. Dinheiro não traz felicidade. Valendo.
Cheguei. Os cavaleiros na frente. Pedro Flávio, tudo bem?
Cê tá bem?
Tudo ótimo. Eu acho que dinheiro, em certas partes, traz muita felicidade, porque vai trazer uma estabilidade pra sua família.
Cê discorda de mim, então?
Sim, porque o que que acontece? Em certas partes, se você tá numa situação, como muitos aí, às vezes tá desempregado, sua família não vai bem, você não vai bem emocionalmente, então outras coisas. Então, e foi um tema que eu estudei sobre outras coisas e meio que me comoveu, porque eu trabalhei onze anos numa empresa vestindo a camisa, trabalhando feriado, aniversário dos meus filhos, e terceirizada. E o cara tem um patamar alto.
Então o que acontece? A partir do momento que eu gerei muito tempo de casa pra ele, o cara me deu dois meses de férias, me deu uma justa causa e eu tô na Justiça até hoje. Então eu tô trabalhando com atuação, sem trabalho.
Justa causa por quê?
Justa causa indevida. É, não, não alegou, mas, porém, o que que acontece? Inventou qualquer coisinha, pagou um juiz.
Você vai ser, você vai ser reintegrado, vai receber tudo.
Não, mas pagou, a primeira audiência, pagou um juiz corrupto e foi pro debaixo dos panos. Tô tendo que recorrer.
Não, vai, vai pra segunda instância que você ganha.
Então, assim, a partir desse momento aí, é, minha vida virou ao avesso, porque o que acontece? É, começou a faltar as coisas dentro da minha casa, entende? Me emocionei, desculpa aí, pessoal.
Tudo bem.
Porque daí você pensa assim: "Porra, até o momento eu tava estável, com um salário bacana, levando meus filhos pra passear, levando a família". E automaticamente, esse, esse bilionário, com essa sacanagem-
Ele é bilionário?
É, ele tem dinheiro, tem muito dinheiro.
Não é bilionário, né?
Perto de mim, ele é um bilionário, mas ele tem várias empresas.
Sim, sim.
Daí automaticamente ele passou a rasteira ni mim. Eu tô pagando aquele veneno, dependendo da Justiça, que é, é lenta, trabalhosa e há muito tempo se disputa.
Defensor público, cê tá?
Sim. Então, contratei advogado, tudo, mas mesmo assim a gente sabe que tem a-
Sim
...debaixo dos panos lá.
Quantos anos já faz isso?
É, tem poucos meses, mas já teve a primeira. Então o que acontece? Onze anos. Então o dinheiro traz felicidade, porém, por quê? Porque eu tinha o mundo às minhas mãos. Po-poderia, meu filho ficou doente, vou levar num, num convênio, tal.
Entendi.
Como muitos não têm. Então, ultimamente, se você não tem dinheiro, você praticamente cê é esquecido, você não é nada, você não tem valor. Então o homem, ultimamente, não o homem, só, todo em geral, só vale o que tem, porque automaticamente-
Me lembra teu nome, por favor?
Sim, Rafael.
Rafael, seguinte, cara, vamo lá. Primeiro, seguinte, cara, lamento muito isso, essa situação. Isso impacta a tua família, impacta, enfim, né, toda a tua, tua condição.
Estrutura, tudo.
Estrutura, e eu vi que cê tá, tava emocionalmente mexido, porque isso foi muito recente.
Sim.
Mas se prepara, vai levar uns cinco, seis anos esse negócio.
Sim.
É o tempo que vai levar. Só que o seguinte: se, se você vai ser reintegrado, vai receber tudo retroativo, com-- isso é uma coisa milionária.
Sim.
Talvez cê fique milionário nessa ação.
Sim, amém. [riso]
Cê entendeu?
Sim.
Porque se, se fez sacanagem, eu vou te falar, a Justiça do Trabalho, eu não tenho nada a reclamar da Justiça do Trabalho. Eu tenho milhares de funcionários, sou empresário há trinta anos. Na maioria das vezes, tem poucas vezes que ela vai ser injusta. Eu nunca sofri injustiça por ministério, por Justiça do Trabalho.
Eu passei por isso que cê passa, né?
Pois é. Então, assim, primeiro você tem que setar a tua expectativa de que isso é uma batalha de seis, sete anos. Seis, cinco, seis anos.
Sim.
E vai levar esse tempo, mas, na minha visão, pelo que você falou aqui, acho que você vai ganhar isso daí. O que você tem que fazer é se recompor emocionalmente agora.
Sim.
Recomeçar tua vida, cara.
É o que eu tô fazendo.
O que tu faz?
Tô correndo atrás. Agora, eu sou músico nos finais de semana, né?
O que cê toca?
Eu toco cavaquinho, banjo, violão, canto também, componho, entende? Então eu tô procurando várias portas aqui, que tá me ajudando.
Mas, mas no, na vida corporativa, o que que você faz?
Sim, é, corporativo eu era segurança.
Tu era segurança?
Era segurança, trabalhei em várias áreas. Então o que acontece? O dinheiro, sim, traz, é, traz felicidade-
Então, sobre esse tema, que que eu queria dizer pra você é o seguinte: a falta de dinheiro, a, o endividamento-
Sim
...ele te traz muitos problemas.
Sim.
Muitas causas de separação vêm por causa da grana. Mas, o ponto do dinheiro é, é, deve ser inusitado ver um bilionário dizendo que, que dinheiro não, não traz felicidade.
Sim, com certeza.
Porque eu sou feliz, cara. Eu me sinto um cara feliz, mas eu já era feliz antes de ter dinheiro. Eu tive uma avó maravilhosa, que 2021 nos deixou. Fui criado por ela.
Meu sentimento.
Cê entendeu? Ou seja, eu tive uma, uma criação É, com amor. Eu tive esse privilégio de ter tido uma família estruturada.
Sim.
Então eu sempre fui feliz. Não sou mais feliz hoje. E eu faço questão de dizer isso porque muita gente corre atrás da grana achando que ela vai te trazer felicidade. A felicidade não tá no dinheiro. Agora, não vamos ser hipócrita.
Sim.
Ganhar dinheiro é bom?
Maravilhoso.
Tá? Te traz estrutura, te traz liberdade e te traz principalmente a condição de você ajudar a tua família.
Sim.
Tu tem filho, você?
Tenho dois.
Dois filhos, né? Acabou, né?
Ó. Maravilha.
Valeu, garoto.
Obrigado.
Força aí, tá?
Valeu, valeu. [aplausos] É meu, meu amor. [risos]
Me diga, minha querida.
Dinheiro traz felicidade, dinheiro traz felicidade quando você tem filhos e você compra brinquedos pra ele, pra eles. Dinheiro traz felicidade quando você tem um parente doente no hospital e você precisa de uma cirurgia, é, rápida num hospital particular, que a gente sabe que o SUS é um dos sistemas que mais demora. Então, quando cê tem dinheiro, no seu caso, que é milionário, eu acredito que seus filhos não passam pelo SUS.
Não.
Porque você tem médicos-
Particulares.
Particula-particulares que o dinheiro paga, não é isso?
Isso.
Dinheiro traz felicidade, é, pra pessoas que precisam de uma casa. Dinheiro traz felicidade pra aquelas travestis na rua que não têm trabalho-
Uhum.
E recebem dinheiro na mão dos, do, trabalhando com programa, né? Isso traz felicidade pra elas naquele momento, né? Porque o dinheiro ajuda elas de uma forma que outra forma não ajudaria, sabe?
E deixa eu te colocar um outro ponto de vista. Tudo isso que você falou é facilidade, não felicidade. O dinheiro ele traz facilidade. Eu poder contratar um médico pro meu filho quando ele precisa é uma facilidade. Eu poder botar ele numa escola boa é uma facilidade. Eu poder fazer tudo isso que você disse, que eu acho que é o objetivo de cada pessoa, é uma facilidade, não felicidade.
Felicidade é o que você tem dentro de você quando cê coloca a tua cabeça no travesseiro. Então eu vou dar exemplo pra você do que o dinheiro compra e do que o dinheiro não compra, por exemplo. O dinheiro compra uma cama? Sim ou não?
Compra.
Compra o sono?
Não.
O dinheiro compra um plano de saúde?
Compra.
Compra saúde? Não.
Mas dá a possibilidade de aumentar o-
Concordo.
Tempo de vida.
Concordo.
Então compra.
Não, calma. Vamos lá. Você na UTI, cê paga a tua alta dessa UTI? Não paga a tua alta.
Então, por que você, se dinheiro não traz felicidade, por que você traz um curso que ajuda a pessoa a ficar milionária? Por que que você vende o curso-
Não, não, eu não vendo esse curso. Não tenho esse curso.
Mas o seu curso não ajuda as pessoas a-
Não, não, não. Eu tenho um curso de inglês.
Tudo bem.
É isso, não é, não é curso de-
É.
Eu não ensino as pessoas a ficarem milionárias, não. Não é, não é, não é minha área de atuação.
Ah, então tudo bem.
Não, não, não, não.
Mas o dinheiro traz felicidade.
Ó, o dinheiro, o dinheiro, na minha visão, que eu estou conversando com você-
O dinheiro traz estudo quando você consegue pagar uma faculdade.
Isso tudo é, isso tudo é facilidade.
Isso é uma felicidade.
É facilidade.
O dinheiro, o dinheiro traz diploma.
Facilidade.
O di-- não é uma facilidade?
Claro que é.
Não, não é uma facilidade.
Se você, se você, por exemplo, quando você tem um diploma, não é mais fácil conseguir um emprego? É uma facilidade. A felicidade, cara, é aquela coisa que a gente sente, que não depende do dinheiro que a gente tem. Eu, aí eu falo isso, vou falar de novo da minha vozinha aqui, que eu quase chorei da outra vez aqui, que eu falei dela aqui. Mas aquela mulher, ela sustentou três filhos lavando roupa e ela era sorridente.
Ela morreu com noventa e um anos sorridente. Ela é um dos meus maiores exemplos de vida. Eu digo pra você que isso é fa-- isso é felicidade. É aquilo, é aquilo que pulsa dentro da nossa, do nosso coração por um propósito, quando a gente tem propósito, quando a gente sabe a nossa missão e o que que a gente quer realizar. Isso nos traz felicidade. Agora, eventualmente, a gente vai ganhar grana.
E eu digo, não sou hipócrita, é bom ganhar dinheiro, vale a pena se dedicar pra ganhar dinheiro. E quando tu ganhar dinheiro, quando você ficar rico, de repente, você não é rico, você não é rica.
Não, com certeza não.
Tá legal. Não-
Ó o meu cabelo aqui. [risos]
Mas como é que é o cabelo de rico?
Não sei, mas não é assim.
Não, não.
Cabelo de rico é assim pra vocês? Não.
Então, então tá legal. Então se um dia você ficar rica, como é que é o tratamento que eu te uso? Me desculpa, minha ignorância aqui.
É, eu sou drag queen, é ele ou ela.
Ele ou ela, então tá bom, obrigado. Então o que que acontece? Na hora que cê ficar rica, sabe o que vai acontecer? Você vai concluir isso que eu tô falando. Falar: Caramba, é, eu tenho muitas facilidades, mas não necessariamente eu fui mais feliz. Aliás, os consultórios psicológicos tão cheio de rico tomando antidepressivo, cheio de gente com problema existencial, sentindo a dor da existência. Isso nu-- isso não depende da tua carteira.
Você pode ter uma carteira cheia de dinheiro ou vazia de dinheiro, e você vai ter essa ânsia pelo teu significado da sua existência. A felicidade ela tá aí.
Se o dinheiro não traz felicidade, por que que a gente trabalha?
Obrigado, pessoal. Só falta um tempo aí, por favor.
Obrigado, meu amor.
Obrigado, tá? Beijo, beijo. [aplausos]
Obrigado, gente.
Oi.
E Amanda, o que que cê acha? O dinheiro traz felicidade ou não?
Se dinheiro não traz felicidade, bora acabar com a escala seis por um. Se o dinheiro não traz felicidade, bora taxar as grandes riquezas.
Tem escala seis por um na história? [risos]
Se dinheiro não traz felicidade. Então, é porque ó-
Cê sabia que a minha empresa não tem escala seis por um?
Ainda bem.
Eu vou dizer um negócio pra você. Aliás, eu vou dizer um negócio pra você, voltando na desigualdade, Amanda.
Já, pô.
Ah, Amanda. Desculpa, Amanda.
E aí?
Eu vi você gravando ali. Você é poeta, né?
Sou poeta.
Faz uma poesia pra mim. Vai lá.
Ai, assim, de graça?
De graça, assim, pra todo mundo, assim.
Agora eu ficaria feliz.
Vamos lá.
Vai ser paga-
Mas dez segundinhos, dez se-- dez segundinhos, vai lá. Mostra a tua arte pra milhões de pessoas aqui.
Não, vim aqui pra falar sobre porque o dinheiro não traz felicidade, e eu concordo com você.
Concorda comigo?
O dinheiro realmente não traz felicidades, inclusive, é, lembrando a fala da nossa amiga ali, se nós volta na época de que o Brasil foi colonizado A gente faria essas perguntas, por exemplo, pros indígenas.
Uhum.
E pra ele não faria sentido essa pergunta, não faria, não traria felicidade mesmo, porque a vivência deles são outras.
Uhum.
Né? Mas vamo lá pra um humor-
Mas o que que é ser rico pro, pro índio, por exemplo?
Eu acho que pra eles, é ter tempo, sabe?
Tempo é uma riqueza pra eles.
É, tempo é riqueza, entendeu?
Então você concorda que, que dinheiro não traz felicidade?
Concordo.
Então tamo junto.
Mas eu tô aqui-- Sim, mas quero te trazer meu ponto também, né? Porque não é só sobre fa-- de, deitar essa fala, né?
O pessoal te demitiu, minha poeta querida. Você não quis falar tua poesia. Que pena! Opa, desculpa. Você é a?
Eu sou a Carol.
Carol. Diga, Carol.
É, bom-
Dinheiro traz feli-- não traz felicidade. Essa é minha opinião. O que que você acha?
Eu discordo-
Uhum
...em questão, porque a felicidade financeira, ela ajuda e impacta muito nas pessoas.
Uhum.
As pessoas, elas têm propósitos, porém elas se perdem, por tanto da questão do capitalismo, por tantas questões psicológicas, por tantas desigualdades-
Você é capitalista?
...desigualdades sociais.
Você é capitalista, sim ou não?
Não.
Não. Então, um capitalista tá te dizendo que o dinheiro não traz felicidade, você discorda.
Mas no senti-no sentido de que quando as pessoas não têm essa, é, esse berço ou essas chances que muitas pessoas têm, elas acabam, sim, se tornando infeliz.
Que chances, por exemplo? Só pra eu entender.
Voltando no papo do, da desigualdade social, por exemplo, nem todo mundo tem as mesmas oportunidades.
Certo.
Quando elas não têm as mesmas oportunidades, elas acabam passando por situações que as deixam infelizes.
Verdade.
E aí, quando elas conseguem algum projeto ou algum trabalho ou algum sucesso na vida e que trazem um retorno financeiro pra elas, em algum momento, sim, elas se sentem felizes financeiramente.
Uhum.
Então, pra mim, é parte da felicidade, sim.
Deixa eu te dar um ponto. Muito interessante o seu ponto. Na minha visão, você tá confundindo a felicidade com contentamento.
Hum.
Tá? Felicidade é uma coisa, contentamento é outra. Ou seja, contentamento é uma coisa, é, pontual. Arrumei um emprego novo. Ai, fiquei contente.
Uhum.
A gente até fala: "Fiquei feliz." Mas, na verdade, esse feliz aqui, semanticamente, é o significado de contentamento.
Uhum.
Você ficou contente.
Uhum.
Obviamente, várias pequenas coisas que vão acontecendo na nossa vida vão nos deixando contente, mas a felicidade é algo que tá numa camada superior.
Sim, mas-
Acima do contentamento, entende?
Concordo com você, porém-
Tanto é que eu acho, por exemplo, que é possível que uma pessoa, é, camponesa, que trabalha no campo, seja, em muitos, muitas vezes, muito mais feliz do que um bilionário.
Concordo com você nesse ponto.
Isso.
Porém, quando a gente pensa na so-sociedade que a gente vive-
Uhum
...muitas outras pessoas, elas dependem de muitos outros fatores e muitas camadas-
Pra ficarem contente
...pra ficarem, ficarem felizes também.
Pra ficarem contente.
Porque a felicidade, ela é subjetiva pra cada um.
Uhum.
O que é feliz pra mim, não é pra você.
Uhum.
Então, se eu vejo no, na questão financeira, que felicidade me traz um retorno, tá ótimo, mas pro outro talvez não traga.
Então, Carol-
Então ela é subjetiva
...vou te sugerir o seguinte: Eu, minha experiência pessoal, me sinto tão feliz hoje quanto eu era quando eu era pobre.
Uhum.
Tão feliz. Não sou nem mais nem menos. Agora, óbvio, hoje eu tenho a oportunidade de ter várias facilidades na minha vida e situações que me deixam muito contente, que também contribuem-
Isso
...com a minha vida.
Exatamente.
Mas eu vou te falar uma coisa. Eu vou torcer que você fique rica um dia e você lembre assim: "Flávio, eu tô tão feliz quanto eu era."
Mas eu já sou feliz, mas eu digo em questão-
Você vai ser tanto quanto
...da felicidade financeira, entende?
Não, mas de contentamento.
Porque aí isso, porque cada um tem um jeito de pensar, e muitas pessoas, elas acabam ficando tristes-
Aham
...por conta da falta do, da riqueza ou por conta dessa falta que precisa. Então elas sa-- ficam infelizes por esse motivo.
É, elas ficam, é, chateadas, né?
É, mas elas não estão felizes.
É, é que a felicidade tá num outro-- a gente tá, tá, tá divergindo na definição da felicidade.
É porque, como eu disse, a felicidade, ela é subjetiva, não é?
Tudo bem.
Entende?
Eu vou torcer, eu vou torcer, eu vou torcer que você fique rica e fale assim pra mim: "Flávio, eu estou feliz igual eu era."
Mas eu já sou feliz, Flávio. É isso que eu tô te falando.
Vai ficar mais feliz ainda.
Não tem como o dinheiro não trazer felicidade. Ele traz a felicidade, ele completa a felicidade pra algumas outras pessoas.
Te sugiro, te sugiro ganhar bastante dinheiro, depois vim me contar.
Amém.
Tá bom? O sucesso é uma ciência exata que todo mundo pode aprender.
[som de algo caindo] Eita!
Já era. Saí daí.
Minha bunda é mais magrinha.
Não, perdeu.
Cê vai encampar essa?
Perdeu. [riso] Oi.
Me lembra seu nome.
Amanda.
Seja bem-vinda. Vamos falar sobre sucesso.
Bom, eu sou professora de inglês também.
Uau!
Eu pago vinte e sete por cento de imposto. E você concorda que todo professor devia ter isenção de imposto de renda também?
Esse é o problema. Tá todo mundo buscando a sua isenção. Concorda?
Concordo.
É o empresário buscando a sua isenção, é o professor buscando a sua isenção. Eu, sinceramente, acho que ninguém deveria ter isenção, nem o professor e nem o empresário.
É verdade, deveria ser proporcional, certo?
Porém, isso, porém, duas coisas. A primeira coisa que tem que acontecer, a faixa de isenção hoje tá muito baixa. Então hoje, quem é classe média, média baixa, porque tem esse detalhe, o que que é classe média hoje?
Pois é, o que é classe média pra quem tem inflação?
Exatamente. O que o IBGE diz que é classe média, ele diz que até oito mil reais é classe média. Eu, sinceramente, se você for ver uma família com dois filhos pagando escola pra filho-
Pois é
Então a classe média hoje, é, é-- agora, esse cara ainda paga 27,5% na fonte.
É, e é injusto, né?
Muito injusto.
A importância da taxação das grandes riquezas, é, não é uma coisa que fizeram num projeto agora. É constitucional. Então, a Constituição devia ser regulamentada e seguida. O problema é que é desigual.
Aham.
Não é devia-- não deveria existir nenhum bilionário enquanto tem alguém passando fome. Não deveria existir nenhum bilionário enquanto tem alguém correndo o dia inteiro ficando sem salário. É, existem empresas que inclusive os donos são bilionários, que fazem golpes e golpes pra esplorar o, explorar o trabalhador. Então, enquanto tem alguém bilionário, quer dizer que tem alguém explorando a classe trabalhadora. E pode ser: "ah, eu pago muito bom o salário do meu trabalhador, ele dá o sangue pela firma", mas ele ganha cinco mil reais por mês.
O que que uma família, hoje em dia, mesmo com um ótimo salário, que é considerado muito bom, de cinco mil reais por mês, pode fazer com dois filhos? Nem estudar no ASAP não consegue.
É verdade, não consegue. Mas vamo, vamo tentar a gente voltar pro tema, que o sucesso é uma ciência exata que todos podem aprender. Acho que esse é o nosso tema desse segundo. Pra não deixar, antes de eu entrar nesse tema, só pra dizer pra você, e eu vou repetir, o dinheiro não é finito. A produção de riqueza, ela não é finita. Como as pessoas acham que ela é finita, isso é um erro, elas acham que se alguém ganha muito, alguém vai ter que ganhar pouco.
Então não existe essa correlação entre ganhar pouco pela razão de que alguém ganha muito.
Mas essa é a questão.
Só pra gente corrigir.
Mas essa é a questão principal. O sucesso, todo mundo pode alcançar. Mas tem a questão da desigualdade social. Nem todo mundo sai do mesmo parâmetro, né?
De forma alguma.
Eu sei que você-
Eu, por exemplo, saí de baixo
...que você, é, saiu de baixo, que você também fez a sua escola de inglês, que fez ela crescer.
Sim, sim, sim.
Mas você precisou de professores pra fazer isso acontecer, você precisou de pessoas pra comprar o seu curso pra fazer isso acontecer, você precisou de pessoas, é, que acreditavam no seu curso pra fazer isso acontecer, e você também precisou do capital estrangeiro vim aqui e comprar a sua escola pra assim você se tornar um bilionário. Então-
Foi capital nacional.
Foi nacional? Ai, que bom, pensei que tinha sido estrangeiro.
Isso.
Mas nesse sentido, o sucesso não é igual pra todo mundo, porque não é todo mundo que tem o ponto de partida, as pessoas não têm acesso à universidade.
Verdade, verdade.
Eu sou professora de inglês numa escola pública.
Uhum.
E quando eu entrei lá, eu acreditei que as pessoas queriam estudar inglês e que todo mundo ia querer estudar inglês pra todo mundo de boa. Mas a verdade é que elas nem querem estudar. Elas tão no sentido de seguir: "ah, eu vou ficar rica". Porque o sucesso é algo imaginário. O sucesso, o que que é o sucesso, né?
Então, eu pergunto pra você.
É relativo.
O que que, o que que é o sucesso pra você?
O sucesso é você ter tempo, é você se alimentar bem, é você não passar fome, é você ver sua família feliz, é você poder fazer uma prestação de uma viagem, visitar os seus parentes, né? Poder ter descanso pra fazer uma academia, pra comer o seu lanche, pra ir no restaurante maneiro. Isso é sucesso.
E tudo isso você vai precisar de quê, pra fazer tudo isso? Vai precisar de dinheiro, concorda comigo?
E tempo.
Dinheiro e tempo, concorda comigo?
Dinheiro e tempo.
Dinheiro e tempo. Então, o que eu coloco aqui, que o sucesso é uma ciência exata, que todos podem aprender, independentemente da origem. Porque, por exemplo, eu tenho lugar de fala pra poder falar sobre o que é ser periférico, sobre o que é andar de ônibus cheio, sobre o que é andar de trem cheio, não é? Eu, eu sou, sempre estudei em escola pública, então eu sou uma pessoa que vem de baixo, que passou perrengue dentro de um ônibus lotado, imagino que você já deva ter pegado um ônibus lotado, é uma coisa realmente que é um grande perrengue.
Eu gastava cinco horas por dia dentro de um transporte público. Então, eu que venho desse lugar, me lembra teu nome?
Amanda.
Amanda, desculpa, Amanda. Então, eu que venho desse lugar, Amanda, tenho propriedade pra dizer que é possível aprender a sair dessa situação e entrar numa situação melhor. E eu te explico como, tá? Hoje, no Brasil, a mobilidade social, ela funciona da seguinte forma: uma pessoa pra sair da pobreza até a classe média, em média, no Brasil, leva nove gerações. É um absurdo, concorda?
É um absurdo.
É um absurdo. Leva nove gerações. Então, eu tô falando que eu saí deste lugar ao lugar que eu estou-
Numa única geração
...numa única geração, em poucos anos.
Mas isso não foi algo fora da curva?
Claro que foi. O sucesso-
Não é todo mundo que vai conseguir?
Não, mas não é isso que eu estou falando pra você.
E não é questão de acreditar.
Não, não, não, não.
Não é um papo de coach, dizendo assim: "olha-
Balela isso aí
...você acredita, porque se eu consegui, você vai conseguir também".
Não, isso é balela, isso é balela.
Não é sobre isso.
Não, não.
Porque uma pessoa que pega o ônibus lotado e tem du-- três horas de viagem, ela vai chegar cansada em casa, às vezes ela vai fazer academia.
Como é que você acha que eu chegava?
Vai assistir uma novela.
Eu, eu não fazia academia?
E ela não, não vai pensar no amanhã, às vezes, de: "ah, eu vou ficar milionário".
Não.
"Ou vou ficar bilionário, ou vou ganhar mais dinheiro". Às vezes, é só um sonho, ela ficar lá ó, rodando a internet e vendo um vídeo.
Isso.
E ela vai conseguir discutir? Ela vai ter essa criticidade de conseguir-
Então, Amanda
...seguir um foco diferente, de seguir esse sucesso esperado?
O que você, o que você está falando é ótimo. O que você está falando é ótimo. O ponto aqui é o seguinte: nem todo mundo vai virar bilionário. Alguns vão virar milionários.
E é por isso que os bilionários não deveriam existir.
Esse já é um outro tema. A gente pode falar sobre ele também, mas é só pra gente falar sobre o sucesso aqui.
Sim.
Que é o nosso tema aqui agora, não é?
Mas bilionário é uma coisa de sucesso, não é? Não tem a ver com sucesso falar que os bilionários não deveriam existir? Porque às vezes ser bilionário não é questão de sucesso. Você conhece outros bilionários e sabe que você deve ser o único entre eles que não tem herança, que os pais não vieram da ca-- das...
É, muitos, muitos começaram-
Donos de terra ou donos de escravos.
Pouquíssimos, olha só, pouquíssimos-
Pouquíssimos
...são como eu, que começou da periferia, mas muitos começaram do zero. Mas o que eu quero dizer pra você, só pra fechar essa pergunta, que acho que é muito importante, Amanda, você é uma guerreira, professora de inglês.
Pois é.
Atua na área que eu gosto, que é inglês, ensino da língua inglesa, não é? O que eu queria dizer pra você é o seguinte: é possível todo mundo melhorar de vida. Todo mundo. Ninguém vai-- nem todo mundo vai ser bilionário. Raríssimas pessoas vão ser bilionárias. Alguns vão ser milionários, mas todos podem melhorar de vida. Você quer ver um exemplo?
Sim, através do estudo elas conseguem melhorar de vida.
Exatamente, esse é um exemplo.
Através do trabalho, elas conseguem melhorar de vida, mas elas não mudam da-
O fato de cê falar inglês
...como fomos expulsos. [riso]
Acabou o tempo.
Obrigada, viu?
Valeu, Amanda. Beijo.
É "nice".
[som de cadeira sendo arrastada] Você vai ficar de novo aqui, feio?
Quem que tá?
Deixa eu, vou dar uma contracada. De verdade, de verdade mesmo.
É, meu nome é Luiz Felipe, sou geógrafo, sou professor, e hoje vim conversar sobre a profunda desigualdade que existe no Brasil e no mundo, e a importância de rever políticas de tributação pra uma espécie de equiparação ou redução das desigualdades e das injustiças diante da existência de três mil bilionários no planeta hoje em dia. Boa tarde. Meu caro, o seguinte: é, falando da questão do sucesso e voltando um pouco ao debate moral-
Ótimo!
...eu só queria lembrar uma coisa que os bilionários e empresários eventualmente esquecem, que é como os poderes no Brasil não tão divididos entre políticos e empresários. No Brasil, a maioria dos políticos são empresários, a maioria dos empresários são políticos, e curiosamente, eles são brancos, são pessoas que não começaram do nada, talvez você seja uma exceção.
Sou, sou uma exceção.
E são pessoas que usam as políticas públicas pra se enriquecer.
Nunca, nunca faturei um centavo de dinheiro público.
A maioria.
Isso.
Que bom se você for uma exceção.
Exatamente.
Mas a gente vê-
Não, eu sou. Eu sou
...senadores usando a Constituição pra se favorecer e concentrar um capital, que a colega tava falando, de cerca de, só no Brasil, né, é, dois trilhões de reais, isso em patrimônio, 10% disso pagaria duas, três vezes o Bolsa Família. E pior, acho que concentra uma responsabilidade de tomar decisões, que é muito poderosa, e que vai limitar, por exemplo, a valorização de um professor, de uma enfermeira, de um bombeiro, de um policial.
Não limita, não limita.
Limita, porque eu nunca vi ninguém ficar bilionário sendo professor, policial-
Não, mas não vai ser
...bombeiro-
Não, não vai ser
...ou uma pessoa que limpa a casa de alguém, ou que é uma pedagoga.
Desculpa te interromper, é só pra gente não deixar conceitos, é, assim, equivocados na, no ar, né. Hã, eu concordo com você, com párcia, com parte do que você está dizendo, mas não existe correlação à riqueza de alguém com a pobreza de outra pessoa.
Existe.
Não, não existe.
Existe porque a exploração do capital, da forma como você pensa, poderia um dia deixar todo mundo milionário. Isso gera inflação. A gente vê, por exemplo, hoje, uma bolha de bitcoins que não tem serventia absolutamente alguma pra humanidade, porque não gera emprego.
Uhum.
Mas que tá lá produzindo uma concentração de riqueza brutal, quando esse dinheiro podia tá sendo distribuído pagando salários, no mínimo, mais justos pra população que trabalha.
Como é que seria essa distribuição desse dinheiro?
O salário mínimo, por exemplo, cinco vezes maior do que é o atual. A gente viu que a reforma trabalhista do Temer, depois do golpe, precarizou muito a vida dos trabalhadores.
E o que que você acha que aconteceria se o salário mínimo, que eu adoraria que fosse cinco vezes maior, mas do pon-- como o Brasil é estruturado hoje, o que que você acha que aconteceria se o salário mínimo, hoje, a gente fizesse assim, ó, [estalo de dedos] e ele fosse cinco vezes maior?
Cê teria que tirar esse dinheiro de algum lugar, é a conta que o Congresso tá tentando fazer.
Não, mas não, mas-
A questão é que quem tá lá dentro-
Mas não é factível, é
...que é menos de 1%-- não é factível porque quem decide as leis não quer pagar mais imposto, porque são milionários, são multimilionários.
Mas eu topo pagar mais imposto.
Mas então convence os seus colegas ali que fazem lobby no Congresso a pagar mais também.
Não, eu topo pagar mais imposto.
Se a gente conseguisse que esses 1% pagassem mais imposto, não é os 5% da Gleisi, é 20, 30.
Sabe o que que precisa acontecer? Como é teu nome mesmo?
Luiz.
Desculpa, Luiz. Sabe o que que precisa acontecer?
Sei.
É pegar uma planilha e fazer essa conta.
Pois é, mas ela é feita.
Não, mas eu vou te dar um exemplo. O, o, o projeto da Gleisi, que você tá falando, tá mencionando agora-
Que é, é superconservador
...mas beleza. Esse projeto dá vinte bilhões. Vinte bilhões é dois dias de arrecadação.
Vamos tributar mais.
Mas o que que você acha que acontece? Então vamo lá, o que que você acha que acontece se a gente tributa bem mais do jeito que cê tá falando?
Os ricos têm que pagar conta. Cê acha que os investidores do agronegócio vão mudar pra Zurique pra plantar soja lá na Suíça?
Você sabe quanto, quantos dos 10 brasileiros mais ricos têm residência fiscal no Brasil?
Ensina.
Não, não sabe esse número? Dá um chute. Dos 10, 10 mais ricos do Brasil.
Que sejam os 10 morando fora.
Então, são nove.
Tudo bem, mas-
Apenas um está, tem residência fiscal no Brasil. Cê sabe quantas, é, famílias milionárias-
Deixa eu só te interromper
...não, só, só pra concluir o raciocínio. Eu, eu vou-
Pois não
...depois devolvo pra você.
Perfeito.
Tá tranquilo, tá? É, e, e vai ser rápido. Sabe quantas famílias milionárias saíram do Brasil no ano passado?
Hum.
Oitocentas.
O país não parou, diga-se de passagem.
Não, mas não vai parar.
Os ônibus continuam cheios.
Mas e o que que acontece-
E as fábricas continuam produzindo
...mas o que acontece quando oitocentos milionários saem do país?
Tem menos evasão fiscal de quem sonega.
Não, mas aí você tá generalizando.
Sim.
Não, não generaliza.
Estatisticamente, não é isso.
Não, não generaliza. Eu não sonego imposto.
Eu acredito em você.
Isso, mas não, mas é que-
Não é particular a discussão, por favor, entenda
...é, mas, mas eu sei, mas quando, quando a gente generaliza o assunto, a nossa conversa não fica muito inteligente.
Mas não é o Luiz e o Flávio, é um trabalhador e um bilionário.
Não, não, não
Eu preciso generalizar.
Não, não. Quando você generaliza, você, você erra. Então nosso, nosso-
Não necessariamente.
Toda generalização-
A OMC e a OCDE têm um projeto, por exemplo, que tá tramitando em escala global pra fazer essa tributação globalmente.
Uhum.
Assim, o evasor de divisa que tá no Brasil e muda pra outro país, vai ter que pagar lá também.
Mas quem muda pra um outro país não é evasor de divisas.
Eventualmente, ele tá saindo daqui pra não pagar imposto.
Não, ele vai pagar imposto em outro lugar.
Por isso chamam paraísos fiscais, né, os lugares onde esse dinheiro fica escondido.
Não, não necessariamente, não necessariamente. Estados Unidos não é um paraíso fiscal. E é, e é o principal destino do brasileiro é o Estados Unidos e ele não é paraíso fiscal.
Será que lá eles tão aumentando a fortuna, mesmo com a política agressiva do Trump?
Tão. Eles tão, eles tão aumentando a sua fortuna e-
E a pobreza lá tá crescendo junto?
E vou te-- mas isso é um outro tema.
Não é.
Vamo, vamo concentrar no nosso.
É uma questão de causa e consequência.
Não, não, vamo concentrar no nosso.
Lá eles se esforçam menos que no Brasil?
Vamo lá. Não, lá eles trabalham. Lá eles trabalham. O ponto-
E quem trabalha? Os, os mexicanos, os latinos, a população pobre ou os milionários?
Não, todos, todo mundo trabalha. Eu trabalho 12 horas por dia.
Eu acredito, mas a sua recompensa é do personal de um entregador de aplicativo?
É que você tá abrindo muitas janelas, Luiz.
Perfeito, porque a discussão moral é essa, o esforço de produzir-
Não, não, a discussão moral, não, negativo
...há uma recompensa justa.
Não, não.
Uma pessoa que trabalha de maneira honesta dentro daquilo que ela pode fazer, é um trabalho justo. Por que esse trabalho não é remunerado à altura? Porque eventualmente você vai ter que cobrar mais imposto de um milionário pra pagar mais uma pessoa que faz serviço doméstico?
Luiz-
Se a lei criar parâmetros pra isso-
Vamo, vamo focar senão a gente-
A pessoa vai ter que fazer dessa maneira.
Vamo focar porque a gente tá falando coisas aleatórias, tá? Vamo, vamo, vamo, vamo focar aqui. A gente tá falando aqui sobre as famílias, as oitocentas famílias que saíram do Brasil no ano passado. O que acontece quando uma família milionária sai do Brasil? Ela para de empregar, ela para de aplicar o capital dela naquele país e passa a trabalhar, a produzir e aplicar o capital dela no outro país.
No capitalismo financeiro, o investimento não produz renda. Veja o caso das criptomoedas, por exemplo, não gera emprego nenhum.
Não, não, mas eu não, eu não tô falando do, eu não tô falando da criptomoeda.
Os milionários investidores que não tão abrindo fábrica no Brasil, o país tá se desindustrializando, cê sabe melhor que eu. E com essa plataformização-
Por que você acha que tá desin-desindustrializando?
Porque a gente começou a comprar de empresa de capital estrangeiro e baratear a mão de obra que é explorada e escravizada no Sudeste Asiático, onde novos bilionários estão surgindo.
Exatamente.
Não por acaso.
Sim, mas falando [riso]Você abre muita janela, Luiz.
Mas é porque eu tô tendo uma visão que é global
Eu entendo a sua visão global.
Perfeito.
Mas o que eu quero dizer pra você, qual, qual é o nosso tópico aqui? Que o sucesso é uma ciência exata que todos podem aprender.
Não é.
Não, esse aqui é o nosso, esse é o nosso tópico.
Perfeito, tô, tô te desmentindo isso.
Então argumenta, não é por quê?
Não é, porque a pessoa que trabalha, se esforça, é honesta, aprende isso desde cedo-
Uhum.
Ela não vai ficar necessariamente rica. A não ser que cê me diga que entrar pra uma carreira de estelionato seja uma forma de aprender a ficar rico, talvez a gente consiga-
Uhum.
Concordar. Mas ensinar alguém sucesso, tenho certeza que todo mundo que tá aqui tem pais, mães, familiares, que desde cedo ensinam o caminho das pedras, que basicamente é ser honesto, estudar, fazer bem, ter disciplina, não ferrar ninguém.
Uhum.
Essas pessoas não tão ficando milionárias.
Não é só esse o caminho das pedras.
Então, mas aí é que entra a questão do privilégio.
Então, se, se eu posso, eu posso-
Não é? De herança, de cor de pele, de gênero, de nacionalidade.
Legal, eu posso dividir o meu conhecimento com você aqui.
Perfeito.
Gostaria?
Cê acha que cê vai me ensinar a ser milionário?
Olha, eu posso te ensinar a ser milionário. Eu não sei se realmente você vai conseguir atingir esse resultado. Eu não posso te garantir isso.
Não é vendendo curso, nem fazendo pirâmide.
Pirâmide, não, mas. Pirâmide, não.
Perfeito.
Mas vendendo curso é uma po, é uma possibilidade.
Então, mas será?
Eu vendo, eu vendo, por exemplo, curso de inglês há trinta anos.
Muito bom, mas não foi isso que te deixou rico, eventualmente.
Foi.
Não foi vender pra uma empresa marketing, uma projeção de capacidade populativa.
Não, eu já tinha mais de oitenta milhões de lucro por ano quando eu vendi pra essa empresa.
E por que que as outras pessoas que vendem curso assim não tão ricas? Elas são incompetentes?
É uma, é uma questão de performance. É uma questão de performance.
Então trezentas pessoas são competentes e cento e cinquenta milhões de brasileiros não.
Eventualmente, eu vou te dizer que-
Cês ouviram.
Não.
A gente... [risos]
Eventualmente-
A gente é incompetente ou preguiçoso.
Eu posso, posso terminar de, posso terminar de falar?
Por favor.
Eventualmente, uma pessoa precisa aprender. Você faz o quê, por exemplo?
Eu sou professor.
Você, você é professor de quê?
Sim, de Geografia.
Você é professor de Geografia. Eu não conheço nenhum professor de Geografia que ficou rico.
Nem eu.
Mas eu conheço-
Nem um bombeiro, nem uma enfermeira.
Mas eu conheço professor de inglês que ficou rico.
Hum.
Eu conheço professor, professor, conheço professor de Biologia que ficou rico.
Dando aula?
Dando aula, inclusive é meu sócio, inclusive hoje, não é? Ele é professor de Biologia, não é? Obviamente, criou uma plataforma agora de preparação pra Enem, é uma das coisas que ele trabalha.
Plataformização da educação, é o que tá baixando o nosso valor de hora aula. Aqui o colega, né?
Muito bom. [aplausos]
Obrigado pela honestidade.
Quem deposita sua esperança no Estado termina sua vida pobre e frustrado.
Voltei. Você tinha falado no primeiro tema sobre quem vai, é, é arbitrar sobre o que que é moral e imoral em relação à quantidade de dinheiro que uma pessoa acumula ou não, certo? Então você acha que a dificuldade é encontrar quem vai arbitrar, quem vai dizer o que é moral ou imoral. E a minha esperança é que o Estado, diferente de uma empresa privada-
Perfeito.
Ele teoricamente é do povo. Ele teoricamente...
Cê acredita nisso que cê tá falando?
Então, eu acho que ele tá em disputa. A sua empresa não é do povo. A sua empresa é sua, dos seus acionistas, o Estado é. A questão é-
Mas você acredita mesmo no que cê tá falando?
A minha esperança não tá no Estado. A minha esperança tá na nossa organização enquanto sociedade, enquanto classe trabalhadora, pra que a gente consiga, através do Estado, trazer essa arbitra-- é, é, arbitrar sobre o que é moral e imoral em relação à grana.
Legal, Juliano. Essa é a sua esperança. E a minha frase é justamente essa, que quem tem essa esperança termina pobre e frustrado.
Mas então, é-
Eu vou dizer um negócio pra você, Juliano, do fundo do meu coração. O que a gente mai-- eu tenho cinquenta e três anos, cara. O que a gente mais vê é corrupção, é desvio de dinheiro, é sacanagem acontecendo em tudo quanto é lugar. Entra governo, sai governo, entra orientação ideológica prum lado ou pro outro. A gente vê-
Eu só vou falar rapidinho porque eu posso ser demitido e você não. É, e antes que eu seja-
Não, mas eu preciso falar, eu preciso-
Então, mas aí só pra, pra trazer mais argumento, é cê, aí, cê pode, é...
Pode falar.
É, a gente tá aqui nessa dinâmica e eu, eu, eu venci essa corrida pra chegar aqui e ter esse tempo pra falar com você, certo?
Perfeito. É um prazer falar contigo.
Sim, tá sendo bem agradável. Porém, eu tô, tô preocupado com os meus colegas que querem falar também, e eu quero que eles, eu quero ouvir eles assim.
Eles, eles vão ter tempo.
Então a gente socialmente se organiza.
Que bom.
Você falou agora há pouco que você é feliz.
Então, eu acho-
Você consegue ser plenamente feliz-
Eu penso-
Sabendo que a gente tá vivendo uma, uma situação de desigualdade com pobreza?
Sou, sou, porque eu não tenho, a gente precisa entender o que é a responsabilidade individual de cada um de nós. Eu não posso carregar a culpa, como você fala.
Não é culpa.
Das mazelas da huma, da humanidade.
Eu não duvido que você seja compassivo, mas nesse ponto-
Mas é o que eu tô te falando. Eu não posso carregar o peso das mazelas da humanidade. O papel, eu não sou governo, eu sou empresário. Então eu penso, meu querido, que cada indivíduo deve achar o seu caminho e não contar com u-uma entidade chamada Estado.
Mas a gente sabe que os cami, as corridas começam em pontos diferentes.
Eu conheço muito bem, eu comecei, eu comecei bem atrás.
Você sabe, você sabe.
Comecei.
Não se esqueça disso.
Eu comecei. Não, nunca me esqueço disso.
Claro que não.
Ó, eu comecei, Juliano, deixa eu falar, Juliano. Ó, eu comecei, eu comecei, Juliano, querido, cinco horas dentro do ônibus, cara. Eu sei o que que é isso. Eu, eu sei o que que é chegar em casa meia-noite pra acordar às cinco horas da manhã no outro dia. Eu sei o que que é isso.
E você sabe que você sozinho não consegue resolver o problema que você falou isso pra mim na primeira rodada.
Mas, mas não foi o Estado que resolveu o meu problema.
Não, ele não resolveu, mas você resolveu o seu problema.
Ó, e eu vou te dizer mais, o Estado é o maior criador de desigualdade social do país. Quando a ti, ó, quando o Estado-
Mas o Estado é um ente em disputa.
Tudo bem, mas quando o ente-
Ele, ele tá na mão de quem causa os problemas. Eu, se eu, se eu tivesse acesso ao Estado, eu taria trabalhando por soluções.
Olha, mas quem traz a solução é o empreendedor.
Não só.
Opa!
Valeu, obrigado. [riso]
Deve ser tua última vez, então foi um prazer, tá?
Prazer por tudo.
Tudo de bom, cara.[som de notificação] Rapá, tu é fortão, hein, cara? Então cê, é difícil disputar contigo aí, hein?
Foi muito pertinente essa, esse tema agora, porque é o seguinte: eu terminei a fala justamente falando e fazendo a seguinte pergunta: quem é o responsável pela corrupção no Brasil? Os políticos ou os empresários milionários?
Não, não, é ruim generalizar. Você, se você disser, olha aqui ó, se você disser que são os, os políticos ou se você disser que são os empresários, você vai tá generalizando. Eu prefiro, note bem, eu prefiro dizer pra você que a raiz de todos esses problemas se encontra dentro do Estado. E aí, no, o Estado, você vai incluir os agentes do Estado, sejam eles agentes públicos, sejam eles os políticos ou sejam eles aqueles empresários que se instalam dentro do Estado.
Vou reformular minha pergunta.
Cê tá ouvindo o que eu tô falando?
Não, estou ouvindo, mas eu vou reformular.
Ó, tem empresários que se instalam dentro do Estado e eles funcionam como se fosse parte, como um parasita dentro desse organismo, entendeu?
Então é isso que, é porque aí-
Mas, mas toma cuidado pra não generalizar.
Não estou generalizando, porque assim, eu tenho certeza que um empresário-
Que isso não é empresários.
Isso não, não estou generalizando, porque assim, um empresário com o seu perfil não é o que eu queria enfrentar aqui hoje. Desculpa.
Eu entendo.
Tá?
Cê, cê veio com sede, sede e fome de outra coisa, né?
Eu queria enfrentar um outro tipo de empresário.
Eu entendo.
Porque é o seguinte: existe uma corrupção-
Eles te demitiram, amigo. Desculpas. [som de notificação] Aí, sim.
Voltei.
De volta.
Rapidinho.
Me lembra teu nome, desculpa.
Gabi.
Gabi.
É, eu queria entender então, se pra você essa, o Estado não faria o seu trabalho, qual é a sua solução prática pra gente conseguir resolver a desigualdade social?
A, a desigualdade não vai ser resolvida nunca. Ela, ela, a, a, a-
Mas tem países que a gente tem menos desigualdade social que o outro.
Não, mas sempre vai existir. A desig- a desigualdade, ela sempre vai existir.
E se a gente falar sobre miséria?
Isso é terrível, a gente tem que acabar com isso. É um absurdo, é um absurdo.
Então qual é o seu, qual é o, o que o senhor vai me dizer?
Ó, sobre miséria, sobre miséria, eu vou dizer pra você que no início do século vinte, nós tínhamos cerca de sessenta e cinco por cento da população passando fome. Cinquenta anos atrás, cerca de trinta e cinco por cento da população passava fome. Hoje, nós estamos em nove por cento da população que tem desafios alimentares. Ainda é um absurdo. Se você pensa: "Mas como, por exemplo, existe fome no mundo ainda, se a gente produz tanta, tanta comida?"
Exatamente.
A tecnologia avançou, a gente pode produzir. Porque uma coisa-
É que a gente tá fazendo as coisas errado.
Mas cê sabe o que que é o mais caro? Não é produzir a comida, é fazer ela chegar. Cê pode ver que os lugares onde tem mais fome, são os lugares-
Que produzem mais internamente.
Não necessariamente, não, ao contrário.
A gente produz muita, a gente produz muito internamente.
Não, mas o Brasil, mas o, mas o Brasil-
Mas a gente tem um índice de, de fome grande ainda.
Não, é baixo no mundo. Não, o índice de fome-
Agora a gente saiu duma plataforma de novo, né?
Isso.
Mas a gente tinha entrado, né, no governo passado.
Não, é que esses números são tão fantasiosos que, Gabi, eu vou dizer um negócio.
Ah, são dados.
Eu sei, mas são dados, são dados, é, se a gente entrar nisso aqui, a gente vai gastar o nosso tempo falando disso. Eu queria dizer pra você o seguinte: que não basta produzir a comida, você tem que fazer ela chegar. Então, às vezes, é, em lugares onde você tem grandes ditaduras ou de grande, é, lugar de corrupção, a comida não chega. Eu vou dar exemplo pra você.
Quando teve aquela tragédia no Rio Grande do Sul, os empresários, inclusive eu participei desse, desse movimento na época, a gente mandou um monte de doação. A maioria foi de-- não vou, não vou dizer que a maioria, mas muito da doação que chegou foi desviada quando chegou lá.
Porque a gente tem um sistema corrupto.
Ela não chega. Claro.
Sim.
Claro, ela não chega. Cê sabe qual é a conclusão?
O capitalismo é corrupto.
Não, não é o capitalismo, é o ser humano, é o ser humano.
Também, porque o capitalismo ele contribui pro sistema ser corrupto. O sistema é corrupto por conta do ser humano, enfim, é essa dualidade.
O capitalismo, claro, Gabi, ó, o capitalismo é um jogo de incentivos. Então, por exemplo, uma pessoa, ela é incentivada a investir o dinheiro dela pra ganhar o lucro, pra ganhar um dinheiro em troca. Esse jogo de incentivos não é perfeito, tem um monte de problema, mas se não fosse esse jogo de incentivos, eu não teria saído da pobreza.
Tudo bem, mas eu queria saber-
Gabi, só ouve pouquinho, só ouve pouquinho.
Tá, pode falar.
Só, só pra você entrar na minha sintonia, não é? Por que que, por exemplo, do, do início do século vinte até hoje, a renda per capita média aumentou sete vezes? Por qual motivo? Por qual razão? Porque nós temos um, o modelo, o modelo capitalista, com todos os seus problemas, ele multiplicou por sete a quantidade de riqueza existido, existente no mundo.
Sim, mas a gente continua tendo pessoas passando fome sem-
Infelizmente. Na minha visão, sabe qual é a, a, a solução? Não é, não é da desigualdade. A gente tem que mirar, na minha visão, mirar a pobreza. A gente tem que acabar e exterminar a pobre-pobreza.
Não, é, é, sim. E qual é o seu plano efetivo? Vocês têm um grupo de bilionários no Zap.
Eu, eu não, eu não tenho.
Tipo, vamos contribuir, vamo ajudar.
Tenho muitos amigos que ajudam, a gente investe, eu gasto, eu não gosto de falar isso e usar como plataforma de marketing pessoal, tá? Eu gasto muito dinheiro, alguns milhões de reais por ano, em doações pra projetos sociais que eu participo.
Cê acha que isso é suficiente?
Olha, isso é, isso, se cada um fizer, cê pode ter certeza.
Eu não tô falando que não tem que fazer, eu tô falando que é ruim que faça, mesmo.
Cê pode ter certeza que se cada um fizer, a gente tem a capacidade de melhorar a vida das pessoas.
Então, mas se cada um fizer muito?
Você acredita, você acredita, por exemplo, em organizações não governamentais?
Acredito.
Que atuam dentro de comunidades?
Em algumas, sim.
Sim, mas tem umas que são falcatruas. As que são sérias, você acredita?
É isso que eu tô falando.
Eu também acredito. Cê entendeu? Porque infelizmente, quando a, quando o dinheiro vai pro Estado-
Mas é que eu acho que a, as ONGs, elas não são necessariamente, elas tapam buracos, entendeu?
Então, mas, mas quando o dinheiro vai pro Estado, não necessariamente ele vai chegar lá na ponta. Esse é o problema.
Sim, a gente precisa reestruturar a sociedade. Só que vocês, a minha questão é, vocês-
Vocês o quê? Bilionários?
Vocês bilionários-
Não, não me, não me coloca nesse pacote, por favor.
Mas é, você é, esse é o tema.
Fala assim, você. Fala, fala pra mim, você.
Não, é porque eu não tô falando com a pessoa física, Flávio.
Claro, entendo, entendo.
Pra mim é, é, é o jurídico bilionários, entendeu?
É que não existe essa classe.
É, a gente é, a gente é independente.
Você veio da comunidade
Gabi, tchau minha querida.
Opa!
Consegui!
Olha ela aí. Agora foi, hein? A terceira vez, né?
Eu tô tentando me calar, cê viu? Meu nome é Rafaela, atualmente eu sou estudante e eu acho que bilionários não deveriam existir, porque é um acúmulo muito grande de capital na nossa sociedade, que já é muito desigual, e eu acho que isso não é natural.
Como é que seu nome?
Meu nome é Rafaela, prazer.
Oi, Rafa, cê tá bem?
Tô bem, tô bem.
Me conta, Rafa.
É, se eu pedir recapitular o tema, eu-
Quer que eu fale sobre o sistema pobre aí?
Se o senhor-
Deixa eu explicar um pouquinho isso, porque é, é meio pesado, tá?
Tudo bem.
Ó, uma das principais causas de desigualdade se chama Previdência Social. Para pra pensar que por mais que você trabalhe e se esforce e junte dinheiro e faça o que for ao longo da tua vida pra dam-- ter uma vida melhor, no final das contas, cê vai depender do INSS. Cê vai depender de uma pensão que vai ser uma mixaria e que no máximo vai ser de oito mil reais, que é o topo, e a maioria não ganha nem uma fração desse, desse dinheiro.
Sem contar com o fato, que é o seguinte: quantos anos cê tem?
Vinte e quatro.
Me lembra teu nome.
Rafaela.
Rafaela. Então, vinte e quatro, Rafa. Você deve se aposentar daqui uns quarenta anos, cinquenta anos, né? Cê tem muito tempo. Só que o ponto é o seguinte: cê sabia que-- cê trabalha hoje?
Tô desempregada.
Tá desempregada, mas você, quando tiver trabalhando, todo mês vai ser descontado de você um percentual do INSS. Esse dinheiro que vai ser descontado, que é obrigatório, do seu salário, esse dinheiro não é uma poupança pra quando você for se aposentar. Esse dinheiro já vai diretamente pra pagar os aposentados atuais, os velhinhos que tão lá recebendo, justamente recebendo a sua aposentadoria. Ou seja, você trabalha pra po-- esse é o modelo que nós temos, modelo de compartilhamento, tá bom?
Nesse modelo, essa, essa galera tá recebendo daquilo que cê tá trabalhando hoje. Só que tem um ponto. Com o avanço da medicina, os nossos velhos tão vivendo cada vez mais. Isso é bom. Ou seja, eles demoram mais pra morrer. Isso é bom. Nossos pais, nossos avós, daqui a pouco eu, não é? A gente tá vivendo mais, isso é um ponto positivo. Só que isso é mais tempo as pessoas recebendo o benefício do INSS.
Só que, por outro lado, a população brasileira, ela não tá mais na pirâmide etária, daqui a pouco nosso professor de geografia vai nos ajudar com isso aqui, né? [riso] Nossa pirâmide etária tá mudando. Nossa base tá ficando menor. Aí nós temos menos jovens na nossa sociedade. Terceiro ponto é o seguinte: eles estão casando cada vez mais tarde. Cê concorda que uma pessoa hoje casar com vinte e cinco anos é muito novinha?
Pô, eu casei com vinte. Hoje uma pessoa casar com trinta e cinco tá na, tá le-- tá na boa.
Sim, mas aí-
Calma, calma, calma. E o último ponto é o seguinte: eles tão tendo cada vez menos filhos. Qual é a consequência disso? Vai ter muito velho recebendo e pouco jovem trabalhando. Ou seja, essa conta simplesmente não fecha. Por isso que toda hora você tem uma reforma da Previdência. A todo momento você tem uma reforma da Previdência. E com isso, isso é um grande promotor de desagu-- de desigualdade social.
Então, se você, a pessoa que acredita nesse sistema, infelizmente, depositar sua vida nesse sistema, bo-- depositar sua esperança nesse modelo, vai terminar a vida daquele jeito que eu falei, pobre e frustrado.
É, desculpa perguntar, o senhor é formado?
Não.
Faculdade, não?
Não, não sou formado. Eu deixei minha faculdade, eu ia-- eu passei numa faculdade federal pra fazer tecnologia e depois eu deixei a minha faculdade pra começar a trabalhar na área de vendas. E aí trabalhei na área de vendas por quatro anos, aprendi a vender, aprendi liderar times de vendas, foi aí que eu consegui entender como é que a gente vai no mercado e busca dinheiro.
Uhum.
Então aprendendo a vender, eu criei a Wise Up, que é uma escola de inglês, e abri a primeira escola em 1995, depois eu abri quatrocentas dessas escolas em todo o Brasil.
O senhor concorda comigo que a maioria dos seus profissionais que trabalham na sua empresa, assim, falando de professores, principalmente, eles de certa forma não dependeram do Estado pra poder se formar, alguns? Você acha que sem o Estado-
Não necessariamente. Alguns, alguns talvez fizeram, é-
Porque assim, tem muitas pessoas que não conseguem hoje em dia, se não depender do Estado.
É, eu, eu por exemplo, eu por exemplo, passei numa faculdade federal, a-
Um bom exemplo
...porque, porque eu não tinha outra opção. Se não fosse estudar numa escola pública, eu jamais, jamais conseguiria, é, pagar uma faculdade. Mas acabou, cê vê que o caminho da minha, da meu, do meu crescimento não foi pelas vias acadêmicas. O meu caminho de crescimento foi por outros caminhos, é.
Mas tem várias, várias outras coisas, certo? Por exemplo, tem uma pessoa que recebe um auxílio do governo-
Temos trinta segundos.
Deixa eu ir.
Perdão, cê não foi ainda, na moral.
Oi?
É que eu ia trazer um fechamento interessante.
Ah, é? Isso não pode ser.
Deixa eu só te trazer duas boas notícias.
Só um minutinho, só um minutinho. Vamo lá.
O declínio da mortalidade não aconteceu graças ao capitalismo. O declínio da mortalidade acontece apesar do capitalismo. Ele vem da ciência, da criatividade, do empenho dos trabalhadores que são exaustivamente explorados porque a criatividade vira mercadoria. E esse Estado corrupto, quando vira um Estado coletivo construído pela população, leva pra um sistema chamado comunismo. Se você defendeu isso, vai ser uma coisa inédita, um bilionário chega-- dizendo que a gente tem que chegar ao comunismo.
Não, já pode defender ele.
Que é um Estado muito diferente do capitalismo.
Vou te dar mais quinze segundos, certo? Tuas argumentos são ótimos, quero te ouvir, vai lá.
Seria excelente, porque o Estado, no final das contas, criou a escravidão-
Você é a favor do, do comunismo?
Eu sou a favor de um governo verdadeiramente democrático. As vias de se chegar a ele variam. Aí a gente precisa entender que o comunismo é um governo do povo para o povo. Independente desse nome, eu acho isso interessante.
Uhum.
A China é uma experiência hoje que se diz comunista-
Que, que não é comunista
...e é um governo que tem características muito autoritárias, mas falando de estatística, nos últimos sessenta anos, a China tirou quinhentos milhões de pessoas da pobreza.
É, cl-- uma ditadura é sempre um caminho mais curto.
Mas falando em estatística, se eu vou me gabar do capitalismo que reduziu a pobreza, a China pode se gabar, porque com autoritarismo reduziu também.
Também.
A minha tese é-
É inegável
...o Estado é um recorte da população. O Estado não é como empresa privada porque ele tá em disputa. Então se eu construo um Estado democrático popular, esse é o caminho.
Uhum.
É a tese de superar o feudalismo e prum capitalismo inevitavelmente chegar num outro estágio, que pode chamar socialismo, comunismo ou qualquer outra coisa, mas onde o Estado é eleito pelo povo, diferente de um empresário, de um bilionário, que é uma pessoa que tá ali porque sim, por N fatores, mas que não tá em disputa. Uma pessoa mais competente que você na sua empresa, cê transfere o cargo?
Ou a colega que é mais jovem que você na sua busca pela felicidade, cê trocaria de vida com ela pra voltar até a idade dela-
Se eu pudesse, eu tro-
...com todos os ônus e bônus?
Se eu pudesse, eu trocaria. Te garanto.
Interessante.
Ó, se eu pudesse-
Cê trocaria de-
Olha aqui, o nosso tempo já acabou, professor. Ó, olha só, o nosso tempo já acabou, mas se você me permitir Cara, bom demais falar contigo. Da outra vez foi boa, argumentos muito legais, muito respeitosos. Aliás, galera, obrigado pelo carinho, pelo respeito de todos aqui. Foi muito bacana. É, mesmo aqueles que não vieram aqui e sentaram, foi muito legal sentir aqui o feedback de cada um de vocês.
Eu quero encerrar, é, falando contigo sobre esse tema, é que eu não sou a favor do comunismo. É, não vi, é, nenhuma experiência no mundo que fosse favorável implantando esse regime. Aliás, vi-
Não houve.
Não houve, eu sei, não houve. Talvez, talvez, é, é, na, na abstração utópica dos desejos utópicos que todos nós temos, eu sou músico, né, também toco, é, sou-- tenho um lado artístico e ao mesmo tempo sou empresário. Ah, então, ou seja, na nossa abstração, a gente talvez desejasse alguma coisa que fosse diferente daquilo que nós temos. Isso é, isso é bom, porque a, o mundo não é justo.
O mundo não é justo, né. A gente não, não deve nem esperar justiça, porque senão a gente vai ser frustrado também. Eu aprendi a jogar o jogo. Eu aprendi a jogar o jogo. E dentro do capitalismo, eu, é, ele me permitiu sair de onde eu saí e chegar até onde eu cheguei. Através de entender o jogo, como é que funciona. Eu aprendi a vender, eu aprendi a gerar receita, eu aprendi a ganhar dinheiro, eu aprendi a montar negócios.
Então eu sempre penso aquela frase que eu falei, que foi uma frase, é, que gerou uma certa comoção aqui no grupo, né, que o sucesso é uma ciência, ciência exata que a gente pode aprender. Eu sempre quando eu olho pra alguém, eu olho pra você, eu olho pro, pro, todos os jovens que tão aqui sentados, eu sempre imagino que todo mundo aqui pode ter uma vida melhor.
Todo mundo aqui pode aprender a vender, pode aprender a trabalhar dentro do jogo. Você não precisa concordar com o sistema pra jogar dentro dele. Eu acho que a sociedade, ela é hipócrita. Acho que a sociedade tem uma série de contradições. Eu acho que, que quando eu olho pro mundo, eu, eu não me sinto animado quando eu olho pros políticos e nem com o modelo do que se chama democracia no Brasil.
Não gosto do que eu vejo, mas ou eu vou entrar num ciclo interminável de descontentamento e, cara, sei lá, vou virar um, um revolucionário, cê entendeu? É porque eu sou uma pessoa muito intensa, ou eu jogo o jogo. Eu entendi que eu posso jogar o jogo. Eu entendi que eu posso fazer isso respeitando as pessoas. Eu entendi que eu posso fazer isso de forma honesta. Eu entendi que dá pra fazer isso tentando ser justo.
Nem sempre a gente vai ser justo em todas as situações. Nós somos seres humanos, não é? Mas buscando criar uma regra que seja jogada por todos e que beneficie a maior parte possível das pessoas. Eu, por exemplo, acredito piamente que a melhor forma de distribuir renda não é dividindo riqueza, é dividindo conhecimento. Eu entendo que o conhecimento gera renda. Vou te dar um exemplo: tu é professor de Geografia.
Tu tem uma renda hoje gerada pelo conhecimento que você tem. Talvez se você não tivesse esse diploma e esse conhecimento que você tem, você não teria essa renda. Então, na realidade, o teu conhecimento te gerou uma renda. Grande ou pequena é outra, é outra discussão, tá? Então cada bloco de conhecimento pode nos trazer benefícios.
Mas porque o conhecimento é mercantilizado. Numa sociedade onde eu não fosse obrigado a pagar pela água ou pelo aluguel-
Só pra tu ter ideia-
Talvez pra minha felicidade eu compartilhasse o meu conhecimento sem necessariamente ser prisioneiro do dinheiro como meio.
Concordo com você. Tanto concordo que há quinze anos eu gasto duas a três horas por dia produzindo conteúdo pra pessoas que querem aprender a vender, que querem aprender a se desenvolver. Eu, por exemplo, tenho doze milhões de seguidores em todas as minhas redes na internet produzindo conteúdo com a finalidade de ajudar a pessoa a entender como é que joga esse jogo. Uma pessoa não precisa fechar os olhos pras injustiças.
Flávio, mas com todo respeito, faz todo sentido que você fortaleça a estrutura que te beneficia. Isso não é nenhuma novidade.
Não, mas quando eu fiz-
Como gerar emprego e renda explorando a mais-valia.
Não, não. Quando eu fiz isso, eu não tinha nenhuma empresa, eu tinha vendido minha empresa.
Pois é, mas se você fizesse curso sobre como superar o capitalismo, a tua posição de privilégio provavelmente seria sustada, né?
Não, é que isso é utópico. Sabe por que eu jamais faria isso? Porque isso não existe.
Imagina na época do feudalismo alguém perguntando lá na Revolução Industrial onde que o capitalismo tinha dado certo. O capitalismo também foi revolucionário.
Foi.
Não, isso aí agora tá tudo-
Não, tá, tá to-- tá valendo, tá valendo.
Em cima disso aí, disso que ele tá dizendo. É, eu sou, o meu conhecimento, que acabou me trazendo uma outra realidade, uma realidade social diferente do que-
O que que cê faz?
Eu sou professor.
Ah, legal.
Que veio através de uma política pública do Estado. Eu sou pra UNI, minha mãe era empregada doméstica.
Boa.
O último resquício que o Estado acabou com a escla-a escravidão no Brasil, foi as empregadas domésticas não terem direitos trabalhistas.
O Estado fez isso.
O Estado fez isso.
Não, o Estado-
Representando a população.
Não, eu vou te falar, o Esta- o Estado, não, mas o Estado é o cara que mais fez atrocidades na, na história da humanidade.
Sim, mas nós estamos falando-
Como instituição, a igreja também, o capital também.
A sociedade ascendesse, e o Estado também é responsável por isso. E deveria ser maior responsável, porque educação não é negócio, é pra você. Educação, a educação que eu digo, cidadã, a educação do cidadão, ela não pode ser fruto de lucro. A educação é uma obrigação do Estado, tá lá na nossa Constituição. Educação-
É, meu irmão, mas professor, com todo o respeito, a minha última frase, que é essa que a gente tá batendo esse papo, que é legal, porque praticamente o programa acabou, a gente tá batendo papo aqui, é um prazer tá fazendo isso com vocês, tá? É, cara, quem depositar, eu falo isso com dor no coração, mas falo, quem depositar sua esperança no Estado vai terminar a vida pobre e frustrado.
Olha, muito legal terminar aqui esse debate. Pa-- aqui todos foram muito pacientes comigo, eu procurei ser paciente também. Foi um papo de altíssimo nível. Hã, eu penso que minha mensagem final, que fica aqui, que eu quero deixar marcado, é que tanto empresários quanto trabalhadores Cada um tá saindo da sua casa pra resolver a sua vida e levar uma vida melhor pra sua família. Cada um tá, tá fazendo esse papel.
E o que nós vemos aqui é que o meu sonho, utópico, também tenho sonhos utópicos. Meu sonho utópico é não existir um Estado que nos atrapalha. Meu sonho utópico é não existir um Estado que explora o trabalhador, porque a, a lei, a CLT que existe hoje, ela desconta de você, ela faz uma série de descontos de você, ela desconta na tua, na tua, na tua fonte, ela te paga, ela sequer remunera a inflação sobre o seu FGTS.
Tem um modelo que, na minha opinião, as pessoas recebem um valor, por exemplo, uma pessoa que ganha dez mil reais de salário, ela vai receber uns seis e meio, seis e oitocentos. Só que ela custa pra empresa vinte mil, quase vinte mil reais, dezenove mil e pouco. Eu, meu sonho utópico era poder dar esse dezenove mil e pouco pro, pro empregado. Esse é meu sonho utópico. E que ele tivesse educação financeira pra poder fazer o investimento do seu dinheiro e com o investimento do seu dinheiro, com a fração daquilo que ele contribui no INSS, ele fizesse uma poupança que no final da vida ele teria um salário bem maior do que e-ele, ele teria na, no INSS e ainda, e ainda aquela grana acumulada fica de herança pro filho dele.
Ou seja, em vez de ficar dando dinheiro pro INSS, pra uma estrutura de Estado que, que vai te sugar dinheiro, em vez de você ficar com dinheiro no teu fundo de garantia, que é uma grana que sequer reajusta o seu-- reajusta a inflação, cê tá perdendo dinheiro com o teu, teu FGTS depositado. Esse é o sistema que o Estado ofereceu. Eu, por exemplo, tenho milhares de funcionários CLT, porque eu sigo a regra do jogo, eu sigo todas as leis.
Eu não sonego imposto, eu pa-- eu sigo todas as leis, eu pago todos os direitos trabalhistas. Só que este modelo é um dos maiores criadores de desigualdade social, que é aquilo que a gente tanto gostaria de ver diminuindo no Brasil, no, no mundo como um todo. Não é alguma coisa que você vai tirar pra sempre, mas a pobreza é nossa obrigação moral de acabar com ela. Então, eu espero aqui que o papo tenha sido bom e fica aqui o meu abraço a você que assistiu esse episódio.
Um abraço pra todos e obrigado pelo carinho, tá? Valeu. [aplausos] Obrigado. [aplausos]