1 Padre x 30 Ateus (Canal Foco) https://www.youtube.com/watch?v=mIQOkwN1MIY [00:00] Padre Patrick Fernandes A igreja, ela tem se colocado no lado das minorias. Os indígenas, os povos originários, por exemplo, eles não precisavam de Deus e não precisavam da Bíblia. Não houve tolerância com eles. A gente volta um pouco. Cruzadas, em busca da Terra Santa, mais atrocidades em nome de Jesus Cristo. Hospital de Barbacena, em Minas Gerais, conhecido como o holocausto brasileiro. Mais de sessenta mil vítimas. Tinha freiras no comando do hospital. Então eu fico pensando assim: É tolerância pra quem? Você não é o seu pai, você não é o seu avô. Houve pessoas naquela época que citaram aqui que fizeram o bem. Jesus só copiou tudo. Como que vai se acreditar num Deus que não existe? Uma Bíblia mentirosa, porque Deus não me viu sendo violentado pelos meus tios. A Bíblia que o senhor falou que é infalível, fala: Escravizarás. Tem bula papal falando: Vá e pegue os muçulmanos e escravize. O que Jesus falou que você: Não, isso aqui eu não concordo, isso aqui não presta pra sociedade. Se as guerras existem é porque o ser humano faz a guerra. A culpa não é de Deus. Se o mal existe no mundo, não é Deus que fez isso, foi o ser humano que através do mal que entra no mundo, faz com que ele seja capaz das maiores atrocidades. Eu sou o padre Patrick, tenho treze anos de sacerdócio, sou formado em Teologia, Filosofia, e hoje eu estou aqui cercado por trinta ateus. Primeira pauta: A Bíblia é o livro mais confiável do mundo. [01:29] Participante Tá. [01:30] Padre Patrick Fernandes Tudo bem? [01:30] Participante Oi. Tudo bem? [01:32] Padre Patrick Fernandes Tudo joia. [01:32] Participante Tudo joia. Então, como é que você alega que é o livro mais confiável do mundo, se a gente tem várias traduções, qual Bíblia? De qual, qual tradução? A Bíblia anglicana, qual a parte que tá em grego, a que tá em hebraico, hã, as partes das cartas, porque tem hora que um-um briga com o outro. A gente tem Tiago falando que ele tá mandando carta só pro povo hebreu. Q-que parte da Bíblia? Porque quando eu chego, os-os apóstolos chegam até diante de Jesus no evangelho. Em outro evangelho, Jesus chega pros apóstolos. Numa parte, os anjos abrem a porta pra Jesus ressuscitar. Na outra parte, Jesus já ressuscitou. Qual é a parte que eu tenho que confiar? Porque tá difícil. [02:12] Padre Patrick Fernandes Certo. Primeiro, a gente tem que compreender a Bíblia como documentos históricos que foram construídos ao longo de séculos. Talvez a gente tenha aquela compreensão que ela chegou até nós, como a gente conhece hoje, esse livro com uma capa dura, com zíper, bonitinho, que enfeita as nossas casas. Mas são resultado de documentos que foram escritos por autores diferentes, em lugares diferentes, em tempos diferentes. Quando a gente vê a Bíblia deste formato que você anunciou, se torna uma leitura um pouco analfabeta. Não tô dizendo que é a seu respeito, mas é um risco de muitos cristãos, inclusive. Pegar, pegarem textos isolados das sagradas escrituras e tirarem conclusões. A exegese bíblica, que é a ciência, e a exegese é uma ciência que estuda a Bíblia, se pauta na arqueologia, em autores, ao povo que esses documentos são destinados. E ela tem um trabalho muito sério e minucioso também, de interpretar estes textos. Nós não pe-- podemos pegar um texto separado. Respondendo a sua pergunta... [03:14] Participante Mas essa é minha questão. Eu tô justamente juntando. [03:16] Padre Patrick Fernandes Sim, eu entendi. Respondendo a sua pergunta, a Bíblia, como nós conhecemos hoje, de setenta e três livros, é fruto do século-- do Concílio Ecumênico de Trento, que definiu que estes são os textos inspirados. [03:28] Participante Certo. [03:29] Padre Patrick Fernandes A partir de então, não entra e nem sai mais nenhum livro destes documentos da sagrada escritura. Só que até ela chegar a essa compreensão, e isso já foi nos primeiros séculos do cristianismo, daquilo que era inspirado e daquilo que não era inspirado, foi uma construção literária que demorou muito tempo. Mas o mais importante é: A gente não pode ler esses textos soltos, paralelos. [03:52] Participante E por que que eu tô falando justamente o contrário do que o senhor tá respondendo? Eu estou dizendo que os textos quando estão juntos, eles não, não batem. E a, e a escolha dos concílios que vocês tiveram através da violência do Império Romano, destruiu grupos como, por exemplo, os gnósticos, que tinham outros textos, que tinham lógica, razão, coletividade construída, e vocês simplesmente colocaram fogo neles através do Papa Pio I, que definiu que aqueles grupos não deveriam existir. Eu tô falando o contrário do senhor. A minha pergunta, padre, não é isso que o senhor disse. A minha pergunta é justamente oposta: Por que que todos esses concílios pegaram textos contraditórios que só tinham em comum apoiar o Império Romano, apoiar o poder de dominação da Igreja Católica e os outros cristãos foram isolados? Esse é meu ponto. E eles se contradizem. A minha fala foi até rápida pro senhor falar. Por que os textos escolhidos por esses homens sábios, se são inspirados por Deus, e eles se contradizem? E textos que até complementam, tiveram que arqueologicamente serem achados. Se a Bíblia, se o livro é tão confiante, por que eu preciso de arqueologia? [04:47] Padre Patrick Fernandes Em primeiro lugar, não foi a Igreja Católica que definiu, principalmente falando do Antigo Testamento, quais seriam os livros inspirados. A gente herda uma tradição que é judaica, muito antes do cristianismo de Jesus Cristo. Então não tem base, por exemplo, você falar que a partir da queda do Império Romano, que a Igreja definiu quais os livros que seriam inspirados. [05:07] Participante Eu estou falando dos evangelhos, só o Concílio de Niceia, tinha cinquenta. [05:10] Padre Patrick Fernandes Ah, tá bom. Já-- vamos agora, a gente tá resumindo mais, né? A sagrada escritura de uma forma geral. [05:15] Participante Sim. [05:15] Padre Patrick Fernandes Os evangelhos que nós consideramos como inspirados hoje, são quatro evangelhos, até porque a Igreja não podia associar à palavra de Deus, textos alegóricos demais. E você deve concordar, então, que neste momento, a, se torna... [05:29] Participante Como Apocalipse, por exemplo. [05:31] Padre Patrick Fernandes Apocalipse é um texto inspirado. [05:32] Participante Não é alegórico. O meu ponto, a minha pergunta, padre, que não tá sendo respondida, e meus amigos precisam falar também, é simples: Por que os textos se contradizem? [05:39] Padre Patrick Fernandes Vamos lá. O Apocalipse, né, que não é evangelho, tá? Evangelho só tem quatro, que é Mateus, Marcos, Lucas e João. Evangelho significa boa nova, boa notícia, que falam da vida de Jesus. O texto do Apocalipse, é, como eu disse no início, você precisa entendê-lo num contexto... [05:55] Participante Mas eu já citei, padre. [05:56] Padre Patrick Fernandes Só um momento. [05:57] Participante Sim, é que eu vou ter, vou ser expulso. É o seguinte, é, aí cê já responde pro próximo: O porquê que o texto, eu tô falando só dos evangelhos, na minha fala primeiro. A minha fala anterior é essa, por que que isso contradiz? [06:09] Participante [som de objetos caindo] [risos] Queremos que ninguém se machuque. [06:13] Participante Desculpa, desculpa. [06:13] Participante Tenha cuidado. [risos] [06:19] Participante Oi Padre, tudo bem? [06:19] Padre Patrick Fernandes Oi, eu tô bem e você? [06:21] Participante Também. Então, quando você fala que a Bíblia é um livro confiável, né, é, nós temos que enxergar o cenário amplo, tá? Porque a Bíblia é só mais um dos livros religiosos que tem existentes no mundo. Inclusive, não é nem a maioria da crença no mundo, não é cristã. Então, como um livro inspirado, nós esperamos características diferenciadoras desse livro que diferencia ele de outros livros sagrados. Porque todos os livros vai afirmar que é o sagrado, é o divino, é o inspirado, tem a verdade ali, tem líderes também desses grupos. Então você, por exemplo, você descarta esses livros, só que você abre uma exceção pro seu livro específico, entendeu? Só que em poder explanatório, isso tem que ser justificável, porque senão sua teoria só se torna mais complexa desnecessariamente abrindo uma exceção pro seu livro específico. Então, eu gostaria de saber qual que é a característica diferenciadora da Bíblia que os diferencia de outros livros sagrados. [07:14] Padre Patrick Fernandes Eu achei fantástica a sua colocação, de verdade. É, a Bíblia, pra mim, é um livro importantíssimo, mas ele não é exclusivista. Eu tenho uma noção muito ampla a respeito das coisas. Eu leio outras coisas também. E eu tenho muita consciência que a humanidade, ela não começa com o cristianismo. Ela não começou há dois mil anos atrás. A gente carrega uma herança, uma bagagem, até chegar à compreensão que a gente tem outro. E existe outros textos que eu acho que são, são norte, eles norteiam o bem comum, a vida humana, a dignidade da pessoa humana. É claro que pra mim, como cristão que eu sou, eu vejo na Bíblia, e aí a gente transcende um pouco a palavra de Deus, que não é só estes textos escritos, porque antes destes textos escritos, a-a pregação foi falada, não existia essas canetas e papéis como a gente conhece hoje de escrever. E existe outras culturas. Um dia desses eu estava lendo alguns textos de Gandhi e ele dizia isso, né, que ele admirava Cristo, mas ele não se tornava cristão, porque ele não tinha encontrado alguém ainda que se parecia com Jesus. E isso pra nós é uma responsabili-- nós cristãos, é uma responsabilidade muito grande. [08:24] Participante Só que aí, no caso- [08:25] Padre Patrick Fernandes Agora respondendo a sua pergunta, né. O que difere pra mim a-a Bíblia dos demais livros, é justamente aquilo que foi revelado, principalmente no Novo Testamento. O Antigo Testamento, Santo Agostinho dizia isso, ele está grávido do Novo Testamento, ele aponta para o Novo Testamento. E Jesus- [08:43] Participante Não, sim, só que aí, no caso, nós precisamos de justificativas independentes da sua crença. [08:48] Padre Patrick Fernandes Sim. [08:48] Participante Entendeu? Só que aí, no caso, os outros livros também vão alegar inspiração, também vão alegar, é, revelação. Então, prum ateu, por exemplo, pra alguém que não acredita, tem que haver essa característica que nós esperaríamos ver um livro inspirado e divinamente falado ali por Deus. Como, por exemplo, a gente olha pra Bíblia, a gente vê o quê? Divergência, não tem texto original, tem comandos divinos abomináveis, entendeu? Compatível com a cultura. [09:12] Padre Patrick Fernandes Entendi. [09:13] Participante Entendeu? Então não tem uma característica diferenciadora que fale: "Ó, o livro é divinamente inspirado e sagrado". [09:19] Padre Patrick Fernandes Perfeito. A Bíblia não é pra você. Não é pra quem não acredita em Deus, não é pra quem não é cristão. A Bíblia, ela é dirigida para quem acredita em Deus. O Alcorão, por exemplo, é o livro dos muçulmanos, é dirigido ao povo muçulmano. [09:35] Participante Sim. [09:35] Padre Patrick Fernandes Se você crê em alguma coisa, porque o ser humano, ele tem em si uma natu-- em natureza, ele é inclinado. Se você pegar uma tribo na Amazônia, eu sou, eu moro hoje na Amazônia, se você pegar uma tribo isolada na Amazônia, ele vai ter ali ritos e-é uma inclinação natural sagrada ao religioso. [09:54] Participante Tá, tudo bem. [09:55] Padre Patrick Fernandes Quando eu falo que a- [09:55] Participante Mas aí essa inclinação sagrada, ela, é, é, dá ali comportamentos completamente divergentes religiosamente falando. Então não tem um referencial único transcendente ali presente nessas pessoas. [10:07] Padre Patrick Fernandes Tem. [10:07] Participante Não tem. Inclusive, há tribos, como por exemplo, os Pirahãs, inclusive, que não têm nenhum conceito de divindade. [10:13] Padre Patrick Fernandes Sim. [10:13] Participante Entendeu? Essas tribos afastadas não têm esse tipo de conceito. Então, como, é, dá, é, comportamentos religiosos completamente divergentes, não tem um referencial único e transcendente. [10:23] Padre Patrick Fernandes Só que existe entre nós algo que nos converge, que nos une, independente da crença, de verdade. Eu não, eu-eu posso muito bem sentar com você e conversar um dia inteiro contigo. A gente tem que encontrar aquilo que nos une. O que são os pontos que nos une, que estão presentes nas sagradas escrituras, que estão presentes nessas tribos. [10:42] Participante Sim, mas aí eu pedi uma justificação pra sua crença, entendeu? [10:45] Padre Patrick Fernandes Só que aí eu fui falar da minha justificação, você falou que eu não poderia usar porque ela não é um livro que abrange todos. E é claro que eu vou falar aqui como cristão, porque eu acredito na Bíblia. [10:54] Participante Não, mas, então, mas você baseia sua vida também na Bíblia, entendeu? Só que... [interrupção] Obrigado. [11:00] Padre Patrick Fernandes De nada. [interrupção] Bom, foi... [som de erro] Graças a Deus, né? Agora foi bom. Oi. [11:14] Participante Oi, padre, tudo bom? Meu nome é David. [11:16] Padre Patrick Fernandes Tudo bem, David. [11:17] Participante É, sou estudante de Filosofia da Religião e eu gostaria de insistir no ponto que o meu amigo Cauã trouxe aqui, né, referente ao cultamento divino, inclusive, que ele trouxe. É, eu queria qualificar uma fala dele, que é, na verdade, os Pirahãs, não é que eles não têm concepção de Deus, eles não têm a concepção do monoteísmo tradicional. [11:30] Padre Patrick Fernandes Sim, exatamente. [11:30] Participante Que é o que o senhor acredita, é o que os católicos acreditam. Então, nessa concepção, eu gostaria de trazer o-o, eu gostaria de questionar exatamente então pra que o senhor está aqui nesse debate, pra que o senhor está, pr-por que que o senhor é católico se, no caso, a Bíblia não é um livro pra pessoas que não creem? Pra que, pra que é necessário o proselitismo religioso, se no caso, esse, essa concepção de Deus, né, e essas crenças religiosas não são pras outras pessoas que não, já não acreditam. Eu gostaria de saber isso, porque simplesmente não ficou claro pra mim. [11:56] Padre Patrick Fernandes É, o prime-primeiro eu tô aqui porque eu fui convidado, né? [risos] [aplausos] Igual você foi. Fui convidado e aceitei o convite pra estar aqui. [12:03] Participante Na posição de padre? [12:04] Padre Patrick Fernandes Claro, na posição de padre, eu sou padre, né? [12:07] Participante Exatamente. [12:07] Padre Patrick Fernandes Corrigindo, o cristianismo não é a única religião monoteísta. Muçulmanos são monoteístas- [12:12] Participante Não disse isso. [12:13] Padre Patrick Fernandes Você falou, né? [12:13] Participante Não disse. [12:14] Padre Patrick Fernandes Depois cê assiste que cê vai ver, né? [12:16] Participante Não. [12:16] Padre Patrick Fernandes E os judeus também são, né? Então essas três religiões que a gente considera que são religiões monoteístas. [12:22] Participante Exatamente. [12:22] Padre Patrick Fernandes Que acreditam no mesmo Deus. Mas você falou- [12:24] Participante E cada uma, olha só, e cada uma acredita que o seu livro revelado é o, aliás, seu livro é o que, que é genuinamente inspirado. [12:30] Padre Patrick Fernandes Sim. [12:31] Participante Certo? E aí, complicado, né? [12:33] Padre Patrick Fernandes É, é, olha, você falou uma coisa que é muito certa, corrigindo o seu colega que veio anterior. Em todas as civilizações que a gente conhece, existem ritos, e ritos que transcende na compreensão das pessoas. E aí cada um tem a sua visão de Deus. Só que o cristianismo, ele se- [12:51] Participante Não, exatamente. Na verdade, existe um- [12:53] Padre Patrick Fernandes Mas eu não falei nada, o que que é não exatamente? [12:55] Participante Na verdade, na verdade, existe um estudo, né, publicado em um journal sobre antropologia. Agora não vou lembrar o nome do estudo, mas existe um- [13:02] Padre Patrick Fernandes Mas aí não tem base aqui, porque você não lembra o nome do, do... [13:05] Participante Tem um artigo de um filósofo chamado Teddy Smith, que é um filósofo animista. Ele utiliza esse artigo, né, e, pra justamente pra motivar a concepção animista de mundo. E nesse artigo, ele menciona esse outro artigo da, da, sobre antropologia, que é referente justamente à, à quantidade de pessoas que, é, de tribos, né, de caçadores coletores, que acreditavam em concepções ali, é, religiosas, mas não teístas, por assim dizer. É, então- [13:28] Padre Patrick Fernandes Não, religiosas, é o que eu tô tentando te falar. [13:30] Participante Mas você tá tentando colocar como se essas, essas tribos- [13:32] Padre Patrick Fernandes De jeito nenhum. [13:33] Participante Né, com essas tribos de caçadores coletores do passado- [13:35] Padre Patrick Fernandes Desde o início. [13:35] Participante Como se todas elas acreditassem numa concepção monoteísta de Deus, como se tivesse uma convergência entre elas. [13:39] Padre Patrick Fernandes Não, com certeza não. [13:40] Participante Esse argumento que cê tá usando é um argumento chamado de argumento do consentimento comum. [13:43] Padre Patrick Fernandes Não, você- [13:43] Participante E já foi abandonado na filosofia da religião como apoiador do teísmo. [13:45] Padre Patrick Fernandes Você tá colocando palavras na minha boca nesse momento. [13:47] Participante Então esclareça. [13:48] Padre Patrick Fernandes O que eu, o que eu estava falando desde o início nesse momento, é a compreensão de algo que transcende, que não significa que é o Deus que eu creio. Eu quis falar desde o início que o ser humano é por natureza inclinado a acreditar alguma coisa que está para além, aquilo que é metafísico, você como estudante de filosofia, aquilo que os nossos olhos não conseguem alcançar. Mas o que uma tribo lá que tem na África ou na Amazônia crê, com certeza não vai ser o mesmo que eu creio. Existe um termo na teologia que nós chamamos de sementes do verbo. É aquilo que do evangelho, aquilo que da fé cristã está presente nas sagradas escrituras. Deixa eu terminar. Por exemplo, deixa eu te falar, só um minuto. [14:29] Participante O nome do artigo do filósofo Teddy Smith, onde ele menciona esse artigo de antropologia, é justamente The Common Concept Argument, tá? Pesquisem. [14:37] Padre Patrick Fernandes Vou pesquisar. [14:38] Participante Tudo bem. [14:39] Padre Patrick Fernandes Obrigado. [14:47] Participante Agora eu fui zen. [14:49] Participante Oi. [14:50] Participante Olá, padre. [14:50] Participante Tudo bem? Como é que você tá? Prazer. [14:53] Participante Tudo bem. É, você tava falando sobre a Bíblia ser confiável. No Concílio de Latrão, no século doze, a Igreja Católica votou pra fazer o casamento homossexual ser proibido, porque a Ca-a Igreja Católica fazia o casamento homossexual até o século doze. O movimento político que conseguiu essa vitória no século doze, demorou dois séculos pra, pra mudar, começou no século dez. Eles, eles faziam casamentos homossexuais e lésbicos, tá? A Bíblia, no geral, ela não fala sobre homossexualismo porque era normal, era natural. A única coisa de, de referência a pessoas do mesmo sexo fazendo, era sobre a pederastia, que é outro conceito, é diferente de ser homossexual, segundo a antropologia. E a única coisa que se refere a isso é sobre os ricos, que tipo, escolhiam os adolescentes pra tutelar e pegavam os pobres e obrigavam eles a ter relações. Só era, só era, é, só era permis-- era permitido, era permitido, desde que fosse consensual. Mas como o pessoal que naquela época era considerado elite, subjugava quem era menor, eles criaram e-essa lei. Em Romanos se refere a essa lei e em Levi-- é, em, qual é? Levítico? Se refere a essa lei também. É, se, pra, pra, tipo, na antropologia, é, na, é, você não pode afirmar certas coisas sem estudar os arredores. Essas leis também existiam nos povos ao redor ali, entendeu? É, a história de Ruth e Noemi, por exemplo, é, Ruth era, era, era palestina, ela era de outra religião, que casou com um judeu, que casou com um judeu filho de Noemi. E aí, é, quando os filhos dela morreram, ela falou: "Vai arranjar casamento, cê vai ficar comigo, que eu sou viúva, pobre, sobrevivendo de doações de judeus que já-" [16:43] Padre Patrick Fernandes Mas não tem nada a ver com Bíblia o que cê tá falando e tá tudo muito confuso, viu? [16:47] Participante Tem tudo a ver com Bíblia, amor. [16:49] Padre Patrick Fernandes E primeiro eu gostaria de fazer uma correção. Você usou um termo que é pejorativo e preconceituoso, que é homossexualismo. A OMS tirou esse termo. [16:56] Participante Tá, tá certo, eu sou, eu sou bissexual, moço. [16:58] Padre Patrick Fernandes Pois é, mas é, é, ainda mais. [16:59] Participante Eu não, eu não tô sendo preconceituosa. Não, é, você tá querendo distorcer. [17:02] Padre Patrick Fernandes Homossexualismo remete à doença. [17:03] Participante Você, você não está argumentando, você não está argumentando o que eu estou dizendo. Você tá falando que não tem nada a ver com a Bíblia e tem tudo a ver. Você é que não sabe de nada do que eu falei agora e tá aí... Tchau. [aplausos] [17:15] Participante Entendi nada. É, fi, volte aqui pra gente conversar. Volte aqui. Eu acho que ainda tem mais tempo. [17:23] Participante Como é que a Bíblia pode ser confiável- [17:25] Padre Patrick Fernandes Senta. [17:25] Participante Se a Igreja Católica modificou essa lei pra proibir o casamento entre homossexuais? [17:31] Padre Patrick Fernandes Nunca houve essa liberação, seus estudos- [17:33] Participante Houve. [17:33] Padre Patrick Fernandes Estão equivocados a respeito disso, tá bom? [17:36] Participante Houve, houve. [17:36] Padre Patrick Fernandes E outra coisa, a Igreja hoje tem uma atitude de tanta acolhida ao seu público. Você não pode julgar os erros do passado de alguma coisa pela realidade. [17:47] Participante Posso. [17:47] Padre Patrick Fernandes Papa Francisco recentemente no seu pontificado, ele fez um ato de correcção. [17:48] Participante Porque até hoje os homossexuais, transexuais, não binários são perseguidos e morrem por causa dessa religião. [17:54] Padre Patrick Fernandes Da Igreja? [17:55] Participante E por causa de- [17:56] Participante Francisco era gay. Prova. [risos] [17:58] Padre Patrick Fernandes A humanidade só avançou por causa do cristianismo. [18:05] Participante Ô! É. Porra, mano. Tá roubando. [18:10] Participante Eu sou um leigo, tá? Apesar de já conhecer várias religiões. Prazer, Fábio. [18:14] Padre Patrick Fernandes Oi, Fábio. Tudo bom? [18:15] Participante Tudo bom? [18:16] Padre Patrick Fernandes Eu tô, e você? [18:16] Participante É, nada contra você, nada contra a Bíblia. [18:18] Padre Patrick Fernandes Claro. [18:18] Participante Mas eu só queria voltar um trechinho rapidinho da Bíblia, porque tem um fato muito curioso, que lendo a Bíblia, eu achei muito curioso de que alguma passagem ali, Jesus some na adolescência e volta adulto depois de vivo. Tem algum registro dele, o que que ele tava aprontando? O senhor pode responder depois, tá bom. É... [18:34] Padre Patrick Fernandes Eu posso te responder agora. [18:35] Participante Pode. [18:35] Padre Patrick Fernandes Antes de você continuar. [18:36] Participante E voltar pro tema. Não, eu volto pro tema só pra não ter, ter a pergunta do tema. [18:40] Padre Patrick Fernandes É a vida oculta de Jesus. [18:42] Participante Uhum. [18:42] Padre Patrick Fernandes Em Nazaré. Os evangelhos se detêm àquilo que é o essencial, que é a sua vida pública. [18:47] Participante É. [18:47] Padre Patrick Fernandes Do batismo até a sua ascensão ao céu. O que a gente tem é um relato de quando ele tinha doze anos. [18:53] Participante É isso. [18:53] Padre Patrick Fernandes Está escrito no evangelho de Mateus, que mostra ele no templo. E ali fala que era submisso, obediente aos seus pais. [19:00] Participante [som de erro] [risada] Amo. [risada] [19:08] Participante Pergunta metade que eu pergunto a outra metade. [19:09] Participante Cê quer ir os dois? [risada] Quer ir? [19:12] Participante Pode ser. Pode ser. Pode ser. [19:14] Padre Patrick Fernandes Achei fofo. [19:18] Participante Eita. Tudo bem, padre? Prazer. [19:19] Padre Patrick Fernandes Prazer é meu. [19:20] Participante Me chamo Pedro. [19:21] Padre Patrick Fernandes Oi, Pedro. [19:21] Participante É, eu queria só assim, entender, porque quando-- eu entendo esse sentido que o cristianismo deve dar pras pessoas, né, no sentido de vida, assim, pra cada um. Só que eu queria entender, num sentido histórico, por que que você tá alegando isso, que a gente tem diversos movimentos que provam o contrário, né? [19:40] Padre Patrick Fernandes Uhum. [19:40] Participante E aí eu queria entender o seu pensamento, o seu ponto quanto a isso. [19:43] Padre Patrick Fernandes Sim. Eu penso que o cristianismo, ele contribuiu de forma significativa para a compreensão de sociedade que a gente tem hoje. A Igreja foi responsável pela criação das primeiras universidades, Bolonha, Oxford, Paris. A Igreja sempre dete-- eu tô falando, é só, é só pesquisar, dá um Google que você vai descobrir quem foi que começou essas universidades, né? A Igreja mantém hoje- [20:06] Participante Mas cê não acha que essas universidades. [20:07] Padre Patrick Fernandes Mais de cento e quinze mil instituições voltadas. [20:10] Participante Defenderam tipos de ideologia que. [20:12] Padre Patrick Fernandes A hospitais, orfanatos. [20:13] Participante Acabaram com diversos pensamentos? [20:15] Padre Patrick Fernandes Que cuidam de pessoas. Não. A Igreja, depois da queda do Império Romano, como disse. [20:19] Participante Que alimentou muita ignorância na cabeça de diversas pessoas, sabe, padre? [20:21] Padre Patrick Fernandes É que surgiram, na Igreja, as escolas monásticas, monges copistas, que confe-- copiaram escritos de Platão, de Aristóteles, que são a base da filosofia, da ciência, como a gente conhece hoje. Depois, escola escolástica, que foi uma visão geral a respeito de fé e razão. A gente não diverge da razão de maneira nenhuma. A Igreja sempre teve, durante estes séculos, em vista do ser humano. A, a Igreja é uma luz na história da- [20:47] Participante É, mas a própria Inquisição, o que que foi? Qual foi a luz que cê tá falando? [20:52] Padre Patrick Fernandes A, você tá pegando um período da Igreja que às vezes- [20:54] Participante Mas é o período que aconteceu. [20:55] Padre Patrick Fernandes Tá, a, a Igreja tem dois mil anos. Você não pode resumir a Igreja por atos de uma pessoa. [21:02] Participante Mas não foi uma pessoa. [21:03] Padre Patrick Fernandes Você não representa todo o ateísmo. [21:05] Participante Foi uma Igreja toda. [21:05] Padre Patrick Fernandes O ateísmo é muito maior do que você. A Igreja também é muito maior do que uma pessoa em si. Ela sempre se manteve. [21:13] Participante Sim, padre, mas é o que eu falei. [21:14] Padre Patrick Fernandes Incentiva estudos. [21:15] Participante Eu, eu. [21:15] Padre Patrick Fernandes Na área da divindade. [21:17] Participante Acho interessante. [21:17] Padre Patrick Fernandes Da pessoa humana. A Igreja tem se mostrado no mundo como farol. Basta ver, a, recentemente, aqui, a, a, a atitude do Papa em relação ao presidente dos Estados Unidos. [21:27] Participante Então, padre, mas eu acho interessante. [21:28] Padre Patrick Fernandes Como sinal profético. A Igreja se coloca do lado da pessoa humana. [21:31] Participante Só que ela não é pra todos, por mais que ela ajude, assim, um certo nível ali de pessoas, pra outros, ela alimenta uma ignorância, que isso reflete na sociedade hoje em dia. [21:40] Padre Patrick Fernandes Qual ignorância que você tá falando? [21:41] Participante D, desde a Inquisição, padre. Preconceitos. Enfim. Obrigado, padre. [21:47] Padre Patrick Fernandes De nada. [21:47] [som de erro] [aplausos] [21:59] Participante Meu nome é Barão de Azevedo. [22:01] Padre Patrick Fernandes Tudo bem, Barão? [22:02] Participante Pontes, seu criado. E o meu nome foi mudado, porque Deus não me viu sendo violentado pelos meus tios. Deus, o seu Deus, cego, calado, mudo, gozando com a minha dor. Eu tinha um outro nome que eu não podia aceitar. Então, hoje eu mudei meu nome pra Barão. Foi difícil, mas eu mudei. Como que vai se acreditar num Deus que não existe? Uma Bíblia mentirosa. Uma Bíblia que diz assim: "Ó, vou acabar com o mundo porque tá tendo putaria". E aí o cara acaba o mundo e deixa um cidadão, o tal de Ló, que vai lá e come as duas filhas. Amigo meu, o que que é isso? [22:44] Padre Patrick Fernandes Eu posso falar, Barão? [22:46] Participante Não, por enquanto não. [22:47] Padre Patrick Fernandes Não? [22:47] Participante Não, porque eu tenho muita coisa pra dizer pro senhor. [22:49] Padre Patrick Fernandes Ah, tá. [22:49] Participante A Igreja Católica matou pessoas, porque não concordava com a pessoa era livre. E aí, hoje ela mata também. O Vaticano tá lá, aquele mundaréu de dinheiro. O Papa Francisco tinha um carro exclusivo, só dele, no mundo dele. Isso é, isso é bom? [23:06] Padre Patrick Fernandes Barão, primeiro, eu me sensibilizo com a dor que você viveu. [23:10] Participante Ah, tá. [23:10] Padre Patrick Fernandes Que eu acho que é uma pauta muito importante essa. [23:12] Participante E Deus, e Deus, quer saber de Deus? [23:13] Padre Patrick Fernandes Estou falando de mim. [23:14] Participante Eu tô falando de Deus. [23:14] Padre Patrick Fernandes Deus, com certeza, se sensibiliza também. A gente não pode culpá-lo pelas mazelas do ser humano. [23:19] Participante Claro que pode, foi ele que criou. [23:21] Padre Patrick Fernandes E eu te vejo, de verdade, uma pessoa tão fragmentada e necessitada de ajuda. [23:25] Participante E livre, né? Não, ajuda não. De você, ainda? [23:27] Padre Patrick Fernandes Não, de mim, não. [23:28] Participante Ah, por favor, senhor. [23:29] Padre Patrick Fernandes Ajuda psicológica. [23:29] Participante Eu vou lhe responder, por favor, não, não quero ajuda. [23:31] Padre Patrick Fernandes Não, eu não posso te ajudar. [23:31] Participante Eu não quero ajuda, nem de você, nem de ninguém. [23:33] Padre Patrick Fernandes Porque aqui- [23:33] Participante Você não pode nem ajudar você mesmo. Cê tá enfiado numa igreja, onde cê prega mentira. E cê sabe que é mentira o que cê tá falando. Cê sabe que não é verdade. [23:40] Padre Patrick Fernandes Eu acho que você tem traumas. [23:41] Participante Você sabe que é isso. Dá licença. Até logo. [23:43] Padre Patrick Fernandes Mas aí... [aplausos] [som de erro] [risadas] Oi. [23:58] Participante É, boa tarde, padre. Tudo bom? [24:00] Padre Patrick Fernandes Bom dia. Tudo bem. [24:03] Participante É, era sobre se o cristianismo avançou a humanidade, alguma coisa assim, né, nessa relação. Quando a gente pega dentro dessas noções, é, históricas, quando a gente pega todas essas relações entre o cristianismo, as relações entre o progresso moral da humanidade, o senhor realmente acha que seria absolutamente necessário a religião cristã ou os valores que ela estabelece hoje dentro da sociedade atual, que ela estabeleceu durante as eras? Pra que o mundo, é, se tornasse lugar melhor de forma necessária? Ou existem outros caminhos pelas quais a humanidade poderia ter seguido de forma natural, sem precisar de uma, é, uma religião necessária com esses valores específicos? [24:44] Padre Patrick Fernandes Perfeito. Eu, de verdade, e agora eu quero trazer coisas históricas. Eu não tô falando mais a respeito só da fé, daquilo que eu acredito, tá? Eu penso, sim, que o cristianismo, ele foi uma luz na humanidade. De verdade. A mensagem que Jesus pregou é uma mensagem que valoriza a pessoa humana. Pela primeira vez, a gente vê o homem como centro de tudo, a dignidade- [25:05] Participante Não, eu entendo perfeitamente. Não, eu- [25:07] Padre Patrick Fernandes A dignidade daquilo que foi- [25:08] Participante Eu entendo perfeitamente o seu ponto, é, é, padre, mas o ponto que eu, que eu perguntei foi o seguinte: como você prova que isso seria necessário? Eu entendo que você vê Jesus como uma pessoa boa, que o cristianismo- [25:20] Padre Patrick Fernandes Só que eu tento falar e vocês não estão deixando. [25:21] Participante Mas o ponto é, o s-o senhor não está respondendo à minha pergunta, né? [25:24] Padre Patrick Fernandes Eu vou responder. [25:24] Participante O meu ponto central. [25:26] Padre Patrick Fernandes Mas uma pessoa vim aqui e vomita um monte de coisa em mim que não tem nada a ver com o tema, eu tenho que- [25:30] Participante Eu só quero entender o seu pensamento. [25:32] Padre Patrick Fernandes Eu vou, eu vou falar. Então, a, o cristianismo é um feixe de luz na humanidade. E isso quem fala não é somente a Bíblia. A gente pode citar relatos diversos de pessoas que seguiram esse caminho e que iluminaram. Você deve concordar comigo que a gente vive num tempo hoje, que a gente tem carência de, de pessoas que sejam referência. [25:52] Participante Referência em que? [25:53] Padre Patrick Fernandes As referências que a gente-- referência de pessoas, de dignidade, de pessoa humana, de pessoas que valorizam a vida. [25:59] Participante Não, eu discordo do senhor. [26:01] Padre Patrick Fernandes Que colocam o ser humano como centro. [26:02] Participante Eu posso, eu posso apontar pro senhor? Desculpa. [26:04] Padre Patrick Fernandes Não, eu vou falar primeiro. [26:05] Participante Com licença. Não, não. Só, só um pontinho. [26:06] Padre Patrick Fernandes Vou terminar. E a gente percebe que hoje a gente está vivendo numa humanidade que está machucada. [26:10] Participante Não, é porque isso daqui, padre, é uma coisa que não toca só em mim, é uma to- é uma coisa que toca todos aqui. [26:15] Padre Patrick Fernandes Que tá dilacerada, é uma humanidade que tá ferida, que está machucada. [26:15] Participante Quando o senhor fala assim, ó, ó, quando o senhor fala assim, ó. [26:18] Padre Patrick Fernandes E eu vejo o evangelho como uma ferramenta de- [26:20] Participante Ô, tudo bem [26:20] Padre Patrick Fernandes ...de transformação na vida de um povo, na vida de uma sociedade. [26:23] Participante Mas o ponto é, se o senhor coloca assim, que o senhor não vê nesse mundo mais que existem exemplos de pessoas, eu posso apontar aqui ao redor do senhor trinta exemplos de pessoas que realmente conseguem fazer isso sem depender de qualquer tipo de religião ou dessa luz do cristianismo. [aplausos] [26:39] Padre Patrick Fernandes Não, eu não disse isso. Eu não disse isso. A falta de referência que eu estou querendo dizer é de uma maneira geral. Como é seu nome? [26:46] Participante Athena. [26:47] Padre Patrick Fernandes Athena, eu acredito, de verdade, que existe muita verdade em você, muita coisa boa em você. É como eu disse no início aqui, às vezes, é claro que a gente vai encontrar mais Deus em quem está fora da igreja do quem es- de quem está dentro da igreja. Eu não estou discordando disso. Eu-- existem em você verdades que nos norteiam e essas verdades a gente se une nelas. É, é, é pontos de convergência, onde a gente se une. [27:13] Participante Ô, padre, eu só queria ir com uma questão específica. O senhor tinha dito anteriormente com outro participante aqui, por exemplo, acerca da questão bíblica, dentro da noção de que ela só poderia, é, a Bíblia foi escrita, no caso, para os cristãos específicos, como isso se daria numa questão, por exemplo, de nós relacionarmos certas, certos valores cristãos com as características dessas pessoas, uma vez que elas não teriam acesso à verdade, porque a Bíblia foi escrita somente para os cristãos. [27:40] Padre Patrick Fernandes Me responde uma coisa: quais os valores cristãos, que você diz, que você não poderia vivê-los na sua vida, no cotidiano? Eu tô falando daqueles valores que foram pregados por Jesus. O que que você discorda, mesmo eu respeitando o seu ateísmo, né? Mas pensando no mundo, no coletivo, na sociedade, no bem das pessoas. O que Jesus disse no evangelho, na sua vida, que você não concorda, que você discorda, é, daquilo que é viver em sociedade, em comunidade? [28:10] Participante O ponto central que eu coloquei foi- [28:11] Padre Patrick Fernandes Mas eu tô te fazendo uma pergunta, você pode me responder? [28:12] Participante Mas eu fiz. [riso] Eu fiz primeiro. [28:15] Padre Patrick Fernandes Athena, qual é o ponto que Jesus falou que você acha que, que não converge com as outras coisas que você citou? Me diga. O que que Jesus falou que você: "Não, isso aqui eu não concordo, isso aqui não presta pra sociedade". [28:29] Participante Jesus chegou como um homem pregando a pala-- é, os, pregando aos seus discípulos, juntando, fazendo milagres, mas existe alguns pontos ali que são questionáveis. [28:37] Padre Patrick Fernandes Eu quero saber da sua doutrina. Então me fale um que você questiona e fala assim: "Isso aqui"- [28:40] Participante Perfeito. Ele chegou e disse simplesmente assim: "Eu vim trazer a espada". [28:45] Padre Patrick Fernandes Não, mas aí você tá fazendo uma compreensão muito errada da Bíblia. "Não vim trazer, é, paz, eu vim trazer a guerra", é justamente por isso, porque a mensagem do evangelho, ela... Tá tudo bem? [vozes ao fundo] Tudo bem. A mensagem do evangelho, ela incomoda. A, a mensagem do evangelho, ela precisa mesmo nos inc-- se a igreja estiver atrás de aplausos, se a gente, pra fazer o bem, estiver de aplausos, a gente não vai fazer isso. A, a, o evangelho precisa incomodar. [29:13] Participante Então, nesse sentido- [29:13] Padre Patrick Fernandes Se não incomoda, é porque não está, a, a, a, se, a árvore que recebe paulada é a que mais produz fruta. É justamente isso. A gente- [29:21] Participante E nesse sentido, então, você acha justificável, é... [vozes ao fundo] Ô, tudo bem. Brigado. [29:38] Padre Patrick Fernandes Obrigado. [risada] [29:42] Participante [risada] Eu quero que o senhor fale novamente das universidades que o senhor citou da Espanha. [29:46] Padre Patrick Fernandes Não falei. Eu falei que a Igreja, no século treze, foi quando começou as universidades com incentivo da Igreja, daquilo que se tinha como compreensão naquela época, de que era ciência, de que era um curso superior. As universidades mais antigas que a gente tem é, são as universidades de Bolonha, de Oxford, de Paris, que foram universidades fundadas pela Igreja Católica. A Igreja Católica desenvolveu, ao longo dos séculos, escolas. Isso, gente- [30:13] Participante Eu vou interromper. [30:13] Padre Patrick Fernandes Minha querida, não, se não incomodar eu vou falar também. [30:14] Participante Todas essas informa-- todas essas universidades que ele falou, foram influenciadas pelo domínio da, da, da naç-- de nações árabes. A Andaluz, a Espanha e Portugal, a maioria das universidades- [30:26] Padre Patrick Fernandes Não tem fundamento o que você está falando. Até chegar a compreensão dessas universidades, aí- [30:27] Participante A universidade da, as universidades italianas também têm influência árabe. As universidades mais antigas do mundo, na verdade, vieram do mundo árabe. Aristóteles, Platão, todos esses caras que o, a, é, o, que a Europa disse [aplausos] que, que são eles que inventaram. Freud inventou a psicologia. Na verdade, foram árabes. Árabes falam sobre psicologia muito antes de Freud. Mui-- é, quem deu aula pra Aristóteles foram africanos, foram árabes, foram mouros, foram persas. Persas, cinco mil anos atrás, estavam fazendo- [31:00] Padre Patrick Fernandes Não precisa gritar, eu não estou gritando com você. [31:01] Participante Estavam fazendo geladinho no meio do deserto e esse cara aqui fala que é o cristianismo que fez a evolução. O cristianismo só copiou tudo. Na Igreja Católica era proibido entrar o violino, porque o violino é um descendente de um instrumento árabe que, que era como muito dos pobres. [aplausos] O violino não entrava na igreja porque tinha corpo de mulher. Quando a França começou a fazer corais com três vozes, os, é, é, padres me enviavam críticos pra dizer que, é, v-- um coral com três vozes dá vontade dar o cu. Tem, realmente tem jornais da época, críticos falando que sentiam coisas estranhas e que tinham vontade de sair com homens porque ouviam trios de voz. [31:41] Padre Patrick Fernandes As suas fontes são duvidosas e a maneira como você fala- [31:43] Participante É no Google, amigo. Cê lembra que cê falou pra eu olhar o Google? Então, no Google. A gente vai lá e procura as universidades que ele cita e a gente vê as influências árabes, que todo mundo quis acabar. O pessoal fica falando que os árabes são... Os árabes são povo foda, povo inteligente. Eles que trouxeram conhecimento pro mundo e o, o povo ocidental apagou, só pra gente ter medo deles e não ver a coragem que eles têm. Beijo pro povo palestino, iraniano, iraquiano. Vocês são foda. [aplausos] Tão explodindo vocês tudo só pra acabar com o conhecimento que vocês têm, viu? [32:15] Padre Patrick Fernandes Você falou do povo palestino. A Igreja tem se colocado num papel à frente pra defender esses povos. [32:22] Participante Eu não tô negando isso. Eu não tô negando isso. Eu estou falando de outra coisa. [32:25] Padre Patrick Fernandes Você está induzindo alguma coisa pra que eu- [32:27] Participante Eu estou falando de outra coisa. [32:28] Padre Patrick Fernandes Você está falando exatamente o que eu tô falando. [32:29] Participante Você tá falando que o cristianismo foi fundamental e eu tô falando que os árabes foram fundamentais pro conhecimento. A África e os árabes dominaram. Eles que colo-- eles que colonizaram a gente culturalmente. Música gospel tem influência árabe. Música, samba, forró, tudo influência árabe. Nós fomos colonizados culturalmente pelos árabes e a gente não sabe. [32:51] Padre Patrick Fernandes Sem Deus, não há razão para condenar assassinato ou estupro. [33:02] Participante Opa, padre. Então, é, você tá trazendo uma coisa que depende totalmente de uma visão de que a moralidade só poderia ser fundamentada pelo cristianismo, havendo um Deus, entendeu? Mas até por você ser formado em filosofia, eu peço que você responda os pontos filosóficos trazidos aqui, entendeu? Não dá pra fugir pela tangente. Não justifico os gritos, mas tem que tá no tema. Então, é, eu gostaria de saber se você conhece as visões que fundamentam a ética sem a necessidade de um Deus, porque tem essas visões focada justamente no valor intrínseco das coisas. Por exemplo, no cristianismo, o valor é condicional, ou seja, à medida que há esse Deus, há um condicional pra fazer as coisas serem boas ou ruins, mas tira esse Deus, não há isso, entendeu? Mas o valor aqui é intrínseco, ou seja, as coisas, elas nos fornecem razões pela sua própria natureza para fazermos aquilo ou não. E é dessa maneira que, por exemplo, condenamos o assassinato, o estupro, entendeu? Então, a sua visão depende totalmente disso, de tratar o bem vinculado a Deus, entendeu? [34:09] Padre Patrick Fernandes Certo. Perfeito. Primeiro de tudo, a compreensão daquilo que é certo e daquilo que é errado, moralmente falando, é uma construção histórica que remonta muito antes do cristianismo. As sociedades foram se organizando ao longo do tempo para chegar a uma conclusão daquilo que é certo e daquilo que é errado. A gente vai encontrar culturas, por exemplo, aonde isso que nós falamos aqui ainda é considerado como que normais. A gente vê, por exemplo, sociedades que maltratam e estupram mulheres, que veem mulheres como inferiores. A gente vê, por exemplo, sociedades que matam, que têm pena de morte e tudo mais. Jesus, ele diz no evangelho o seguinte, né: "Eu não vim abolir a lei, eu vim dar cumprimento a ela". Foi dito: "Não matarás". Sim, eu só tô querendo falar à luz da fé. Não matarás. [34:55] Participante Sim, mas eu tô falando de filosofia. [34:58] Padre Patrick Fernandes Filosoficamente falando. [34:59] Participante Entendeu? Depende de metaética, fundamentação da moral, não depende de Bíblia. [35:04] Padre Patrick Fernandes Sim, eu respondi pra você. Esta construção, ela é histórica, provém antes do cristianismo, da sociedade- [35:10] Participante Sim, mas você afirmou que não é possível condenar o assassinato sem Deus, entendeu? [35:14] Padre Patrick Fernandes A obra de, de Platão, que fala sobre justamente, já que você está trazendo filosofia, vamos pegar a república de, de Platão. Lá, ele diferencia muito bem o mal do bem, daquilo que é ma-- isso muito antes de Cristo, muito antes do cristianismo. [35:28] Participante Sim, mas ó, ó, só vou interromper porque tá fugindo um pouquinho do tema. Cê entende? [35:32] Padre Patrick Fernandes Mas eu preciso responder filosoficamente, eu tô tentando. Platão. [35:35] Participante Não, mas assim, cê entende que a sua visão depende duma visão metaética, entendeu, de fundamentação da moral? Você não afirmou outra coisa, você afirmou que não tem como condenar o assassinato sem Deus. [35:46] Padre Patrick Fernandes Tem. Eu tô falando que exatamente que tem, porque mesmo numa compreensão, antes, depende, cê tá falando de Deus ou de Jesus? É, é u-- eu acredito em Deus, Jesus é Deus, né? [35:55] Participante Não, a existência de um Deus. [35:56] Padre Patrick Fernandes Falando de cristianismo, exatamente. [35:58] Participante Mas você tá tratando o cristianismo como fundamento da moral, seja Deus, Jesus. [36:02] Padre Patrick Fernandes Não, eu nem cheguei lá ainda, né? O que eu quis dizer pra você é o seguinte: que ao longo dos séculos, a humanidade foi adquirindo a compreensão daquilo que moralmente é correto e daquilo que moralmente não é. Nós temos uma compreensão hoje, eu e você temos isso, de que se eu chegar e mato uma pessoa, eu estou cometendo um crime. [36:20] Participante Então, isso independe da religião e de Deus. [36:23] Padre Patrick Fernandes Exatamente. [36:24] Participante Então, é meu ponto. [36:25] Padre Patrick Fernandes Exatamente. Só que para a fé cristã, vai além. O, o matar a outra pessoa não significa me-- apenas ceifar a sua vida, é a dignidade do cristianismo, é a evolução do cristianismo que faz com que a gente enxergue o ser humano como um semelhante a mim. [36:42] Participante Na verdade, não. Há outras visões éticas que visam também trazer valor intrínseco à vida humana. [36:48] Padre Patrick Fernandes Mas eu sou um padre, você quer que eu fale de quê? [36:50] Participante Não, mas você tá vindo conversar com ateu. [36:52] Padre Patrick Fernandes Sim, mas aí eu, eu, eu sou obrigado a aceitar aquilo que você está falando. [36:56] Participante Não, mas você tem que debater o tema e defender o s-- a sua visão. Só que aqui é filosofia moral. [37:02] Padre Patrick Fernandes Eu estou falando disso. Eu comecei a falar de Platão contigo, né? Se você pega as obras de Platão, e aqui é filosofia, não tinha Cristo ainda. Platão já tem essa compreensão muito clara daquilo que é certo, daquilo que é errado. Santo Agostinho, ele herda, né, a, a doutrina de Pla-Platão também, e vai se construindo ao longo de séculos. Isso não é uma coisa que começou de uma hora pra outra. Aquilo que ele compreende ser correto, daquilo que, da sociedade está dependendo. [37:26] Participante Sim, então o que cê tá dizendo é que independe de Deus. Independe de Deus, a ética. [37:30] Padre Patrick Fernandes Por que que independe de Deus? A ética? [37:31] Participante Existir algo objetivamente certo e errado independe de Deus. [37:35] Padre Patrick Fernandes O que eu sei é que em culturas aonde se tira a mensagem de Deus, a [37:41] Participante Dignidade humana é ferida muitas vezes. Se você pegar, vamos por exe-- pegar, por exemplo, regimes como Coreia do Norte, aonde a fé é perseguida de todas as formas. Não se tem dignidade à pessoa humana, as pessoas são perseguidas, as minorias são perseguidas. Vamos pegar, por exemplo- [37:58] Padre Patrick Fernandes Mas isso não tem a ver com religião, tem a ver com política. Tem a ver, primeiramente, com política, entendeu? [38:02] Participante Em sociedades onde a religião, ela é presente, se joga um feixe de luz sobre esses temas. [38:07] Padre Patrick Fernandes Mas aqui, a su-- o seu tópico é filosofia. [38:09] Participante De maneira que a gente se depara com um critério que é muito essencial neste momento, né? [38:15] Padre Patrick Fernandes Mas o tópico é filosófico. [38:17] Participante Eu estou falando de filosofia também. [38:19] Padre Patrick Fernandes Não, o tópico é sobre fundamentação da moral. A... Obrigado. [38:30] Participante Oi. Vamos lá, rapidamente. Ainda tem tempo, dá pra você. É, seguinte: bom, padre, uma coisa que é fundamental é que você falou, afirmou, e o meu colega aqui tava tentando trazer pra isso. A afirmação foi sua, de que sem Deus não há como ter essa punição, não tem como ter essa compreensão. Mas o que a gente vê no texto bíblico, que pra você não se contradiz, e eu mostrei que se contradiz e você não me respondeu antes, é que é por causa, em nome de Deus, que tudo é permitido. É em nome de Deus que os, os, se pode pegar as crianças virgens do outro povo e levar pra si. É em nome e por causa de Deus que o próprio filho de Deus é crucificado, torturado, humilhado e pendurado na cruz pra pagar por um pecado que o próprio Deus inventou. E ele é torturado, e quem não concordar com esse filho é queimado eternamente. É em nome e por causa de Deus que a cruzada, as várias cruzadas foram feitas por causa em nome do Senhor. Em nome do Senhor, os islâmicos, que foram citados anteriormente, foram escravizados. Em nome e por causa de Deus, as pessoas pegam um avião e batem no World Trade Center. Em nome e por causa do todo poderoso Senhor, tudo bem, tô falando do outro Deus, mas Alá e Yahweh são o mesmo Deus, certo? Yahweh, se preferir mais hebraicamente falado, tá? Então, assim, o que a gente tem, a gente tem exatamente em nome do Senhor, uma moral imposta que contradiz aquilo que o senhor tá dizendo. Eu tenho certeza que o senhor não concorda com o fogo eterno, tenho certeza que o senhor não queimaria nenhum de nós para sempre. O senhor é muito melhor do que essa entidade, entende? Porque o senhor tá na nossa época, como o senhor mesmo disse, ao longo do tempo a gente falou: "Não, isso aqui não tá tão correto". E é o texto bíblico que diz que, que essa moral tem que ser feita. É isso que eu quero entender do senhor. Se a Bíblia não se contradiz e a moral de Deus lá naquele texto manda fazer essas coisas. [40:08] Padre Patrick Fernandes Perfeito. [40:09] Participante Né? Como que o senhor entende isso? [40:10] Padre Patrick Fernandes Então, meu amigo, como eu estava falando desde o início, né? A evolução também da própria mentalidade, da gente enxergar as coisas. Eu sou cristão. Antes de ser padre, antes de ser católico, eu sou cristão. E a gente entende que o cristianismo é uma evolução da própria, do próprio texto bíblico. Eu não posso diferenciar aqui o Antigo Testamento como inferior ao Novo Testamento. Mas é claro que o Novo Testamento, ele, ele se concretiza aquilo que sempre foi o projeto de Deus. É como eu tava tentando dizer anteriormente, né? Jesus tem um discurso que é muito bonito, que vai justamente no sentido que você tá falando. Olha, foi dito assim, mas eu vos digo. Foi dito, é, não cometerás adultério, mas eu digo assim, que é diferente. A lógica cristã, ela não bate com a lógica, não batia com a lógica daquele tempo. Foi por isso que Jesus foi crucificado, porque ele incomodou as autoridades da época que ele acusava. Jesus, ele evolui essa mentalidade, a maneira das pessoas pensarem. Eu digo desta forma. E como eu disse anteriormente aqui também, a doutrina de Jesus, aquilo que ele ensinou, e isso a gente se depara com pessoas que nem cristãos são, cristão, são, que é admirável. A gente percebe que é como um oásis nesse mundo, é uma primavera neste mundo. Porque Jesus pregou o bem, ensinou a fazer o bem e valorizou a pessoa humana como a centralidade. A palavra de Deus diz isso, né? Que é o homem para dele assim vos lembrardes e o tratardes com tanto carinho. Nós fomos feitos pouco abaixo de Deus. A gente tem dignidade, a gente tem grandeza. [41:51] Participante Mas qual dignidade é essa que a gente tem, que a Igreja vai sabotar? Mas por que que as outras igrejas vão seguir o Velho Testamento de novo, caçando e queimando as pessoas quando elas discordam disso? E porque, seguindo literalmente, por exemplo, colocando na fogueira. [42:04] Padre Patrick Fernandes São trinta trevos como contra um? [42:06] Participante Não, pera aí. [42:07] Padre Patrick Fernandes Só me responde. São trinta trevos contra um. [42:09] Participante Conversando com o padre. [42:10] Padre Patrick Fernandes Um padre. [42:10] Participante Sim. [42:11] Padre Patrick Fernandes Então você não pode trazer pautas de outras religiões. [42:13] Participante Não, da Igreja Católica então. Igreja Católica. [42:15] Padre Patrick Fernandes Mas a Igreja Católica hoje é- [42:16] Participante A Igreja Católica, a sua igreja, então. A sua igreja seguiu a palavra: "A feiticeira não deixarás viver". E com isso acabou, tentou atacar o candomblé. A gente tem o ataque de Xangô, que aconteceu em Alagoas, onde terreiros foram atacados. Quais autoridades religiosas brasileiras, tá? Em nome da Igreja Católica. Não, vamos falar da Igreja Católica então, já que é a sua proposta. A Igreja Católica, deixa eu só concluir, porque os meus colegas precisam falar também. A, a Igreja Católica atacou com autoridades brasileiras, e falo isso respeitosamente, creio que o senhor não concorde com isso, atacou, atacou essas entidades porque elas eram de outra religião. E durante o processo da inquisição, ao termo do Velho Testamento, "a feiticeira não deixarás viver", serviu pra toda crença que não fosse a dela. Ela fez isso com a Europa inteira, incorporou deuses chamados de pagões pros seus santos católicos e depois os substituiu, certo? [43:00] Padre Patrick Fernandes Sim. [43:01] Participante Em nome e por causa do Senhor. E com isso eles atacaram, eles violentaram mulheres e eles escravizaram e mataram. E pra mim, escravidão é assassinato. Você negoa, entende? Então, aonde que, justamente, a minha pergunta, padre, de novo, é que o meu colega já falou. Existe uma moral nos seres humanos, ela tá sendo usada. O senhor mesmo construiu, concordou. Mas em nome por causa de Deus, existe uma moral que impõe o contrário. Esse Deus não está nos alimentando de luz, ele tá trazendo essa escravidão em muitos momentos. Como o senhor encara isso? Essa é a minha pergunta. [43:27] Padre Patrick Fernandes Hoje eu vejo, eu tô respondendo a sua pergunta, viu? A Igreja, ela tem se colocado no lado das minorias, tem defendido as minorias de todas as formas, através das autoridades. Eu penso que, como você falou, a, a perseguição às religiões de matriz africanas, por exemplo, está muito voltada a um preconceito social por conta da cor. Eu, eu penso isso justamente. É, é, e eu acho que esse preconceito que existe da sociedade, não é do cristianismo em si, é, é fruto mesmo de, de, de um preconceito estrutural, hierárquico que a gente edu- [44:05] Participante Mas é em nome de Deus. [44:06] Padre Patrick Fernandes Não, nunca em nome de Deus. [44:07] Participante Mas as pessoas falam em nome de Deus. [44:08] Padre Patrick Fernandes Porque Deus não pregou isso. [44:09] Participante Mas eles defendem que é em nome de Deus. [44:11] Padre Patrick Fernandes Deus pre-- mas são pessoas, não a Igreja. [44:13] Participante Mas é, Deus tá na Bíblia. A Bíblia que o senhor falou que é infalível, fala: "Escravizarás". Tem bula papal falando: "Vá e pegue os muçulmanos e escravize". [44:20] Padre Patrick Fernandes O Novo Testamento. Não, a Igreja sim, tem bulas papais da Igreja condenando a escravidão. Antes da abolição no Brasil, a Igre-- cê pega José de Anchieta, que defendeu os povos originários. [44:35] Participante Tá bom. Bora. [44:42] Padre Patrick Fernandes Que bom. [44:44] Participante Tudo bem, padre? [44:45] Padre Patrick Fernandes Tudo bem, e você? [44:46] Participante Tudo ótimo. Eu só queria fazer uma correção, na verdade. A gente tem pesquisas, eu não lembro exatamente as fontes pra te dar, tá? Se eu tivesse com o celular, eu até podia procurar. Mas os países com maior IDH, que é o Índice de Desenvolvimento Humano, são países menos religiosos. [45:02] Padre Patrick Fernandes Sim. [45:03] Participante E a gente também tem uma pesquisa com mais de mil e cem crianças em seis países diferentes, que comprova que crianças nascidas em lares ateístas são mais caridosas do que crianças nascidas em lares religiosos. [45:13] Padre Patrick Fernandes Certo. [45:14] Participante Então é só pra-- Hã? [45:15] Padre Patrick Fernandes Sim. [45:15] Participante Pew Research Center. [45:17] Participante Pew Research Center. Era só pra, que o senhor afirmou que, né, que a religião ajuda, então, é isso. [45:23] Padre Patrick Fernandes É, perfeito. Tem, como eu vi no público, tem psicólogos. Eu acho que, é, o comportamento e o meio que a gente vive, ele influencia demais para aquilo que a gente vai se tornar. A gente herda muitas coisas. Você falou de, de países de IDH, aonde hoje o, a religião não é algo mais tão importante. Vamos pegar, sei lá, Dinamarca, Noruega, que foram países cristãos, né? Que foram colonizados por cristãos, enfim, tudo mais também. Agora, não tem como você pegar, por exemplo, o, o Brasil e colocar em uma sociedade aonde a gente não tem educação de qualidade, aonde a gente não tem saúde de qualidade, a gente não tem acesso às coisas mínimas. É claro que os índices vão ser infinitamente maiores. Os índices de suicídio entre crianças, o in- o índice de problemas de, de saúde entre crianças, exposição de crianças, a vulnerabilidade, porque são sociedades que elas, elas não estão organizadas de modo civil. Quem tem que cuidar das crianças, da-do adolescente, é a sociedade. A igreja não tem o papel de, de, de cuidar. É, ela vai fazer. Você sabe muito bem que existe pelo mundo inteiro, principalmente América, África, é, entidades filantrópicas, tanto da igreja como de outras organizações também, que estão voltadas para isso. Eu só acho, assim, de verdade, que não dá pra comparar sociedades como aquela que você disse, né? Aonde a sociedade funciona, aonde se tem um funcionamento da sociedade, é, em relação a outros países, aonde a gente não vê essa funcionalidade. Eu trabalho hoje, meu amigo, numa região pobre. Eu trabalho na, na Amazônia, no interior do estado do Pará. E, e é lá, pra mim, é o meu melhor lugar no mundo. Eu viajo muito pro Brasil e fora dele. Mas, de verdade, eu acho que ali existe um propósito de vida de eu estar ali. E, e a gente vê tantas mazelas nesses lugares, assim, que a gente se depara, às vezes, com uma inquietude no coração. E é por isso que a gente tá lá pra, é, jogar um feixe de luz. A igreja ajuda nestes momentos. E principalmente, né, aquilo que diz o evangelho, que a tua mão direita não saiba o que faz a tua esquerda. Porque eu acredito muito, igual esses negócios que a gente vê na internet, que quando se faz e filma ao mesmo tempo, sabe? Isso pra mim não é caridade, a gente não tá fazendo nada, é atrás de alguma coisa, de algum reconhecimento. [47:45] Participante Tá. [47:45] Padre Patrick Fernandes Eu acho que aquilo que Cristo nos ensina é, é uma obrigação moral de a gente construir um mundo melhor e de deixar o mundo melhor para aqueles que virão. [47:54] Participante Excelente, mas a minha, agora pra terminar, porque a gente não vai ter muito tempo, então eu vou ser sucinto pro senhor responder. A igreja ajuda ou ela é parte do problema que faz as, essas, essas, é, esses países que eu citei, por exemplo, chegarem onde tão e os países que não estão lá, não chegarem lá? [48:11] Padre Patrick Fernandes Eu acho que tudo que vem pra somar, colabora. Mesmo lá, deve haver organismos eclesiais, religiosos, que fazem com que uma alma, uma pessoa, seja tocada e atendida de alguma forma. Então, o que vem pra somar, colabora. Obrigado. [48:26] Participante Eu que agradeço. [aplausos] [48:30] Padre Patrick Fernandes A diferença entre um ateu e um cristão é saber a verdade? [risos] Democrático, né? [48:43] Participante Tudo bem. Bom dia. [48:46] Padre Patrick Fernandes Bom dia. [48:47] Participante Bom. Bom, a gente vive uma realidade, como o senhor mesmo disse, que é bem diferente da realidade de dois mil anos atrás, de mil anos atrás. Concordo, a gente tem que fazer a, por nós mesmos, no nosso tempo. Mas aí eu pergunto quando é que a ICAR vai tirar, por exemplo, o décimo mandamento da Bíblia. Onde esse décimo mandamento, como eu bem me lembro, é, versa sobre a propriedade do indivíduo. E nessa propriedade do indivíduo, é colocado no décimo mandamento que pertence ao indivíduo, os animais, a casa, os escravos e a mulher. Então, se a ICAR representa a verdade, de uma certa forma, aos nossos tempos, quando é que a ICAR vai se reformar, de fato? Porque esse é só um exemplo da Bíblia que não cabe mais nos dias de hoje. [49:42] Padre Patrick Fernandes Sim. [49:43] Participante Então, quando é que, de fato, a ICAR vai se livrar da Bíblia? [49:48] Padre Patrick Fernandes A ICAR que cê diz é a Igreja Católica? [49:50] Participante Isso. [49:50] Padre Patrick Fernandes Ah, tá. Eu não conhecia. É uma terminologia que cês usam entre vocês? Não, só uma dúvida. [49:55] Participante É Igreja Católica Apostólica Romana. [49:57] Padre Patrick Fernandes Ah, é, você tá abreviando, né? [49:59] Participante Isso. [49:59] Padre Patrick Fernandes Tá bom. É, perfeito, né? Então, é o seguinte: A, os mandamentos foram escritos em tábuas na antiga lei, na lei de Moisés. A gente vê Cristo, como eu tenho insistido tantas vezes aqui, como a, o cumprimento desta lei. Aquilo que Cristo cumpri [50:19] Participante Condena. Também está ali como herança do- Com perdão, mas nem Paulo, nem Cristo falaram, por exemplo, contra a escravidão, que é, por exemplo, onde diz que um homem pode pertencer a outro homem. [50:33] Padre Patrick Fernandes Mas os mandamentos não falam que o homem tem que pertencer a outro homem. [50:35] Participante Falam, o décimo mandamento. Se você procurar em Deuteronômio, a versão completa, tá lá. [50:40] Padre Patrick Fernandes Não. [50:41] Participante Sim. É que a sociedade faz vista grossa a essas partes da Bíblia. [50:45] Padre Patrick Fernandes Não, a, a, a Bíblia precisa ser entendida como um todo, não fora dum contexto. Eu volto a repetir isso pra vocês. [50:52] Participante Mas eu perguntei quando é que a igreja vai reformar de fato e deixar de lado esses trechos da Bíblia. [50:57] Padre Patrick Fernandes A igreja não tem autoridade de reformar a sagrada escritura. [51:00] Participante Mas você mesmo disse que a Bri-- que a igreja cuida das escrituras e que traz, e que trouxe, e que traduziu, e que fez tudo mais. [51:07] Padre Patrick Fernandes A igreja definiu aqueles que seriam os livros inspirados e aqueles que não seriam inspirados. A fé cristã- [51:12] Participante Mas aí é que tá. É, é a verdade dos vencedores. Você disse: "A Bíblia é um fator histórico." Não é histórico porque não é completo, porque é só a verdade dos vencedores. Aqueles que perderam pelo caminho, eles foram retirados da história, eles foram apagados da história. [51:27] Padre Patrick Fernandes Não é a verdade dos vencedores, porque o, a Bíblia nos conta, por exemplo, aonde o Cristo, pela qual as escrituras converge, foi parar. Quando a gente olha pro Cristo crucificado, aos olhos do mundo, é a derrota. É, o Deus esperado, o Messias, estava pregado na cruz. Se você entende a Bíblia num contexto somente histórico, você vê ali o fim. [51:49] Participante Sim, ela, ela... [51:50] Padre Patrick Fernandes O fim de tudo, né? Como se não tivesse mais esperança. [51:52] Participante Sim, Deus se sente abandonado por esse próprio Deus. [51:55] Padre Patrick Fernandes Que aquilo pra nós, aquilo que Paulo prega, né, o que é loucura para os gentios, pra nós é motivo de salvação. A lógica deste mundo, daquilo que é condenado, não é a lógica de Deus. Cristo não defendeu os escravagistas. [52:09] Participante Mas Paulo defende os escravagistas. Defende. [52:11] Padre Patrick Fernandes Paulo, escrevendo a Timóteo, por exemplo, pede a Timóteo que acolha aquele que ele tinha conhecido ali na prisão como um filho. A igreja sempre se, sem- [52:21] Participante Na página seguinte, ele fala que tem que seguir o que o senhorio diz e que se bateu, tem que apanhar mesmo. O senhorio vai tá sempre certo. [52:28] Padre Patrick Fernandes Não, isso não está na sagrada escritura. [52:30] Participante Sim, está. Tá escrito de Paulo. [52:31] Padre Patrick Fernandes Ou se, você deve ter compreendido de forma errada, né? O cristianismo- [52:36] Participante Não, não, não, não tem compreensão errada, não. [52:38] [conversas distantes] [52:46] Padre Patrick Fernandes O- [52:46] [som de microfone solto] [52:46] Participante Opa, brigado, cara. [52:47] [risadas] [52:54] Participante Tudo bem, padre? [52:55] Padre Patrick Fernandes Tudo bem, graças a Deus. [52:55] Participante Prazer, Fábio. É, concordo com você quando cê diz que o Pará é o melhor lugar do Brasil, né? [53:01] Padre Patrick Fernandes Você é paraense? [53:01] Participante Sou paraense. É, mas agora voltando ao tema, durante todo o debate, ficou uma lacuna aí sobre esse, essa compreensão sobre o ateísmo, não é? O ateu, ele é aquele que não precisa de Deus. E ele não pre-- por isso o nome, sem Deus. E ele não precisa de Deus, porque ele chegou a essa conclusão durante a vida. Todos aqui têm uma história. Todos aqui que chegaram ao ateísmo, diferente de alguns malucos que dizem: "Todo mundo nasce ateu", não é uma birra. [53:34] Padre Patrick Fernandes Uhum. Eu, eu concordo. [53:35] Participante Eles não foram zé bancos. São pessoas que passaram, muitas vezes, por seminários, que passaram por, é, bases missionárias. São pessoas que tiveram uma vivência. E nessa vivência, perceberam que: "E se eu tirar Deus da jogada? E se eu tiver crença como uma ferramenta e não como um dogma? E se eu trouxer pra minha vida algo diferente?" E funciona do mesmo jeito. Hoje, o seu olhar, e eu sei disso, né, é, o seu olhar enquanto igreja, enquanto ecclesia, faz parte de um lugar onde algumas pessoas não estão. E você faz muito certo em se colocar no lugar dessas pessoas quando cê vai pro interior do Pará e vê coisas que realmente não se vê por aí. Mas muitos não fazem. E aí você vê historicamente, quatro séculos atrás, quem cometia as atrocidades era o clero. Hoje em dia, o clero diz: "Não somos nós. Essa galera, é esse cara aí que tá no povo, tá fazendo, tá queimando terreiro, ele não representa o cristianismo." Mas afinal de contas, o clero representa, o povo representa, a to-- a, os ab-- as absolutizações, como a Bíblia ser a única verdade, como... Isso, o ateu, ele chegou a es-- a esse ponto, aonde ele percebeu outros caminhos, aonde ele percebeu formas de procurar algo muito importante, que é a felicidade. Cê achou a sua forma de ser feliz. Todo mundo aqui achou. E muitas dessas formas não precisa de Deus. Eu não preciso hoje, mas precisei em algum momento. Aquilo fez sentido na minha vida em algum momento, como na vida de qualquer um. Mas o ateísmo hoje é sobre não precisar de Deus. [55:21] Padre Patrick Fernandes Perfeito. Como é seu nome? [55:22] Participante Fábio. [55:23] Padre Patrick Fernandes Fábio. Eu, primeiro eu quero te dizer, assim, de, com muita verdade, eu nunca vi um ateu como alguém iletrado ou que não tivesse, não tivesse um conhecimento. Pelo contrário, a gente pega, por exemplo, sei lá, Nietzsche, né? Que é uma pessoa extremamente inteligente. Então nunca foi uma pauta pra mim achar que você não tinha compreensão ou inteligência pra chegar à conclusão que você tem hoje. Eu sou uma pessoa extremamente tolerante, de verdade, como cristão, como padre. E eu acho que a fé é algo inegociável. Eu, eu acho uma falta de caridade quando eu vejo líderes religiosos, por exemplo, apresentando Deus às pessoas através do medo. Tipo assim, se você não aceitar isso, você vai pro inferno. Isso não é o Deus que eu acredito. O Deus que eu acredito não é esse, que vem pela condenação. Não, não quero isso. É, muitas pessoas me procuram pra conversar, por exemplo, e geralmente quem procura padre é que-- problemas, né? Nunca é coisas assim, né? Quando pessoas que não comungam a mesma fé que eu comungo, eu nunca vou usar daquele momento em que uma pessoa está diante de mim de forma vulnerável pra convencê-la daquilo que eu acredito. Porque eu, eu entendo que pra você decidir crer em algo, você precisa ter liberdade pra isso. É, precisa ter um, é, ser um ato, é, aonde você, livre, consciente, escolhe. Então não é a minha missão ali impor. Eu não sou inquisidor que vai impor a fé aquilo que eu acredito. Eu não te vejo como uma pessoa inferior a mim, eu não acho que você vai pro inferno, não acho nada disso. Daquilo, inferno que eu acredito, né? Não aquilo que você crê, que talvez, acho que não, né? Não acredita no inferno, né? [57:04] Participante Exatamente. [57:05] Padre Patrick Fernandes E tudo mais. Então não é esta realidade aqui. O que eu quero falar aqui nesse discurso é o que, você tá certíssimo, tá? É, você encontrou uma maneira de ser feliz e eu encontrei também algo que dá sentido à minha vida. Mas agora o mais importante também é que, você sabe disso, eu tenho certeza que cê sabe. É, não se pode, do mesmo jeito que eu não vejo vocês como pessoas menos inteligentes, eu acho que seria um preconceito vocês verem a gente como pessoas inferiores ou menos inteligente também. Que eu não, eu, eu me acho assim, não me acho uma pessoa tapada, não me acho alguém preconceituoso. E eu estou falando isso também em relação à instituição que eu represento. Você não é o seu pai, você não é o seu avô. Houve pessoas naquela época que citaram aqui que fizeram o bem. Falaram de Idade Média, pega Francisco de Assis, um homem que foi luz neste mundo, pega referências assim, então sempre vai haver referências. O que a gente- [58:01] Participante Pessoas que a igreja teve que se retratar como Galileu. [58:04] Padre Patrick Fernandes Galileu é muito mais um sentido político, pessoal, que está ali. Mas olha, por exemplo, cê pega Nicolau Copérnico, era um clérigo que fa-falou sobre heliocentrismo, sol como centro do universo. Enfim, teve vários cientistas, a igreja sempre se colocou, mas é uma construção. [58:19] Participante Só que ali entra, é, exatamente o que eu falei ainda agora, a questão de estrutura de governo. [58:25] Padre Patrick Fernandes A igreja, ela tava, é, é um papo pra outra hora. [aplausos] [58:38] Participante Olá, boa tarde, boa tarde. [58:40] Padre Patrick Fernandes Boa, boa. [58:42] Participante Tudo bom? [58:43] Padre Patrick Fernandes Tudo bem, e você? [58:44] Participante Beleza. Padre, me permita trazer de exemplo um comentário do outro colega ali, quando falou da questão, é, da noção cristã, se é importante ou não, pra gente ter essa, esse desapreço a um assassinato, por exemplo. É, ele tocou em, em questões éticas e o senhor trouxe questões morais. No fundo, se vocês pararem pra voltar o vídeo e ver passo a passo uma, uma dedução, né, uma derivativa lógica, vocês não discordaram em nenhum momento. Cê tá falando de moralidade, ele tá falando de ética. É, nesse mesmo contexto, quando a gente fala da busca pela verdade, quando o cristianismo traz isso e quando o ateu traz isso, eles tão falando de línguas diferentes, na verdade. Eles não tão buscando a mesma coisa. Muitas vezes nem tá discutindo a mesma coisa, tá falando de coisas diferentes, entendeu? [59:30] Padre Patrick Fernandes Sim. [59:30] Participante É, você acredita que existe uma falha dentro do cristianismo nesse sentido? Porque o senhor trouxe como uma verdade, que você não tá, não você pessoalmente, mas a igreja não vai fazer o proselitismo pra tentar converter o ateu, mas justamente um grupo que é quase inalcançável, de certa forma. Será que o ateu não se sente marginalizado diante desse contexto, justamente as pessoas que buscam uma intelectualidade a mais? Cê entende o que eu tô querendo dizer? [59:54] Padre Patrick Fernandes Sim, entendo. É, eu não, eu não estou aqui, como eu disse pra vocês anteriormente, com o intuito de tentar convertê-lo. O que eu posso fazer neste momento aqui, que é o que eu estou tentando fazer, é mostrar pontos que nos unem. E existe. Vai ter muitas coisas que a gente tem o mesmo pensamento a respeito disso. Se a gente sair daqui, por exemplo, e ver, sei lá, um homem espancando uma mulher. Isso é ilógico pra você, como é ilógico pra mim também. Nós dois vamos ter a consciência de que aquilo é um crime e que aquilo precisa ser denunciado. Não é uma compreensão só minha, é uma compreensão sua também. Temos pontos que nos une. Temos o amor, né? O amor entendido aqui no sentido pleno da palavra. O amor que é oferta, que é a doação de vida. [1:00:44] Participante Mas cê entende que a nível de um, de alguém que já tem uma tendência materialista, a pessoa não vai entender amor da mesma forma? [1:00:51] Padre Patrick Fernandes Como que você entende amor? Ou você não tem também, o ateu não acredita em amar? [1:00:56] Participante O cristão, ele tem uma visão muito única e particular do amor, que ninguém mais tem. [1:00:59] Padre Patrick Fernandes O que que você, agora, é, é de verdade, tá? [1:01:02] Participante Uhum. [1:01:03] Padre Patrick Fernandes O que que você acha que o cristão entende por amar? [1:01:06] Participante O que eu entendo que o cristão entende por amar é essa, esse desfre-desfreamento total, esse sair de si mesmo, esse, esse ágape, entendeu? [1:01:14] Padre Patrick Fernandes Sim. [1:01:14] Participante Já o, a pessoa que tem uma tendência materialista, seja um ateu, seja um agnóstico, ela vai entender o amor simplesmente no Eros, simplesmente na questão fisiológica, etc. [1:01:23] Padre Patrick Fernandes Sim. [1:01:23] Participante Então- [1:01:23] Padre Patrick Fernandes Mas aí a gente tem uma diferença entre aquilo que é o Eros, que você disse, e aquilo que é o ágape, né, que é o amor que se assemelha, assemelha ao amor de Deus. Porque eu tenho certeza que pra muitos de vocês que estão aqui, e eu acho que isso não deve ser uma visão exclusiva do ateísmo, né? A questão de amar, ela não está voltada apenas para suprir minhas necessidades carnais e fisiológicas. [1:01:48] Participante Talvez não de forma consciente, né. [1:01:48] Padre Patrick Fernandes O amor é muito mais do que isso. Eu não sei se alguém aqui, por exemplo, tem um filho, um pai, uma mãe, que nutre por esta pessoa, um amor que é diferenciado daquilo que é carnal. Quando a gente entende que o outro é, é, é importante também e que eu posso oferecer a vida, que eu posso dar a vida. E, e eu acho que isso não é somente do cristão. A gente encontra em outras culturas, em outras religiões, pessoas que são capazes de dar a vida, de oferecer a vida. Não sei se alguém aqui é pai ou se é mãe. Agora, pra mim é muito assim, não é difí-- é, é difícil demais eu imaginar que você não seja capaz de oferecer a sua vida pelo seu filho, dar a sua vida. [1:02:29] Participante Sim, mas até isso- [1:02:30] Padre Patrick Fernandes Por alguém. [1:02:30] Participante Qualquer outro animal também pode fazer a mesma coisa. Isso que eu tô querendo dizer, entendeu? [1:02:33] Padre Patrick Fernandes Um animal não faz isso, né? Um animal não tem a capacidade de raciocinar. [1:02:37] Participante Não, né? [1:02:37] Padre Patrick Fernandes Enquanto que é filhote, sim, porque existe o instinto selvagem do cuidado e tudo mais. Mas o ser humano é muito mais evoluído, não tem como a gente comparar o ser humano- [1:02:46] Participante Ele, ele vai além, né? [1:02:47] Padre Patrick Fernandes Com animal. [1:02:48] Participante Ele vai além. Eu concordo, mas eu tô, eu tô querendo dizer que existe uma- [1:02:51] Padre Patrick Fernandes Eu tenho cachorro lá em casa, eu tenho oito, eu gosto. Tenho oito cachorros na minha casa, mas eu tenho uma compreensão muito clara de que esses cachorros não são meus filhos. Eu não posso tratar um cachorro como eu trato uma pessoa humana, entendeu? Eu me recuso. Pra mim, a, o ser humano, indep-- se e-- fosse meu inimigo, né, que eu não, não é correto segundo a minha crença, eu não poderia tratar um cachorro como eu trato um ser humano. O ser humano é muito mais do que isso, porque se eu equiparar as duas coisas, eu comparar animal com ser humano, aí não é só no âmbito cristão, né, eu estou perdendo é, é a humanidade mesmo, aí eu deixo de ser humano, né, porque eu deixo de, de me assemelhar a um povo. A, as sociedades, elas se convergem juntas, elas, elas se complementam. [1:03:29] Participante Mas o ateu, o ateu ele tem todo um arcabouço antropológico e até, até simplesmente, quando posso dizer materialista, no sentido de justificar a humanidade na própria questão da espécie. O cristão vai além. O cristão tem um posicionamento em relação ao amor que vai além disso. Estou dizendo o seguinte, que- [1:03:44] Padre Patrick Fernandes Mas tu acha que diverge uma coisa ou outra? Talvez se complementam. [1:03:47] Participante Talvez se complementam, mas tô dizendo o seguinte: para o ateu, basta. Basta. Já é suficiente uma noção limitada em termos de não precisa de amar, não precisa do sair de si mesmo pra justificar uma bondade, justificar- [1:03:58] Padre Patrick Fernandes Você não ama ninguém? [1:04:00] Participante Eu amo, só que na visão materialista, eu amo porque eu tenho meus genes e minha fisiologia atuando de tal forma. [1:04:05] Padre Patrick Fernandes Mas você só ama na visão materialista? [1:04:07] Participante Sim, na consequência lógica é isso, entendeu? [1:04:09] Padre Patrick Fernandes Uhum. [1:04:12] Participante Tempo. [1:04:12] Participante Obrigado, viu? [1:04:13] Padre Patrick Fernandes O cristianismo é a religião mais tolerante do mundo. [som de buzina] [1:04:23] Participante Tudo bom, padre? [1:04:24] Padre Patrick Fernandes Eu tô bem, e você? [1:04:25] Participante Tudo certo. É, eu queria comentar algumas coisinhas sobre o cristianismo ser a religião mais tolerante do mundo e, e também vou trazer algumas coisinhas das outras pautas pra dar uma amarrada, tá bom? [1:04:34] Padre Patrick Fernandes Tá bom. [1:04:34] Participante Eu acho que faltou um pouquinho a gente conversar sobre construção social de algumas coisas. O cristianismo, e, e principalmente o Brasil, ele tem uma herança colonizadora muito grande, o cristianismo muito forte, uma questão sincrética muito forte. E até agora há pouco você tava comentando, né, sobre: "ah, se a gente for lá na rua encontrar um homem batendo ou estuprando uma mulher, é, isso vai incomodar quem é ateu e quem é cristão também". Mas isso não é uma construção cristã, porque vem da Bíblia que a mulher tem que estar em subserviência ao homem? Eu sei que hoje em dia, o cristianismo ele não vai defender essas coisas, mas ainda é uma herança que a gente carrega no Brasil, que a gente carrega no mundo, principalmente nos países cristãos, e que incomoda bastante. Então, será que ele é realmente muito tolerante? [1:05:19] Padre Patrick Fernandes Sim. [1:05:19] Participante Porque a gente tem um, um efeito, né, pós-cristianismo, um efeito, né, do cristianismo que não é tão bacana assim. [1:05:26] Padre Patrick Fernandes Certo, perfeito. A, a mulher, ela tem um protagonismo na sociedade e ela não deve ser vista de forma subjugada. Os onze primeiros livros do livro do Gênesis, que fala sobre a criação, ele é uma alegoria. Claro que eu não vou chegar pras senhoras do apostolado Oração na Igreja e dizer assim: "Ah, Adão e Eva não existiram nos moldes que você conhece". É a forma como Deus cria. No fundo, a gente quer dizer que houve o toque da criação. Adão pode representar alguma coisa, um povo, Eva também. Enfim, é uma alegoria, não é uma verdade absoluta. Conta uma verdade através de uma alegoria. Eva foi criada, como diz o livro, da costela de Adão. É uma linguagem simbólica. A costela do lado. A mulher foi criada para estar ao lado deste homem, nem embaixo, nem acima. [1:06:24] Participante Posso- [1:06:24] Padre Patrick Fernandes Eles foram criados com igual dignidade. [1:06:26] Participante Posso trazer uma nova pergunta? [1:06:27] Padre Patrick Fernandes Depois. É só concluir essa primeira resposta. [1:06:30] Participante Com certeza. [1:06:30] Padre Patrick Fernandes Depois a gente vai vendo ao longo do tempo este protagonismo na própria Sagradas Escrituras. Jesus nasce de uma mulher. A primeira testemunha da ressurreição será uma mulher, Maria Madalena. Ele aparece para ela. Então a gente vai percebendo, é sempre assim. Volto a dizer, eu sou cristão. Apesar de eu ter o Antigo Testamento como livros inspirados, o Novo Testamento pra mim tem um- uma importância maior. E a gente vê o que Jesus faz a respeito das mulheres. Eles-- dá um papel de protagonismo a estas mulheres. Claro que ao longo do tempo, ao longo da história, a gente foi criado e a gente recebeu uma herança de uma sociedade muito patriarcal. E isso, uma herança ainda antes do cristianismo, que infelizmente fez com que mulheres perdessem o seu direito. Eu tenho muita consciência que eu jamais-- eu, por exemplo, eu incentivo as mulheres. "Olha, vocês têm que estudar, vocês têm que trabalhar. Não acho que vocês têm que ser serviçais de um homem e estar a serviço deles. Eu não acho que isso é a vontade de Deus. Vocês têm que ocupar um lugar de protagonismo que é só seu". E eu acho que a Igreja tem feito isso, principalmente nos últimos tempos, dar às mulheres um, um papel de protagonismo. [1:07:50] Participante Eu, eu queria só trazer mais um ponto. Você ainda comentou: "Ah, não vou falar com a moça da igreja, não vou dizer que não foi literal". Mas por que não dizer, não trazer mais isso? Não, não quebrar um pouco dessa herança patriarcal que a Igreja trouxe muito, entendeu? Por que não trazer isso de forma mais ampla? E principalmente, você falou que tá no Pará. É isso, né? [1:08:08] Padre Patrick Fernandes Pará. [1:08:09] Participante É prov-- é um trabalho, tipo missionário, alguma coisa do tipo? [1:08:12] Padre Patrick Fernandes Eu sou missionário, né? Uhum. [1:08:14] Participante Isso. O, o, o-- hoje a gente também percebe muito o cristianismo que tá dentro de diversos lugares, mais uma vez falando sobre construção social, que o Estado não alcança. Isso é um trabalho legal, ele é um trabalho bacana, mas eu acho que mais uma vez a gente começa a entrar em locais que deveriam ser locais onde o Estado alcança e começa a trazer uma herança lá de novo, judaico-cristã, eurocêntrica. [1:08:36] Padre Patrick Fernandes Sim, eu vou te dar um exemplo. [1:08:36] Participante Que vem do homem branco, por exemplo. [1:08:37] Padre Patrick Fernandes Perfeito. Eu vou te dar exemplo, já que nós estamos falando do Pará, e talvez esse trecho aqui pode causar um pouquinho, porque se trata de alguma questão política, tá bom? Hã, o, o Pará, ele tem a maior ilha fluvial do mundo, que é a ilha do Marajó. Nosso amigo conhece ali. Existe crimes que são cometidos nesse lugar há dezenas de ano, de pedofilia, de venda de crianças pra fora. E existiu um bispo ali que condenou, inclusive foi ameaçado de morte, Dom Ascona, não sei se você já ouviu falar, que ele foi a primeira voz profética naquele lugar de denunciar o que estava acontecendo ali, que a-- isso a gente tá falando de, de tempos recentes. Eu não tô falando de c-cinquenta, de setenta anos atrás, não. Aonde o Estado não estava fazendo nada. [1:09:25] Participante Sim. [1:09:25] Padre Patrick Fernandes Porque o Estado não conseguia alcançar. [1:09:27] Participante Eu só, eu só queria deixar muito claro. Eu, eu assim, eu acho esse trabalho bonito. [1:09:30] Padre Patrick Fernandes Sim. [1:09:30] Participante Eu acho esse trabalho essencial, mas eu acho que a, a herança que ele vai trazer por conta da catequização desse povo, prejudicial, porque a gente vai trazer novamente pra um local, é, essa visão eurocêntrica, essa visão de branquitude mesmo, essa visão de homem branco hétero, entendeu? [1:09:47] Padre Patrick Fernandes Não, isso eu concordo com você. [1:09:48] Participante E, e eu sei que não-- existe outra coisa que pode ser feita. [1:09:51] Padre Patrick Fernandes Sim, a gente recebeu. Fomos-- quem chegou aqui primeiro foram portugueses e a gente acaba recebendo. Ma-- eu não acredito que Jesus era aquele homem loiro, dos olhos azuis. Isso é fruto dum Renascentismo, de pinturas, que era o Jesus europeu. É, você pega, por exemplo, a padroeira do Brasil, a Nossa Senhora Aparecida, é uma imagem preta. [1:10:11] Participante Isso. [1:10:11] Padre Patrick Fernandes Né? Se você pega, por exemplo, Guadalupe, que é a, a padroeira do México, tem traços indígenas, né? [1:10:16] Participante É que são, são imagens ainda que a gente sincretiza pra colocar dentro, né, do cristianis-- mas não é, não é nem esse o ponto. É, eu acho que a gente vai até concordar sobre isso, que esse trabalho, ele não seria necessário se existisse um trabalho do Estado para com essas crianças, para com, é, essas pessoas, porque eu acho muito feio o Estado terceirizar isso pra Igreja. Isso deveria ser responsabilidade deles. [1:10:39] Padre Patrick Fernandes É, eu também acho. [1:10:39] Participante É um trabalho de caráter- [1:10:40] Padre Patrick Fernandes Mas a gente não pode cruzar os braços se não estão fazendo. [1:10:43] Participante Concordo, concordo. [1:10:43] Padre Patrick Fernandes Aonde a gente vê que a dignidade é ferida, da pessoa humana, na sua totalidade. [1:10:48] Participante Uhum. [1:10:49] Padre Patrick Fernandes A gente vai entrar como voz profética, denunciar mesmo. [1:10:51] Participante O, o ponto que eu queria trazer é bem isso mesmo, pra gente poder, aqui nesse ponto, você é padre, cristão, eu sou ateu, olhar e falar assim: "A gente poderia fazer um trabalho mais legal pro Estado chegar lá". [1:11:01] Padre Patrick Fernandes Eu acho que você não é meu hater, você gosta de mim, hein? Eu senti. [risos] [1:11:05] Participante Eu não sou, eu não, não... [risos] [aplausos] Eu nunca vou ser seu hater, você é um fofo, padre. [risos] [1:11:11] Padre Patrick Fernandes Eu sá-- obrigado. Me senti amado agora. Ó, que-- obrigado. Poxa, Bi, volta, volta aqui, pelo amor de Deus. É que eu volto, hein? [1:11:19] Participante [efeito sonoro] Boa tarde. [1:11:24] Participante Tudo bom. [1:11:25] Participante Eu acho que uma coisa que a gente vai con-começar concordando, indubitavelmente, é que hoje é dia de São Jorge, que é o padroeiro do melhor time do Brasil. [1:11:33] Padre Patrick Fernandes Corinthians. [risos] É, eu não sou corinthiano, hein. [1:11:37] Participante Tudo bem. [1:11:37] Participante Padre, minha cabeça tá explodindo, eu queria saber até por onde eu falava. Eu creio que todas as pautas aqui elas, elas se intercalam, mas eu vou pegar um gancho no nosso colega, que independente da, da psicologia, eu não queria falar só por ela, mas com uma visão como um homem branco, né? E que a, a religião cristã, predominantemente, ela tem o patriarcado em si e é dificílimo de quebrar isso. E a gente vê que na história do cristianismo, o excesso de homens só trouxe desgraça para o mundo. Só trouxe desgraça. Se a gente vê, hã, por exemplo, hm, você-- a, a pauta é sobre tolerância, né? Aí eu vou te perguntar como que o cristianismo pode ser tolerante, é, na pauta da, do, do progresso, do, da humanidade com o cristianismo, a Bíblia como o livro, é, mais confiável. Os in-os indígenas, os povos originários, por exemplo, eles não precisavam de Deus e não precisavam da Bíblia. Não houve tolerância com eles. O excesso era de homens. [1:12:30] Participante Uhum. [1:12:31] Participante Aí eu-- aí eu vejo que também a Igreja faz muito malabarismo pra, pra dissociar a imagem de, de Jesus como ser bom do que vem acontecendo. Então a gente volta um pouco. Cruzadas, em busca da Terra Santa, mais atrocidades em nome de Jesus Cristo. A gente pode voltar pro Brasil. Hospital de Barbacena, em Minas Gerais, conhecido como o Holocausto Brasileiro. Mais de sessenta mil vítimas. Tinha freiras no comando do hospital. Então eu fico pensando assim: é tolerância pra quem? Um recorte, por gentileza. Quando vem Inquisição também, se a gente falar da, hã, os povos escravizados, os povos negros, não houve tolerância mínima. Se a gente perguntar quem que foi Luíza Mahin, quem que foi, é, Alcoatuni, quem que foi Ganga Zumba, não houve tolerância com eles. Eles basicamente tiveram que criar uma história pro povo dele, pros povos, pros povos deles, dentro do nosso país. E, e isso causou um furdúncio, uma presepada do caramba. Então, tipo, com quem que é tolerante? Com as mulheres não é, cresce o número de feminicídio. Então eu concordo, nós dois, nós dois interviríamos numa mulher sendo espancada, o motivo não é o mesmo. O Christopher Hitchens, ele vai dizer assim, que se você não consegue distinguir o bem do mal, o que te falta é caráter e não religião. Eu queria só entender, é tolerante pra quem? [1:13:41] Padre Patrick Fernandes Mas quando você fala do aumento do número de feminicídio, você tem a compreensão que a igreja é culpada deste número? [1:13:48] Participante Não é a compreensão da igreja, a compreensão- [1:13:50] Padre Patrick Fernandes Da, da, daquilo que a gente construiu, de uma sociedade patriarcal, correto? [1:13:53] Participante Isso, isso, correto. [1:13:54] Padre Patrick Fernandes Não, perfeito. É só pra- [1:13:55] Participante Correto. [1:13:55] Padre Patrick Fernandes Achar interessante a gente diferenciar também, né. É, eu concordo com muitas coisas que você falou, de verdade, assim, eu-eu concordo mesmo, né. E eu penso, assim, que, que a igreja, né, neste tempo, voc-- olha pra mim. Pelo tempo que a gente esteve aqui, esses quarenta, cinquenta minutos. Você é psicólogo. Eu acho que você tem uma leitura comportamental das pessoas. Talvez cê nunca me viu em algum vídeo, enfim, não interessa isso. Mas você me acha uma pessoa intolerante? Assim, a compreensão, se você fosse julgar. Eu acho que, que eu não fui intolerante em nenhum momento, assim, o próprio fato de eu estar aqui com vocês. Eu acho que a instituição, ela não pode ser representada por uma pessoa, por um grupo de pessoas. Eu acho que ela vai muito além disso tudo. E eu percebo que existe muitas luzes, aonde você falou de escuridão, que se acenderam ao mesmo tempo, que vieram desta igreja. Como foi dito anteriormente também, a gente não tem como apagar a história de tantas pessoas que fizeram, doaram a vida para que, não por conta de, de uma fé for pregada ali imposta, mas pela pessoa, pess-- é, gente que não conhece, mas que-que chegou ali e que foi capaz de oferecer-se, de doar. E a gente tem que também ver estes modelos, estes exemplos de pessoas que contribuem. Hã, você sabe muito bem o que é lidar com as mazelas da pessoa humana. Eu acho que você vê isso a todo momento. Como padre, ninguém te procura pra contar coisas boas. Eu acho que as pessoas que te procuram é porque estão sofrendo. E quando a gente vê alguém sofrendo, a gente tem uma necessidade humana mesmo, isso é de um instinto humano, de acolhida, de ajuda mútua. E a gente tem que fazer isso. Eu, eu passei por um processo aonde eu precisei de psicólogo na minha vida e de psiquiatra, aonde eu tinha a compreensão muito clara que a minha fé, ela não era suficiente naquele momento pra curar aquilo que eu estava sentindo. E eu precisei de passar por terapia, de psiquiatra, tudo isso. A dor naquele momento, que eu senti no meu coração, me tornou evidente um ser humano melhor. A gente passa a valorizar mais a vida, o dom da vida. A gente nunca mais enxerga a vida como a gente via antigamente, porque a gente percebe que é um fiozinho que está prestes a ser rompido. O que eu tenho hoje no meu coração, a fé, que é o que existe de mais sagrado, de mais importante em mim, é, é inegociável pra mim a minha fé. E é essa fé que me estimula todos os dias a tentar e se esforçar pra construir um mundo melhor, pra ajudar pessoas, pra marcar a vida das pessoas e deixar algo por onde eu passo. Porque é tão triste quando eu passo pela vida de alguém ferindo, machucando, seja quem for, uma mulher, uma criança, eu não estou aqui pra isso. [1:16:54] Participante Eu posso? Eu só não queria interromper o senhor antes, tava ouvindo um pouco mais. Mas é tipo, esse é um tipo de malabarismo, a gente fala que não é maldade, a gente vai falar de um aspecto de crença, tá bom? Prazer. [1:17:03] Padre Patrick Fernandes O prazer foi meu. [1:17:04] Participante Vou tentar voltar. [1:17:05] Padre Patrick Fernandes Tá bom. [1:17:12] Participante Pronto, consegui. [1:17:13] Padre Patrick Fernandes Amém. [1:17:15] Participante Tudo bem, padre? Como vai? [1:17:15] Padre Patrick Fernandes Tudo bem, e você? [1:17:17] Participante Tô bem. Padre, eu gostei que o senhor citou Pitágoras aqui, né? Concordo com o senhor, né, que ele definiu o conceito de bem ou mal até antes de Cristo, né? [1:17:25] Padre Patrick Fernandes Platão. [1:17:25] Participante Platão, perdão. E a sociedade grega, padre, ela tinha um pouco de avanço científico. O senhor sabe que Erastótenis mediu a Terra, o teorema de Pitágoras e outros matemáticos gregos, né, contribuíram muito pro avanço da humanidade. O senhor concorda, né? [1:17:38] Padre Patrick Fernandes Claro. [1:17:39] Participante Só que depois quando chegou o cristianismo, padre, além de ter parado esses avanços, nós entramos numa era de obscurantismo, quando a igreja perseguia certos cientistas e por causa do livro sagrado. O senhor sabe que a Bíblia dá a entender que a Terra é plana, que a Terra seria o centro do nosso sistema solar, que o Sol e a Lua que giram em torno da gente. O senhor não acha que a Igreja, em vez de, de dar continuidade a um avanço de uma outra civilização, ainda que politeísta, mas trouxe o mínimo de avanço científico, até a democracia, né, que é um conceito grego. O senhor não acha que a Igreja atrasou um pouco o progresso da humanidade? [1:18:09] Padre Patrick Fernandes Primeiro, é, se você está se referindo à Idade das Trevas- [1:18:13] Participante Isso. [1:18:13] Padre Patrick Fernandes Associada à Idade Média, a historicidade mais recente, ela é unânime, historiadores mais sérios, em descartar este conceito. Não é mais alguma coisa assim, é, é aceita por toda a história. Porque foi uma idade de muito avanço tecnológico também, cultural, científico, que contribuiu muito pra humanidade. Eu tentei falar isso anteriormente e fui impedido de falar, né. É, na Idade Média, por exemplo, que começa a se desenvolver coisas que contribuíram pra sociedade se organizar. [1:18:47] Participante Como as faculdades que o senhor citou. [1:18:49] Padre Patrick Fernandes Não só as faculdades. Foi nesta época, por exemplo, que começam a surgir hospitais, e maioria desses hospitais coordenados por clérigos, por pessoas religiosas, aonde se começa a observar doenças, a investigar doenças, porque antigamente a cura era considerado como uns rituais sagrados das religiões antigas. E a igreja veio ali- [1:19:12] Participante Eu não discordo dessa afirmação sua, padre, de certos avanços tecnológicos. Mas o que eu discordo é o seguinte, é que esses avanços tinham que ter o aval da Igreja, numa época em que a Igreja tinha praticamente um, um poder absoluto na Europa. [1:19:23] Padre Patrick Fernandes Sim. [1:19:23] Participante Então, se eu discordasse da Igreja naquela época, vamos supor que eu falasse, por exemplo, da teoria da evolução. O senhor há de convir que eu seria perseguido pela Igreja. [1:19:30] Padre Patrick Fernandes Sim. [1:19:30] Participante Agora, se eu falasse uma teoria até científica, mas que harmonizasse com a fé cristã, aí tudo bem, os papas poderiam me proteger, como por exemplo, aqueles que eles gostavam, né, na época. Mas o problema é aqueles que tinham dogmas, ô perdão, desenvolviam um tipo de ciência que ia contra os papas [1:19:45] Padre Patrick Fernandes Sim, é claro que houve falhas e erros. Eu nunca falei que isso não aconteceu. Mas aquilo, aquilo que você me interrogou era a respeito também dos avanços. E a gente não pode negar que houve avanços significativos para a construção de sociedade que a gente conhece hoje. [1:20:02] Participante Só pra finalizar que o tempo já vai acabar aqui. Mas o senhor não concorda que hoje a igreja ainda é um pouco retrógrada? Por exemplo, pesquisas com célula-tronco, por exemplo, a igreja é contra. [1:20:10] Padre Patrick Fernandes Deus criou o universo. [som de batidas] [1:20:15] Participante Olá, padre. [1:20:16] Padre Patrick Fernandes Tudo bem? [1:20:17] Participante Tudo bom? Prazer, Whindersson. [1:20:18] Padre Patrick Fernandes O prazer é meu. [1:20:19] Participante [suspiro] Vamo lá, de forma mais sucinta mesmo. Como que você defende a ideia de que Deus criou o universo? Como que isso é plausível? [1:20:28] Padre Patrick Fernandes Sim. Primeiro eu quero falar, eu não duvido, antes que venham depois, do Big Bang, né? Não é-- a igreja não é burra de falar assim que ah, enfim, né? Pelo contrário, até a teoria da evolução de Darwin é aceita hoje pela igreja, como também a constatação. O que a gente acredita, e aqui é claro que é aquilo da luz de Deus, do Espírito, não é aquilo que você vai acreditar. É que houve um momento, nisto, que houve o toque de Deus, o toque da criação, aonde deixou de ser o acaso para se tornar uma vontade de algo que transcende. Achei muito bonito. O primeiro astronauta, que-- brasileiro e único também, né, que foi a-ao espaço, é, ele disse uma frase na época que eu, eu me recordo até hoje. Eu estava no seminário nessa época, ele disse o seguinte: que quem não acredita em Deus deveria ir para o espaço pra ver lá de cima as coisas, né? Depois a gente vê recentemente essa missão da Artemis II, que foi à Lua, que deu a volta da Lua. O, o rapaz lá falando aquilo, né, assim que ele vê a Terra de cima como um oásis, como um protótipo da criação e tudo mais. É, é, pra a gente contextualizar que pessoas inteligentes, porque em alguns momentos aqui talvez a gente foi taxado como pessoas ignorantes. Elas acreditam em Deus- [1:21:57] Participante Mas vamo voltar um pouquinho. [1:21:57] Padre Patrick Fernandes E Deus como centro do universo. É claro que Deus pra mim é o criador do universo. [1:22:02] Participante Certo, mas o, o que que você usa como argumento? Porque até o, o nosso consenso, a gente não tem uma definição, a gente não sabe como que surgiu o universo, se é que surgiu. Ele pode ser não contingente, no caso, né, ele pode ter sempre existido. Então, o, o que que levanta? É só a fé mesmo? Porque aí fica muito subjetivo, né? Ah, Deus criou porque quis e sempre foi assim? [1:22:23] Padre Patrick Fernandes É, primeiro, fé e dúvida, elas em algum momento vão caminhar lado a lado, né? Quem acredita não é que não duvida nunca. A dúvida, ela nos acompanha. Experimenta, por exemplo, viver um momento de dor, aonde a gente se depara com a perca de alguém. É claro que a gente vai questionar. Existe tantos questionamentos. O fato de eu ser um crente não faz de mim uma pessoa que não vai ter um momento de escuridão na minha vida, aonde eu vou questionar alguma coisa. Só que existe no meu coração, na minha vida, na minha alma, no meu intelecto, como queiram chamar neste momento, uma força que transcende e que me faz acreditar em algo que está para além desta realidade. A, a palavra de Deus diz que, é, Deus, é, continua a trabalhar. A, a ciência diz que o universo continua a se expandir, entende? É, é tudo tão imenso, tão grande, tão perfeito. [1:23:19] Participante E por que que a gente precisa criar essa resposta então? [1:23:22] Padre Patrick Fernandes A própria, a própria vida na Terra, eu acho- [1:23:24] Participante Eu falo assim: por que essa resposta, como Deus, ela é necessária? Porque você só tá respondendo uma coisa, mas você não tá explicando como que aquilo se deu. [1:23:32] Padre Patrick Fernandes Só que eu não tenho como fugir dessa resposta, a não ser à luz da fé. Porque a partir do momento que eu vejo uma imensidão tão perfeita. [1:23:40] Participante Se você reconhece, se você reconhece num discurso mais honesto, intelectual, você pode simplesmente admitir que a gente ainda não sabe. E tudo bem a gente não saber. A ciência tá aí pra descobrir coisas que a gente não sabe mesmo. [1:23:50] Padre Patrick Fernandes Mas eu não vou admitir porque não é algo que eu acredito nisto. Eu não acredito de verdade. Eu acredito que Deus criou o universo. [1:23:57] Participante Só que, tá, o fato de você acreditar não torna aquilo como verdade. [1:24:01] Padre Patrick Fernandes Nunca disse isso. É verdade pra mim, não é pra você. É, é, é a capacidade da gente de discordar um do outro. Pra mim é uma verdade absoluta. [1:24:10] Participante Só que a, a, a, como você afirma, então se a- [1:24:22] Participante Beleza, pastor? [1:24:23] Participante Pode, padre. [1:24:24] Participante Pode falar? Padre, né? Eu te chamei de pastor, perdão. [1:24:26] Participante Mas também é, não tem problema. [1:24:27] Participante [riso] Então, é, na verdade, na verdade é um, é um pensamento que eu queria dividir, porque assim, a questão de você imaginar que a origem do planeta vem de Deus, eu trouxe um questionamento pessoal meu- [1:24:38] Participante Do universo, né? [1:24:39] Participante Do universo, né, do mundo. De que, como que Deus cria o universo e deixa hoje em dia a gente ainda tratar a, a fé como moeda de troca? Eu vou dar um exemplo meu pessoal, que foi duma, uma tia minha que ficou louca através da religião e foi comprovado, por fanatismo, e uma tia que perdeu tudo entregando tudo pra, pra igreja. E como que você vê isso acontecendo nos dias de hoje? [1:25:04] Padre Patrick Fernandes Não foi igreja católica, né? E a gente não precisa- [1:25:06] Participante Foi, a, uma das tias foi igreja católica. [1:25:08] Padre Patrick Fernandes Eu não vejo esse movimento por parte da igreja católica, desse entregar tudo, né? Eu acho que a fé precisa ser algo muito livre. E é como eu disse anteriormente aqui, não tem a ver com, com a temática nesse momento, né? Mas eu não concordo com líderes religiosos que impõem a fé, é, goela abaixo, sabe? Eu acho que a fé é, é algo tão nobre, tão bonito, ela dá tão sentido à vida, que precisa provir de um ato livre, assim, da minha liberdade consciente. Se fizeram isso com a sua tia, estão errados. E eu até sugiro, entra na justiça. Existe várias causas aí que são ganhas de pessoas que em momentos de De desilusão, momentos de fraqueza. É, perderam a fé por conta de atitudes como essa, né? [1:25:54] Participante Ou tiveram fé demais e foram abusa-- perdão. [1:25:58] Participante [som de notificação] Bom, tudo bem, padre, novamente? É, eu gostaria de comentar três coisas primeiramente. A primeira coisa é um esclarecimento. O modelo cosmológico padrão, né, do Lambda-CDM, ele não fala sobre o início absoluto do Universo, ok? Ele fala sobre a expansão ali acerca de treze vírgula oito bilhões de anos atrás, ok? Então a primeira clarificação. A segunda clarificação é o seguinte: você apelou pra experiência religiosa e pra fé, né? Mas existem, no caso, religiões inclusive não teísticas, como o jainismo, o budismo e até o hinduísmo Sânkhya, que também, as pessoas que têm aquela crença, têm uma fé religiosa, por assim dizer, e acreditam, no caso, que não há esse Deus, né? Não há uma concepção de Deus monoteísta da-- conforme como o senhor concebe na sua religião. O terceiro ponto é que parece que o senhor se tornou um relativista pós-moderno no final. "Ah, mas isso aqui é uma verdade pra mim e aquilo ali é uma verdade pra você." Não, meu amigo, nós estamos falando de verdade objetiva, ou seja, de fatos relevantes sobre a realidade das quais todos nós vivemos. Então, nesse caso, a gente precisa ter um chão em comum. Então eu preciso que você demonstre, você forneça uma demonstração, seja filosófica, seja científica, acerca da existência desse ser, que você acredita que é o criador do Universo. Primeiramente, você tem que demonstrar que houve, de fato, uma origem absoluta do Universo, algo que não foi demonstrado, né, é, cientificamente, filosoficamente até agora. E, no caso, você diz ainda por cima que essa originador, né, desse, é, do nosso Universo, é Deus. E é o Deus concebido monoteísticamente, tradicionalmente, de acordo com a visão filosófica do teísmo tradicional, que é onipotente, onibenvolente, onisciente, etc. Então, demonstre pra mim, por favor, agora. [1:27:32] Padre Patrick Fernandes Tá. Se você quer uma prova- [1:27:34] Participante Isso. [1:27:34] Padre Patrick Fernandes Documental, assim. [1:27:36] Participante Não, não é documental. [1:27:37] Padre Patrick Fernandes Uma, um, propriedade de posse de que Deus criou. [1:27:40] Participante Não. Pode ser um argumento. Um filo-- argumento filosófico. O senhor é filósofo. [1:27:44] Padre Patrick Fernandes À luz da fé. Eu não tenho como fazer outro argumento que não seja à luz da fé. E teologia também é uma ciência, né? Não é uma coisa abstrata, né? Teologia é ciência, vocês podem pesquisar, não sou eu que estou dizendo isso, né? [1:27:55] Participante Depende. [1:27:55] Padre Patrick Fernandes Teologia é uma ciência. E, e assim, o que eu quero falar- [1:27:59] Participante Teologia concebida confessionalmente é disputável que seja ciência. [1:28:02] Padre Patrick Fernandes Sim, deixa agora me aventur- [1:28:03] Participante Porque você precisa primeiro demonstrar que Deus existe pra gente tomar isso como uma ciência genuína. [1:28:07] Padre Patrick Fernandes Eu não posso- [1:28:08] Participante Que tenha um objeto de estudos real. [1:28:09] Padre Patrick Fernandes Fazer com que Deus apareça aqui diante de você e prove que ele existe. Eu não posso brincar com Deus, não posso brincar com aquilo que é sagrado. Você falou tanto de religiões teístas. [1:28:18] Participante Não tô falando de brincar, tô falando de demonstrar. Demonstrar filosoficamente, cientificamente. [1:28:22] Padre Patrick Fernandes O que a gente pode conversar neste momento, eu acho que o, o propósito é exatamente esse, é de que se tem uma compreensão de que existe algo que rege o Universo, que não provém simplesmente dum acaso. [1:28:36] Participante Não. [1:28:37] Padre Patrick Fernandes Porque quando é a sua maneira de pensar. [1:28:39] Participante Primeiramente, demonstre que teve uma origem absoluta do Universo. [1:28:42] Padre Patrick Fernandes Nem os cientistas vão poder dizer- [1:28:43] Participante A ciência atualmente bem estabelecida não afirma esse tipo de coisa. O modelo cosmológico padrão não afirma esse tipo de coisa. [1:28:48] Padre Patrick Fernandes Você não acha que às vezes quando a ciência cala é porque não existe uma coisa que se sobressai a isso? O próprio silêncio da ciência, de não explicar determinadas causas e coisas. [1:28:58] Participante Mas há explicações naturalísticas. Por exemplo, assumindo, vamos supor que de fato tenha uma origem do Universo. Existe uma explicação muito mais parcimoniosa que essa, que o filósofo Graham Hope, ele articula em seus escritos, né. Dentre eles, o livro justamente de debate com o filósofo a-- teísta cristão, né, Kenneth Perce, que é o Is There a God? A Debate, né. Nesse artigo, né, nesse, é, nesse livro em questão, ele articula uma explicação em termos justamente do segmento inicial do Universo, né, com a singularidade inicial, é, como sendo, no caso, o item inicial necessário e natural. E todo o resto que se desdobra a partir disso, é simplesmente aquilo que é contingente, né, que pode ser contingente caso haja indeterminismo real no âmbito, é, da nossa realidade, né, seja por virtude do âmbito subatômico, né, quântico, etc. Ou enfim, ou qualquer outra, ou-outro âmbito, né? Mas sendo essa explicação mais parcimoniosa, mais simples, mais condizente com os conhecimentos pré-estabelecidos da ciência que nós temos, a gente não precisa de Deus pra explicar a origem do Universo nesses termos. A gente consegue dar uma explicação puramente naturalística em termos de uma metafísica modal e também das melhores recursos que a gente tem da ciência atualmente bem estabelecida. [1:29:59] Padre Patrick Fernandes É, a, o que você falou, é a visão de um filósofo aí que você pegou, que também não representa uma verdade absoluta, né? [1:30:06] Participante Claro que não. [1:30:06] Padre Patrick Fernandes Você pega, por exemplo- [1:30:07] Participante Mas uma verdade aproximada. [1:30:08] Padre Patrick Fernandes E tem cientistas que vão acreditar. Outros cientistas. Eu até citei aqui esse pessoal aí da NASA, que foi pra Lua e tudo mais, que tem uma outra compreensão a respeito disso, né? [1:30:20] Participante Mas a gente tá falando sobre demonstração ou evidência. [1:30:23] Padre Patrick Fernandes Não tem como eu te demonstrar com evidências. [1:30:25] Participante Tem sim. [1:30:25] Padre Patrick Fernandes Empiricas, lógicas. [1:30:26] Participante Ah, então, então nesse caso, a Igreja Católica ela não afirma? Ótimo, obrigado, viu, padre. [1:30:31] Padre Patrick Fernandes De nada. [1:30:39] Participante Oi, tudo bem? [1:30:40] Padre Patrick Fernandes Bom dia, padre. Tudo jóia. [1:30:41] Participante Eu sou o Bruno. [1:30:42] Padre Patrick Fernandes Oi, Bruno. [1:30:43] Participante E eu sou psicanalista. E achei interessante a frase daqui: "quem não acredita em Deus, que vá pro espaço", porque tem uma ambiguidade aí interessante. E, mas eu queria falar sobre o Universo e queria perguntar pro senhor o seguinte: se Deus criou o Universo, Deus criou tudo que está nele. E o Diabo está nele. E aí eu queria juntar um pouco da, da, da pauta anterior e fazer essa pergunta também. Por que que Deus tolera o mal, o Diabo? [1:31:14] Padre Patrick Fernandes Sim. [1:31:14] Participante Porque, porque veja, é, ainda brincando com a ambiguidade, né, quando, quando você diz, quando você sustenta a ideia de que a Igreja, ela é a mais tolerante de todas as instituições religiosas, enfim, e eu sou obrigado a concordar. Mas o problema é o que que ela tolerou. Porque muitas instituições que não toleraram certas coisas, pereceram. Né, então, por exemplo, é, você mencionou Platão, né. À época dele tinha os sofistas, do, dos autores que eu gosto bastante, e que esses textos desses caras não foram tolerados. Porque justamente eles relativizavam um monte de coisas, bem embasados e etc. Mas eles relativizaram, e isso a Igreja, ou pelo menos, né, aqueles que, que foram dar causa à Igreja, não toleraram. Então, gostaria que vocês respondesse por que que Deus tolera o mal? [1:32:04] Padre Patrick Fernandes É. Primeiro de tudo, né, Deus não tolera o mal. Agora a gente não tem que ter- Na prática, parece que sim. Calma. A gente não tem que ter esta ideia de um Deus como uma varinha mágica que vai chegar e a, a partir de agora acaba tudo, acaba isso, acaba aquilo, porque senão a gente o diminui bastante naquilo que ele é e na liberdade que ele deu ao ser humano. Deus ele sempre faz, quando nos cria. Criou o homem para a liberdade, criou o homem para fazer alguma coisa. O ser humano não faz. Se as guerras existem, é porque o ser humano faz a guerra. A culpa não é de Deus. Se o mal existe no mundo, não é Deus que fez isso. Foi o ser humano criado à imagem de Deus, que através do mal que entra no mundo, faz com que ele seja capaz das maiores atrocidades. Perfeito, mas o- Se Deus nos criou, foi para que a gente pudesse fazer algo neste mundo. Não, mas eu, eu te entendo nesse aspecto. O que eu quero dizer é que, o que eu quero dizer é assim: é por que que há essa tolerância? [1:33:14] Participante Olá, Padre. [1:33:15] Padre Patrick Fernandes Oi, tudo bem. [1:33:16] Participante Tu falou aí que, hã, Deus criou o universo e ele criou a, as leis da natureza, chegou a insinuar sobre teoria da evolução. A Igreja Católica aceita a evolução hoje em dia, certo? [1:33:29] Padre Patrick Fernandes Sim. [1:33:29] Participante Ela aceita que somos parentes de chimpanzés e outros grandes primatas. [1:33:34] Padre Patrick Fernandes Depende do que você entende por parente, né? [riso leve] [1:33:37] Participante A gente tá relacionado no tempo geológico, no tempo do planeta, a gente, na, na nossa linhagem divergiu da deles. Ela acredita nisso? [1:33:45] Padre Patrick Fernandes Houve um momento em que este ser, que não pensa, que não age com razão, que nem tem discernimento daquilo que é certo e que é errado, passou a, a pensar. Houve um momento em que ele se diferenciou de um chimpanzé, de um macaco. E foi nesse momento que a gente entende o toque da criação. Quando você tem, por exemplo, uma obra de Michelangelo que fala sobre a criação, aquela obra famosa das duas mãos, né? A mão de Deus estendida, a mão do homem inclinada. É, Deus está sempre pronto a criar o homem, a recriá-lo. A iniciativa é do homem tocar o dedo de Deus ali naquela obra. A gente não nega que houve essa evolução, que Darwin fala. A gente não nega isso. Mas houve um tempo em que este ser, que era inanimado, um tempo no espaço cronológico, passou a pensar: por que que o ser, o, o macaco não continuou a evoluir? A gente não pode, né, foi o grande questionamento ali. Eu não, eu não posso me comparar com um animal. O ser humano é muito mais do que um animal. A gente pensa, a gente tem liberdade, a gente tem razão, a gente sente, tem impulsos. [1:34:56] Participante Se tu disse que aceita a teoria da, da evolução, tu não pode abdicar- [1:35:01] Padre Patrick Fernandes A Igreja. [1:35:01] Participante A Igreja. Abdicar de, de fatores muito particulares dela, como somos parentes de chimpanzés, os, os nossos instintos evoluíram também paralelamente. [1:35:09] Padre Patrick Fernandes É, quando eu falei assim, parente, é porque eu entendo parente, sei lá, né, os meus irmãos, meus primos, meus pais, né. [1:35:15] Participante Enfim, o, nesse ponto, o único critério- [1:35:17] Padre Patrick Fernandes Pró-vem, né? [1:35:18] Participante O único critério da natureza é a reprodução genética. A evolução trabalha em reprodução genética. E Deus criou isso, porque ele criou o universo. [1:35:25] Padre Patrick Fernandes Sim. [1:35:25] Participante E se trabalhando em reprodução genética, qualquer coisa, por mais imoral que seja, pode evoluir. Como estupro pode evoluir, como evolui em muitas espécies. Homicídio pode evoluir, como evolui em chimpanzés e tem um subproduto em humanos. Matar outra pessoa é o, os, a coisa certa a se fazer, geneticamente falando, em muitas sociedades. Infanticídio também é adaptativo em muitas sociedades. Então- [1:35:46] Padre Patrick Fernandes Eu acho que a sua fala é plobe-problemática, viu? [1:35:48] Participante Com certeza, mas... [1:35:50] Padre Patrick Fernandes Evoluir, é, compreensão de, de assassinato, de, dessas coisas. [1:35:54] Participante Mas é a natureza, é isso que eu tô te falando. Como é que Deus criou essa natureza que permite que a regra, a regra de funcionamento dessa natureza selecione esses pecados. [1:36:03] Padre Patrick Fernandes Mas você, tirando a questão de Deus, você vive numa sociedade, sociedade laica, que condena o que você está falando. [1:36:10] Participante Sim, porque descrever um fenômeno não é a mesma coisa que justificá-lo. [aplausos] [1:36:17] Padre Patrick Fernandes Oi, pessoal. A gente fez aqui um programa bem interessante. Eu, padre, contra trinta ateus. Foi bom. Foi uma experiência incrível, né, que a gente leva muito aprendizado também. E principalmente ao povo que tá em casa, né? Acho que a gente tem que encontrar pontos que nos unem. E tem muitas coisas que nos unem. Acho que a vida humana é a principal delas e a gente tem que colaborar pra construir esse mundo melhor, onde a justiça possa imperar, onde a gente possa encontrar paz, onde a gente possa encontrar equilíbrio e superar as divergências, respeitando aquilo que o outro acredita, aquilo que o outro concebe como verdade. Eu acho que sempre a gente vai poder viver num mundo melhor. E Deus abençoe. [aplausos]