Transcrição
Ex-Preso e Policial Jogam Verdade ou Consequência
12 min de vídeo · 2 mil palavras · Com Sargento Costa, João Estrella
Baixar o texto (.txt) ou a legenda (.srt)
Cada minuto é um botão que toca o vídeo a partir daquele trecho.
Se eu tivesse uma dúvida que tu ainda era tralha, mano, eu não tava sentado contigo nessa mesa, mano.
Nem eu, velho.
Pode ter certeza. [risadas]
Me chamo João Estrella e sou um ex-presidiário.
Me chamo Ruan Costa, sou sargento da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro.
João, você tá nervoso pra tá conversando com o sargento, com o sargento Costa hoje?
Mais ou menos. Cheiro de prisão.
E você, Costa? Tá nervoso pra hoje? Tá tranquilo?
Cara, dependendo do que ele for falar, eu posso ficar nervoso, né? Mas por enquanto eu tô tranquilo.
Tranquilo, mano?
De boa.
Não tá de boa, de boa é bom. [risadas] De boinha.
Quando e por que você foi preso?
Em 2019, eu cometi um assalto a uma empresa que fornecia cursos. Três dias após do, do crime, a Civil me acordou às cinco e meia da manhã pra poder me levar [risadas] pra lugar que eu não queria ir. E fiquei dois anos e três meses preso.
É, tu falou que o policial te acordou, te levando pra um lugar que você não queria ir.
Sim.
E por que que tu não pensou nisso antes de roubar?
Antes de a gente ser pego, a gente sempre, nunca, é, sempre acha que nunca vai dar errado. Então eu acredito que o arrependimento nunca viria da minha parte se eu não fosse pego. Eu fui preso e mudei de vida, tipo assim, graças a Deus eu mudei. Só que eu sou sincero e de falar que se eu não fosse pego, com certeza eu faria outra coisa de novo, entendeu?
Entendi.
O que te fez querer ser um policial?
Quando eu tinha aproximadamente catorze anos, eu tava indo numa padaria comprar um pão e naquela época era um Voyage, né? Eles me espremeram na parede, desceram da viatura me dando tapa no pescoço, me chutando e me abordando de uma forma totalmente ignorante. Aí a minha vizinha olhou e falou: "Mas por que que cê tá fazendo isso? Garoto é de família, mora aqui na rua". Ele entrou na viatura e foi embora.
E dali eu pensei o seguinte: eu vou me tornar um policial e vou mostrar pra sociedade que eu posso ser enérgico, mas eu posso ser educado. Eu não tenho que maltratar quem é estudante, quem é trabalhador.
É, na-- que eu acho que eu já encontrei esse policial que te fez virar polícia. [risadas] Eu acho que já encontrei ele já também, viu? [risadas] É porque eu não entendo muito legal, sabe o que, mano? Não passo batido de jeito nenhum. Igual cê falou, a gente tava brincando aqui no, no making of que, pô, me abordaria. E, pô, eu gosto de carro. Aí eu paro do lado de uma viatura, eu olho pro policial e falo: "Porra, bom dia".
Os caras vão lá e me param porque eu dei bom dia. Acho que tô querendo passar batido, tá ligado?
Aham.
Aí eu falei assim: "Porra, não vou olhar". Aí eu não olho. Eles me param achando que eu não tô, achando que eu não tô olhando, porque eu tô com medo de alguma coisa.
Entendi.
Aí eu vou lá e só olho. Ele vai lá e fala: "Tá encarando por quê?" Aí vai lá e me para também, tá ligado? [risadas]
Resumindo, você é o cara do Freedom Place, brother.
É o cara do Freedom Place. [risadas]
Vai ser abordado vinte e quatro horas. Pô, mas eu fico feliz com isso, cara. É sinal que o policial tá trabalhando.
Não, com certeza. E que eu não passo batido de jeito nenhum, tá ligado? [risadas]
Com quantos anos você cometeu o seu primeiro crime?
Foi com catorze anos, cara, quando eu tive meu primeiro envolvimento com, com tráfico. Foi quando eu tive o primeiro contato de querer comprar pra vender onde eu moro.
É tipo estica?
É, tipo assim, faz o adianto, tal, dá o adianto. Pela minha aparência, qual seria a probabilidade de você me enquadrar se eu estivesse andando na rua sozinho à noite? [risadas]
Cara, não precisaria nem ser à noite, brother. [risadas] Conte a coisa mais engraçada que aconteceu com você durante uma abordagem.
Pô, pra mim, eu não sei. Pros polícia, eles riam pra car*lho de mim. [risadas] Quando eles, quando eles me batiam, tavam rindo pra caralho. Não, mas tem um, um bagulho que foi engraçado mesmo. Vocês já chegam com autoridade, vocês não podem, po-podem perder a postura de vocês lá. Aí o policial me abordou, o policial até foi educado comigo, ele chegou: "Arrombado". Aí eu: "Boa noite, senhor". Ele: "Encosta".
Eu já tava encostado, mas só indo de cantinho pra passar batido. Aí ele: "Rapá, foi tu que fez um assalto em janeiro de 2021". Eu falei: "Que isso, meu, meu senhor, não foi eu não". Ele me dá mó tapão na cara. Ele: "Rapá, tu quase atira em polícia". Eu falei: "Que isso, meu senhor, eu já falei que não foi eu". Ele: "Rapá, como é que tu fala com tanta autoridade assim?"
Falei: "Meu senhor, em janeiro de 2021 eu tava preso, meu senhor". [risadas] Aí o policial atrás dele: "Porra, Zé, aí é foda", né? [risadas]
Você sente que mereceu a sentença que você recebeu?
Pra ser honesto, sim, mas com aquele também, tipo assim, falam que o réu primário tem o, o mínimo, né, da, da pena. Eu fui réu confesso. Desde o momento que eu fui preso, eu falei: "Ó, errei, então vou pagar pelos meus erros". Então não vou dificultar o processo andar. Eu ganhei dez anos, fechado. Eu saí graças à pandemia, que eu saí de VPL, por bom comportamento-
Você assinou o cento e cinco, sete?
Eu assinei o cento e cinquenta e sete. Eu não falo cento e cinco, sete, não, que numa abordagem fala: "Tu é o quê?" Cento e cinquenta e sete, isso aí, ó.
Pra tentar amenizar.
É, pra amenizar, porque tu fala que é um cento e cinco, sete, "Tu é um cento e cinco, sete, rapá?".
Cento e cinco, sete é...
Não, eu platiquei o artigo cento e cinquenta e sete do artigo penal, tá ligado? [risadas] Dá uma amenizada, tá ligado?
Você acredita que foi tratado de forma sub-humana na cadeia?
A alimentação é desumana na cadeia. Fora isso, cara, acredito que é o certo a se fazer. Ali não é hotel, os próprios presos falam: "Não, cê não tá ali pra ter luxo, cê não tá ali de, de férias, cê tá ali pagando por um erro que você cometeu". O que você faria se a polícia mandasse você parar?
A primeira coisa que eu faço quando eu vejo uma viatura é abaixar os vidros, se for à noite, abaixar o farol e acender a luz do salão. E aí eu vou avaliar pra ver se realmente é polícia, que infelizmente o Rio de Janeiro tem vagabundo que se veste de polícia. E aí quando eu consigo constatar que realmente é um policial, na mesma hora me identifico.
Eu pararia, sempre parei, nunca tentei fugir. A gente sabe que fugir é pior.
É bem pior.
É bem pior, porque se você fugiu já ali no ato, cê já tá devendo alguma coisa.
Sim.
Então o policial já tem outra atitude a partir daquele momento que você deu fuga nele. Teve um dia que o policial me abordou, eu fui usar o nome de um, de um policial, tá ligado? Falei assim: "Não, pô, sou sobrinho do, do, do Peçanha", vou botar assim. Aí, aí ele: "Quem é polícia?" Eu falei: "Porra, meu tio". Ele: "Então, f*da-se. Teu tio é polícia, não é você".
[risadas]
Você acha que eu tenho cara de policial?
Cara, corpo e alma. [risos] Eu tinha até uns macete pra não ser parado pela polícia com essa cara que eu tenho.
Certo.
Eu ficava dentro de casa. [risos]
Quais drogas você já experimentou? Eu experimentei álcool e cigarro.
Eu posso falar menos, só... [risos] Menos desses. Eu só vou beber por causa da minha mãe, que ela vai assistir, tá? Nunca tomei vinagre na vida.
Hã?
Você bebe? [risos]
Conte um momento marcante ou uma situação inusitada vivida na prisão.
Pô, momento marcante, cara, foi a minha chegada na cadeia. E o policial, pô, te dá cá mó terror. Rapá, vamos te comer lá dentro, tal, vão te comer. E se tu não der, vão te meter-lhe a porrada. Eu ficava com esse medo de quererem me bater pra me comerem, tá ligado? Sério, tinha medo mesmo, tá maluco? Aí quando eu cheguei na minha cela, mano, tinha uns cara grandão, velho.
Aí tu tranquilão, pensando em bater, né?
A pessoa, tu tem que dar ainda apanhar pra soltar, porra. [risos] Pra se ferrar duas vezes? Eu acredito que tenha algum crime que não tenha perdão.
Cara, quem sou eu pra falar de perdão, né, brother? Eu acho que perdão é uma palavra muito pesada, mas eu acho que o estupro, cara.
Sim.
É algo assim que...
Que não consegue-
Não consigo entender, entendeu?
Porque eu também não consigo lidar como se fosse uma doença, as pessoas falam que é doença, não é.
Não, não é uma escolha.
É porque até mesmo dentro dos presídios, é uma coisa que pode ver que nem crime, mano, aceita uma prática dessa. Conte um momento marcante ou situação inusitada vivida no serviço.
E uma noite de Natal ligaram pra base, a mulher ligou dizendo que o marido tava querendo estuprar ela. E nós chegamos na cena, portão era baixo, eu olhei, camarada tinha aquela, aquela deficiência de nascença, que tem uma perna fina.
Uhum.
E ele tava pelado, irmão.
Caraca.
Perna prum lado.
Negócio pro outro.
Geba pro outro, correndo atrás da mulher, pelado no quintal. E eu com fuzil: Federal, bota o short. Ele: Tá maluco, rapá? A mulher é minha.
Caraca.
Eu como a hora que eu quiser. Falei: Não é assim não, camarada. Aí quando eu olhei assim na porta da sala, duas crianças, cara, sentada no sofá. Aí dei o fuzil pro comandante. Tá maluco, rapá? A mulher é minha.
Que garrafa.
Desmaiei ele e falei pra mulher: Bota o short nele. Como foi sua criação? Você acha que ela influenciou quem você é hoje?
influence, eu sou nascido e criado em Belford Roxo e tive aquela influência que todo morador de Belford Roxo tem, tá ligado? Tipo assim, com sete anos eu ganhei minha primeira arma. [risos] Não, tipo, sempre joguei bola, tinha o sonho de ser jogador de futebol, só que eu fui me afastando aos poucos. Não é pela criação, porque meu irmão teve a mesma criação que eu, meu irmão é uma pessoa super foda, meu irmão nunca se envolveu com crime, sempre trabalhou.
Você acredita em resso-ressocialização?
Claro que eu acredito, se eu não acreditasse, eu não tava aqui, brother, diferente pra tu. Se eu tivesse uma dúvida que tu ainda era tralha, mano, eu não tava sentado contigo nessa mesa.
Nem eu. [risos]
Tenho certeza. Conte a coisa mais engraçada que aconteceu com você na cadeia.
Como eu tava com propósito com Deus, né, todos os dias eu conversava com Deus, e eu fiquei preso na pandemia, que foi um momento muito difícil. Eu tava vendo a reportagem que ia começar as Olimpíadas, aí eu, pô, pedi com toda fé que eu tinha no mundo, falei assim: Senhor, eu quero assistir as Olimpíadas em casa, pô, gosto de assistir as Olimpíadas. E passou, fiz esse pedido pra Deus, dormi.
Pô, eu lembro que no outro dia eu acordei seis da manhã nesse susto, eu tomei um susto, que eu só ouvi da televisão assim: "Olimpíadas é adiado pra 2021". Falei: Que isso, meu Deus, tão rápido assim, meu parceiro? Que isso.
Como seu passado tem afetado o seu filho?
Afeta... Até num acontecido há pouco tempo atrás. Esses dias ele tava brincando na rua e eu escutei ele de longe falando pro garotinho, tá ligado? Pro amiguinho dele. Ó, meu pai já foi preso, hein? Pô, chamei ele na hora, tá ligado? E fui reprimir ele, falei assim: Ó, Lorenzo, isso não funciona com filho bom da boca, cara. [risos]
Pô, é cara, tu nasceu pra ser palhaço mesmo, na moral. Isso é muito bom, cara. Você acredita que cometer um crime-
Você é a favor da pena de morte?
Não, porque eu acho que a nossa justiça é muito falha. Acho que iria morrer muitas pessoas inocentes.
Eu também não sou a favor, não. Porque, tipo assim, ninguém tem esse poder de poder decidir se vai continuar vivo ou não.
Diga três coisas que temos em comum. Eu vou falar. Tatuagem, disciplina, e a terceira coisa, cara, acho que é feiura, que tu é feio igual a mim.
Diga três coisas que você gostou em mim. Porra, já pedera cheia já. Pederastia, mano.
Pô, tu é bichão.
Já tô vendo, já fez até o corte lá. A outra parte tá pegando o corte.
Eu só vou responder-
Se assume na frente dos meus presidiários. [risos]
Então, o que eu gostei foi a forma com que você falou de Deus, a forma com que você falou do seu filho, me trouxe muito a minha conexão com os meus filhos, porque tudo que eu faço é pelos meus filhos, e a tua disciplina em querer ser uma pessoa diferenciada.
Assim, as três coisas que eu gostei em você, mano, foi que sua mão parece bem lisa, não vai doer tanto. [risos] Você também, mano, ter falado sobre sua família, essa força de vontade de vencer por eles, na sua educação também, que eu acredito que a forma que você passa, que pra quem te respeita, é a forma que você passa no seu trabalho.
Sim.
E gostei também das tatuagens, mano, tá de boa pra caraca. [risos]
Muito obrigado mesmo. [aplausos]
Volta, tira, volta agora, volta. [risos]