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Conhecendo um ex-preso — Crianças perguntam
9 min de vídeo · 2 mil palavras
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Faz um videozinho de bastidores pra mim? Se alguém puder. Só pra mim mostrar pro juiz lá no dia de assinar. [risadas] É sério, não é piada não, gente.
[música alegre]
Oi, tudo bem?
Oi, tudo. Na paz?
Sim.
No pelo?
Ó, meu nome é Manuela. Oi, Manu.
Oi.
Oi, Evelyn.
Tudo bem?
E aí, cara.
Na paz?
Meu nome é Miguel.
[risos] Fala tu.
Meu nome é Leôncio. E o seu?
O meu é João.
Ah, tá bom. Bora.
O que que fez a gente tá aqui?
Cê não sabe ainda?
Não.
Então vamo lá. Eu tinha umas amizades, então a gente planejou fazer um assalto. E nesse assalto, a gente acabou sendo preso.
Como foi o assalto?
Eu sequestrei um meninin de dread. Mentira. [risos]
Brincadeira. Foi brincadeira.
Tava eu e amigo, e ele falou desse plano que ele tinha. A gente chegou nesse prédio, onde essa empresa prestava cursos e lá tinha um cofre. E a gente foi, pediu à, à gerente do local pra poder abrir o cofre, pra gente poder levar o dinheiro que tava lá. E assim que a gente pegou o dinheiro, a gente saiu e fugimos de moto até o local seguro pra gente.
E depois de três dias, a Polícia Civil entrou na minha casa. [riso]
E o seu amigo também foi preso?
Ele se entregou depois de uma semana. Ele preferiu se entregar, pagar pelos nossos erros e depois sair e mudar de vida também. Ele também mudou de vida.
E se tu tivesse a chance que tu não seria pego, tu ia fazer de novo?
Com os pensamentos que eu tenho hoje em dia, eu não faria. Mas se fosse antigamente, faria sim. Mas hoje em dia não, porque eu já experimentei o lado ruim, que foi ser preso. Eu não faria porque eu taria retirando as coisas de outra pessoa. Eu não quero mais isso pra minha vida, entendeu?
O que teria acontecido se você não tivesse sido pego?
Eu acho que eu taria morto hoje. Tem muitas pessoas que falam assim: "Ah, Deus me colocou aqui preso". Você mesmo se colocou preso. Deus permitiu que você fosse preso para que você não viesse morrer.
O que você teria feito com o dinheiro que você roubou, se você não tivesse sido preso?
A ideia era pegar um dinheiro, comprar algo pra eu poder começar a trabalhar, vender, investir em alguma coisa.
Hum.
Entendeu? Acredito que muitas pessoas, quando comete um crime de roubo, a intenção é você conseguir uma meta de dinheiro pra você não fazer mais. Tipo assim, alcançar a riqueza rápido.
Cê já sofreu bullying por ser preso?
Todo dia, meus amigos ficam me zoando. Todo dia, todo dia eles ficam fazendo piadinha comigo.
Você sofre algum preconceito, alguma coisa do tipo, de já ter sido preso?
Eu acredito que deveriam ser assim. A pessoa errou, cometeu um crime, ela deveria sair com mais oportunidades e menos preconceitos, porque é muito difícil você arrumar um trabalho, você sendo um ex-presidiário. Então eu acredito que deveria ter projetos de você, quando sair da cadeia, você conseguir um trabalho.
É.
Porque se você não conseguir um trabalho, você vai pensar em fazer besteira novamente.
Pois é, né?
E a comida lá da prisão era boa ou não?
Não, não. A comida na hora das vezes vinha azeda. Já comeu comida azeda?
Não, nunca.
Não é bom, não. Não é bom, não.
Lá você já partici-- já participou de alguma briga?
Não, lá dentro tem regras.
Regras.
Você tem que seguir vinte e quatro regras. E lá tem uma que é: quem agride, é agredido, sabia?
Sério?
Sim. Então se você agredir alguém, vão te agredir também.
Nossa!
Lá não pode nem xingar.
O que você fazia no tempo livre na cadeia?
Lá a gente ocupava nossa mente jogando dama, fazia carta de baralho com caixa de leite.
Total.
A gente gostava de ver desenho. [risos] Lá eles já brigaram, assim, discutiram com o outro, porque um queria assistir Repórter, o outro queria assistir... Como é que é o desenho da, da menininha e do urso?
Masha e o Urso.
Masha e o Urso.
Será que na prisão podia jogar algum brincadeira, alguma coisa, malhar?
Toda semana você tem direito a um banho de sol, que o, os guarda vem, te tira, te leva pra uma quadra e lá você fica tomando banho de sol du-durante duas horas.
É, quanto tempo que você ficou na cadeia?
Fiquei dois anos e três meses. Dois Ano Novo. Já tá dois Ano Novo na rua. Passei dois Ano Novo lá preso. [riso]
Nossa!
Cê, o que você já perdeu?
O que, o que você acha que eu perdi nesse tempo que eu fiquei preso?
É.
Quando eu fui preso, meu filhinho tinha dois anos, então eu perdi essa fase, porque eu nunca permiti que meu filho fosse lá dentro me visitar. E também a tecnologia, né? Muita coisa mudou. Já lançaram dois iPhones novos. Quando eu saí, tinha um tal de Pix aí, ninguém falando "faz Pix, faz Pix", eu não sabia o que que era Pix. E também inventaram a nota de duzentos reais.
Você viu? Quando eu saí, eu pensei que o cara tava me enganando com a nota de duzentos reais. Falei: "Cara, cê tá doido, cara? Essa nota é fake? Isso aí paga duzentos reais?" Cê já viu nota de duzentos?
Já.
É, eu já vi, só nunca tive. [risos]
Que foi a reação da tua mãe?
Então, a minha mãe ficou bem triste pela minha atitude que eu tomei. E não é um lugar, um local bom pra sua mãe te ver. Então acredito que ela sofreu mais do que eu. Os comentários das pessoas: "pô, você tem um filho criminoso". É muito ruim você decepcionar seus pais.
Ela gosta de ver você como comediante?
Sim, sim. Ela fala que vê muita diferença quando eu era do tráfico e fazia assalto pra comédia. Tipo, no tráfico eu ganhava dinheiro. Agora eu... [risos] Agora-- Mas eu vou ganhar, tá? Ainda.
Qual foi a prisão que cê foi preso? A Cidade da Polícia?
Não, eu não fui pra Cidade da Polícia.
Ah, queria que fosse lá na Cidade da Polícia.
Que isso, gata? Tu queria que eu fosse preso lá? Que isso, gata.
Não, mentira. [risos]
Não, cara.
Desculpa, cara. Desculpa.
Cê acha que é como uma cadeia?
Lugar, lugar apertado. Tem uma cama de madeirinha e um banheirinho.
Tu já viu o Big Brother?
Já.
Já?
Já.
Tem nada a ver com aquilo ali. Então... [risos]
Eu achei que ia ser um quarto bem grande.
Não, não. É um quadrado de cinco metros por quatro. Tem três camas de pedra. São beliches. São três camas de pedra com dois locais pra cada preso dormir. Então o certo seriam seis pessoas ali. Só que eles costumam colocar vinte e nove, vinte e oito pessoas na cela. Eu até reclamei até uma vez lá com, com, com o responsável lá. Falei: "pô, cara, a cela só cabe seis pessoas".
Aí ele perguntou pra mim: "pô, tem quantas?". Falei: "pô, vinte e oito". Ele: "pô, se tem vinte e oito, cabe vinte oito, né?".
É, era sempre a mesma coisa, assim?
Porque seis horas da manhã você acorda, confere. Aí dez horas da manhã-- nove horas da manhã vem o café da manhã, depois vem o almoço meio-dia e quatro horas da tarde vinha a janta. Aí todos os dias se repetindo as mesmas coisas, cê vive naquela rotina que cê parece que tá preso no tempo.
Nossa, mas isso tudo em dois anos?
Acontece muita coisa. Por exemplo, fiquei preso na pandemia. Como é que foi a pandemia aqui fora pra você?
Ai, foi horrível.
Lá a gente só via na televisão, as, as pessoas tudo com roupas brancas assim.
Sim.
A gente ficava assim: "não é possível que o mundo vai acabar logo quando eu fiquei preso, cara. Não é possível". E vocês ficaram em quarentena também, né? Aí eu falei: "pô". Eu ficava pensando: "pô, não tá todo mundo preso, né? Não é só eu". Você acha que todo mundo que foi preso merecia uma segunda chance?
Sim, pra ele melhorar Pra pensar o que ele fez.
E você acha que merece uma segunda chance?
Sim.
Por que você acha?
Porque todos nós erramos às vezes, até eu.
A gente tem que sempre respeitar os nossos pais. Eles já viveram muito mais coisas do que a gente, então eles sabem o que é certo, o que é errado. Eu me arrependo muito nesse ponto de não ter ouvido minha mãe, entendeu? Porque eu achava muito que eu era o dono da verdade. Eu achava que tudo que eu fazia ia dar certo, e não é. E quando eu errei, só ela que ficou do meu lado.
Ninguém nunca foi me visitar no presídio, só minha mãe. Escutem mais os seus pais. O seu pensamento sobre alguém que foi preso?
Ah, primeiro eu acho que a pessoa, tipo, é uma pessoa ruim, mas agora, agora eu já mudei.
É, porque tipo assim, todo mundo acha, se a pessoa foi presa, é porque fez merda.
Sim.
Entendeu? Nem sempre. No meu caso, sim. Mas nem sempre. [risos] Nem sempre, nem sempre, nem sempre.
O que aconteceu pra sua orelha tá furada?
Eu usava largador. Pessoa que era tiro. [risos]
Não, não.
Falei: "Caraca, foi por pouco, hein?" [risos]
O que que te fez você ser comediante agora?
Porque uma pessoa falou pra mim assim: "Pô, você é engraçado, por que você não faz stand up?" E fiz o meu primeiro show.
Ah, foi legal?
Foi muito ruim o primeiro. [risos] Mas depois eu fui aprendendo e conhecendo um pouco mais do que era o stand up.
Ah, cê é comediante?
Sim, quando eu saí da cadeia, eu conheci o stand up.
Fala uma piada aí.
Sabe que todo mundo me pergunta isso, cara. Não é assim que o stand up funciona, porque a gente monta texto. Isso que cê tá falando é piadoca. Eu não faço piadoca, por exemplo, é: por que a galinha atravessou a rua? Sabe?
Porque ela queria chegar do outro lado.
Não, pra eu roubar ela. Mentira. [risos] Essa é a piada do meu filho, sabia?