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1 Treinador vs 30 Gordos

1 h 23 min de vídeo · 17 mil palavras · Com Guto Galamba

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Legendas em português

Cada minuto é um botão que toca o vídeo a partir daquele trecho.

Participante

Pra eu tá aqui hoje, eu tô extremamente desconfortável e a minha vontade aqui é de te atacar.

Guto Galamba

Eu sinto muito.

Participante

Enquanto pessoas gordas.

Guto Galamba

Pelo que você passou.

Participante

Eu, eu não acho que você sinta.

Guto Galamba

Mas não importa o que você acha.

Participante

Eu já disse o que eu queria falar.

Participante

Você tem um problema, um grande problema de não ouvir as pessoas. E eu queria falar.

Guto Galamba

Mas se eu for falar dos teus problemas aqui agora também.

Participante

Pega a visão.

Guto Galamba

Vai, vai.

Participante

Do que tu tá vendo aqui e do que tu vê na tua vida. Tipo assim, eu já busquei, muita gente já buscou, correu atrás. Não conseguiu. A gente só quer ser respeitado. A vida toda a gente sofre. Eu já sofri pra c**** por causa de mulher. Ficava frustrado em casa, p****, ela não gosta de mim porque eu sou gordo.

Participante

Não, obesidade num, num, não quer dizer uma falta de valor.

Guto Galamba

Babi.

Participante

Oxe, nunca vai falar?

Participante

Oxe, é o tema, né?

Guto Galamba

Mas, veja, é o que eles tão achando, não sou eu. Essa minha camisa aqui? Ô coisa maravilhosa, ainda bem que cês falaram.

Participante

Um símbolo.

Guto Galamba

Cê sabe o que é que é isso aqui?

Participante

Hum.

Guto Galamba

Falar agora o que é que é isso aqui. Deixa eu falar com ele aqui, rapidinho. Como é o seu nome?

Participante

Eu vou falar o seu nome.

Guto Galamba

O meu nome eu sei.

Participante

Luiz.

Guto Galamba

Agora, veja só.

Participante

Augusto Targino.

Guto Galamba

Você está tentando.

Participante

Galamba Fernandes.

Guto Galamba

Você está tentando ter uma sessão de terapia.

Participante

Você disse que você.

Guto Galamba

Meu nome é Guto Galamba, eu sou formado em Educação Física, especialista no tratamento da obesidade e emagrecimento. Também sou especialista em psicologia positiva e ciências do bem-estar pela Yale University e hoje eu estou aqui cercado por trinta gordos. E o primeiro tema é: ser gordo é uma escolha. Como é teu nome?

Participante

É, Paulo Veras.

Guto Galamba

Prazer, Paulo, Guto.

Participante

Igualmente, prazer.

Guto Galamba

Que bom que cê tá aqui. O que que cê acha desse tema?

Participante

Ó, eu acho que é assim, vamo lá. Parte pro princípio. Você é formado em Educação Física, né? E você foi uma criança.

Guto Galamba

Sim.

Participante

Então você criança, cê já foi gordo, antes de você se tornar um profissional de Educação Física. Então você não escolheu, né, primeiramente quando nasceu, ser profissional de Educação Física. Então, por isso que eu falo que é uma escolha. Eu sou gordinho, peso cento e vinte quilos. Então eu sou um cara feliz, por eu tá gordo, cê entendeu? Eu escolhi, porque assim, eu já fui magro, engordei. Então a me, a escolha é minha.

Posso ir pra academia, malhar e emagrecer, mas não, tô feliz assim, como eu tô hoje.

Guto Galamba

Então tu concorda comigo, que ser gordo é uma escolha.

Participante

É uma escolha, porque assim, a gente nasce, certo? Eu era magro e fiquei gordo. Então, isso não vai interferir na minha vida particular, na minha vida social. Eu posso ser muito.

Guto Galamba

Então.

Participante

Posso ser muito feliz.

Guto Galamba

Então, vai.

Participante

Do jeito que eu sou.

Guto Galamba

Não, mas a gente não tá falando de felicidade.

Participante

Em qual questão? É, é uma escolha.

Guto Galamba

Mas vamos trazer felicidade pro tema também.

Participante

Eu, eu sou gordo hoje.

Guto Galamba

Tudo bem.

Participante

Eu posso amanhã, pode, tá.

Guto Galamba

Tu devia tá aqui.

Participante

Tá.

Guto Galamba

Concordasse comigo.

Participante

Mas não é.

Guto Galamba

Não, me ajudou, me ajudou. Como é seu nome?

Participante

Desculpa, não tenho o prazer de te cumprimentar.

Guto Galamba

Não tenho o prazer de me cumprimentar?

Participante

Não tenho o prazer de te cumprimentar.

Guto Galamba

Não tem problema.

Participante

Antes de me.

Guto Galamba

O seu nome.

Participante

Antes de me apresentar, eu preciso falar que a gente tá aqui, a gente foi convidado pra falar sobre corpo livre. Quando a gente pensa sobre corpo livre, a gente primeiro tem que entender o que que é um corpo que não é livre.

Guto Galamba

Mas da onde você tirou a ideia do corpo livre?

Participante

Na concepção de um corpo que não é livre, a gente pensa num corpo que é limitado.

Guto Galamba

Certo.

Participante

O que que é um corpo que é limitado?

Guto Galamba

Aquele que não funciona como deveria.

Participante

O seu corpo é um corpo limitado.

Guto Galamba

Todos nós.

Participante

Assim como o meu corpo também é um corpo limitado.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Você consegue ficar quinze minutos embaixo d'água?

Guto Galamba

O que que tem a ver uma coisa com a outra?

Participante

Eu tô te fazendo uma pergunta.

Guto Galamba

Não, tu consegue?

Participante

Não, eu também não.

Guto Galamba

Não, eu já tentei.

Participante

Todos os corpos são limitados. Quando a gente fala de corpo livre, a gente tá falando sobre restrição.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Não sobre limitação.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Alguém aqui conhece ele? Já ouviu falar dele?

Participante

Sim.

Participante

Já? Só você? Parece que nós não somos o seu público. Parece que nós não somos o seu nicho.

Guto Galamba

Mas a ideia é essa.

Participante

Sim, isso é muito bom.

Guto Galamba

Se eu trouxesse trinta pessoas que concordam comigo, a gente não teria um programa.

Participante

Sim, tudo bem.

Guto Galamba

Agora vamo fazer o seguinte. Primeiro ponto: como é seu nome?

Participante

Eu, antes de me apresentar, eu quero te falar.

Guto Galamba

Mas entenda.

Participante

Que no momento em que todos nós aqui chegamos, antes de você saber o nosso nome, a nossa identidade, você já olhou pros nossos corpos.

Guto Galamba

Ah, onde isso...

Participante

Então, o nosso corpo.

Guto Galamba

Como é seu nome, querido?

Participante

Ele vem antes da identidade.

Guto Galamba

Como é o seu nome?

Participante

Eu vou falar o seu nome.

Guto Galamba

O meu nome eu sei.

Participante

Luiz.

Guto Galamba

Agora, veja só.

Participante

Augusto Targino.

Guto Galamba

Você está tentando.

Participante

Galamba Fernandes.

Guto Galamba

Você está tentando ter uma sessão de terapia.

Participante

Você diz que você é especialista em psicologia? Você tem CRP?

Guto Galamba

Ele quer uma terapia. Como é seu nome, irmão?

Participante

Prazer, irmão. Meu nome é Hulk.

Guto Galamba

Prazer, Hulk.

Participante

Podem me chamar de Hulk.

Guto Galamba

Tu já foi no...

Participante

Aqueles Cara.

Guto Galamba

Aqueles Cara, eu vi, véi. Foi irado. Vai, fala.

Participante

Então, o, sobre o tema, é, ser gordo é uma escolha, eu não concordo.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Por quê?

Guto Galamba

Fala.

Participante

Porque eu, eu não sei cientificamente.

Guto Galamba

Tá bom.

Participante

Mas eu, é o que eu ouço desde.

Guto Galamba

Tá bom.

Participante

Da infância. Eu tenho tendência em engordar.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Porque minha irmã é gorda, o meu pai era go-- era gordo, minha mãe é um pouco gordinha, inclusive ela foi também, apareceu já em outros canais, enfim. Então não é uma escolha eu ser gordo.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Eu tenho, o meu corpo, ele já, tipo assim, ele já tem uma, uma parada pra engordar. Se eu parar de ir pra academia, eu emagreci trinta quilos com jiu-jitsu.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Jiu-jitsu salvou minha vida, inclusive.

Guto Galamba

Osso.

Participante

O esporte salva, osso. O jiu-jitsu salvou minha vida. Eu tava, o, eu fui no médico, o médico virou pra mim e falou assim: "Você vai morrer antes do seu pai, se você não emagrecer." Eu tava mais gordo que isso. Fui pro jiu-jitsu, emagreci. Tive uns problemas psicológicos.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Não consegui voltar.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Não tive, não tenho, não tenho mais motivação pra levantar da cama e comecei a beber muito, engordei por conta disso. Então, ser gordo pra mim não é uma escolha.

Guto Galamba

Legal.

Participante

É uma, o meu psicológico, ele não consegue se adaptar.

Guto Galamba

Deixa agora, se você me permitir uma visão diferente.

Participante

Claro.

Guto Galamba

E trazendo um pouco de ciência, porque é a minha base de análise, porque senão vai ficar a minha opinião contra a tua e azul é bonito, ou não é, e ferrou. Concorda?

Participante

Azul é lindo, Bjo.

Guto Galamba

Não, é "nóis". Existem dois tipos de obesidade. Tem a obesidade mesogênica e obesidade poligênica. O que que é isso? A mesogênica é aquela que depende exclusivamente do caráter genético. Sabe quantos por cento da população que é obesa, é exclusivamente pela genética?

Participante

Hum.

Guto Galamba

Menos de cinco por cento.

Participante

Eu posso tá nesses cinco.

Guto Galamba

Não, total, cê pode tá nesses cinco. Qual é a outra, o tipo de obesidade? Que é a poligênica. É aquela que vem a genética, o ambiente e os comportamentos. Pelo que você tá me dizendo, cê não tem a mesogênica.

Participante

Uhum.

Guto Galamba

Porque você consegue emagrecer quando você quer. E tudo que você disse que te fez engordar, foram os seus comportamentos. E tudo bem, que pô, cê passou por um momento difícil, cê teve problemas psicológicos e querendo ou não, a gente foge. E geralmente, sabe pra onde a gente foge, Hulk?

Participante

Hum.

Guto Galamba

Álcool, comida, sexo, celular e televisão Tudo que deixa a gente completamente apático mentalmente falando. E querendo ou não, aqui no córtex pré-frontal, uma região aqui do nosso cérebro-

Participante

Aham.

Guto Galamba

Atua um neurotransmissor chamado dopamina. É aquele neurotransmissor que dá vontade de fazer as coisas, de querer fazer.

Participante

Eu não consigo controlar isso também, né? Certo.

Guto Galamba

Cê consegue controlar com bons comportamentos, por quê? Qual é a ideia? Quando eu vou lá e como uma pizza, o córtex pré-frontal ele também é afetado por álcool, açúcar e gordura. Quando eu como uma pizza, aquela bomba de açúcar e caloria atura o meu córtex pré-frontal e diz: "Pô, eu tô feliz." Então eu crio uma ilusão de que aquilo ali tá me dando um conforto e de fato tá naquele momento, mas a médio e longo prazo, vai virar como uma droga, cê vai precisar de cada vez mais.

Eu tenho certeza que quando cê-

Participante

E não é uma escolha minha quando cê... Por isso que ser gordo não é uma escolha.

Guto Galamba

Então, qual é a ideia? A partir de agora, você não tinha essa informação, concorda?

Participante

Aham.

Guto Galamba

A partir de agora você sabe que é uma escolha, você pode não comer.

Participante

Mas até-

Guto Galamba

Por mais difícil que seja.

Participante

Mas aí eu vou ter que fazer um tratamento psicológico.

Guto Galamba

E é uma escolha sua fazer ou não. Não, sim, mas é uma escolha.

Participante

Mas eu tenho condição? Então não é uma escolha ser gordo.

Guto Galamba

Mas veja, mas veja, você pode não ter o melhor psiquiatra.

Participante

Hã.

Guto Galamba

Mas cê pode ir no, no, no YouTube, você pode pesquisar outras coisas e você fazer o melhor que você pode com as condições que você tem.

Participante

Mas você também, você não concorda comigo que uma vida de es-de estudo, de trabalho, de filho, de mulher.

Guto Galamba

Irmão, o que eu concordo contigo é que é difícil pra cacete.

Participante

Então não é uma escolha.

Guto Galamba

É claro que é.

Participante

Mas como assim? Se é difícil pra caramba.

Guto Galamba

É a mesma coisa. Mas oxe, então porque é difícil não é uma escolha? É uma escolha muito difícil.

Participante

Mas acaba sendo mais complicado, porque junta tudo isso que você falou.

Guto Galamba

Tô com você. É muito mais complicado. Talvez você tenha uma vida muito mais difícil, que exija muito mais de você do que de outra pessoa, mas ainda assim é uma escolha.

Participante

É isso, mas é, e, e também o que acontece? Eu busco a escolha, eu vou pra academia e é um amb-- é um ambiente que eu não me sinto confortável.

Guto Galamba

E o Gil?

Participante

Porque as pessoas como... Muito bom, muito bom. Porque pessoas como você me olham estranho na academia.

Guto Galamba

Mas como eu não, irmão.

Participante

Não, como você ali fisiculturista [interferência] não sei o quê, me olham estranho na academia. E tenho certeza que a maior-a maioria aqui concorda.

Guto Galamba

Mas aí você tá, pô, mas tem gente escrota no mundo, cara.

Participante

Então, mas é muito mais difícil pra gente. Então não é uma escolha ser gordo. Ah, eu sou gordo, quero ser gordo.

Guto Galamba

Vamo lá, vamo lá.

Participante

É tudo mais difícil pra gente.

Guto Galamba

Vamo supor o seguinte: pra pegar o remédio que tu precisa, tu tem que encarar essa gente escrota. É uma escolha ou não encarar?

Participante

Não entendi, desculpa.

Guto Galamba

Pra pegar o remédio que tu precisa pra se salvar.

Participante

Aham.

Guto Galamba

Tu tem que passar por esse processo de encarar essa galera escrota.

Participante

Sim.

Guto Galamba

É uma escolha encarar ou não. É uma escolha trocar de academia. É uma escolha treinar em casa. Por que cê não treina em casa? Compensa o próprio corpo.

Participante

Mas é muito mais fácil falar assim quando você não tem predisposição pra ser gordo.

Guto Galamba

Não, não, não. Veja só, que eu estou te dando opções.

Participante

Aham.

Guto Galamba

E pra cada opção que eu dei pra salvar a tua vida, tu colocou uma dificuldade a mais. Sabe o que é isso?

Participante

Porque eu vivo.

Guto Galamba

Eu sei, mas isso é outra coisa também cientificamente falando. O seu sistema de recompensa já está desajustado. É mais fácil, concorde comigo.

Participante

Hã.

Guto Galamba

Eu pedir demissão do que continuar no emprego. É mais fácil eu dizer que pra mim é [interferência] continuar do jeito que eu tô, do que me entregar um pouco mais. Eu não tô dizendo, irmão, que é fácil. Eu tô dizendo que pode ser feito.

Participante

Eu não me entrego, mas as barreiras que vão aparecendo na, na minha, e acredito que na vida de, da maioria aqui, não deixam a gente chegar lá com muita facilidade.

Guto Galamba

Concordo plenamente.

Participante

Entendeu?

Guto Galamba

Concordo plenamente.

Participante

Com mais facilidade.

Guto Galamba

Concordo plenamente. Agora vamo lá. Dentro dessa falta de facilidades, qual o seu grau de contribuição nisso?

Participante

Eu vou pra-

Guto Galamba

Pausar aí. Opa. [som de batida] Como é teu nome?

Participante

Fernando.

Guto Galamba

Fala, Fernando.

Participante

Pô, discordo de você, porque-

Guto Galamba

Tá, por quê?

Participante

Primeiramente porque eu não tô gordo, eu tô inchado. Tudo que eu como, me incha. [risos]

Guto Galamba

Sabe como é que a gente chama isso?

Participante

Hum.

Guto Galamba

Dentro do campo médico?

Participante

Hum.

Guto Galamba

Se você parar pra ver, veja só, eu vou descrever o seu rosto, posso?

Participante

Pode.

Guto Galamba

Ele está inchado, ele está inflamado, ele está avermelhado e ele está oleoso, concorda?

Participante

Sim.

Guto Galamba

A gente chama isso de cara de cardiopata.

Participante

Você tá todo vermelho.

Guto Galamba

Não, eu tô bronzeado. É diferente. [risos]

Participante

Só o rosto e o pescoço, né? [risos]

Guto Galamba

É diferente.

Participante

Só o rosto e o pescoço.

Guto Galamba

Peço perdão. [risos] Tô bronzeado. Entende? O que é, o que que isso quer dizer? Não necessariamente eu tenha que estar imenso pra gerar comorbidades. O meu corpo ele começa a se inflamar. Quem é obeso aqui, antes de ser obeso, tava com sobrepeso. Antes de tá com sobrepeso, foi gordinho.

Participante

Não, eu nasci gordo.

Guto Galamba

Isso foi aumentando.

Participante

Então, tipo, eu nasci inchado então já.

Guto Galamba

Pode ser uma característica genética sua.

Participante

Não, mas eu sou o único da família gordo.

Guto Galamba

Você pode ter sido adotado, tá sabendo agora?

Participante

Pode ser.

Guto Galamba

Não sei. [risos]

Participante

Pode ser que seja.

Guto Galamba

Pô, eu nasci gordo.

Participante

Eu não sei falar.

Guto Galamba

Sempre foi assim.

Participante

Eu não, não sei, mas eu-

Guto Galamba

Mas me fala por que você discorda sobre ser uma escolha.

Participante

Porque tipo, o meu corpo, o, o corpo de qualquer um aqui não é a mesma coisa.

Guto Galamba

Me diz uma coisa.

Participante

Se a gente faz uma corrida, nós dois agora, você com seu corpo.

Guto Galamba

Me conta.

Participante

E eu com meu corpo.

Guto Galamba

Eu perco. Odeio correr.

Participante

Então pronto.

Guto Galamba

Mas me conta uma coisa. Me fala como é uma rotina alimentar do teu dia normal. O que que tu come no café da manhã? Não minta não.

Participante

Eu gosto de refrigerante.

Guto Galamba

Não.

Participante

Tomo refrigerante de manhã.

Guto Galamba

Tá bom.

Participante

De tarde e de noite.

Guto Galamba

Então isso é uma escolha ou não?

Participante

Eu não gosto, não gosto de suco. Eu gosto de refrigerante.

Guto Galamba

Mas a vida é sobre fazer o que gosta ou sobre fazer o que tem que ser feito pra ser uma pessoa melhor?

Participante

Eu acho que a vida você tem que fazer o que você gosta. Então tipo assim-

Guto Galamba

E fim de papo.

Participante

Exatamente.

Guto Galamba

Mas você viu muito filme da Disney, meu amigo. A vida é fazer o que gosta?

Participante

Sim.

Guto Galamba

Não, a nossa obrigação aqui são, somos sermos pessoas melhores e se der pra ser feliz, incrível.

Participante

Mas então ser uma pessoa melhor é respeitar os outros corpos que tem, pô.

Guto Galamba

Mas eu respeito os outros corpos. Quando foi que você me viu desrespeitar um corpo, me diga? Ave Maria. [risos] Não, só me diga quando. Tô chocada.

Participante

Agora há pouco você fez isso.

Guto Galamba

Quando? Quando eu descrevi o seu corpo?

Participante

Exato.

Guto Galamba

Mas você disse eu tô inchado, eu não sou gordo.

Participante

Não, mas beleza. Não, não, eu vi nas suas rede social. Você acabou de postar um vídeo.

Guto Galamba

Falando o quê?

Participante

Você-

Guto Galamba

Anti gordo.

Participante

Anti gordo.

Guto Galamba

Anti gordo? Ó onde cê viu isso, anti gordo?

Participante

Nos, nas suas-

Guto Galamba

Essa minha camisa aqui? Ô coisa maravilhosa, ainda bem que cês falaram.

Participante

Um símbolo.

Guto Galamba

Cê sabe o que que é isso aqui?

Participante

Hum.

Guto Galamba

Isso aqui é o maior-

Participante

É proibido inchar.

Guto Galamba

Não, não, vou te falar agora o que que é isso aqui. A pessoa gorda sendo negada. Deixa eu falar com ele aqui, rapidinho.

Participante

Obrigado.

Guto Galamba

Isso aqui é o maior movimento de combate à obesidade da América Latina. Já salvou mais de noventa mil pessoas nos três anos que ele existe. Está em processo jurídico agora pra se tornar uma ONG e entrar como serviço público nas prefeituras do Brasil. Qualquer pessoa que entrar na Anti Obesity tem acesso a dieta e a treinamento gratuito. Sabe quem criou?

Participante

Você?

Guto Galamba

Exato.

Participante

Tá, mas quem falou que eu quero ir fazer parte disso?

Guto Galamba

Eu não disse que você quer ir. Você me disse que isso aqui significa uma coisa que não significa.

Participante

Não, beleza, mas o meu corpo tá ok pra mim.

Guto Galamba

Então quem foi que julgou quem sem conhecer?

Participante

Você.

Guto Galamba

Eu não. Você chegou dizendo que isso aqui era errado.

Participante

Mas por que, mas por que colocou esse símbolo?

Guto Galamba

Porque eu sou obeso. Anti-obesidade. O nome do movimento é Anti-Obesity. O nome do movimento é esse. A ideia é combater a obesidade. Existem várias formas de eu te trazer à luz da consciência. Medo, dor, constrangimento, né, depende da narrativa com a qual você vai se identificar. Quando você chega pra mim e diz: "Eu sempre fui assim", tudo bem, mas não é porque você nasceu de um jeito, cê tem que morrer desse jeito.

Você pode mudar. Todo mundo aqui, quem nasceu pobre vai ter que morrer pobre?

Participante

Sim, eu passei por um processo, eu vou, eu envelhecer e ficar velho e morrer, se Deus quiser.

Guto Galamba

E a pergunta é, e a pergun-- e se Deus quiser e você ajudar, né?

Participante

Exatamente. Mas olha só, Edgar Vivar, é o senhor Barriga, né? Conhece?

Guto Galamba

Sim.

Participante

Tá obeso até hoje e não morreu.

Guto Galamba

Mas aí tu quer pegar uma pessoa do Chaves e usar como exemplo aqui, eu trazendo, nem Hulk concordou, a cara do Hulk ali. [risos] Ele não tá ajudando vocês.

Participante

Pois sim.

Guto Galamba

Mas veja só, vamo lá. Vai ter esse tema aqui mais pra frente. Existem pessoas que fumam-

Participante

Hum.

Guto Galamba

E não têm problema cardíaco respiratório?

Participante

Tem.

Guto Galamba

Então eu posso dizer que cigarro não faz mal?

Participante

Pra aquela pessoa.

Guto Galamba

Não. Obrigado. [risos] Deixa.

Participante

Poxa, não consegui correr, Guto.

Guto Galamba

Já vai ter. Tu tá, e tu, e tu tá mais perto que ele. Eu vou só saber seu nome agora.

Participante

O meu nome é Alexandre Lopes.

Guto Galamba

Vai, Alexandre, fala.

Participante

Eu sou formado médico veterinário.

Guto Galamba

Top.

Participante

Eu sou ativista corporal.

Guto Galamba

O que é um ativista corporal, pra quem não, não sei.

Participante

Eu sou ator e modelo. Eu me manifesto-

Guto Galamba

O que é ativista corporal?

Participante

A favor de que todas as pessoas sejam livres pra elas serem quem elas são. A obesidade é uma condição física, ela não é uma escolha.

Guto Galamba

Ela não é uma condição física.

Participante

E diferente-

Guto Galamba

Ela não é uma condição apenas física.

Participante

Do que muitos personal, personal trainers pensam, a obesidade ela não é só causada através da alimentação e da falta de exercício físico.

Guto Galamba

Foi o que eu acabei de falar.

Participante

A gente tem questões sociais, econômicas, metabólicas.

Guto Galamba

Foi tudo que eu acabei de falar. Concordamos cem por cento.

Participante

Ótimo. Que bom.

Guto Galamba

Qual é a sua questão sobre ser gordo é uma escolha?

Participante

A minha questão sobre ser gordo é uma escolha, é que os lugares pra mim são privados.

Guto Galamba

Que lugares? Qual lugar que você não pode entrar? Me fala.

Participante

Existe um ciclo.

Guto Galamba

Qual lugar privado pra você-

Participante

Eu estou te falando.

Guto Galamba

Não, cê não tá falando. Cê tá com o tono de desabafar.

Participante

Com licença.

Guto Galamba

Cê tá desabafando.

Participante

Existe um ciclo, existe um ciclo onde você diz que eu, por ser obeso, sou doente.

Guto Galamba

Mas você é. Isso é um fato.

Participante

Então, se eu sou doente, eu mereço acolhimento, respeito e dignidade no meu tratamento.

Guto Galamba

Concordo.

Participante

Quando você coloca-

Guto Galamba

Você tá sendo tratado?

Participante

Essa. Eu estou.

Guto Galamba

Ótimo.

Participante

Eu tenho personal trainer três vezes por semana.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Nutricionista.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Psicóloga. Eu caminho-

Guto Galamba

Já tá conseguindo resultados?

Participante

Sim, já estou conseguindo resultados.

Guto Galamba

Então você tá escolhendo não ser gordo, é isso?

Participante

Não, eu não quero ser magro.

Guto Galamba

Não, você tá escolhendo não ser tão gordo.

Participante

Eu estou escolhendo ter mais qualidade de vida.

Guto Galamba

É, através do emagrecimento.

Participante

Porque ser gordo-

Guto Galamba

Através de emagrecimento.

Participante

Não significa ser uma pessoa triste.

Guto Galamba

O que que você tá conseguin-- como é que você vai ter mais qualidade de vida deixando de ser o quê?

Participante

Deixa eu te falar.

Guto Galamba

O que que você tá acontecendo no seu corpo?

Participante

Eu estou falando. Você responde a vinte e cinco processos por calúnia, difamação-

Guto Galamba

Aonde isso?

Participante

E o uso de imagem de pessoas.

Guto Galamba

Meu amor, você vai ter que provar muito isso.

Participante

Eu tenho como provar.

Guto Galamba

Não tem.

Participante

Vinte e duas semanas atrás, você usou a imagem de uma personal-

Guto Galamba

Certo.

Participante

Desmoralizando o trabalho dela.

Guto Galamba

Continue.

Participante

Porque ela foi reconhecida numa matéria por fazer um trabalho incrível com outras pessoas.

Guto Galamba

Certo.

Participante

E pelo fato dela ser gorda, sua colega de trabalho.

Guto Galamba

Me fala como é o trabalho incrível dela. O que que ela faz que é incrível?

Participante

Ela atende pessoas gordas e ajuda essas pessoas a terem qualidade de vida, incluindo pessoas-

Guto Galamba

Eu também.

Participante

Que são gordas e saudáveis.

Guto Galamba

Eu também faço o mesmo. Ô, parou. Ei, ei, ô, ô, ô. Vou falar, né?

Participante

Com a tela vermelha, né?

Guto Galamba

Cara, eu achei que cês iam cair, caralho. Ó, trinta e oito segundos, bora pra [som de censura]. Manda bala. Posso dale? Teu nome, teu nome, teu nome, teu nome.

Participante

Igor.

Guto Galamba

Vai, Igor. Vai.

Participante

Bom, trinta e oito segundos, não tem muita coisa que falar, né? Mas só queria desmistificar essa coisa de colocar o corpo gordo como corpo doente.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Né? Eu acho que o corpo e a saúde estão em lugares diferentes.

Guto Galamba

Legal.

Participante

É, tem uma, a gente fica reforçando esses estigmas e, e eu acho que isso mais afasta a galera gorda, por exemplo, de uma academia ou de um consultório médico.

Guto Galamba

Boa.

Participante

Do que aproxima.

Guto Galamba

Boa.

Participante

Eu acho que pra mim isso é o essencial pra começar os outros debates. Eu tô ofegante porque tem dez segundos. [risos]

Guto Galamba

Relaxa, relaxa, tá tudo certo.

Participante

Enfim, só queria ente-- só queria-

Guto Galamba

Boa.

Participante

Reforçar isso.

Guto Galamba

Foi boa.

Participante

O corpo gordo não é doente, apesar de ser um fator de, a, risco a mais, né?

Guto Galamba

Tá. Qual é a ideia, se você permitir uma visão diferente?

Participante

Claro, vai.

Guto Galamba

A gente não deve, não deve, não é que não pode, trabalhar com possibilidade. Porque vamos supor aqui, quem quer ficar milionário? Levanta a mão aí. Só um exemplo. Aí eu vou chegar pra você, como é teu nome?

Participante

Marcelo.

Guto Galamba

Marcelo, você, tive uma ideia. Cada um vai me dar dez mil reais, eu vou jogar na Mega da Virada, a gente divide depois. É possível que ganhe? É. É provável? Não. É possível um corpo gordo não ser doente? É. É provável? Não. É isso que a ciência diz, não é minha opinião. Eu não queria que fosse assim não, irmão.

Participante

Mas existem tantos atletas gordos, por exemplo.

Guto Galamba

Existem dentro da modalidade dele. Ele não é gordo pra aquela modalidade. Ele tá dentro do peso da modalidade.

Participante

E existem tantas pessoas gordas com...

Guto Galamba

Eu concordo contigo, eu entendi.

Participante

Com áudios incríveis, né?

Guto Galamba

Eu concordo contigo e eu entendi tua visão.

Participante

Sim.

Guto Galamba

A ideia é: existem narrativas diferentes pra chegar no mesmo fim.

Participante

Exatamente.

Guto Galamba

Existem pessoas que se identificam com a narrativa mais agressiva e outras não.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Concorda comigo?

Participante

Você acha que a narrativa agressiva afasta as pessoas do TBT?

Guto Galamba

Afasta quem já se afastaria. O que eu não posso, irmão, sou eu mudar o jeito que eu falo com os meus melhores amigos, por exemplo, só pra agradar todo mundo.

Participante

Mas cê acha que tá certo colocar saúde e corpo no mesmo...

Guto Galamba

Vai.

Participante

Vamos. Beleza.

Guto Galamba

Vai. Abraço. Obrigado. E o segundo tema é: autoestima não cura diabetes.

Participante

Uh! [risos] [aplausos]

Participante

Prazer, sou Babi Paula.

Guto Galamba

Senta. Fala Babi.

Participante

Sou modelo plus size.

Guto Galamba

Chamo de Babi ou de Paula, Babi Paula?

Participante

O que você quiser.

Guto Galamba

Babi, vai, mais fácil.

Participante

Sou Babi Paula, sou modelo plus size, a primeira modelo caxiense a estar na maior semana de moda da América Latina.

Guto Galamba

O que é caxiense?

Participante

Você não conhece Caxias, Maranhão, não?

Guto Galamba

Não, não sabia não.

Participante

Ixe, geografia tá faltando.

Guto Galamba

Mas caxiense. Mas caxiense é bem específico, vai.

Participante

Por que que eu acho que todos os corpos devem ser felizes?

Guto Galamba

Não, mas pera aí, pera aí, pera aí. É, é sobre autoestima e diabete.

Participante

Auto-- eu tô falando, você tem um problema, um grande problema de não ouvir as pessoas. E eu queria falar.

Guto Galamba

Mas se eu for falar dos teus problemas aqui agora também.

Participante

Sim, meu amor, mas eu estou falando que autoestima é muito importante.

Guto Galamba

Não, claro.

Participante

Pra todas as pessoas.

Guto Galamba

Mas cura diabete?

Participante

A partir do mo-- não, eu tô falando de autoestima.

Guto Galamba

Tá falando de outro tema.

Participante

A parti-- autoestima e diabete.

Guto Galamba

Vai.

Participante

Eu estou falando de autoestima.

Guto Galamba

Vai.

Participante

A partir do momento que você desumaniza o meu corpo, a parti-

Guto Galamba

Como é que se desumaniza um corpo?

Participante

A partir-

Guto Galamba

Eu tô, eu tô fazendo perguntas porque eu não entendo o linguajar que cê tá usando, de verdade.

Participante

Sim, sim.

Guto Galamba

O que é desumanizar um corpo?

Participante

Desumanizar é não tornar aquele corpo humano, não tornar aquele corpo, é, disponível pra ser amado, pra ser aceito. Eu não quero que ninguém aqui ou você me aceite, não, porque eu já me aceito.

Guto Galamba

Então não entendi.

Participante

A minha saúde está maravilhosa e não tem nada a ver com o meu corpo. Eu sou uma mulher gorda e tô-- eu faço exames periódicos e todos os exames ok.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Todos os exames ok.

Guto Galamba

E isso é devido à sua autoestima elevada.

Participante

Não, não, não.

Guto Galamba

Eu não tô entendendo onde é que o debate tá.

Participante

Não, é de acor-- porque a partir do momento que você fala que uma pessoa gorda não pode, não pode ser saudável.

Guto Galamba

Eu nunca disse isso. Eu quase-- eu falei inclusive o contrário.

Participante

Você fala.

Guto Galamba

Eu inclusive falei o contrário pra ele.

Participante

Você, você fala.

Guto Galamba

Eu disse: "Existe a possibilidade, mas não existe a probabilidade, a probabilidade é menor."

Participante

Você fala isso.

Guto Galamba

É possível, mas não é provável.

Participante

Isso. E como o rapaz falou, isso afasta os nossos corpos da academia, isso afasta os nossos corpos de um consultório médico.

Guto Galamba

Mas você tá falando de você ou de todos os gordos?

Participante

Não, eu tô falando dos, nos nossos corpos.

Guto Galamba

Que nossos?

Participante

Corpos gord-gordos.

Guto Galamba

Travou, travou, travou. Obrigado, Babi.

Participante

Mano, eu não entendi esse tema, desculpa.

Participante

Não tem como debater.

Guto Galamba

Quer que eu con-- quer que eu, quer que eu contextualize pra vocês? O que que acontece muito dentro da narrativa que grande parte dos defensores da obesidade, não tô dizendo que são vocês, tá? Usam. Se eu me sentir bem, é tudo que importa. Não é, não faz sentido. Então a ideia é autoestima, eu tá me sentindo bem, não quer dizer que eu tô sem diabete ou sem a probabilidade de desenvolver essa doença.

Por exemplo, homens que têm a cintura acima de cento e dois e mulheres acima de oitenta e oito, há um-- tem aumento de risco cardiovascular e desenvolvimento de diabete. Isso é fato. "Ah, mas eu não tenho." Graças a Deus, mas a probabilidade de desenvolver é alta. Essa é a pauta.

Participante

Quando você já nasce, quando você já nasce com diabetes.

Guto Galamba

Mas aí é diabete tipo um, aí é diabete tipo um.

Participante

Meu a-- sim, mas-

Guto Galamba

Eu tô falando diabete tipo dois.

Participante

De acordo com a Organização Mundial da Saúde-

Guto Galamba

Não, não, não, não, não.

Participante

É de vários fatores.

Guto Galamba

Não, não, não, não, não, não.

Participante

A pauta de saúde vem de acordo com, de, é-

Guto Galamba

Babi.

Participante

Obediência de vários fatores.

Guto Galamba

Babi.

Participante

Você não deixa a gente term-- a gente falar.

Guto Galamba

É porque você já acabou o seu tempo.

Participante

Você não deixa. Não, meu pior é que você não deixar.

Guto Galamba

Quem é o próximo? Um, dois, três. Ficou contextualizado ou não? Eu posso aprender, vocês podem aprender e vocês tão vindo com ideias que foram criadas que talvez nem seja verdade. Calma, pô. Dá chance ao erro.

Participante

Se todo mundo concordar com o tema, eu pulo e a gente vai pro próximo.

Guto Galamba

É.

Participante

É um tema que não dá nem pra margem pra discorrer.

Participante

É.

Guto Galamba

E o terceiro tema é: Aceitar a obesidade é defender um pecado condenado pela Bíblia. Ô, Babi, vamo pro tema.

Participante

Eu acho que ninguém deve aceitar nada. É, todos nós temos escolhas, né, e liberdade corporal e ser da forma que a gente quiser ser. E muito importante a gente frisar que não é um corpo gordo que vai definir as minhas falhas, que vai definir o meu valor. Se fosse por isso, é, muita gente, se fosse seguir a Bíblia, muita gente estaria morto por traição, né? Por, pela falta de amor e respeito ao próximo.

Então, não, a obesidade não, não, não quer dizer uma falta de valor.

Guto Galamba

Babi.

Participante

Oxe, nunca vai falar?

Guto Galamba

É porque tu tá fugindo muito, vai direto na próxima.

Participante

Oxe, é o tema, não é?

Guto Galamba

Mas veja, é o que eles tão achando, não sou eu.

Participante

Não quer falar mesmo, mas esse assunto é bom.

Guto Galamba

Venha.

Participante

Tudo bem, senhor?

Guto Galamba

Tudo bem, como você vai?

Participante

Eu sinto muito, tá?

Guto Galamba

Como é seu nome?

Participante

É Ana Maraísa.

Guto Galamba

Prazer, Ana.

Participante

Eu tô bem nervosa, gente, não me matem.

Guto Galamba

Faz assim, ó, vem cá. Sério, de verdade.

Participante

Vamo, vamo.

Guto Galamba

Três segundos pra dentro, vai. Segura. Não, não, não, não, calma, calma. Vai comigo, ó. Segura. Três pra fora. Melhorou?

Participante

Ai, eu amo terapia.

Guto Galamba

Vai, vai, vai.

Participante

É que hoje eu não fiz a minha terapia, gente.

Guto Galamba

Relaxa, vai. Vamo simbora.

Participante

Então vamo lá.

Guto Galamba

Fica nervosa não, vai tranquila.

Participante

É, que nem o amigo perguntou sobre o que a Bíblia condena.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Sobre, hã, não é que a Bíblia condena a obesidade, né?

Guto Galamba

O pecado da gula, né?

Participante

Isso, o pecado da gula.

Guto Galamba

Isso.

Participante

Não me matem. Eu vou dar um exemplo, um exemplo meu.

Guto Galamba

Tá bom.

Participante

Hoje faz dez meses que eu perdi o meu filho.

Guto Galamba

Sinto muito por você.

Participante

Por erro médico, negligência. E eu já estava acima do peso na gravidez. Porém, uma coisa linda, gente, eu não tive pressão alta, eu não tive diabete gestacional. Sabe o que que é nada? Nada.

Guto Galamba

Deus é demais, né?

Participante

É, mas o meu filho faleceu por erro médico.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Cheguei aos nove meses, ele faleceu. Só que na gestação eu fui lutando contra isso pelo bem do meu filho.

Guto Galamba

Certo.

Participante

E eu quero engravidar novamente. Então, o primeiro ponto foi falado sobre a obesidade é uma escolha. Depende. No meu caso, eu tenho genética.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Só que eu também tenho a escolha de lutar contra a genética ou aceitar a genética.

Guto Galamba

Sim.

Participante

Esse é o meu caso. Então hoje eu venho lutando contra a depressão.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Contra a ansiedade. E eu faço terapia e estudo psicanálise.

Guto Galamba

Tá bom.

Participante

Na psicanálise eu entendi uma coisa: é, a terra é o, a, é a terra, é a infância que o adulto pisa. Quer dizer, a infância é a terra que o adulto pisa. Tudo é formado na infância. Eu descobri fazendo a terapia e estudando de onde vem a minha compulsão alimentar. Então quando você entende de onde vem a sua compulsão alimentar, há uma virada de chave.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Porque cada um tem algo que foi determinado na infância.

Guto Galamba

Um core.

Participante

Um exemplo meu sobre a questão da compulsão. A, eu cresci num lar onde meu pai era alcoólatra, era muito briga, mas era um lar farto, era muita comida, era maravilhoso, era um sonho. Então todas as vezes que eu comia eu me sentia abraçada. Parece loucura.

Guto Galamba

Não parece.

Participante

Mas é a mente.

Guto Galamba

A gente, e muito possivelmente você vai se encaixar em um deles.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Quando a gente fala, e pode parecer contraintuitivo o que eu vou dizer agora, mas a maioria de vocês não pode emagrecer, porque você tá buscando uma dessas três coisas: atenção, proteção ou força.

Participante

Perfeito. É.

Guto Galamba

Você tá buscando isso. Se você acredita, e essa crença foi enraizada por anos na sua vida, de que se você emagrecer agora, você vai ficar desprotegida. E talvez aquele pai alcoólatra.

Participante

Exatamente.

Guto Galamba

Possa fazer algo com você. E a comida quando eu tô num dia estressante, me conforta, porque eu aprendi a construir esse hábito na vida.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Mas a partir do momento-- eu esqueci seu nome, Maraísa?

Participante

É, Ana Maraísa.

Guto Galamba

Ana Maraísa. A partir do momento que eu elevo o seu nível de consciência e você estuda pra saber disso.

Participante

Uhum.

Guto Galamba

Sua responsabilidade aumenta, concorda?

Participante

É, com certeza.

Guto Galamba

E a partir de agora é uma escolha.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Não dar o seu melhor. Não é emagrecer, é fazer o seu melhor.

Participante

Uhum.

Guto Galamba

É esse o objetivo de todo mundo aqui. É ser melhor que ontem e pior que amanhã. Não é melhor que o outro.

Participante

E eu gostaria de dar um exemplo rápido. A minha mãe chegou a cento e trinta e cinco quilos, diabética, infartada, várias coisas. E ela, ela, ela escolheu. Não é que ela não se ame, não que ela não se respeite, mas hoje a minha mãe pra mim é um exemplo. A minha mãe perdeu trinta e cinco quilos. A minha-- eu tô mais pesada que a minha mãe, mas não quer dizer que isso afeta na minha autoestima total.

Tem dias que sim, tem dias que não.

Guto Galamba

Deixa-- eu posso te fazer uma pergunta?

Participante

Claro.

Guto Galamba

O que foi que levou ela a querer perder trinta e cinco quilos agora, nesse momento da vida?

Participante

[riso] As filhas.

Guto Galamba

Tem duas opções.

Participante

Sim. O médico disse que ela morreria.

Guto Galamba

A gente só muda a forma que a gente vê e vive a vida através de duas formas, tá? Através de repetição.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Ou seja, fazer por muito tempo aquilo ou sofrendo um impacto emocional muito forte.

Participante

Sim. E ela teve uma escolha. Os médicos disseram: "Ou você perde peso", não é pela diabete, mas ou você perde peso ou infelizmente você não vai ver suas filhas crescerem.

Guto Galamba

E talvez a fala desse médico pra muitas pessoas possa ser agressiva, concorda?

Participante

Mas...

Guto Galamba

Mas foi que salvou a vida dela.

Participante

É.

Guto Galamba

Então eu não posso deixar de salvar a vida de alguém, porque alguém vai ficar ofendido comigo, pô.

Participante

Exatamente.

Guto Galamba

Essa é a minha visão. Eu falo agressivo por isso.

Participante

E outra coisa, por exemplo, questão de eu ter, é, engravidar novamente. Eu tenho uma escolha. Se eu quiser ter uma gravidez mais tranquila, mais saudável do que a outra foi, eu devo perder peso. Mas é uma escolha minha.

Guto Galamba

Sim.

Participante

O médico não disse: "Ó, você não pode engravidar, não". Eu tô tendo uma escolha de correr contra.

Guto Galamba

E até pelo seu próprio filho.

Participante

Sim, por, por amor a ele.

Guto Galamba

Porque a gente sabe, se você tiver uma gestação em estado de obesidade.

Participante

Sim, eu corro o risco.

Guto Galamba

Os riscos dele vir disfuncional em termos de cognição, fala e até mesmo com os, com, com ma-- com a probabilidade maior de ser obeso, aumenta.

Participante

Sim, eu também, porque eu já tive um princípio de AVC justamente por isso. Não pela questão do peso, mas o estresse, a ansiedade.

Guto Galamba

O que que tá faltando pra virar a chave de novo? Me diz.

Participante

Vergonha na cara, no meu caso. [riso]

Guto Galamba

Não, não é. Não é. Tem alguma coisa mais a fundo e você sabe que tem.

Participante

É.

Guto Galamba

Só que se você cavucar.

Participante

Um pouquinho mais.

Guto Galamba

Vai doer tanto. E aí tu tem que decidir: sabe de uma coisa? Tu prefere passar pela dor que tá passando agora ou pela dor de curar isso?

Participante

Verdade.

Guto Galamba

E é uma decisão. Maturidade não vem com o tempo, Ana Maraísa. Maturidade é uma decisão. E decisão é cisão. O que que eu tenho que cortar da minha vida agora? Pessoas, ambientes, comportamentos. Cê tem que decidir isso. Escreva um plano de ação que vai dar certo.

Participante

Obrigada, gente.

Guto Galamba

Viu?

Participante

Obrigada pela terapia. [palmas]

Guto Galamba

Você foi maravilhosa, viu? Obrigado.

Participante

Obrigada. [aplausos]

Guto Galamba

Como é teu nome?

Participante

Prazer.

Guto Galamba

Gostei da camisa.

Participante

Me chamo Pella. Obrigado.

Guto Galamba

Meu primo João adora essas camisas. Eu acho maravilhosa.

Participante

Obrigado.

Guto Galamba

Me fala.

Participante

Então, eu discordo que aceitar a obesidade seria.

Guto Galamba

Defender o pecado.

Participante

Uma forma de defender o pecado.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Condenado pela Bíblia, porque o pecado do qual a gente tá falando é a gula.

Guto Galamba

Certo.

Participante

E como a gente disse no primeiro tema, tem gente que simplesmente é gorda, porque é a genética da pessoa.

Guto Galamba

Três, três por cento.

Participante

Sim, três por cento, mas existe esse ponto.

Guto Galamba

Mas a gente vai falar desses três por cento ou da maioria?

Participante

Não, não estou falando só desses três por cento. Vou falar de todos.

Guto Galamba

Tá bom.

Participante

Todo mundo. Tem gente que é por causa da genética. Tem gente que é porque simplesmente ficou gordo com o tempo.

Guto Galamba

Certo.

Participante

E foi ficando gordo.

Guto Galamba

Escolhas.

Participante

E aí, teve escolhas. Exatamente. E aí hoje a pessoa se aceita. Ponto. Não importa se é pela genética ou se é por escolhas que ela teve na vida e hoje em dia está gorda. Ela se aceita como uma pessoa gorda.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Como eu. Eu tenho parte da genética, mas eu também acho que tem parte que são das minhas escolhas. Mesmo assim, eu me aceito como uma pessoa gorda. Isso não significa que eu estou defendendo o pecado condenado pela Bíblia, que eu tenho o pecado da gula estampado na minha cara, na minha testa e tal. Eu só acho que eu, por ser uma pessoa gorda e me aceitar como uma pessoa gorda, simplesmente não tenho, tenho que defender esse pecado.

Eu só sou uma pessoa gorda e me aceito como eu sou.

Guto Galamba

Legal, mas você concorda que isso é uma opinião baseada na sua experiência de vida?

Participante

Sim, eu concordo, com certeza é.

Guto Galamba

E eu não-- é, é irresponsabilidade minha, enquanto pers-- a, ag, enquanto agente do sistema de saúde Enquanto profissional da área da saúde, pegar uma experiência pessoal e querer extrapolar isso pra todas as pessoas que aqui estão. Eu tenho que ter base científica pra validar o que eu tô falando.

Participante

Sim, mas aí se você tem que ter a base científica, por que na sua base científica você tá falando que eu estou defendendo um pecado condenado por um livro escrito há séculos atrás?

Guto Galamba

Mas eu não falei de você.

Participante

Não estou falando que você está falando.

Guto Galamba

Não, eu falei de você.

Participante

Não, calma! Eu não estou falando o que você está falando. Você acabou de dizer que tem que ter base científica pra isso.

Guto Galamba

Sim.

Participante

Tendo base científica, você automaticamente anula a Bíblia inteira.

Guto Galamba

Pelo contrário.

Participante

Sim, você anula.

Guto Galamba

Através de que ciência a Bíblia é estudada?

Participante

Como assim, através de que ciência?

Guto Galamba

Qual ciência estuda a Bíblia?

Participante

Bem, eu acredito que Teologia, né?

Guto Galamba

E tem outra também.

Participante

Qual?

Guto Galamba

História.

Participante

Tá.

Guto Galamba

É ciência ou não é?

Participante

Tá, História é uma ciência.

Guto Galamba

Então é ciência. Eu tô usando ciência.

Participante

Porém, você, você pode me falar, eu uma pessoa-

Guto Galamba

Você tentou limitar a ciência fisiológica.

Participante

Não, não estou limitando ciência fisiológica.

Guto Galamba

Ciência é ciência.

Participante

Eu estou falando que se você está tendo base científica, não importa qual, você está anulando a Bíblia.

Guto Galamba

Não!

Participante

Porque eu estou falando com você, você sabe qual a minha religião? Não sabe, vou te dizer agora, sou uma pessoa agnóstica.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Não, não, não é que eu não acredite na Bíblia, só acredito que haja algo-

Guto Galamba

Pera aí.

Participante

Que não é o Deus da Bíblia.

Guto Galamba

Deixa eu ver se eu entendi. Tu tá dizendo que eu tô errado porque eu usei uma referência que tu não acredita que-que faz sentido.

Participante

Não estou dizendo que você está errado.

Guto Galamba

Mas você não concorda com a Bíblia, você não concorda com aquele Deus, né?

Participante

Eu não concordo com aquele Deus.

Guto Galamba

Mas não concordar com aquele Deus, tu já deixa aquele Deus, existe.

Participante

Eu não disse que ele existe.

Guto Galamba

Ué, como é que tu não discorda de um negócio que não existe?

Participante

É, então. Exatamente, não é a questão da religião. O que eu tô tentando dizer é que se você está tendo uma base científica, você não pode usar a Bíblia, que é sobre uma religião, ou nenhuma outra religião pra falar sobre essa-

Guto Galamba

Mas eu não estou usando a Bíblia como fato religioso, eu tô usando como fato teológico.

Participante

Não tá usando. Estou usando o exemplo de que você disse que tem que ter uma base científica.

Guto Galamba

Deu? Deu. Foi mal, Bella. Desculpa. Terminou.

Participante

De nada.

Guto Galamba

Obrigado, viu? Lord inglês. Maravilhoso. Como cê vai?

Participante

Tudo bem?

Guto Galamba

Como é seu nome?

Participante

Bella.

Guto Galamba

Prazer, Bella.

Participante

Bom, primeiramente que eu sou macumbeira, então a Bíblia não me diz a respeito. [aplausos] [risos]

Guto Galamba

Leu?

Participante

Não, desculpa, eu não enxergo muito bem. [riso]

Guto Galamba

Tá, depois eu te explico.

Participante

É, primeiro eu queria, é, me posicionar a respeito de todas as pessoas que tão aqui. É um ato de muita coragem, acho que a gente debater esse assunto. Eu sempre fui uma criança-

Guto Galamba

Concordo plenamente.

Participante

Eu sempre fui uma criança gorda e acho que você impor, é, com o tema, né? Impor, é, sobre o corpo, o corpo, a vivência de uma pessoa por conta de uma religião é muito medíocre e é muito pequeno. Então eu, como umbandista, eu não tenho nada a ver com a Bíblia.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Isso não deveria ser uma imposição do corpo alheio, né? Então você dizer que uma pessoa gorda ela simplesmente tá cometendo pecado, que é a gula, é dizer pra todas as pessoas gordas que estão aqui, que somos pecadores. Cê entende?

Guto Galamba

Deixa eu te perguntar uma coisa.

Participante

Claro.

Guto Galamba

Você é pecadora?

Participante

Todos nós somos.

Guto Galamba

Então tá tudo certo com o que eu disse.

Participante

Não, não está certo, porque você tá usando a Bíblia pra constituir uma opinião-

Guto Galamba

Deixa eu te fazer uma outra pergunta, posso?

Participante

Claro, claro.

Guto Galamba

Existem pessoas gordas que têm o pecado da gula?

Participante

Não sei, eu não posso dizer. Você acabou-

Guto Galamba

Existe a probabilidade de haver pessoas gordas que têm o pecado da gula?

Participante

Sim, com certeza.

Guto Galamba

Existe a probabilidade?

Participante

Sim.

Guto Galamba

Existe a probabilidade de não haver?

Participante

Sim, com certeza.

Guto Galamba

Foi o que eu disse já desde o começo. Existe a obesidade mesogênica, que é exclusiva da genética.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Cê pode não comer nada, e o que você comer vai virar gordura. São três por cento da população. Os outros noventa e sete vem por excesso.

Participante

Aham.

Guto Galamba

Então é gula. Isso não sou eu que tô dizendo.

Participante

Certo.

Guto Galamba

Eu só usei a Bíblia como um gancho pra se alguém discordasse da ciência, eu trazer uma base que talvez ela concordasse.

Participante

Certo. A minha única, é, o olhar que eu quero trazer.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Quando passa, quando você conhece alguém com depressão, você aponta o dedo diz-dizendo pra ela: "Olha, aquela pessoa depressiva". Quando tem uma pessoa com diabete, você aponta pra ela e fala: "Olha, a pessoa diabética". Então por que o corpo gordo que você diz-

Guto Galamba

Vou te explicar por quê.

Participante

Deixa eu só terminar, por favor. Quando você diz que o corpo gordo é uma doença, por que que você não trata as pessoas como, pessoas gordas, como realmente uma, um caso de saúde pública?

Guto Galamba

Vamo lá.

Participante

É isso que me deixa triste.

Guto Galamba

Tá.

Participante

E é realmente isso que afasta nós, pessoas gordas, de estar nesses espaços que você diz que somos, somos bem-vindo.

Guto Galamba

Tá bom.

Participante

Hoje, é, eu caminho por conta própria, mas eu não frequento a academia justamente porque, como ele falou, a gente não se enxerga nesse espaço porque sempre foi um espaço de, de exclusão.

Guto Galamba

Tá bom.

Participante

Então só pra re-reafirmar a minha opinião sobre exclu-- é, exclusão ju-- com o seu pensamento da Bíblia.

Guto Galamba

Tá.

Participante

É dizer que você tá usando novamente de uma, uma, uma opinião, é, religiosa pra dizer pra uma pessoa que ela é uma, que ela não merece estar ali porque ela é uma pecadora.

Guto Galamba

Quando eu trago-

Participante

É a mesma coisa quando exclui pessoas LGBT da igreja.

Guto Galamba

Vamo lá.

Participante

É a mesma coisa quando exclui pessoas que realmente não têm, é, a metade da vivência que-

Guto Galamba

Vai acabar o tempo da gente, eu não vou ter debate contigo.

Participante

Não, pode falar.

Guto Galamba

Tá, vamo lá. Quando eu trago a base da igreja, eu não falei de religião hora alguma, falei?

Participante

Falou de Bíblia.

Guto Galamba

Falei teologia. Bíblia?

Participante

Falou de Bíblia, o tema é sobre Bíblia.

Guto Galamba

Bíblia não tem a ver com religião diretamente, não.

Participante

Tem. A minha, a minha religião não tem, não tem Bíblia.

Guto Galamba

Calma. Tá, e tudo bem. Ou seja, a-a Bíblia, existe uma ciência chamada teologia que estuda a Bíblia.

Participante

Certo, certo.

Guto Galamba

A teologia não é religiosa. A teologia não é religiosa, é uma ciência. Eu tô usando isso como base.

Participante

Então já começa com o erro na pergunta do tema.

Guto Galamba

Não, mas a Bíblia tá sendo usada, tá sendo estudada pela teologia.

Participante

Sim. Mas quantas pessoas aqui são cristãs?

Guto Galamba

Mas veja, mas veja, Bella, você ter entendido errado não quer dizer que a pergunta está errada. Mas vamos lá.

Participante

Mas se tem trinta pessoas na sala concordando que a pergunta foi mal feita no tema, você tem que concordar que existia um embate.

Guto Galamba

Tá, então a gente tá concordando que a pergunta foi mal feita, e não que a pergunta não faz sentido ou que a pergunta em si não direcione pra o que realmente pode existir, que é o gordo ter compulsão. Entendeu?

Participante

Entendo, mas-

Guto Galamba

Não, não acabou, não. Tá aqui

Participante

Tenho um minuto ainda. Eu entendo, mas realmente, é, é mu-

Guto Galamba

É porque você tá tentando entender uma coisa através de um conceito que você não acredita.

Participante

Exatamente.

Guto Galamba

Não tem como, mas não tem como te explicar.

Participante

Mas en-então, mas como que você vai me falar sobre Bíblia se é algo que eu não acredito?

Guto Galamba

Mas eu não tô falando pra você, você que veio até aqui.

Participante

Não, mas você tá falando pra todas as pessoas que estão na sala, que estão assistindo.

Guto Galamba

E, e o, e o Marcelo queria ter vindo.

Participante

Sim, exatamente.

Guto Galamba

Porque ele acredita na Bíblia, acredito eu.

Participante

Sim, mas eu não.

Guto Galamba

Olha aí.

Participante

Mas eu sou uma pessoa gorda, então como que você consegue-

Guto Galamba

Mas, mas por que você se incomodou por algo que não existe?

Participante

Porque o tema fa-- porque o, o tema fala justamente sobre isso. O tema.

Guto Galamba

Mas Bella-

Participante

Você ouviu a pergunta do tema?

Guto Galamba

Mas Bel-- ouvi. E você não acredita naquilo ali?

Participante

Não acredito.

Guto Galamba

E por que te incomodou a ponto de vir aqui debater?

Participante

Porque essas opiniões que eu não acredito, ele é a base de ódio pra várias pessoas que hoje tão dentro da igreja.

Guto Galamba

Ódio é forte.

Participante

Não, ódio não é nada forte.

Guto Galamba

Ódio é forte. [aplausos]

Participante

Ódio não é nada forte. Ódio não é nada forte.

Guto Galamba

Veja, eu sinto muito-

Participante

Uhum

Guto Galamba

...que talvez cê tenha passado por uma experiência muito ruim.

Participante

Uhum.

Guto Galamba

Como a Ana Maria tava falando aqui agora, eu não sei em que fase da vida foi.

Participante

Certo.

Guto Galamba

Mas tem pessoas ruins na igreja? Claro que tem.

Participante

Uhum.

Guto Galamba

Isso faz da igreja um todo ruim? Claro que não.

Participante

Uhum.

Guto Galamba

Existem pessoas gordas que têm compulsão e praticam o, o pecado da gula? Sim.

Participante

Uhum.

Guto Galamba

Isso quer dizer que todas as pessoas gordas fazem isso? Não.

Participante

Certo.

Guto Galamba

É esse o contexto.

Participante

Uhum.

Guto Galamba

Então a ideia é vir aqui defender que sim, existem pessoas gordas que defendem o pecado da gula. Isso é um fato. É só isso que tá sendo dito. E você poderia ter vindo e dito: "Pô, Guto, eu concordo, mas eu discordo, porque comigo não é assim."

Participante

Uhum.

Guto Galamba

E tá tudo bem. Entende?

Participante

Entendo.

Guto Galamba

Obrigado, querida. Prazer em conhecer.

Participante

Igualmente.

Guto Galamba

E o quarto tema é: o que você chama de me aceitar como sou, a medicina chama de doença. [palma] [conversas indistintas] Alexandre.

Participante

Isso.

Guto Galamba

Vai.

Participante

Eu quero te falar que todas as pessoas que estão aqui já passaram por uma questão psicológica.

Guto Galamba

Tá. Eu também passei.

Participante

E quando a gente fala de doença, a gente pode falar da obesidade, a gente pode falar de tudo aquilo que a obesidade causa e tudo aquilo que também é causado pela obesidade. Assim como estão todos aqui, quando eu tinha-

Guto Galamba

Mas a gente concorda que é uma doença?

Participante

Concordamos. Concordamos que também é uma condição que pode gerar outras doenças.

Guto Galamba

Sim.

Participante

E pode ser causada por outras doenças. Quando eu tinha catorze anos, um grupo também de vinte e cinco pessoas, de vinte e cinco homens, me abordaram na rua e me espancaram, cuspiram em mim, me humilharam, me xingaram e quebraram com a minha saúde psicológica. Eu tive vontade de morrer, eu tive vontade de me suicidar. Com catorze anos de idade. E eu tenho certeza que a minha história toca todo mundo que tá aqui, porque pra gente falar sobre obesidade, a gente tem que falar sobre saúde mental.

Pra eu tá aqui hoje, eu tô extremamente desconfortável e a minha vontade aqui é de te atacar. Eu tô aqui numa situação de embate. Eu vou usar a história da Maraísa, como a minha história também é muito tocante e é muito triste. Existe um armário onde a gente sai pra se entender como gordo, porque quando a gente é criança, a gente não tem o entendimento de que a sociedade vai massacrar a gente, de que a gente pode vir a ter um problema no joelho ou um problema de coração.

E aí eu te faço uma pergunta: Pessoas com síndrome de Down são mais propensas a terem doenças cardíacas. Nem por isso existe um movimento contra a síndrome de Down.

Guto Galamba

Porque não, não tem como curar.

Participante

Sim, não tem como curar, porque não é um problema.

Guto Galamba

Então por que você quer montar um movimento pra quê?

Participante

Agora você tem que se colocar no seu lugar de entender que emagrece quem quer.

Guto Galamba

Mas peraí. Mas peraí, vamo já.

Participante

Calma aí que eu tô falando, não terminei ainda.

Guto Galamba

É, cê fez uma pergunta.

Participante

Tá bom? Não. Eu te falei que pessoas com síndrome de Down-

Guto Galamba

Mas você consegue conversar sem querer me atacar, mesmo verbalmente?

Participante

Consigo. Eu vou falar pra você sobre saúde mental, tá? Nós temos aqui. Essa daqui é de Helito Santos, tá? Ela tinha dezessete anos e ela se enforcou na escola, tá? Ela se enforcou porque ela era humilhada como uma criança gorda.

Guto Galamba

Um absurdo.

Participante

E aí, depois que ela morreu, nas escolas e na internet, falaram que ela deveria ter se enforcado não com uma corda comum-

Guto Galamba

Absurdo

Participante

...mas com cabo de aço.

Guto Galamba

É um absurdo.

Participante

Porque o que acontece na internet é que independente de qualquer coisa que a gente fale aqui, você vai continuar tendo dois, três milhões de seguidores. Você vai continuar tendo seguidores, fãs, pessoas que te apoiam. Você vai continuar tendo o seu dinheiro, porque o seu propósito, enquanto uma pessoa que tá na internet, e aí você nem se coloca mais como personal, como instrutor físico, você se coloca como influenciador.

É gerar lucro em cima do quê? Da insegurança das pessoas que ali estão na internet.

Guto Galamba

Você fez um desabafo.

Participante

Essa daqui também morreu por conta de gordofobia na faculdade. E essa daqui é uma influenciadora que depois que ela morreu, pegaram a imagem dela e anunciaram numa academia. Se você não quiser morrer como ela, venha pra nossa academia.

Guto Galamba

Mas eu tô concordando com tudo que cê tá falando. É um absurdo isso.

Participante

Eu fico feliz que você concorde com o que eu tô falando.

Guto Galamba

Mas eu sempre concordei com tudo isso.

Participante

Não.

Guto Galamba

Sempre.

Participante

Porque até mesmo na segunda-feira, você fez um vídeo falando que uma mulher gorda e preta, que é dançarina, não podia fazer uma campanha pra Nike.

Guto Galamba

Eu falei essa frase.

Participante

Você falou que ela não devia-

Guto Galamba

Eu falei essa frase.

Participante

Você falou-

Guto Galamba

Gorda e preta. Você vai ter que provar isso.

Participante

Ela é, ela é uma mulher gorda e preta.

Guto Galamba

O que eu disse foi-

Participante

E você falou que ela não poderia ser uma pessoa feliz, porque nós temos o direito a sermos uma pessoa feliz.

Guto Galamba

Cara-

Participante

E você acha que a gente tem que ser triste-

Guto Galamba

Eu sinto muito-

Participante

Enquanto pessoas gordas

Guto Galamba

...pelo que você passou. De verdade. Eu sinto muito.

Participante

Eu não acho que você sinta.

Guto Galamba

Mas não importa o que você acha.

Participante

Eu já disse o que eu queria falar.

Guto Galamba

Obrigado, Alexandre. Como é seu nome?

Participante

Cristina.

Guto Galamba

Prazer, Cristina. Cê lembra do tema?

Participante

Pode repetir, por favor?

Guto Galamba

Eu esqueci também. Eu perguntei porque eu também esqueci.

Participante

É sério que você esqueceu?

Guto Galamba

Esqueci. Depois de quatro horas aqui ele falando nada a ver.

Participante

Ok. Hã, me relembra rapidinho quais são as suas formações. Você disse que é formado em Educação Física.

Guto Galamba

Especialista em tratamento da obesidade pela Gama Filho do Rio de Janeiro, em emagrecimento pela Gama Filho do Rio de Janeiro, Psicologia Positiva pela PUC do Rio Grande do Sul e Ciência do Bem-Estar pela Yale University de Estados Unidos.

Participante

Nenhuma dessas é medicina, certo?

Guto Galamba

Não.

Participante

Ok. Eu não vim-

Guto Galamba

Você é médica?

Participante

Também não.

Guto Galamba

Ah, tá.

Participante

Eu não vim aqui querendo atacar você, porque sinceramente eu não faço a menor ideia de quem você é. Você não é meu, eu não sou seu público.

Guto Galamba

Tamo junto nisso, também não faço ideia de quem você é.

Participante

Não.

Guto Galamba

Não.

Participante

Eu não sou seu público, você não é meu tipo de criador de consu-- de conteúdo que eu consuma.

Guto Galamba

Qual é, qual é o meu público?

Participante

Não sei. Eu sei que eu não faço parte.

Guto Galamba

E como é que tu sabe que não faz parte? Não sabe nem qual é meu público.

Participante

Eu não te sigo, então você não é meu tipo de criador de conteúdo. Suponho que eu não seja seu público.

Guto Galamba

Aí levanta a mão aí.

Participante

Uh, rapidinho, gente.

Guto Galamba

Já deu. As pessoas levantaram a mão. Não sou eu, são eles que decidem. Tu tem que levantar.

Participante

Tá.

Guto Galamba

Foi mal. Obrigado. Turma, posso, posso abrir meu coração pra vocês, de verdade? Se continuar assim, vai ser bom pra mim pra cacete na internet. Então assim, porra, eu tô aqui pra debater real. Eu tô aqui pra debater real e vocês tão me dando o queijo, a faca quente e a manteiga na mão. Vocês falaram de ódio lá na sala. Pô! Vocês falaram de ódio lá na sala.

O cara até agora não agrediu ninguém. Vocês que tão demonstrando ódio. A pessoa só conhece.

Participante

Bora lá. Acho que tem uma ques-- é, vou voltar naquela coisa de saber separar muito bem as coisas, né?

Guto Galamba

Tá.

Participante

Acho que quando a gente fala sobre aceitar como sou, isso tá relacionado ao nosso corpo. E aí quando a gente fala de doença, a gente tá falando de um outro espectro, que quando a gente mistura e escracha, vira essa frase toda junta que eu acho que ataca as pessoas. E eu até entendo as pessoas virem nesse, nessa armadura de ataque, porque é uma coisa muito pessoal, né?

Mas também entendo que você tá trazendo um, informações de um lado, é, de um estudo que você fez, de, de todo o seu estudo, toda a sua, é, experiência acadêmica e afins. É, porém, e aí é que eu acho que mora o perigo quando a gente coloca tudo num balaio só, né? Eu tava vendo, por exemplo, que, é, quando a gente fala, por exemplo, de mácia corpórea, né, nem o, nem a OMS considera, por exemplo, o IMC, é, um laudo, né?

Guto Galamba

É que o IMC pra todo mundo, não s-- quem não sabe o que é IMC aqui? IMC é o índice de massa corpórea.

Participante

Isso.

Guto Galamba

Ele é uma, uma, uma, uma conta que cê faz entre sua altura e seu peso, mas o IMC só serve pra grandes contingentes populacionais.

Participante

Exatamente.

Guto Galamba

Pra eu ter uma ideia se a quantidade da maioria das pessoas que ali mora é alta ou baixa, isso que ali pensa, entendeu?

Participante

Sim.

Guto Galamba

É só pra isso.

Participante

Exatamente.

Guto Galamba

Pra, pra você sozinho, ele, ele é falho.

Participante

Exatamente. E aí, justamente porque ele deixa de considerar vários fatores, né-

Guto Galamba

Exato.

Participante

Socioeconômico.

Guto Galamba

Não, perfeito.

Participante

É, acessos e afins e todas essas coisas. Por isso que aqui eu gostaria muito de destrinchar entre duas coisas diferentes.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Uma coisa pra mim é você se aceitar quanto seu corpo, quanto sua realidade.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Quanto o lugar que você tá, não conformismo, e saber diferenciar o que é sedentarismo, que aí pra mim é onde mora a questão da doença.

Guto Galamba

Posso fazer uma provocação?

Participante

Pode, super. Deve.

Guto Galamba

Geralmente, aí eu vou falar de mim.

Participante

Vai.

Guto Galamba

Quando eu vejo o me aceitar como sou é: sou assim e vou continuar assim.

Participante

Hum.

Guto Galamba

Quando eu vejo é mais ou menos isso.

Participante

Mas vou continuar é uma condição que você coloca sobre se aceitar. Se aceitar e continuar são coisas diferentes.

Guto Galamba

Então, é aí a gente discorda.

Participante

Hã.

Guto Galamba

É, eu posso aceitar a condição que eu estou, e aceitar a condição não é permanecer, não.

Participante

Sim, sim.

Guto Galamba

Eu aceito que hoje eu estou com dificuldade financeira. Vou fazer nada pra melhorar, não é?

Participante

Ué, mas eu não posso aceitar quem eu sou e a partir disso-

Guto Galamba

Mas você não é, isso aqui é quem você é?

Participante

Exatamente.

Guto Galamba

Não, quem você é tá sendo esse cara super gente boa.

Participante

Não, super.

Guto Galamba

Super eloquente, po-- um bom filho.

Participante

Tá, mas vamo lá. Quando eu falo sobre aceitar quem eu sou, aceitar o estado que eu estou agora. E aí as condições à qual eu me coloco.

Guto Galamba

Sim.

Participante

Por exemplo, se eu quero um corpo gordo, ele pode ter uma vida extremamente saudável, ele pode se exercitar. E aí é onde que eu, eu só que queria chegar, que eu acho que é o perigo disso tudo, né?

Guto Galamba

Tá.

Participante

Quando a gente coloca o corpo gordo nesses estigmas.

Guto Galamba

Tá.

Participante

A gente afasta as pessoas dos reais propósitos delas, que é ter uma vida saudável.

Guto Galamba

Eu concordo com você, mas de todas as pessoas que passaram aqui agora, incluindo você.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Quem limitou o corpo gordo foram vocês ao próprio corpo gordo.

Participante

É porque as perguntas são tendenciosas a chegar nesse, nesse lugar, certo?

Guto Galamba

Não, você pode discordar e trazer um outro ambiente.

Participante

Sim, é o que eu tô fazendo.

Guto Galamba

Não tem problema nenhum.

Participante

Discordo e trazendo outro ambiente.

Guto Galamba

Mas como você diz eu me aceito e eu sou assim e eu não vou mudar?

Participante

Tendencioso.

Guto Galamba

Não faz sentido.

Participante

Mas ninguém falou sobre não mudar. Eu me aceito como eu sou e eu entendo que eu preciso de condições pra chegar onde eu quero.

Guto Galamba

Mas se eu que-

Participante

Se eu quero emagrecer, eu acho que-

Guto Galamba

Mas se você se aceita como é, por que que cê vai mudar?

Participante

Não, mas eu posso querer ter um estilo de vida um pouco mais saudável sendo gordo, certo?

Guto Galamba

Você vai ser-

Participante

Eu quero ser uma pessoa gorda e sei o que eu quero.

Guto Galamba

Você vai diminuir a probabilidade de ter mais doenças, mas saudável, a probabilidade de não ser maior.

Participante

Eu não posso ter um estilo de vida saudável? Eu não posso comer, fazer exercícios, diminuir, por exemplo, tendências?

Guto Galamba

E a, e a consequência disso vai ser você emagrecer, não tem pra onde fugir. A não ser que você tenha-

Participante

Pode ser que sim.

Guto Galamba

Pode ser, não. Vai.

Participante

Mas o que, mas aí o, aí a gente coloca um estereótipo de um corpo magro lá na frente, como que se pra que eu fui saudável, eu preciso chegar naquele corpo que foi estabelecido.

Guto Galamba

Beleza, mas aí é aquele balanço que a gente coloca de possibilidade e probabilidade. Saúde é mais fácil e mais provável, de acordo com a ciência, uma pessoa magra ser mais saudável. E quando eu falo uma pessoa magra, não é comparando você com o outro.

Participante

Sim.

Guto Galamba

É você com você mesmo.

Participante

Mas não é o único e exclusivo do corpo magro, certo?

Guto Galamba

Não, esquece a estética de outra pessoa.

Participante

Exatamente.

Guto Galamba

Você, se você perder vinte quilos, sua cognição vai ficar melhor ou pior?

Participante

Com certeza pode ficar melhor.

Guto Galamba

Sua memória vai ficar melhor ou pior?

Participante

Pode ficar melhor.

Guto Galamba

Seu condicionamento cardiorrespiratório, melhor ou pior?

Participante

Mas se eu começar a fazer exercícios e, e ter uma, uma rotina mais saudável agora, cê acha que eu também não posso trazer benefícios pra mim?

Guto Galamba

Se continuar com o mesmo peso, talvez o exercício tenha sido equivocado ou você não teja dando o seu melhor. Então você tá meio que criando uma ilusão. Ah, eu jogo bola três vezes por semana. Isso não é exercício físico, é atividade física. Sabe a diferença de atividade física e exercício físico?

Participante

Vai.

Guto Galamba

Deixa eu te elucidar. Se eu dissesse: Igão, levanta aqui, pega uma cerveja lá dentro da geladeira e volta pra gente tomar uma Isso aí é uma atividade física.

Participante

Tá.

Guto Galamba

O que é um exercício físico? Você vai levantar dez vezes, vai até lá em trinta segundos, vai voltar e agachar mais dez vezes. Você vai fazer isso três vezes por semana, durante dois meses.

Participante

Arrasou.

Guto Galamba

Eu, eu consigo metrificar. Eu quantifico e qualifico. Então o que as pessoas confundem hoje é isso. Ah, eu faço uma caminhada. Quanto? A que velocidade?

Participante

Tá. Mas vamo lá. Só voltando uma coisa. Tudo isso tá ligado a muitos outros fatores.

Guto Galamba

Sim, concordo.

Participante

O socioeconômico, acesso. A gente tá falando de mim, mas se a gente vai pra um espectro maior, uma dona Maria, que acorda às cinco da manhã, chega dez horas da noite em casa, aí ela não consegue, por exemplo, fazer exercícios, comer bem, final de semana.

Guto Galamba

Concordo plenamente.

Participante

Vai beber a cervejinha dela.

Guto Galamba

Mas você concorda.

Participante

Mas aí, só, só finalizando esse papo. É, ela num-- ela em algum momento não vai, por exemplo, se sentir bela, se sentir, é [interrupção]

Guto Galamba

Concordo. Concordo.

Participante

Se sentir desejada. Aí ela abre o Instagram e existe todo um discurso de ódio pro corpo dela.

Guto Galamba

Concordo plenamente.

Participante

E é aqui que mora o perigo.

Guto Galamba

Eita. Opa, desculpa. Ah.

Participante

Arrasou. [risos]

Guto Galamba

Vai, girl. [som de tickets] Como é que cê vai? Como é teu nome?

Participante

Carol Matias.

Guto Galamba

Prazer, Carol.

Participante

Prazer.

Guto Galamba

Manda bala. Lembra do tema?

Participante

É, repete, por favor.

Guto Galamba

Cês tão tudo-- sabe o que é isso? [risos] Aí quando eu digo que o excesso de gordura afeta a memória, ninguém acredita em mim, ó.

Participante

Na verdade, eu lembro o tema.

Guto Galamba

O que você chama de me aceitar como sou, a medicina chama de doença.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Vai lá.

Participante

Você, é, eu queria entender primeiro sobre essa colocação, porque em nenhum momento tá falando sobre padrões. Aceitar o próprio corpo não quer dizer que, hã, eu tenho uma doença. Aceitar o próprio corpo é se sentir bem, é estar bem consigo mesmo. Isso é mais na questão da autoestima do que da questão da doença. Mas hoje em dia, a nossa sociedade, ela pré-julga todo mundo, inclusive, é, por padrões estéticos de antigamente, na moda, principalmente, de que todos deveriam ter uma metricidade.

Tanto isso pela questão lá atrás dos gregos, que precisavam ter muito os padrões estéticos limitados. Então, veio-- o conceito do belo, veio daí. Então, quando eu entendo essa pergunta, ele não tá voltado tanto pela questão da doença. Eu entendo pela questão de autenticidade do próprio ser.

Guto Galamba

Tá legal.

Participante

E aí eu queria entender mais desse seu ponto de vista pra eu contrapor.

Guto Galamba

Porque você trouxe uma questão psicossocial, né?

Participante

Sim.

Guto Galamba

Do julgamento dos outros.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Isso é o que te incomoda.

Participante

Não, na verdade, é o que parece na pergunta mesmo.

Guto Galamba

É o que aparece na pergunta.

Participante

Isso.

Guto Galamba

Mas tu disse que vê isso nas redes sociais.

Participante

Isso.

Guto Galamba

As pessoas julgando pelo que veem.

Participante

Não só nas redes sociais, no convívio social.

Guto Galamba

Em todo lugar. Entendi.

Participante

Isso.

Guto Galamba

Tu tinha algum tipo de predisposição pra pensar como eu era antes de eu chegar aqui, quando tu me viu?

Participante

Não, na verdade, eu nem sabia.

Guto Galamba

Tu nem sabia.

Participante

Nem sabia quem ia ser.

Guto Galamba

Mas tu percebeu que muita gente tinha, não é?

Participante

Sim.

Guto Galamba

E eles me julgaram?

Participante

Sim.

Guto Galamba

Por coisas que eles viram?

Participante

Sim, porque a gente mostra o que a gente quer. Mas isso quer dizer-

Guto Galamba

Então você quer mostrar um corpo gordo?

Participante

Mas aí o corpo do-- o corpo gordo, não necessariamente ele está doente.

Guto Galamba

Veja só.

Participante

Ace-- e aceitar o próprio corpo.

Guto Galamba

Aí nós vamos voltar de novo pra probabilidade e possibilidade.

Participante

Isso, mas aceitar o próprio corpo.

Guto Galamba

O que que a medicina diz? O que que a literatura diz? Que ele não está doente ainda.

Participante

Sim, também. Mas aceitar o próprio corpo não vem pelo, pelo simples fato da doença.

Guto Galamba

É porque a palavra [interrupção]

Participante

Ele vem pelo estético. Exato.

Guto Galamba

A palavra aceitar é [interrupção]

Participante

Sim.

Guto Galamba

Eu quero continuar como eu tô. Se eu tô bem, eu me aceito assim.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Porque ninguém que está se sentindo mal aceita continuar se sentindo mal.

Participante

Mas quando a gente aceita o nosso próprio corpo, a gente consegue entender quem a gente é. Só que se a gente aceita o nosso corpo da gente, do jeito que a gente é, outras pessoas não deveriam estar julgando de fora [interrupção]

Guto Galamba

Tá.

Participante

Se está doente ou não.

Guto Galamba

Concordo. Quando foi que eu fui no Instagram de alguém e dizer: "Ei, você tá gordo, tem que emagrecer."

Participante

Não.

Guto Galamba

As pessoas vêm até mim.

Participante

Sim.

Guto Galamba

E vem até mim quem se identifica comigo. Quem não gosta, bloqueia, para de seguir, vai embora e tá tudo bem.

Participante

Tá.

Guto Galamba

Tem gente que eu concordo com várias coisas que fala e com outras não. Se fere meus princípios e valores o que foi falado, eu bloqueio.

Participante

Tá, mas aí-

Guto Galamba

Se não fere, eu só discordo e não vejo.

Participante

E voltando pro, pro, pra questão da pergunta. Aceitar o próprio corpo é...

Guto Galamba

O que a medicina chama de doença.

Participante

Isso. Então.

Guto Galamba

E é, porque o, o, a palavra aceitar é da permanência.

Participante

Não.

Guto Galamba

Eu aceito, é assim.

Participante

Não, você, você aceitar quem você é, aceitar o seu próprio corpo, entender quem você é [interrupção]

Guto Galamba

É que quando você coloca [interrupção]

Participante

Não quer dizer que coloca como uma doença.

Guto Galamba

Quando você coloca quem eu sou [interrupção]

Participante

Aham.

Guto Galamba

Você se coloca no estado de imutabilidade.

Participante

Não, nem [interrupção]

Guto Galamba

Claro, se eu sou assim.

Participante

Sim, porque todos temos.

Guto Galamba

Eu estou assim.

Participante

Não.

Guto Galamba

Claro que sim.

Participante

Não, porque quando a gente entende o nosso corpo, não só mentalmente, fisicamente, a gente entende o nosso ser, a gente tem um próprio conhecimento de nós mesmos. Então não tem como a gente colocar isso dentro do padrão de doença.

Guto Galamba

Mas não é a gente colocar. Existem pré-requisitos pra determinar se uma pessoa é doente através da obesidade ou não. Não é só olhando, não. Olhando, a gen-- e tem um dos pré-requisitos. Isso é base científica. Agora, como eu me sinto quando sou julgada, é outra coisa.

Participante

Mas a própria pergunta já tá dizendo isso, porque aceitar o nosso próprio corpo, aqui tá dizendo, quando eu aceito o meu próprio corpo, você mostra que é uma [interrupção]

Guto Galamba

A medicina chama de doença.

Participante

Exato. De doença.

Guto Galamba

É o fato, mas é doença.

Participante

A visão já vem através de padrões que são esteticamente desprovados e colocados dentro.

Guto Galamba

Mas, mas não é estética.

Participante

Sim.

Guto Galamba

A, a obe-- acabou.

Participante

Ah, que droga.

Guto Galamba

Tava bom.

Participante

Tava bom, até que bem.

Guto Galamba

Gostei, gostei. Gostei tudo. [aplausos] E o próximo tema é: quem defende a obesidade tá falindo o SUS. Como é teu nome?

Participante

Diane.

Guto Galamba

Prazer, Diane. Como é que cê vai?

Participante

Prazer. Bem, graças a Deus.

Guto Galamba

Que coisa boa, fico feliz. Tô ótimo.

Participante

Tá ótimo.

Guto Galamba

Fala.

Participante

Então, eu não acho que tá falindo o SUS [interrupção]

Guto Galamba

Fala.

Participante

Porque eu acho que, como tavam falando que a obesidade é uma doença, generaliza isso. Não é uma doença. Eu sou formada em balé, em jazz e em educação física. Sou coreógrafa e sou gorda.

Participante

Então, desde que eu nasci, eu nasci gorda. Então-

Guto Galamba

Tu lembra, eu vou assim pra gente conversar, tá? Pra não ficar um monólogo daí, daqui. Aí quando ver acabou o tempo, a gente não fez nada. Tu lembra quando foi isso, identificou que tu era gorda? A idade mais ou menos.

Participante

Minha mãe que identificou, porque eu nasci gorda. Eu nasci com quatro quilos e meio.

Guto Galamba

Já nasceu. Mas meu filho também nasceu quatro quilo e meio, não é gordo, não. Acho que minha bomba passou pra ele.

Participante

Então, aí por medo de eu crescer uma criança gorda, o meu pai e minha mãe me colocaram em todas as atividades físicas possíveis.

Guto Galamba

Top.

Participante

Foi assim que eu me formei no balé e no jazz, porque eu peguei amor. Mas eu era a única gorda que dançava balé. Eu era a única gorda que abria espacate-espacate. Aí eu falei: Mãe, eu nasci pra dançar.

Guto Galamba

Que top.

Participante

Eu não posso deixar de dançar porque eu sou gorda, porque eu era vista diferente. Eu era apontada. E muitas vezes quando chegava, é, no municipal, por exemplo, pra ter uma seleção de bailarinas top, eu saía pelo peso. Ela era desqualificada pelo meu peso. E tudo bem, porque a minha mãe me preparou pra eu entender que eu poderia ser tudo que eu quisesse, independente do peso.

Guto Galamba

Tua mãe foi incrível.

Participante

Minha mãe é incrível. [riso] O meu pai já tá no céu, mas ele vivia batendo em cima do: filha, diabete. Filha, diabete. Então meus exames tão em dias. Eu não tenho nenhum problema de saúde. Eu corro atrás do meu peso, eu faço regime. Desculpem amigos, mas eu faço. [risos] Porque senão eu fico maior, porque eu não quero morrer de obesidade. E eu sei que é uma doença, mas eu me sinto bem, muito bem assim, entendeu?

Porque eu continuo malhando, eu não vou parar. O SUS não vai me atender tão cedo.

Guto Galamba

Não, tudo bem. [risos] Mas a ideia é: você acredita que você ser gorda interfere na minha vida?

Participante

Não.

Guto Galamba

Alguém aqui acredita que por estar acima do peso, ser obeso interfere na minha vida?

Participante

Não.

Guto Galamba

Tipo, a gente tá em São Paulo, não tá? Se tiver alguém obeso no Acre, interfere na vida de vocês?

Participante

Não.

Guto Galamba

Interfere.

Participante

Em quê?

Guto Galamba

Todos os anos são gastos três bilhões de reais em tratamentos da, contra a obesidade pelo SUS. Esse dinheiro sai de onde?

Participante

Você trata.

Guto Galamba

Sai do-- não, sai do meu bolso. Eu pago imposto. Claro que sim. Sai do-

Participante

Sai do nosso.

Guto Galamba

Sai também, mas eu tô pagando pela sua doença através de escolhas.

Participante

E o tratamento com drogas, com vícios?

Guto Galamba

Deixa eu falar. Concordo plenamente. Então vamo mudar. Quem usa drogas está falindo o SUS? Está.

Participante

Não, mas é que tá, que tá falindo são, são os governantes que só roubam. Isso é outra coisa.

Guto Galamba

Veja só, são dados. Desses, desses três bilhões anuais, foi roubado um monte. E beleza, aí eu não tenho como dizer, porque eu não tenho dados pra isso.

Participante

Mas é um direito nosso usar como todo mundo.

Guto Galamba

Veja só, mas a ideia é, a partir do momento que eu entendo que apenas três por cento da população tem obesidade mesogênica, aquela que é exclusiva da genética e o resto é por padrão de comportamento, e esses padrões são escolhas que eu faço, sejam conscientes ou não, eu estou escolhendo fazer isso.

Participante

Você concorda que ser gordo não é uma escolha?

Guto Galamba

Mas eu acabei de falar que é. Eu tô defendendo isso o tempo inteiro.

Participante

É porque não é uma escolha.

Guto Galamba

A partir de só três por cento não escolhem isso, inclusive pelos, pelo seu relato. E aí eu vou ser superficial aqui. Pelo seu relato, nasci gorda e sempre fui gorda. A obesidade mesogênica é encontrada a ca-crianças antes dos cinco anos de idade. Então talvez você faça parte dos três por cento. Existe noventa e sete por cento que tá falindo o SUS por escolha. Isso é um fato.

Participante

Mas não é escolha, querido.

Guto Galamba

É.

Participante

Todo mundo tem problema, tanto psicológico como de droga, todo mundo usa. Todo mundo usa o SUS.

Guto Galamba

Mas você concorda que alguém que tem-- não, não, não, não. Tô falando de obesidade. São três bilhões de reais pra obesidade.

Participante

Vários tipos de coisas que a gente não controla.

Guto Galamba

Eu tô falando de dinheiro específico destinado a tratamento da obesidade. São três bilhões por ano para algo que é antecipável.

Participante

Mas a saúde, ela é necessária em qualquer ângulo, não é só na obesidade.

Guto Galamba

Não, você não tá entendendo. Mas a discussão é sobre obesidade.

Participante

Sim, mas eu tô te dizendo que ela é usada em todos os ângulos.

Guto Galamba

Você sabia que se você nasce com o gene da obesidade, mas você não vive dentro de um ambiente que se chama pela literatura de obesogênico, a probabilidade de você desenvolver a doença diminui igual à depressão. Existem pessoas que nascem com o gene da depressão. Se ela vive num ambiente que não induz a processos depressivos, a probabilidade de desencadear a doença diminui. Ao contrário de uma pessoa que nasce sem o gene da obesidade ou sem o gene da depressão e vive num ambiente que induz a depressão e a obesidade.

Essa pessoa, mesmo sem o fator genético, dados científicos, tem maior probabilidade de desencadear a doença.

Participante

Pode ser.

Guto Galamba

Ou seja, não, não é pode ser. É um fato científico, não é minha opinião. E eu queria que fosse diferente. Sabe por quê? Porque menos gente ia sofrer. Eu queria que fosse diferente de verdade, mas não é. E eu não posso trabalhar com o sonho do como eu gostaria que o mundo fosse. O mundo não é bonito, não é florido e ninguém tá nem aí pra gente.

Isso é pra mim também.

Participante

Mas eu acho que o mundo é lindo, é florido e tá muito aí pra mim. [risos] A partir do momento que eu nasci, eu vim pra brilhar. [aplausos]

Guto Galamba

Isso é-

Participante

E essa felicidade é uma coisa interna, você não gosta, malandro.

Guto Galamba

E me diz uma coisa, se sentir assim, desse jeito e me responder como tu respondeu, é uma escolha?

Participante

Claro.

Guto Galamba

Isso partiu do que tu tem aonde?

Participante

Educação da minha casa.

Guto Galamba

Exato. Acho que tem gente sem educação em casa por aqui. Maravilhosa.

Participante

Muito obrigada.

Guto Galamba

Maravilhosa. Você foi incrível. Obrigada. Senta, Hulk. Era pra tá de verde, né [som de bipe].

Participante

É por causa da escola.

Guto Galamba

Posso dale?

Participante

Pode memo. Eu acho assim, cara, com todo respeito, a gente já tá cheio de pobrema no Brasil, no Rio de Janeiro. Eu vou falar uma coisa só em paralelo, não levanta a mão não, tropa. [risos] Igual esse bagulho. Igual esse bagulho de neguinho parar tudo pra prender o Aruã, porque não sei o quê. As pessoa até, tá querendo arrumar sarna pra se coçar. Aí a gente que é gordo já sofre a vida toda.

Aí vagabundo agora vem falar negócio de: "ah, porque vocês gastam muito, porque não sei o quê." Tanto bagulho gastando. Aí vai falar do gordo.

Guto Galamba

Eu concordo.

Participante

O gordo só que-- mano, pega a visão. Pega a visão.

Guto Galamba

Vai.

Participante

Do que tu tá vendo aqui e do que tu vê na tua vida. Tipo assim, eu já busquei muito, a gente já buscou correr atrás. Não conseguiu. A gente só quer ser respeitado. A gente só quer ser respeitado. A ge-a vida toda a gente sofre. Eu já sofri pra [som de bipe] por causa de mulher. Ficava frustrado em casa. [som de bipe] Ela não gosta de mim porque eu sou gordo. Ia lá, emagrecia.

Sofria na escola. Neguinho me batia igual ele ali falou. Neguinho me batia, me dava tapa na cabeça porque eu era gordo. A gente só quer ser respeitado, mas os outro vem e arruma isso. Ah, porque vocês tão gastando pra [som de bipe]. Todo mundo gasta. [risos] Os cara rouba pra [som de bipe]. Entendeu? Tipo assim, ó, igual você falou pra mim agora aqui no off, eu vou te ajudar. Pô, muito obrigado.

Igual o Titi Cariani também ajudando, tá ajudando o gordão. Se tiver mais gente assim querendo ajudar e não querendo apontar-

Guto Galamba

Irmão.

Participante

Vai melhorar o mundo.

Guto Galamba

Eu criei de graça, o maior movimento de obesidade da América Latina. Se tu clicar aí, de graça, de graça, eu ganho nada.

Participante

É isso aí, as pessoas têm que ser assim.

Guto Galamba

Só que a parada é a seguinte, tu tem que entender. Não faz sentido, eu como especialista em tratamento da obesidade, emagrecimento e mo-- mai-maior movimentador do, da saúde no Brasil hoje. Tenho a equipe de médicos. O novo, o novo movimento é Make Brazil Health Again, fazer o Brasil ser saudável de novo, não só física, mas mental, emocional, espiritualmente, financeiramente também, porque a galera não sabe lidar com isso.

E eu vir falar de, de, de outro problema que não seja esse, eu, eu, aí foge minha alçada. Eu tenho que trazer problemas que eu domino a solução, entende?

Participante

Mas eu acho que-

Guto Galamba

Mas eu entendo o que você tá dizendo.

Participante

Eu acho que a gente já é tão cheio de problema.

Guto Galamba

Mas tu concorda, mas tu concorda.

Participante

Vai botar em cima do gordo.

Guto Galamba

Tu concorda comigo que sabe o que um boi de piranha é?

Participante

Eu sei o que é boi de piranha.

Guto Galamba

Que bota, bota isso aqui ó, pra desviar a atenção.

Participante

Então, exatamente. Aí com o gordo, a gente só quer ser respeitado.

Guto Galamba

Mas tu não faz isso na tua vida também pra desviar a atenção dos problemas?

Participante

Botar uma cortina de fumaça?

Guto Galamba

Álcool, comida, sexo, celular, televisão.

Participante

Não, mas aí já é o problema psicológico que entra.

Guto Galamba

Saca a parada? [risos] Aí quando pega pra tu, que os outros falam, não, mas é diferente. Eu tenho motivo pra fazer isso. Te quebrei agora, Ruquin. [risos] Te quebrei.

Participante

Pois é.

Guto Galamba

Te quebrei. Te quebrei.

Participante

Olha, tem outro aí.

Guto Galamba

Vai.

Participante

Bom, eu discordo novamente do custo dos gordo, porque gordo gasta bem mais que o magro.

Guto Galamba

Mas foi isso que eu disse.

Participante

Sim. [risos] Não, ele gasta. Ele gasta. Desculpa.

Guto Galamba

Obrigado. Quer trocar de lugar?

Participante

Não, não, não, não.

Guto Galamba

Vamos trabalhar outro, vem vem.

Participante

Desculpa, desculpa, desculpa. Ele lucra. Não, ele ga-- ele gan-- ele não, ele ganha.

Guto Galamba

Ele gera lucro.

Participante

Gera mais lucro.

Guto Galamba

Tá.

Participante

A roupa dele, ele, tipo, é mais cara, entendeu?

Guto Galamba

A quantidade de comida.

Participante

A quantidade de comida, tudo que ele, ele gasta, ele é mais. Então ele tá trazendo lucro sim pro outro lado.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Ou não, ele tá vendendo.

Guto Galamba

Eu concordo.

Participante

Tá comprando.

Guto Galamba

Eu concordo. Não é porque algo gera lucro, que justifica o custo elevado que outras pessoas tão pagando. Por exemplo, o lucro que você gera quando você pede um McDonald's, por exemplo, vem pra minha conta?

Participante

Independente, o, o lucro, não, não, não.

Guto Galamba

Só responde, vem pra minha conta?

Participante

Ele vai pagar imposto também, o McDonald's, não vai?

Guto Galamba

Sim.

Participante

Então cê tá falando da questão do SUS?

Guto Galamba

Mas eu nem como McDonald's.

Participante

O gordo, não, mas o gordo.

Guto Galamba

Eu nem como McDonald's. Eu nem sou dono de McDonald's e eu tô pagando imposto de um tratamento de uma doença.

Participante

O dono também tá pagando.

Guto Galamba

Que é evitável. É isso que eu tô dizendo.

Participante

Se o gordo tá precisando de atendimento, a mesma coisa o magro. O magro vai precisar de um atendimento, ele vai gastar no SUS.

Guto Galamba

Mas meu lindo, o que eu tô lhe falando de probabilidade, números de dados do IBGE agora.

Participante

Mas não-

Guto Galamba

Do Ministério da Saúde.

Participante

Ele vai gastar de qualquer jeito.

Guto Galamba

Só o tratamento de uma doença que é evitável, é evitável, ou seja, poderia não estar ali acontecendo, se houvesse padrões de comportamento, consciência da população.

Participante

Mas todas as doenças a gente pode tentar evitar. Tipo assim, vamos evitar.

Guto Galamba

Oxente.

Participante

Vai diminuir os hospitais, então.

Guto Galamba

Graças a Deus. Se eu tenho, se eu preciso de menos hospitais, eu tenho menos gente o quê?

Participante

Doente.

Guto Galamba

Isso é ruim? Por que isso é-- aí, desculpa, perdão, perdão. [risos] Aí.

Participante

Eu só quero falar uma coisa rápida. Eu falo e eu saio.

Guto Galamba

Fala, Alexandre.

Participante

O SUS é composto por um milhão de pessoas. Você é um em um milhão, tá? Dito isso, eu tenho a escolha de procurar você ou não. Cê concorda comigo? Você não tem como resolver o problema de três milhões de pessoas. Essa roda aqui não é um consultório, não é uma clínica, assim como a internet também não é. Se a gente tá falando sobre obesidade e você é um representante da luta contra a obesidade, o seu perfil eu nunca vi ninguém-

Guto Galamba

Parou, Alexandre.

Participante

Sendo atendido por você. Eu só vejo você humilhando.

Guto Galamba

Posso te perguntar uma coisa?

Participante

Pode.

Guto Galamba

Tu já viu no meu perfil eu fazendo cocô?

Participante

Eu já vi você humilhando pessoas gordas.

Guto Galamba

Mesma coisa.

Participante

Você usa-

Guto Galamba

Acabou, Alexandre. Obrigado, querido. Como você vai?

Participante

Prazer, Najara Raquel.

Guto Galamba

Prazer. Najara?

Participante

Inajara Raquel.

Guto Galamba

Inajara.

Participante

Com Y.

Guto Galamba

Por que você discorda do tema?

Participante

Porque eu discordo que independente do SUS, eu tenho a minha vida particular.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Eu tenho a minha personalidade, a minha essência. Eu sou eu. Eu sou gorda, independente se escolha ou não, o SUS não é todo dia na minha casa bater pra dizer que eu como, deixo de comer. Independente de qualquer coisa, cada pessoa tem seu emprego, seu trabalho e seu salário. Então depende de cada um, da condições financeira que vai comer ou não.

Guto Galamba

Certo.

Participante

Tem magro que tem mais problema de saúde do que gordo.

Guto Galamba

Concordo.

Participante

E gordo extremamente saudável.

Guto Galamba

Concordo.

Participante

Então, o SUS é uma parte separada. Eu, como pessoa individual, sou outra. E eu, Inajara Raquel, me amo, me aceito exatamente como eu sou.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Gorda. E o SUS não tem nada a ver com isso.

Guto Galamba

Mas-

Participante

Porque é a minha personalidade e eu sou saudável.

Guto Galamba

Mas veja, e a pessoa que não é?

Participante

A que não é, é um problema dela, porque é escolha dela. É um problema de mim.

Guto Galamba

Mas não é um problema só dela, é meu também, porque o imposto sai do meu bolso também. É isso que eu tô mostrando aqui.

Participante

O bolso que sai do seu bolso, sai também do meu.

Guto Galamba

Exato. E tu acha justo? Tu acha legal isso?

Participante

Eu não acho justo, nem sair do meu, nem do seu.

Guto Galamba

É, é esse o negócio. Então a gente concorda.

Participante

Mas até o ponto que eu não estou na casa do outro, eu sei a minha vida individual. Cada um vive a vida individual.

Guto Galamba

Concordo.

Participante

Se a gente colocar todo mundo no balão de gato, moraria todo mundo junto numa mesma cabana.

Guto Galamba

Mas veja, veja. A transformação, ela é coletiva, Inajara, a gente mora numa sociedade.

Participante

Moramos numa coletiva.

Guto Galamba

A, a, o seu processo é individual, mas a transformação ela é coletiva.

Participante

É, pode dizer.

Guto Galamba

Eu não posso, ou s-- aliás, poder, pode, mas eu não deveria pensar como você nesse sentido, por quê? Eu vou fazer o que eu quiser, na hora que eu quiser e dane-se, porque ninguém tem nada a ver com isso. Não é assim. A não ser que cê queira viver no alto, no alto de uma montanha sozinha, solitária e tudo certo.

Participante

Não.

Guto Galamba

Mas enquanto nós vivemos em sociedade, nós temos sim que nos adaptarmos aos conceitos sociais que existem.

Participante

Sim, eu, eu adapto, lógico.

Guto Galamba

Entende?

Participante

Mas aí eu tô falando de mim como gorda.

Guto Galamba

Não, mas aí-

Participante

Eu não estou falando uma sociedade.

Guto Galamba

Mas, mas, mas veja.

Participante

Mas pera aí.

Guto Galamba

Vai, diz.

Participante

A minha personalidade é essa.

Guto Galamba

Não.

Participante

Eu sou uma pessoa, calma.

Guto Galamba

Incrível.

Participante

Eu sou uma pessoa gorda. Se eu não tenho problema de, de gordura, eu me aceito, eu me amo, não tenho problema nenhum de autoestima.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Não tenho problema de nada. A minha fase que eu emagreci um pouco, porque eu sou alcoólatra, eu tinha um problema de alcoolismo e isso é uma coisa separada. Em nenhum momento eu cheguei em hospital ou qualquer coisa e a pessoa falou: "Ai, você é gorda, cê precisa de tratamento". Nunca tive isso.

Guto Galamba

Posso fazer uma pergunta?

Participante

Pode.

Guto Galamba

Nos dias que você bebia, você comia mais no dia seguinte?

Participante

Não, eu só bebia, porque eu bebia-

Guto Galamba

Não, no dia seguinte.

Participante

Não, só bebia, porque eu sempre bebi Desde dos meus sete anos.

Guto Galamba

Sinto muito.

Participante

Então quando eu tinha sete anos, que eu me recordo, eu já estava bebendo. E normalmente a bebida substituía a comida.

Guto Galamba

Cê tava fugindo de quê?

Participante

Não, porque na minha casa, na minha família, todo mundo desde criança começou a beber cedo. "Ai, molha a chupeta da criança porque ela vai passar vontade". A criança não sabe nem o que que é isso, então ela não passa vontade.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Então isso virou um hábito.

Guto Galamba

E você, você hoje é alcoólatra ainda?

Participante

Eu sou alcoólatra, porque a gente não deixa de ser, mas eu não bebo mais.

Guto Galamba

Cê não bebe mais?

Participante

Não bebo mais.

Guto Galamba

Quando você era alcoólatra, parabéns. Incrível.

Participante

Eu desinchei.

Guto Galamba

Deixa eu te perguntar uma coisa.

Participante

Eu continuo gorda.

Guto Galamba

Quando você era alcoólatra, você era gordo ainda.

Participante

Eu continuo gorda. Eu só desinchei, porque o álcool que faz a gente engordar muito mais. E algumas pessoas que tão aqui, que vai muito na balada, tão muito mais gordo pelo álcool do que pelo que come.

Guto Galamba

Concordo. Mas foi o que eu falei: álcool, comida, sexo, celular, televisão, tudo isso te engorda.

Participante

Quando eu emagreci, porque eu parei de beber e fui cuidar da minha saúde-

Guto Galamba

Você se sentiu melhor?

Participante

Sim, porque o álcool, eu tava totalmente inconsciente.

Guto Galamba

Vê só, vê só.

Participante

Porque eu bebia diariamente.

Guto Galamba

Legal.

Participante

Então eu não tinha consciência.

Guto Galamba

Mas o álcool, ele é um problema.

Participante

Ele é o maior problema.

Guto Galamba

O sintoma não é o álcool, o sintoma é como você se sentia: inchada, indisposta.

Participante

Pior que não. Eu me sentia feliz quando eu bebia.

Guto Galamba

Não, quando bebia, eu tô falando depois.

Participante

Mas o depois não me incomoda, porque eu entendi.

Guto Galamba

E por que tu parou então?

Participante

Eu parei porque eu ia morrer. Foi o médico que falou isso.

Guto Galamba

E não te incomodava em morrer, mulher?

Participante

Não, porque é exatamente o que eu tava buscando.

Guto Galamba

Então [censurado] tu tava fugindo de quê? Voltei a perguntar.

Participante

De mim mesma, porque eu estava fugindo de mim mesma.

Guto Galamba

Veja.

Participante

Na força que eu nasci e de como eu nasci. Eu não nasci querendo viver, eu queri-querendo desbrindar o mundo. Então pra mim se eu ia morrer ou não hoje ou amanhã, não importava. Eu aprendi com a minha maturidade que estar vivo era importante.

Guto Galamba

Olhe, eu sinto muito, de verdade, pelo que você passou. Eu espero que cê tenha forças pra continuar, de verdade.

Participante

Todas as dias.

Guto Galamba

Você já é vencedora, já é guerreira. Parabéns, de verdade.

Participante

Obrigada. [aplausos]

Guto Galamba

Parabéns. Muito bom. Muito bom. O próximo tema é: A cultura do gordo saudável é pior do que o cigarro já foi. [som de tiques no fundo] Como é teu nome, parceiro?

Participante

Samuel.

Guto Galamba

Prazer, Samuel. Senta aí, vai. Ah, viado. [risos] [aplausos] Irado.

Participante

Então, é bacana. Eu vou me identificar de uma outra forma. Eu sou adicto, eu tô limpo e sóbrio há vinte anos.

Guto Galamba

Porra, velho, foda, foda. [aplausos]

Participante

É, a consequência da, do meu problema da dependência foi a obesidade. Porém, é, durante muitos anos como morador de rua, andarilho, é, foi uma situação muito difícil, porque na condição que eu tava magro, esquelético, eu também recebia o julgo da sociedade ao meu redor. Muitos atravessavam a rua porque eu tava passando. Muitos não queriam [pigarro] eu por perto e tal. Então assim, eu sofri preconceito, tanto magro quanto depois gordo.

Porém, psicologicamente, eu tenho uma aceitação. Por quê? Pelo outro fato. Pela, pela, pelo fato de da onde eu vim, como que eu era, associei a minha imagem à recuperação. Os meus amigos, pessoas que me conheceram e viram, acompanharam a minha história, olhavam pra mim, é, olham pra mim hoje e falam assim: "Cara, tá da hora, hein? Tá diferente, cê mudou pra caramba. Ó como que cê tá".

E eu consigo me aceitar um pouco mais dessa forma.

Guto Galamba

Deixa eu te perguntar uma coisa. Concordo com tudo que cê falou. Cem por cento. Tamo, tamo junto nisso aí. Foi inconsciente, digamos assim, as escolhas que te levaram a ficar gordo. Parei de consumir algo que me deixava doidão o tempo inteiro, não lembrava nem de comer. Não tinha o que comer, tava morador de rua também, era mais difícil arrumar comida em quan-quantidade. Quando eu me reabilitei, houve oferta de comida, houve um descanso melhor, houve um processamento melhor do meu corpo em relação àqueles nutrientes e querendo ou não, a gordura é uma forma de reserva energética, uma forma de proteger o nosso corpo, isolamento térmico, choques mecânicos, reserva energética também.

Tudo isso, eu concordo que não foram escolhas inconscientes, mas foram consequências da sua primeira escolha: parar de consumir o que você consumia. Faz sentido?

Participante

Faz.

Guto Galamba

A partir do momento que você chega no bairro que você nasceu, como você disse, você até quase se emocionou aqui. Bonito ver o cara raiz se emocionar. Vulnerabilidade, irmão, não é mostrar pra todo mundo como tu tá sofrendo, não. É mostrar pra quem você acredita que construiu o direito dele conhecer de verdade. E eu fico muito feliz por você ter me dado essa oportunidade. Mas ao mesmo tempo, quando alguém chega pra você e fala: "Tá melhor", você associa isso a estar melhor.

E cada vez você vai querer aparecer e estar melhor, porque hoje você tá tendo uma das três coisas que você não tinha antes: a atenção das pessoas. E você pega isso pra você, coloca no seu subconsciente e cada vez mais pra validar isso e buscar mais atenção, a tendência é que você fique maior, só que não maior a ponto de ficar insuportável. Se perguntem: qual a utilidade do meu problema?

É uma pergunta contraintuitiva, não é? Bem provocadora. Funciona dessa forma, hein, Najara. Todo problema, quando ele tá sendo construído, ele não pode ser pequeno demais a ponto de ser ignorado, nem grande demais a ponto de não ser suportado. Mas eu me mantenho ali, naquele meio-termo, porque eu estou tendo algo que pra mim é muito valioso, que no seu caso, me parece ser a atenção das pessoas. Só que você é um cara extremamente inteligente, você é um cara muito gente boa, humor pra cima o tempo inteiro aqui sorrindo.

Você não precisa mais estar acima do peso pra ser, pra conseguir a atenção das pessoas. Quando você acreditar nisso, irmão, você vai emagrecer, você vai se sentir melhor, sua autoestima vai aumentar, seu sono vai melhorar, sua vida inteira vai melhorar. E as pessoas vão dizer, sabe o quê? "Tá melhor ainda". Sacou?

Participante

Provabilidades.

Guto Galamba

Valeu, Samuel, tá bom demais, irmão. Tu é o cara, véio. Parabéns. [aplausos]Finalmente, seu Marcelo.

Participante

Opa!

Guto Galamba

Pô, véio. O Marcelo tava ali.

Participante

Então, é o seguinte: sou Marcelo, né? É, eu tenho cinquenta e oito anos, eu parei há trinta e cinco anos com o cigarro.

Guto Galamba

Pô, parabéns, hein?

Participante

É, porque era uma coisa que eu-

Guto Galamba

Parabéns

Participante

...concordo que o cigarro é uma desgraça também e a pessoa vai indo num processo aí muito ruim. Eu gosto do jeito que eu sou. Então tem aquele tema que cê falou da aceitação-

Guto Galamba

Sim

Participante

...muito, é, é muito complicado.

Guto Galamba

É muito singular, né?

Participante

É, porque é o seguinte: aceitar, eu acho que é interessante pra pessoa levantar a autoestima.

Guto Galamba

Tá.

Participante

Então eu me aceito como eu sou, ponto. Ela já resolveu o problema de autoestima. Aí com a autoestima elevada, é muito mais fácil-

Guto Galamba

Perfeito

Participante

...pra ela tentar batalhar. Eu tenho autoestima elevada, agora eu quero passar por outro processo. Então nem sempre a aceitação pode ser visto como uma doença. Aceitação é uma forma de cê primeiro curar uma etapa.

Guto Galamba

Concordo, certo.

Participante

Minha autoestima tá destruída. Eu me aceito, pô, melhorei minha autoestima. A partir daí, da autoestima elevada, aí cê consegue trilhar caminhos muito maiores e benéficos se a pessoa achar que é benéfico pra ela.

Guto Galamba

Perfeito.

Participante

Eu acho que o fato da pessoa ser como ela é, é o que falaram muitas vezes. A, a bailarina aqui falou: "Eu sou feliz, eu tô bem, eu faço atividade física e eu sou feliz com a minha barriga e as pessoas se incomodam muito mais com a minha barriga do que eu. E eu tiro um barato-

Guto Galamba

Cara. Isso

Participante

...porque eu falo que antes eu me sentia um galã, hoje eu me sinto um galão.

Guto Galamba

Isso. [risos]

Participante

E eu mesmo, entendeu?

Guto Galamba

Aí tu ri, né? Se sou eu falando não pode. Ah!

Participante

Mas é verdade, cara.

Guto Galamba

Ah, então, então não é a piada, é quem falou. Olha o seu preconceito aí, ó. Ah!

Participante

Não, mas a pe-- as, as sociedade se incomoda mais, eu brinco com eles.

Guto Galamba

E o seu?

Participante

Então eu faço muitas piadinhas, porque as pessoas vêm se incomodar, eu não ligo, cara, eu tiro de letra, entendeu? "Não, mas cê come demais", eu falo: "Não, não tomo herbalo-- ah, Herbalife, eu tomo herbalofo". Aí eu brinco com as pessoas com um monte de piada, entendeu?

Guto Galamba

Tá.

Participante

É verdade, gente. E a autoestima é tudo. Agora eu comecei a fazer mais ginástica, eu quero fazer um treino mais, queimar um pouquinho mais. Eu sei que a obesidade é um caso também de saúde pública, como é o cigarro.

Guto Galamba

Não, não, não, não é só um caso de saúde pública. A obesidade é a maior pandemia da história da humanidade. Pandemia, vários continentes ao mesmo tempo. É pesado, gente.

Participante

Agora, muitas pessoas também-

Guto Galamba

Pesado, foi sem querer. [risos] Eu juro. Não, foi sem querer. Aí pra você não achar que você viu, foi sem querer. Passou só, passou.

Participante

A indústria também induz-

Guto Galamba

Concordo

Participante

...as pessoas desde criança-

Guto Galamba

Quebra a facada da indústria

Participante

...então a gente também tem que ter o governo também fazendo uma força-

Guto Galamba

Funciona assim, pra vocês entenderem como é que o corpo da gente funciona fisiológica, antropologicamente falando, tá? Co-- a gente carrega, turma, a mesma carga genética de milhões de anos atrás. Não mudou isso, não. E há milhões de anos eu não sabia o que que eu ia comer, quando eu ia comer, o quanto eu ia ter que andar pra comer. Então o nosso cérebro ficou muito bom em fazer uma única coisa: economizar energia.

Por isso que a gente sempre tenta o caminho mais fácil, a lei do menor esforço, porque o cérebro olha e fala: "Tu vai gastar essa energia todinha pra isso. Vai, senta aí, pô. Fica de boa. Tá bom isso aqui. Cê tem dinheiro pra pagar as conta, tá bom demais, pô, pra que ficar rico?" E eu começo a criar narrativas que justificam o meu fracasso. "Ah não, eu tô feliz assim.

Tô bem assim." Eu não tô dizendo que é seu caso ou de alguém aqui, mas-

Participante

Mas no passado não tinha tanto peso, certo?

Guto Galamba

Não, concordo, sabe por quê?

Participante

No passado.

Guto Galamba

O que que aconteceu? Revolução industrial chegou.

Participante

Sim.

Guto Galamba

O que que houve com a revolução industrial? Ele diminuiu nossa necessidade de locomoção, controle remoto, carro, elevador-

Participante

Sim

Guto Galamba

...escada rolante, e aumentou a oferta de comidas, e não só comidas boas, mas das comidas que a gente chama de alta densidade energética e baixo valor nutricional. Ou seja, eu como um croissant agora, daqui a dez minutos eu tô com uma fome desgraçada, porque aquilo não me nutre.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Então es-- e essas são as comidas mais o quê? Baratas.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Por isso que o maior nível de incidência de obesidade é na classe mais baixa. Olha que loucura. Falta informação. Tem aquilo que o Hulk falou: "Porra, vida atribulada, problema pra cacete, tenho três filho, trabalhei de manhã, tarde, noite, cheguei em casa dez da noite." Meu irmão, me desculpe, eu também não treinaria não, velho.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Eu ia tomar uma cervejinha pra dormir pra no dia guentar o tranco. Eu iria. A ignorância é uma benção. Sacou? Mas a partir do momento agora que eu trouxe essa informação, passa a ser uma escolha. Passa a ser uma escolha. Não tem pra onde correr. Mas vamo fazer esse vídeo chegar em mais gente então? Pra essa informação chegar nas pessoas? Ou será que o ranço contra mim é tão forte que eu quero que todo mundo fique mal pra não conhecer o Guto?

Aí cabe a vocês escolher isso. Você é maravilhoso. Obrigado pela sua participação, irmão.

Participante

Obrigado, gente. Valeu.

Guto Galamba

Parabéns. [aplausos] E aí? E aí?

Participante

Não dei tempo de mudar.

Guto Galamba

Bora, Tati. Quer um biscoitinho?

Participante

Não, obrigada.

Guto Galamba

Fui eu não, foi Samuel, viu? Fale rápido. Aí depois fala que eu falo as coisas, aí a merda. Aí depois a culpa é de Guto. Manda bala, Tati.

Participante

Bom, meu nome é Tati Alexandre, é, eu trabalho com administração de empresa. Eu tenho quarenta anos, eu não fui gorda.

Guto Galamba

Tem quantos anos?

Participante

Quarenta anos.

Guto Galamba

Ó o rosto dessa mulher, véio. O que que tu faz na pele?

Participante

Nada. [risos]

Guto Galamba

Porra.

Participante

A minha-

Guto Galamba

Tu tá pior que ela. Tá sim.

Participante

Não, gente.

Guto Galamba

Ah, pô, vamos ser honesto. Olha o rosto dessa mulher, velho.

Participante

É, eu nunca fui gorda a vida toda.

Guto Galamba

Olha só.

Participante

Eu comecei a ser gorda a partir dos trinta anos, tá? Eu tive uma gestação há vinte anos. Durante a gestação eu não engordei tanto, né. Muita gente associa: "Ah, é obesa por causa da gravidez". Não foi por isso. Foi dez anos a partir da minha gravidez-

Guto Galamba

O que que houve?

Participante

...que eu comecei esse processo de engordar.

Guto Galamba

O que que houve?

Participante

Não sei. Eu acho que foi mais a, a, o trabalho. Tipo, eu trabalhava das oito às oito.

Guto Galamba

Por que teve que trabalhar tanto?

Participante

Porque eu virei gerente, tive um cargo maior e mais responsabilidade. E aí não tinha tempo pra-

Guto Galamba

Casada?

Participante

Não, nessa época não. Era só eu.

Guto Galamba

Tinha que dar conta de tudo, né?

Participante

Isso.

Guto Galamba

Sábio tava buscando, né? Força, pô.

Participante

Sim.

Guto Galamba

É isso, gente. Sempre vai ser atenção, proteção e força. Sempre vai ser isso.

Participante

Sim, mas eu queria focar na questão que assim, tudo bem, não fui a, a vida toda obesa. A minha família tem obesidade-

Guto Galamba

Certo

Participante

...por parte do meu pai, então eu tenho um pouco de genética, tá? Então eu fiz tratamento particular quando tinha con-convênio. Nunca foi bom. Em-- eu emagreci porque eu tomei remédio e engordei o dobro quando acabou o remédio.

Guto Galamba

É. Geralmente é assim.

Participante

E assim, pelo SUS é muito ruim o atendimento. Então eu queria realmente que a gente falasse um pouco do SUS, porque assim, se tem essa verba, a gente tá usando muito mal.

Guto Galamba

Eu concordo, mas é que eu-

Participante

Tá usando muito mal. Porque assim, eu vou lá fazer o tratamento porque eu tenho obesidade. Eu já tenho obesidade, já foi relatado, já fiz exame. E assim, a nutricionista nem olha na minha cara.

Guto Galamba

Deixa eu te dizer uma coisa. Não existe no SUS tratamento pra obesidade, pô

Participante

Não existe

Guto Galamba

Sabe qual vai ser o primeiro?

Participante

É péssimo.

Guto Galamba

Sabe qual vai ser o primeiro que tá em trâmite, virou ONG já pra entrar na saúde pública? O que vocês odiaram quando eu cheguei? De nada.

Participante

Então, mas eu acho que a gente tem que aproveitar-

Guto Galamba

É o primeiro. Não tem, só tem remediando. E eu concordo com você.

Participante

Então, mas-

Guto Galamba

Deus queira que passe, né? Porque aí também não depende de mim.

Participante

Então, gente, mas eu queria aproveitar esse momento pra gente aumentar essa questão de falar do seu projeto, que eu também não conhecia, estou conhecendo agora. Eu quero muito que viralize pra que mais pessoas tenham acesso. E eu queria também fazer uma crítica pro SUS.

Guto Galamba

Manda.

Participante

Porque se tem essa verba, por que que a gente não consegue utilizar?

Guto Galamba

Compromete.

Participante

Aqui somos trinta obes-obesos.

Guto Galamba

Eu acho que a gente soube agora porque a gente não consegue utilizar, né? Onde é que tá o dinheiro?

Participante

Então, mas a-- eu não consigo. Eu sou obesa, eu tenho o tratamento, eu tenho-- eu passo com a nutricionista que nem olha na minha cara, entende? Eu me aceito do jeito que eu sou, eu danço, eu fui na Record, eu me amo do jeito que eu sou, eu tenho autoestima, eu sou maravilhosa.

Guto Galamba

O que cê vai fazer?

Participante

Minha saúde tá ótima, não tenho pressão alta, não tenho diabetes, mas o meu tratamento contra a obesidade não sai, o SUS não me atende.

Guto Galamba

Qual é o melhor que o Guto pode fazer? Eu podia virar político e mudar o SUS? Podia. Mas eu não quero. Podia não, todo mundo aqui pode ser político, pode não é? Você não tá disposto a ir, mas que cê pode, pode, pô.

Participante

Sim.

Guto Galamba

Você pode se candidatar e não virar, mas você pode fazer sua parte. Eu disse: "Cara, eu não tô disposto a virar político pra fazer isso acontecer, é muito sujo o ambiente.

Participante

É.

Guto Galamba

E talvez eu consiga fazer mais do lado de fora.

Participante

Sim.

Guto Galamba

O que que eu posso fazer, já que o SUS é uma bosta e não existe tratamento pra obesidade só pra, é, combater as comorbidades, ou seja, a pessoa já tá na merda ali. O que é que eu posso fazer? Pensando, tinha meus produtos, vendia, porque é meu ganha-pão, eu tenho família pra criar, tem tudo isso. Eu disse: "Cara". Aí eu vi essa imagem. Aí eu disse: "Cara, que-- a imagem é agressiva."

E de fato é.

Participante

É, pode.

Guto Galamba

Eu disse: "E se eu der um sentido diferente a ela?" Esse foi o meu e se. Criei o movimento, comecei a colocar na internet. Daqui a pouco eu vi a imagem de uma menina, a Mariane, e eu mandei um direct pra ela. "Vixe, tu topa emagrecer?" Que era uma menina que tava falando a dificuldade de emagrecer que ela tava vivendo, Mariane Teodoro. E ela falou: "Cara, topo.

Vamos fazer um projeto com você, então." E eu fiz um projeto de trinta dias com a Mari. Hoje a gente fechou três meses, a Mari perdeu mais de trinta quilos. A Mari tava com alopecia, voltou a crescer o cabelo. Ela tava com amenorreia, ela tava sem menstruar. Mostrei a Mari também como ela podia ganhar dinheiro no digital, que eu faço isso há mais de uma década. Hoje a gente mora sozinha, saiu da casa dos pais, tá independente financeiramente, feliz da vida, influenciando outras pessoas.

Eu disse: "Opa, consegui fazer mais do que sendo político. Como é que eu deixo isso aqui maior ainda?" Eu fiz: "Cara, vou entregar de graça pra galera." Meus sócios surtaram, porque me dava dinheiro. Eu disse: "Velho, o mundo já me dá muita coisa, eu já tenho muito dinheiro. Eu quero fazer isso aqui realmente pra ajudar as pessoas." E aí ficou tão grande que eu disse: "Como é que eu ajudo mais gente ainda, sem ser político?"

Eu disse: "O que se a gente coloca como um projeto de saúde pública?" Alguém conhece algum político disposto a ajudar de verdade as pessoas? Conhecemos um, tá em trâmite na prefeitura de Goiás pra começar isso a acontecer. Não tem previsão porque não-- agora tá totalmente fora da minha alçada. Mas a grande questão é: você tem feito o melhor que você pode? O melhor que pode? Você sabe que não.

Participante

A gente sempre faz menos.

Guto Galamba

A gente sempre faz menos.

Participante

Mas a gente busca melhorar.

Guto Galamba

Eu entendo.

Participante

Por isso que eu vim hoje e adorei, gente.

Guto Galamba

Só que a gente tem que ter processo, turma, e tem que ter vontade de fazer acontecer. Porque uma galera que vai sair motivada. Motivação é que nem banho, se não tomar todo dia, vai embora.

Participante

É verdade.

Guto Galamba

Então a minha parte eu tô fazendo, e a única coisa que me importa é isso. Eu só tinha uma intenção em vir aqui: ter debate como esse, como que eu tive com o Samuel, com o Marcelo, com o Hulk, com a Inajara, com o Fernando, acertei? Com o Igor, a Bella também. Então era essa a ideia. Mostrar que a gente consegue, bem, Bella, que a gente consegue discordar e no final se propor a dizer: "Cara, talvez esse cara tem razão", porque tem uma diferença muito grande de confronto e conflito.

Sabe qual é a diferença? No confronto, eu busco a vaidade, eu quero tá certo. No conflito, eu busco a verdade.

Participante

E a solução, né?

Guto Galamba

E eu admito estar errado. Eu quero solucionar o problema da obesidade no Brasil. Eu quero fazer isso. Pode ter uma galera dizendo que eu sou um bosta, que eu sou grosso, isso e aquilo. Eu não vou agradar todo mundo. Agora, se eu tentar agradar todo mundo, eu não vou conseguir fazer metade do que eu faço.

Participante

É verdade.

Guto Galamba

Muito obrigado, querida, pela sua participação. [aplausos] Valeu, galera! [aplausos]